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Face à Aceleração dos Tempos

 

temposPara nós, que temos dedicado a nossa vida ao estudo da Filosofia à maneira clássica – que abarca logicamente a História – a queda de um dos dois colossos que regiam o mundo, não nos surpreende. Inclusive, mencionamos nas nossas aulas de Sociopolítica e de Filosofia da Historia, desde há mais de 30 anos, a inexorabilidade do derrube, não só do bloco comunista, mas que a este seguir-se-á o do bloco capitalista. Pois ambos são como duas faces de uma mesma moeda: o Materialismo. E tudo o que se apoia na matéria cumpre o inexorável ciclo de nascimento, esplendor e morte. Perceber que as formas políticas são também formas da Natureza, torna-as inteligíveis. Surpreendente é a velocidade vertiginosa com que se desintegra a cabeça do grande dragão vermelho, a URSS, coisa que se repercute, inevitavelmente, em todo o seu espaço político a nível mundial e também nas entranhas dos restantes países não comunistas em que se tinha infiltrado, e que são praticamente todos.


A génese da ideia comunista remonta às origens do nosso tempo histórico, pois a mais valia do material sobre qualquer outra consideração de tipo metafísico, é a mais primitiva e animalesca que o homem pode ter tido. A via de um «socialismo» para um «comunismo» utópico está inserida em muitas das religiões, especialmente nas chamadas «reveladas». Para aqueles que são obedientes à grande burocracia teológica que exalta o débil, o pobre e o enfermo, abrir-se-ão as portas de um paraíso que de espiritual não tem grande coisa; quer se trate dos rios de mel e leite, dos férteis vales carregados de frutos, ou das belas odaliscas que se oferecem ao fiel e que renovam continuamente a sua virgindade para seu maior prazer. Daí que não tenham faltado pensadores que identificaram a obra de Marx com uma nova «bíblia», com a revelação de uma verdade da qual o próprio Marx teria sido um «profeta».


"Em 1991 rebentou a cabeça e uma boa parte do corpo do «Dragão Vermelho». E não foi a Democracia que o matou, pois a Democracia não é uma ideia, mas uma forma de administração"


Péguy afirma: «Kant engendrou Fichte, que engendrou Schelling, que engendrou Hegel». Segundo o académico Jean d´Ormesson, Marx, ao referir-se a Hegel e a toda a construção do idealismo absoluto, fê-lo para invertê-la e «restabelecê-la» na sua verdade científica, primordial. Marx, com a sempiterna ajuda de Engels, deixou uma teoria da relatividade, um projecto que roça o visionário e o profético. Ele não crê em Deus nem em nenhuma religião, pois afirma que são «o ópio dos povos». Mas utiliza as mesmas vias e é tão «científico» como São Tomás. Não obstante as suas ideias fermentaram num caldo de cultivo propício, dadas as injustiças, as pretensões e riquezas exageradas de uma sociedade «vitoriana» que vivia tão bem, que se esqueceu do futuro e dos filhos pobres do seu próprio presente.


Marx, obcecado com a Inglaterra, predisse que seria ali que rebentaria a revolução comunista. Equivocou-se. Numa Rússia sempre a dois passos atrás da Europa e onde a tirania «asiática» e a superstição medieval se tinham implantado fortemente no subconsciente colectivo, encontrava-se o rastilho que faria arder a primeira fogueira. Passados os primeiros entusiasmos, levantou-se a terrível chama soprada por Lenine, muito mais cruel e desapiedado do que Marx, que nunca deixara de ser um professor de segunda categoria numa Universidade banhada pelo Iluminismo e o Humanismo. O golpe de Estado de 1917 e a sua contundência, os seus múltiplos assassínios desde a família do Czar até à dos pobres Popes, que não entendiam o que se estava a passar, teve logo de início uma vocação internacionalista, baseada na luta de classes, que o fez penetrar e preencher espaços em campos tão distantes como o teatro, a história, a literatura, a medicina, o trabalho, etc.


Mesmo personalidades afastadas do Comunismo como Jules Romains falaram «desta grande luz no Leste». Com Estaline tudo se fortaleceu e foram muitos os intelectuais que se puseram directamente ao serviço de Moscovo, da mesma forma que um padre católico está em relação à Cadeira Pontífice de Roma.
A tentativa de penetração comunista em Espanha em 1936-39, infelizmente repelida, em vez de moderar, exaltou muitos intelectuais, desde Picasso a Sartre. Oxford e Cambridge e, por extensão, todas as importantes Universidades do Ocidente, foram viveiros de comunistas convictos, desde o inglês Anthony Blunt ao peruano Mariátegui. Sartre declarou directamente o seu apoio à URSS dizendo que «o anti-sovietismo é um estupidez».


