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Para o Acompanhamento e Dignificação no Morrer

Cleopatra e a Morte de Marco António
Cleopatra e a Morte de Marco António, de Pompeo Batoni


As nossas imagens da morte – Uma herança cultural

Ao contrário de outros tempos e outras culturas, hoje, no ocidente, recusa-se a ideia da morte. Tudo o que possa lembrar a morte, seja uma doença grave, a velhice, a decrepitude e até a própria idade é escamoteado. Para a ocultação ser completa, o doente que vai morrer, morre no hospital, longe dos olhos (e do coração). Também os rituais de luto são cada vez mais rápidos e pragmáticos, digamos, mais empresariais e mais clean. Esta rejeição da morte tem levado a uma procura, através do desenvolvimento científico, a tentar vencê-la ou no mínimo contorná-la e por isso, quando ela vence é escondida de modo a não se reconhecer o fracasso dessa luta.

Apesar do sucesso da ciência em prolongar a vida útil do ser humano, em manter jovem por mais tempo as pessoas, em atrasar o envelhecimento, em fazer viver mais de 100 anos, enfim, apesar de todos esses factores de valorização da vida e da conquista da beleza e jovialidade duradouras, a ideia da morte cada vez nos assusta mais. Talvez todo esse avanço tenha servido para estimular um ainda maior apego à vida e com ele, um maior temor à morte.

A ciência médica com os progressos para a melhoria da vida, não tem tido tempo para falar da morte. Considera-se ser um despropósito dedicar-se a cuidar da morte, quando esta se encontra decididamente ligada à vida.

 

"O mundo que nos rodeia não nos ensina a morrer. Não nos ensina tão pouco a viver, apenas a ter sucesso na vida. As pessoas que se regozijam em dizer que não pensam na morte, normalmente têm uma relação pior ainda com esse assunto, tão má que nem se permitem pensar a esse respeito."

 

O sofrimento e a morte adquirem significados diferentes segundo a cultura em que nos situamos e a visão que se possui do que é o ser humano. Em modo de síntese, poderíamos falar de três perspectivas:

- Unidimensional: O ser humano é apenas um corpo em que tudo termina quando este finda o seu ciclo de vida (visão materialista do ser humano)

- Bidimensional: O ser humano é composto de um corpo e um espírito, em que após a morte essa dimensão espiritual permanece vivendo num outro plano.

- Tridimensional: Além de um corpo e um espírito, possui uma dimensão conscienciosa, uma identidade própria evolutiva, que liga essas duas dimensões e que perdura para além da morte.

As atitudes perante a morte mudam segundo a visão que o Homem tem de si mesmo. Assim, a unidimensional gera uma visão ateia, onde tudo se termina nesta vida, e a bidimensional e tridimensional uma visão espiritual, em que se finda a vida do corpo mas perdura a vida numa outra dimensão.

Existem na cultura das nossas actuais sociedades ocidentais vários valores que contribuem para a negação da morte. Sejam eles o culto à eterna juventude, a acumulação de bens, a busca da imortalidade ou o apego materialista; todos eles acabam por fazer com que a morte não seja aceite de forma alguma.

Vivemos numa sociedade inquieta e atormentada pela necessidade de ter. Com esse materialismo dominante, com esse consumismo capaz de monopolizar o ideal humano, ficam irremediavelmente prejudicadas as iniciativas para o autoconhecimento, primeira lição para aceitarmos com serenidade que um dia deixaremos de existir neste mundo.

O mundo que nos rodeia não nos ensina a morrer. Não nos ensina tão pouco a viver, apenas a ter sucesso na vida. As pessoas que se regozijam em dizer que não pensam na morte, normalmente têm uma relação pior ainda com esse assunto, tão má que nem se permitem pensar a esse respeito.

É necessário introduzir a morte no nosso campo de consciência, pois a morte é parte da Vida. Se a vivenciarmos quotidianamente, percebendo que ao longo da vida várias vezes passamos por processos de morte e renascimento, o processo de morte não é um fim mas sim uma porta aberta à transformação.

