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O Inconsciente

 

A Outra Dimensão

«Como a nuvem que serve de fundo escuro ao arco-íris, o inconsciente é o painel escuro que serve de fundo à própria alma. A consciência da nossa ignorância é o primeiro passo para desvendar o mistério da psique». - C. G. Yung


«Eu só sei que nada sei». - Sócrates

«Os domínios do mistério prometem as mais belas experiências». - Einstein

 

Introdução

inconscienciaPara podermos falar acerca do Inconsciente temos primeiro que definir a natureza da Psique. Segundo a psicologia tradicional, o homem é composto do um e do outro; em termos de psicologia moderna isto quer dizer o «consciente» e o «inconsciente». Dois terços do ser estariam ainda submersos no domínio do inconsciente enquanto que um terço da natureza humana encontrar-se-ia abrangida pelo consciente. O homem constitui ainda um mistério para a psicologia, e se é certo que graças às novas descobertas da psicanálise algo mais nos foi revelado sobre o mundo oculto do inconsciente, falta ainda acrescentar à investigação psicanalítica uma verdadeira cosmovisão do Ser, única chave para abrir tão amplo e vasto campo de conhecimento da alma humana.

A Natureza da Psique

Então, o que será verdadeiramente a alma?

Não é fácil definir a alma, pois a sua natureza subtil e plurifacética nos impede de podermos analisá-la concretamente. A alma participa do corporal mas não é, no entanto, de natureza corpórea. A alma participa da vida sensível mas não é de natureza nervosa. A alma participa da actividade mental mas não é de natureza cerebral. Ela é simultaneamente o ponto de união entre o corporal, o sensível e o mental. Sendo incorpórea participa, no entanto, de múltiplos metabolismos orgânicos; é algo que move, anima, impulsiona sem, contudo, se associar a ne-nhuma função psicossomática do homem.

 

"Nela exprime-se a luta, o conflito, antagonismos entre as tendências mais retrógradas (animal e instintiva) e as tendências selectivas mais espiritualizadas (pensamento criador). As lutas ideológicas, as lutas de classes, as guerras, as revoluções não são mais do que o próprio reflexo colectivo da luta que o homem trava dentro de si próprio"

 

Por isto consideramos a alma como elo de ligação entre o físico, o sensível e o mental. A psique é, no fundo, o que personifica o homem dando-lhe características e qualidades próprias e intransmissíveis. A alma pode, todavia, tomar ca-racterísticas genéricas, sendo estas denominadas pelo grande psicanalista Carl Gustav Jung «ALMA COLECTIVA» com as suas respectivas componentes que são: o consciente colectivo e o inconsciente colectivo. Porém, voltaremos a abordar este ponto no final do nosso artigo. Para já vamos então fazer um pequeno voo no tempo a fim de reconsiderar as diversas concepções e crenças da antiguidade a cerca da complexidade da alma (psique).

Para os antigos a alma tinha origem no primeiro estímulo da vida, algo de etérico que serviria de protoplasma à própria criação. Isto quer dizer que a alma representa a força motriz da vida, o seu agente condutor, sendo a vida a expressão do conteúdo e a alma o seu continente. A alma seria então o alambique da energia da vida e, através dela, esta passaria de estado grosseiro (matéria) a estado subtil (espírito).

Assim, para o grande filósofo neoplatónico Plotino, a alma não é contida no corpo, mas sim o corpo que é contido na alma. Para os gregos, a alma ou psique também tinha como sinónimo «borboleta». Esta alusão simbólica permite-nos deduzir que entre a alma e a borboleta havia uma afinidade estrita. Se nos recordarmos que a borboleta surge da lagarta após um processo de gestação dentro da crisálida, isto intencionalmente quer nos dizer que a alma é a ser alado em potência dentro do corpo terrestre. Ela tem dentro de si o mistério da ressurreição ou poder de se libertar da terra para adquirir uma dimensão mais vertical, mais celeste.