O maniqueísmo típico do pensamento ocidental elaborou «diabos» e «anjos». Os primeiros eram os anticomunistas, identificados todos eles com os regentes nazis dos campos de concentração; os segundos, embora se suspeitassem das fossas colectivas de Katyn e dos campos de internamento soviéticos (onde, sabemo-lo hoje, morreram mais de 25 milhões de pessoas) eram bondosos, justos e, no pior dos casos, «severos». Solzhenitsin escreveu, entre outros livros, O Arquipélago do Goulag que despertou no Ocidente a dúvida aceitável de que a URSS não só era o «inimigo comunista», mas um viveiro de monstros. Porém, o mito era muito forte e passaram anos e anos até que essa primeira luz nos iluminasse realmente.
Sem desprezar muitos outros motores, creio que o principal factor da queda e fragmentação da URSS e dos seus satélites imediatos, foi Ronald Reagan. Na sua qualidade de ex-actor, esta polémica personagem soube montar uma película de ficção-científica com a sua «Guerra das Estrelas» que alarmou realmente o poderio militar soviético forçando-o a entrar num jogo em que prevalecia o factor económico. O económico! O calcanhar de Aquiles da URSS, olvidado inexplicavelmente pelos seus predecessores. E aí esteve o começo do desastre, pois nesse jogo de investir somas enormes, enquanto os EUA aplicavam uma pequena parte do seu potencial, a URSS investia tudo. Sim, tudo foi preterido pela «Guerra das Estrelas»… que nem foi guerra nem sequer iria ser travada nas estrelas, mas apenas no espaço circundante terrestre, mas isso bastou. Paradoxalmente, o mesmo caldo de cultivo que em 1917 os tinha conduzido ao poder converteu-se no atoleiro que tragava, dentro da própria URSS, toda a sua força de coesão. A burocracia de um Estado piramidal invertido esmagou as suas vísceras por dentro. Havia que encontrar uma saída e, assim, há seis anos apareceu a «perestroika» pelas mãos de Gorbatchov, que é tão bem vista fora da URSS, como mal vista dentro.


Em Novembro de 1989 o muro de Berlim foi destruído e o mundo assombrou-se pois a «utopia comunista» ficou à vista, com toda a sua miséria «terceiro mundista», enquanto a Alemanha – apenas como potência económica – ressurgiu no coração de uma Europa Comunitária. O Hino à Alegria de Beethoven, interpretado na sua versão mais infantil, perdeu o seu carácter de «cântico laico» para renovar velhas forças espirituais e psicológicas que rechaçam o comunismo. E não rechaçam por questão de «princípios»… mas simplesmente porque fracassou. Hoje, a «perestroika» também fracassa e não sabemos se o ultimo golpe de Estado que sacudiu a URSS será a ultima expressão de desconcerto e de violência estúpida. A sombra de Lenine está exclamando: «Sois já tão imbecis que nem sequer sabeis fazer uma revolução!» Ele, interrogado sobre se lhe tinha sido difícil dar o golpe aos moderados que inicialmente haviam substituído o sistema imperial czarista, disse: «Foi tão fácil como levantar uma pena». É evidente que exagerou, pois para ele o pior ainda não tinha chegado, mas nada lhe tira a sua extraordinária capacidade para fomentar a subversão.
Esta subversão, assinalámos antes, foi uma característica inata dos comunistas, assim como o seu internacionalismo, baseado na luta (muitas vezes suposta) das classes sociais.


As ideias comunistas, às vezes quase «parapsicologias», apoiadas em grande parte em mitos e lendas, estenderam-se, não só intelectualmente, mas também facticamente pelo mundo. Em 1919 foi fundado em Xangai o Partido Comunista Chinês… à maneira chinesa, obviamente, surgindo em cena Mao Tsé Tung, do qual se dizia que aos 60 anos ainda podia atravessar a nado, na ida e na volta, o rio Amarelo. Ho Chi Minh deu uma dimensão planetária ao «Maoísmo», entrelaçando-o com o regionalismo e a guerra de guerrilhas em lugares tão remotos como Angola e Bolívia.

Para bem da projecção mundial e local do Comunismo, Lenine morre em 1924, pois logo após um ano vacilante, assume o poder o homem mais terrível da Historia Contemporânea: Estaline. Não só era cruel, mentiroso, sibarita, obcecado, como não vacilou em matar de qualquer maneira os seus colaboradores e mestres, por exemplo Trotsky em 1910, com um golpe de picareta que lhe abriu a cabeça, dado por um anarquista homossexual espanhol. Tão pouco teve escrúpulos em pactuar com Hitler e com o capitalista Presidente Roosevelt, e com quem quer que fosse para manter e engrandecer o seu poder. Na vida pública era um ogro… mas à sua mesa, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, serviam-se línguas de faisão. Morreu em 1953 rodeado de mistério, pois os médicos tinham de diagnosticar uma dúzia de “sósias” para que ninguém soubesse o estado de saúde do verdadeiro Estaline. Entretanto a «Guerra Fria» já tinha rebentado e os camaradas que lutaram contra o Eixo separaram-se e ameaçaram-se mutuamente.