Do que temos medo no limiar da morte

Os dois maiores medos de quem se encontra na passagem da vida à morte, são o da dor física e o da solidão ou abandono. Podendo sentir outros medos como o da separação daqueles que se ama, assistir à própria degradação física e mental, perder a imagem com a qual se identificava, perder a autonomia e o que se deixa de poder viver.

 A dor maior que é sentida é uma dor psíquica, naturalmente movida por sentimentos de tristeza, de finitude, de medo, de abandono, de fragilidade e insegurança, dependendo muito a sua duração, intensidade e resolução de como a pessoa experimentou a vida. Diz um ditado: “teme mais a morte quem mais temeu a vida”.

Durante a fase em que enfrenta a morte, o paciente é estimulado a profundas reflexões sobre a própria vida: se a sua trajectória de vida foi positiva, se houve desenvolvimento da sua vida interior, se pôde criar vínculos afectivos fortes e permanentes, se ajudou outros seres humanos, etc, no momento da morte, o julgamento não será realizado por nenhum juiz mas pelo olhar inocente de uma criança, perante o qual veremos até que ponto não amámos a vida.

Na raiz do medo da morte existe um medo de amar, de experimentar o abandono. O contrário do amor não é o ódio mas o medo, o ódio é o seu resultado: “o perfeito amor afasta o receio” (S. João).
O tempo desse estado de passagem é um tempo de paciência, encontra-se entre o tempo dos vivos, com o seu ritmo rápido, e o tempo do eterno, do não-tempo. É uma passagem do tempo Cronos, que nos devora, ao tempo Kairos, a oportunidade que nos desperta. Este tempo tão especial é um dos obstáculos à comunicação entre alguém que vai morrer e quem o acompanha, pois não estão no mesmo tempo.

Para além da morte

Enquanto que para muitos povos e culturas da antiguidade, a vida para além da morte constituía uma crença fundamentada na transmissão de ensinamentos de sábios e iniciados, hoje, essa nova crença ressurge numa nova roupagem e linguagem fundamentada na ciência, adaptada à crença moderna na ciência, as NDE (Near Death Experiences – Experiências Quase Morte). São imensos os trabalhos publicados sobre relatos de largos milhares de pessoas em todo o mundo que passaram por estas experiências, tendo tido como pioneiro nesta investigação Raymond Moody com a publicação nos Estados Unidos em 1975 da obra “A Vida Depois da Morte”.

Ascenção ao Império
Ascensão ao Imperium, de Hieronymus Bosch

As NDE são uma experiência, não uma fé ou dogma, que retira, na maior parte dos casos, todo o medo da morte.

A maior parte dos relatos coincidem em dez pontos fundamentais:


1 - A pessoa tem a sensação de estar morta
2 - Entra numa região obscura (túnel, funil, corredor, etc.)
3 - Vive uma sensação de desdobramento do seu corpo físico
4 - Um ser falecido avança ao seu encontro
5 - Ouve uma voz e vê aparecer um ser de luz
6 - A sua vida desfila à sua frente a toda a velocidade
7 - Tem a sensação de chocar com um obstáculo
8 - A beleza e o bem-estar que sente não lhe dão vontade nenhuma de voltar atrás, prefere entrar na luz.
9 - No entanto, decide voltar à vida e reintegra o seu corpo com dificuldade
10 - O seu comportamento na existência modifica-se para sempre

Os 5 Estágios da dor perante a morte

Ao falar-se em acompanhamento na morte e nos seus estágios é obrigatório referirmos e homenagearmos Elizabeth Kubler-Ross, essa mulher extraordinária, médica psiquiatra, que dedicou toda a sua vida a ajudar aqueles que se encontravam de partida deste mundo, deixando-nos um legado extraordinário da sua experiência e do seu humanismo.

Elizabeth Kubler-Ross, na sua obra “Sobre a Morte e o Morrer”, caracteriza cinco fases pelas quais passam os pacientes em fase terminal, podendo ou não chegar a passar por todos eles, dependendo do processo e da possibilidade de superarem cada etapa.