Os nomes latinos animus - espírito - e anima - alma - têm o mesmo significado do termo grego anemus - vento -, e pneuma significa também espírito. No gótico encontramos o mesmo termo sob a forma de Us-Anan, Ausatmen (expirar). Para os antigos certos signos involuntários como os zumbidos nos ouvidos (encontramos na linguagem popular este ditado: «ouvido que assobia, alguém no quer falar»), a esternutação, etc., podiam, em momentos particulares, tornarem-se sinais ou manifestações de augúrios. Os espíritos manifestam-se ao homem através do sopro, do pneuma, e dita uma mensagem, mantike. No velho alemão, spíritus sanctus traduzia-se por atum e atem; respiração em árabe é rih, vento; ruh, alma/espírito. A palavra grega psique tem um parentesco muito próximo com estes termos e está ligada a psichu (soprar), a psichus (fresco), a psychros (frio) e a phsa (fole). Estas conexões mostram-nos claramente que os nomes dados à alma no latim, no grego e no árabe estão vinculados à ideia de ar em movimento, de sopro frio dos espíritos e daí também a concepção que atribui um corpo etéreo e invisível à alma.

Uma outra concepção primitiva, curiosa mas frequente, identifica a alma com o nome; o nome do indivíduo estaria associado à sua alma, e daí o facto de se pensar que reencarna nos recém-nascidos a alma dos antepassados atribuindo-se àqueles o nome destes últimos. O nome transmite um poder, uma força oculta que une a alma dos antepassados à alma dos recém-nascidos. Dar um nome significa vivificar a alma ancestral dos antepassados. No Egipto antigo o nome verdadeiro do Faraó devia ser mantido secreto pois detinha uma força misteriosa capaz de entrar em contacto com o mundo indivisível. Conhecer o nome queria dizer ter poder sobre a alma do seu portador; atribuía-se um valor mágico ao uso da palavra e o co-nhecimento do nome das coisas era sinónimo de poder.

«Frequentemente», escreve Jung, «a alma é confundida com a sombra e por isto considera-se uma ofensa mortal contra alguém pisar-lhe a sombra».

«A sombra é a metade escura do Ser e é por isto que ao meio-dia, a hora dos espíritos meridianos é uma hora perigosa, porque neste momento a sombra diminui de tamanho, o que equivale a uma ameaça à vida (pois neste momento o homem está desprotegido do seu duplo que forma um escudo de protecção invisível».

É a hora da máxima materialização e o momento favorável para concretizar no mundo sensível; ela representa a incorporação da alma na matéria.

À meia-noite é exactamente o momento onde existe uma máxima projecção das almas (ver a crença dos fantasmas e as aparições à meia-noite). Esta é a hora em que a alma se liberta do seu invólucro material e adquire um movimento de saída do corpo. A vida onírica é um exemplo da ejecção do duplo para fora do corpo a fim de viver desenfreadamente os seus desejos no mundo astral (esfera da psique).

À meia-noite é quando as sombras absorvem a luz e é também a hora em que nascem os divinos arquétipos (ver nascimento de Jesus, Mitra, Horus, etc.). A sombra exprime aquilo a que os gregos chamavam o synopados: aquele que segue atrás de nós.

Um homem que teme a noite é, no fundo, alguém que ignora as suas profundezas. Uma alma consciente, elucidada, é um farol de luz nas trevas; uma alma ignorante e desprovida de luz deixa-se assombrar por todas as larvas nocturnas (formas psíquicas inferiores).

Assim, para os antigos a alma é a fonte de todas as vivências; coragem e medo, entusiasmo e tristeza, recordações e olvidos são estados de alma que nos animam, pois sem isso a nossa existência não passaria de uma etapa letárgica em que a vida seria sinónimo de passividade total. A acção é fruto de um desejo de alcançar, de satisfazer uma necessidade inerente ao Ser. Da consciência, da falta surge a necessidade de compensação. A alma é o espaço onde se move o Ser. A acção é o movimento do não ser. O Ser é a plenitude e o não ser é a carência dessa mesma plenitude.