A expansão comunista prosseguiu ainda com mais força quando esta Guerra Mundial terminou.
Em 1947 criou-se o «Kominform», centro de coordenação mundial de todos os «esquerdistas» mais ou menos ortodoxos. Em 1949 Pequim proclamou, no seguimento de um banho de sangue, a Republica Popular da China, da qual só se salvou, graças aos EUA, a filha de Taiwan e o seu caudilho Xiang Kai Tshek. Um ano antes, o brutal «camponês» apelidado de Tito, dera dores de cabeça a Estaline com a sua maneira de implantar o Marxismo na Jugoslávia. Em 1951 ocorre a Guerra da Coreia com o envolvimento dos EUA. Em 1954, com a queda de Dien Bien Phu, no Vietname, acabou a Guerra da Indochina, em parte pela força das armas dos «vermelhos», e em parte pelos carcomidos políticos franceses, ao serviço directo ou indirecto de Moscovo. Em 1959 Fidel Castro tomou Cuba, aparentando uma abertura democrática e com a ajuda da CIA. Nos anos 60-70 a actividade comunista intensificou-se em todo o mundo: desde a Guerra do Vietname, perdida pelos EUA de forma ignominiosa, até às miríades de guerrilhas perpetradas pelos Tupamaros uruguaios, pelo Exercito Revolucionário Popular Argentino, chegando aos genocídios dos Khmeres Vermelhos no Cambodja e à penetração no Chile através do sacrificado títere Salvador Allende. A morte do “Che” proporcionou-lhes um mártir para toda a América Latina. As de Sandino e de Cinfuegos tirou-lhes dois estorvos do caminho. Apareceu o Sendero Luminoso. Mas, tal como anteriormente tinham fracassado as revoluções Nacional-Socialista na Alemanha e Fascista na Itália, os dias da revolução permanente que Trotsky sonhara e Mao repetira – embora conseguisse viver muito mais tempo – estavam contados.


Em 1991 rebentou a cabeça e uma boa parte do corpo do «Dragão Vermelho». E não foi a Democracia que o matou, pois a Democracia não é uma ideia, mas uma forma de administração; mataram-no as consequências kármicas da sua própria maldade ingénita, a sua tendência para a parapsicologia política, para a irrealidade e a burocracia que permitiu, na própria URSS, a formação de uma igreja laica com poucos «padres», poucas «freiras» e muitos «bispos» e «cardeais», amantes de todos os prazeres e que instauraram um terror que faz empalidecer o da Inquisição. A «Sagrada Esquerda» não passou de uma estrumeira que, por projecção, encheu o mundo de terroristas, prostitutas, drogados, loucos e ébrios. Porque, se analisarmos bem, no foco de toda a violência, usurpação, fraude, genocídio, há sempre um pano vermelho de «redenção». E também há um pano vermelho no fundo de toda a má poesia, da pintura feita de ovos atirados contra a parede, da música «metálica» que converteu os nossos jovens nuns «zombies» de sapatilhas mal cheirosas e propensos à violência.


Há um trapo vermelho em toda a linguagem safia, grosseira, asquerosa; no mau cinema e na pior televisão; nos jornais e revistas «independentes» que mudam de cor por fora, mas que continuam a rebolar-se na anti mística de um mundo que querem sem damas, sem cavalheiros, sem anciãos e sem crianças… e o que é mais terrível e retrógrado: sem Deus. A esse dragão mecânico rebentaram-lhe a cabeça e uma boa parte do corpo, mas não esqueçamos que ainda há mais de mil milhões de pessoas sob as garras afiadas do dragão, e que o dobro deste número ainda está enfeitiçado pelos cantos de sereia do Marxismo-Leninismo.
O mundo avança para uma nova Idade Média onde velhos nacionalismos e regionalismos ressuscitarão, assim como formas de racismo. E isto não sucede devido à queda do Comunismo, mas porque existiu o Comunismo. Ele encheu o planeta de mentiras, enganos, pesadelos, ódios entre gerações; inventou a noção de classe combatente e produziu milhões de podres. Se os países do Terceiro Mundo tivessem trabalhado serenamente, sem o acicate do tavão marxista revolucionário, esses povos não estariam sumidos na peste física e moral, comidos pelos piolhos da miséria, da pobreza absoluta.


Eles instigaram a dinamitar as velhas pontes sem ensinarem a construir as novas; eles apressaram de maneira animal a curva da História; eles são ainda os responsáveis por cada criança que morre de fome e por cada velho que morre de solidão, pois destroçaram a família, a tradição, a fé.
Com o tempo serão recordados apenas pelas suas maldades. Com o tempo, também se afundará o mundo capitalista materialista burguês que, de alguma forma, engendrou o monstro vermelho. Um dia, os seus pedaços rodarão juntos para o fundo do abismo onde os esperam os Anjos Custódios da Humanidade.
Nós não podemos nem queremos julgá-los. O Destino fá-lo-á, inexoravelmente.
Entretanto, a vida prossegue e temos de trabalhar todos por um mundo que seja não só novo, mas melhor. Bem-vindo Futuro!

 

Jorge A. Livraga Rizzi
Fundador da Nova Acrópole
In revista Nueva Acropolis Nº 197 de Outubro de 1991

 

 

 

 

 

 
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