1º) Negação e isolamento

Solidão
Solidão, de Lord Leighton

A Negação e o Isolamento são mecanismos de defesa temporários do Ego contra a dor psíquica perante a morte. A intensidade e duração desses mecanismos de defesa dependem da forma como a própria pessoa que sofre e as outras ao seu redor são capazes de lidar com essa dor.

Podem-se encontrar no doente expressões como: “Não, eu não, não pode ser verdade”. Põe em causa o labor da existência: “Para quê?...”, “De que serviu tudo isto?...”, “nada faz sentido…”. É uma noite profunda.
No “Ars Moriendi”, obra medieval que trata do tema da morte, das suas fases e do acompanhamento, refere-se que uma tal dúvida se somatiza inclusivamente num certo tipo de riso, de escárnio.

No seu rosto pode ler-se um combate. Há uma luta, que pode ser mais ou menos demorada, ao fim da qual a pessoa se distende e adere a uma identidade maior do que ela própria.
Em geral, só mais tarde, após a negação, é que o paciente se lança no isolamento.
O acompanhamento nesta fase requer tempo e paciência; há que ficar lado a lado, ouvindo, retornando mais vezes, mesmo que o paciente não tenha vontade de falar no primeiro ou segundo encontro; lentamente desenvolve-se um sentimento de confiança pelo facto de se encontrar alguém solícito, disponível e assíduo. Quando sentem que devem falar, abrem a alma e confessam a sua solidão, às vezes com palavras, outras com pequenos gestos e comunicações não verbais.


2º) A Raiva

A Raiva é um estádio muito difícil de se lidar devido ao facto dela se propagar em todas as direcções e projectar-se no ambiente, muitas vezes sem razão plausível.

Por causa da raiva, que surge devido à impossibilidade do Ego manter a Negação e o Isolamento, os relacionamentos tornam-se problemáticos e todo o ambiente é hostilizado pela revolta de quem sabe que vai morrer. Tudo está mal, de tudo se queixa: a cama que é mal feita, a comida que não presta, o programa na televisão que é odioso, etc. Junto com a raiva, também surgem sentimentos de revolta, inveja e ressentimento, pois os outros têm uma vida pela frente e a deles está a terminar.

São fúrias de um cansaço perante a vida, de desespero e de dúvida.

Nesta fase, a dor psíquica por enfrentar a morte manifesta-se por atitudes agressivas e de revolta; “porquê comigo?”. A revolta pode assumir proporções quase paranóicas; “com tanta gente ruim para morrer porquê eu, eu que sempre fiz o bem, sempre trabalhei e fui honesto”...

É importante, neste estágio, haver compreensão dos demais sobre a angústia transformada em raiva na pessoa que sente interrompidas as suas actividades da vida pela doença ou pela morte.

Quando grita e reclama é como estivesse a dizer: “Não esqueçam que estou vivo! Vocês podem ouvir a minha voz, ainda não estou morto!”. Um paciente que é respeitado e compreendido, a quem é dispensado tempo e atenção, logo baixará a sua voz e diminuirá as exigências irascíveis.

Nesta fase, a paciência deve ser conquistada à impaciência e à cólera até surgir no rosto a doçura.

3º) Negociação

Tendo deixado de lado a Negação e o Isolamento, e “percebendo” que a Raiva também não resolveu, a pessoa entra no terceiro estágio: a Negociação. A maioria dessas negociações são feitas com Deus e, normalmente, mantidas em segredo.

Como dificilmente a pessoa tem alguma coisa a oferecer a Deus, além da sua vida, e como Este parece estar a tirar-lha, quer a pessoa queira quer não, as negociações assumem mais características de súplicas. A pessoa implora a Deus que aceite a sua “oferta” em troca da vida, como por exemplo, a promessa de uma vida dedicada à igreja, aos pobres, à caridade ... Na realidade, a negociação é uma tentativa de adiamento. Nessa fase o paciente mantém-se sereno, reflexivo e dócil, pois não se pode negociar com Deus ao mesmo tempo que se hostilizam as pessoas.