 

"O inconsciente é um compensador indirecto da consciência. Isto significa que quando surgem mitos (estes actuam como via onírica na actividade psíquica do pensador) estamos num período de esquecimento colectivo; quando se vivem os mitos é que estamos a despertar para a consciência colectiva"

 

Transcrevemos as palavras de um alquimista: Hórridas nostrae mentes purga tenebras acende lumer sens lus, cujo significado é: «Dissipa as terríveis trevas do nosso espírito, dá luz aos nossos sentidos».

Existe na natureza um esquema piramidal; o processo evolutivo segue o arquétipo superior. Este arquétipo da perfeição é transladado pela alma que, por sua vez, o projecta na dimensão mais material. A Anima Mundi ou Alma Universal contém todas as Potências Arquetípicas do Ser. Cada alma é uma etapa no campo vibratório da Grande Alma. Nelas manifestam-se os divinos impulsos espirituais (Arquétipo: Ideia Primeira) que proporcionam e organizam a matéria de forma a torná-la no instrumento dócil da vontade do Grande Arquitecto do Mundo (Pensamento Divino). Podemos conceber este reflexo do Macrocosmos no Microcosmos, isto é, um universo na proporção humana. O Grande Arquitecto manifesta-se na entidade através do Pensador (consciência unificada) procurando organizar o campo corporal para dirigir os seus Impulsos superiores. A alma é o lugar de encontro dessas duas fracções: superior e inferior, do Um e do Outro.

Um procura a libertação de todas as formas limitativas enquanto que o outro procura no temporal o paraíso transitório. O espírito (o Nous - o Eu Superior) destrói no efémero para reconquistar o essencial (a essência). O corpo opõe-se ao essencial para prender-se ao ilusório.

Sendo o mundo físico um mundo relativo e sujeito a constantes transformações, existe uma forma de não-aceitação da mudança da parte mais corporal devido a uma não consciencialização do objectivo da própria existência. A alma, procura unificar os dois movimentos: conservador (parte material), e renovador (parte espiritual) que sofrem antagonismos múltiplos que perturbam consciente ou inconscientemente o homem. O conflito só acabará quando através de uma tomada de consciência o homem naturalmente se propuser a si mesmo o objectivo transcendental de fusionar no Uno o corpo e o espírito. «O pequeno eu deve-se fundir no grande Eu; renuncia à vida se queres viver» (A Voz do Silêncio).

O Consciente e o Inconsciente

A presença dos arquétipos superiores no inconsciente assinala a mira do pensador como o objectivo a alcançar. Todos os mitos, todas as tradições são veículos deste inconsciente colectivo; isto significa que no fundo o macro corpo que chamamos humanidade possui uma alma colectiva. Nela exprime-se a luta, o conflito, antagonismos entre as tendências mais retrógradas (animal e instintiva) e as tendências selectivas mais espiritualizadas (pensamento criador). As lutas ideológicas, as lutas de classes, as guerras, as revoluções não são mais do que o próprio reflexo colectivo da luta que o homem trava dentro de si próprio: A LUTA DO PODER TEMPORAL CONTRA O PODER ATEMPORAL. Nesta alma colectiva a consciência representa a maturidade e a evolução da humanidade; o grau de identificação de um conjunto de entidades com um mesmo objectivo trans-cendente. Podemos considerar que nem sempre a intelectualidade é sinónimo de evolução consciente; a consciência é um saber vivencial, objectivado enquanto a intelectualidade é um conhecimento subjectivo que não tem impacto na vida concreta. Durante milhares de anos de existência da humanidade, e através da sua alma colectiva, pudemos ter momentos de actividade e de repouso, momentos de grande êxito e momentos de grandes fracassos, momentos de grande despertar de sua consciência colectiva como também momentos de grande olvido ou de perda de consciência (amnésia parcial). No entanto, nada se perde totalmente; os mitos preservam os divinos arquétipos envolvendo-os de um véu simbólico. O inconsciente colectivo porta em si as marcas do Espírito Universal. O mito do paraíso perdido continua a existir como mira a alcançar: as democracias não são mais do que uma deformação terrestre deste desejo de fusionar os homens através de ideias tais como liberdade, fraternidade, igualdade. Na actualidade a presença intensiva destas mesmas ideias demonstra uma carência de vivência; inconscientemente a humanidade propõe compensar essa perda de consciência vivencial do paraíso através da intelectualidade, pois o facto de falar de-masiadamente de uma ideia demonstra-nos que está carente da sua vivência.

O inconsciente é um compensador indirecto da consciência. Isto significa que quando surgem mitos (estes actuam como via onírica na actividade psíquica do pensador) estamos num período de esquecimento colectivo; quando se vivem os mitos é que estamos a despertar para a consciência colectiva. Onde surge a luz não há trevas; assim, no mundo em que existe uma consciência plena, os medos, as sombras da angústia e do desespero dissipam-se. No mundo em que predomina o inconsciente encontramos as sombras da «besta humana» ocultando a presença dos Arquétipos. É interessante notar que existem no inconsciente dois níveis de profundeza; um inferior ligado aos impulsos e apetites mais animalescos que Jung denomina instintos (estes são os impulsos vivenciais do corpo); outro superior que Jung denomina Supra consciente ou Inconsciente superior é portador dos divinos arquétipos. Enquanto Freud desvelou a primeira zona inferior do inconsciente ou zona dos instintos corporais em que o sexual predomina como razão sine qua non da auto-realização do homem, Jung atingiu a zona mais profunda do homem que está em relação com os divinos arquétipos, actuando sobre o indivíduo como alma diferenciada e sobre a humanidade como alma colectiva.

Claro que a carência de vivência arquetipal superior leva o homem a limitar-se a uma compensação instintiva utilizando a actividade sexual intensiva como tubo de escape para alcançar a pseudo-realização do dois em um. Freud limita-se a expressar esta necessidade de fusão da alma com o espírito numa perspectiva estritamente somática e, assim, a expor uma teoria limitativa de recalcamento. Jung, como verdadeiro humanista, procura voltar às causas mais profundas do inconsciente, encontrando na natureza humana a presença indiscutível dos arquétipos superiores. Na sua obra A Natureza da Psique ele volta a falar-nos da supra-consciência: estado que se situaria na profunda camada do inconsciente. Esta ideia não é nova, e já foi assinalada em várias épocas através de conceitos altamente metafísicos. A Índia chamava a este estado Samadhi; os budistas, Nirvana; os egípcios Amenti (fusão de Ti = terra, corpo, com a luz de Amon = luz espiritual). Os peruanos chamavam a esse estado Hanan Pacha (mundo celeste onde habitavam as almas dos homens virtuosos). Os gnósticos referiam-se a esse estado através do termo Teofania que significa «união com Deus».

Como podemos observar estas ideias são tão antigas como o próprio homem e acompanham-no desde o mais longínquo passado até um futuro promissor.

Conclusão

Jung pôs a primeira pedra na elaboração de uma psicologia humanista só capaz de considerar o homem como um todo, psicologia essa que faz novamente a ligação entre o Nous (espírito) e o Soma (Físico). Restituindo ao homem a sua grandeza poderemos então abarcar a grandeza do Universo. Engrandecendo o homem elevaremos as nossas possibilidades de visionar o mistério de Deus. «Sois deuses mas vos haveis esquecido», dissera Platão. Isto quer dizer não retroceder na senda evolutiva, pois não somos sexos ambulantes nem degenerados mentais. Somos homens que querem aproximar-se da Luz. Abramos, assim, os olhos das nossas Almas e veremos a Luz dissipar as sombras do nosso «quarto escuro» interior para dar lugar ao único verdadeiro Mestre do lugar, a quem os Mestres do Oriente chamavam o «Vazio-Pleno»: Deus em nós.

 


Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole

 

 



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