4º) Depressão

A Depressão surge quando o paciente toma consciência da sua debilidade física, quando já não consegue negar as suas condições de doente, quando as perspectivas da morte são claramente sentidas.

É um estado de desespero em que o doente pensa: “Não o conseguirei, não terei força suficiente…” ou pior ainda “Não sou digno”, “Estou condenado!”. Já não acredita em nada nem sente nada.

É naturalmente um estado evolutivo dos anteriores; em que negar não adiantou, agredir e revoltar-se também não, fazer negociações não resolveu. Surge então um sentimento de grande perda. É o sofrimento e a dor psíquica de quem percebe a realidade nua e crua, como ela é realmente, é a consciência plena de que nascemos e morremos sozinhos.

A depressão assume um quadro clínico típico e característico; desânimo, desinteresse, apatia, tristeza, choro, etc.

5º) Aceitação

Quando já não há expectativa, começa a esperança. Após o combate, após a agonia, chega a paz e a confiança.
Nesse estágio o paciente já não experimenta o desespero nem nega a sua realidade. Esse é um momento de repouso e serenidade antes da longa viagem.

É uma transfiguração, uma metamorfose. Uma mudança opera-se na expressão do rosto: serenidade, estado de repouso.

Este estágio leva a que o paciente alcance a aceitação em paz, com dignidade e bem estar emocional. Se assim ocorre, o processo até à morte pôde ser experimentado em clima de serenidade por parte do paciente e, pelo lado dos que ficam, de conforto, compreensão e colaboração para com o paciente.

 

Aprender sobre a morte para melhor ajudar

A maioria dos pacientes em estado terminal procura falar sobre a angústia da morte, a maioria deles quer ser ouvida, quer ser confortada, quer encontrar na humanidade algum apoio que, muitas vezes, nunca teve durante os seus anos de saúde.

Ler, saber e preparar-se para tratar desse tema pode melhorar o atendimento às pessoas terminais, pode melhorar os sentimentos do próprio profissional que lida com isso.

Para viver momentos terminais sem o terror, temor e tormento da ideia do fim e da perda, é necessário cultivar um certo desapego em relação à vida, é necessário ter a consciência de que na morte, não podemos levar nada connosco; nem os bens, nem os amigos, nem os diplomas, nem o sucesso.

A consciência da finitude humana, particularmente, a consciência de sua própria finitude por parte de quem vai morrer, melhora a vida e estimula um redimensionamento dos valores.

Convém ter sempre em mente que ninguém pode mudar o facto de que um dia vai acabar, mas podemos alterar a nossa relação com esse facto.

No acompanhamento deve-se ajudar a desfazer, na medida exacta, o culto ao ego que há dentro de cada um de nós. Esse culto ao ego é que faz com que a pessoa acredite e aceite a morte dos biliões de seres humanos do mundo, menos a sua própria. Para si próprio não existe o curso natural dos acontecimentos biológicos a que todos os seres viventes estão sujeitos. É o culto ao ego que faz o indivíduo colocar-se sempre acima do todo a que pertence.

Morte de Sócrates
A morte de Socrates, de Jacques-Louis David

Sócrates, antes de morrer, condenado a tomar a cicuta, deixou um bom estímulo à reflexão sobre a morte: “Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e uma migração para a alma, deste lugar para outro”._

"As pessoas são como vitrais coloridos: cintilam e brilham quando o sol está do lado de fora, mas quando a escuridão chega, a sua verdadeira beleza é revelada apenas se existir luz no interior.”
“A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para cima.”

“Para aqueles que buscam compreendê-la, a morte é uma imensa força criativa. As mais profundas reflexões espirituais sobre a vida têm a sua origem nas reflexões e estudos sobre a morte.”

Elizabeth Kubler-Ross

 

José Ramos
Investigador e Director da Nova Acrópole Coimbra

 

 

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