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Devemos Acreditar nos Presságios?

 

Esta palavra, derivada do latim praesagium, refere-se ao conhecimento das coisas futuras mediante sinais ou fenómenos visíveis ou invisíveis para as pessoas normais, mas sempre perceptíveis e significativos para os que desenvolveram o dom da profecia. Esta dádiva divina, ou simplesmente parapsicológica, acompanha desde sempre a História da Humanidade.

O homem, temente dos infortúnios e sedento de felicidade, recorreu aos adivinhos, magos, astrólogos, «médiuns», a fim de desvendar algo do seu futuro individual e colectivo.

Ainda nos finais do século XX e apesar do cepticismo geral, os presságios e profecias continuam a ter um enorme peso psicológico.

Numa recente viagem a França pude constatar de que maneira cau­sou preocupação a visita do Papa à cidade de Lyon. A causa é uma profecia de Nostradamus que diz o seguinte: «O pontífice romano desloca-se à cidade banhada por dois rios. O seu sangue será ali derramado. O seu e o dos seus, quando a rosa florescer».

Acontece que a cidade de Lyon é banhada por dois rios, o Ródano e a Saône, e ali abundam as rosas. Não faltou quem relacionasse a menção da flor com a que ostenta o símbolo do Partido Socialista.

No momento em que escrevo isto, finais de Setembro de 1986, o sétimo sucessor do santo abade da localidade de Ars afirmou que a pro­fecia já se tinha cumprido e que João Paulo II não corre maior perigo que o do terrorismo que assola a França. O padre Thevenard refere-se a Pio VI, morto de uma infecção pulmonar que o fazia expectorar sangue, em 1799, em Valence, localidade próxima de Lyon e banhada pe­los dois rios, numa mansão que tinha um famoso jardim de rosas.

O enigmático sábio francês conhecido pelo nome de «Nostradamus», viveu entre os anos 1503 e 1566. A sua Centurie Astrologiche e outros escritos, alguns dos quais são hoje considerados apócrifos, projectam um conjunto de acontecimentos futuros através de uns 550 anos após a sua morte. A sua versão é tão obscura que os diferentes estudiosos não se puseram de acordo sobre praticamente nada do que disse; e, assim, uns tomamno por um verdadeiro vidente que assinala factos inexoráveis e outros, por um alucinado que faz jogos de palavras que podem ser relacionadas com uma ou outra pessoa de épocas diferentes, conforme o ângulo com o qual são vistas. Mas, no geral, se tomarmos as suas palavras literalmente e não as obscurecermos ainda mais com os nossos comentários, constatam-se uma série de descrições verdadeiramente proféticas, embora de maneira pontual e escassa.

 

Existe um caminho para todas as coisas e uma or­dem ou disciplina pré-estabelecida, pensada, que exclui toda a pos­si­bi­lidade de casualidade, substituindo-a pela causalidade ou relação har­mónica entre as causas e os efeitos, que por sua vez são causas de outros efeitos posteriores.

 


Para os que se surpreendem com o facto de um sacerdote cristão e católico fazer referência a estas coisas como se nelas acreditasse, quero recordar que toda a história da Igreja de Roma e de outras formas do Cristianismo estão repletas de citações de presságios e que não foram poucos os papas – como Silvestre II e Gregório VII – que dedicaram as suas horas com admirável entusiasmo às chamadas Ciências Ocultas. Uma subtil diferença entre as «profecias», que viriam de Deus, e os «presságios», que seriam inspirados pelo diabo, salvou-os, a eles e a mui­tos outros sacerdotes, das fogueiras da Inquisição.
A própria Bíblia classifica nove formas de adivinhação:

• Meonen, assim chamada por Moisés: é a astrologia judiciária ou apotelesmática; praticava-se mediante a inspecção e observação de todos os astros e fenómenos das nuvens.

• Menaschech, ou seja, a augural, segundo a Vulgata e quase todos os interpretes;

• Mescasheph, isto é, os malefícios com práticas ou cerimónias ocultas e perniciosas, tal como indicam a Vulgata e os Setenta;

• Ithoberon ou, o que é o mesmo, os encantadores;

• Os Oráculos, porque interrogavam os espíritos Pythones;

• Indeoni, o sortilégio e a magia;

• Necromancia, ou a evocação e interrogação que se fazia aos defuntos;

• Rhabdomancia, pelas varinhas, de que fala Oseas, profeta menor;

• Hepatoscopia, pela inspecção ou exame do fígado.

O fenómeno de uma crença muito divulgada sobre estes assuntos deu-se nas mais altas culturas, desde a egípcia à chinesa e dos etruscos aos mayas. Todos acreditavam ter a possibilidade de conhecer o futuro, e esta crença era tão forte que, durante todo o Império Romano, para além da sua fragmentação em Império do Ocidente e Império do Oriente, e mesmo ainda no Império Bizantino, era proibido, sob pena de morte, fazer adivinhações sobre o futuro dos imperadores.

Heródoto, chamado o «Pai da História», descreve um sem número de casos, como o daquele rei do Oriente, cujos adivinhos predisseram que morreria por causa de uma carroça; imediatamente proibiu a circulação de carroças no seu território; morreu numa rebelião palaciana, cravado no seu trono por um espada… que levava no seu punho a figura de uma carroça.

Estes e muitos outros exemplos fazem-nos reflectir sobre o título deste artigo: Devemos acreditar nos presságios?

Será que o futuro já está escrito e é inevitável? E se assim for, onde está o livre arbítrio e a liberdade do homem?

Vamos tratar de responder, sob o ponto de vista filosófico, a estas perguntas.

Tanto os mais antigos ensinamentos como as actuais descobertas e teorias sobre a constituição do Universo assinalaram-nos a existência de uma força metafísica – equiparável ao nosso conceito de vontade – que rege de modo inteligente todos os fenómenos, transmitindo-lhes umas determinadas características através das leis naturais, de tal forma que se torna evidente uma finalidade que ultrapassa as próprias estruturas mecânicas do Cosmos. Existe um caminho para todas as coisas e uma or­dem ou disciplina pré-estabelecida, pensada, que exclui toda a possibilidade de casualidade, substituindo-a pela causalidade ou relação harmónica entre as causas e os efeitos, que por sua vez são causas de outros efeitos posteriores.

Os grandes avanços técnicos da nossa civilização não se obtiveram contrariando estas leis naturais, mas obedecendo-lhes e utilizando os elementos segundo as suas características naturais. É bom que isto fique bem claro. Um avião não transporta centenas de pessoas a milhares de metros de altura contra as leis físicas da natureza, mas pelo contrário, obedece-lhes docilmente, combinando-as entre si de uma forma pré-determinada. Os inventores não «inventam» nada; simplesmente descobrem e aproveitam o que outrora era desconhecido, mas não inexistente. A novidade reside na combinação de elementos que já preexis­tiam na Natureza de maneira inteligente, aos quais se dá uma finalidade a que chamamos «invenção».

A energia existia no átomo desde o começo dos tempos; os homens, com as suas investigações, aprenderam a libertá-la – coisa que, aliás já se fazia na Natureza, só que com ritmos diferentes, semelhantes ou iguais, em algum lugar e tempo na manifestação universal. E é a compreensão e a aplicação desta relação espaço/tempo que permite ao ho­mem a pos­si­bilidade de direccionar, em concordância com a sua própria senda natural, os fenómenos.

Estas observações oferecem-nos uma dupla possibilidade: primeiro, a de um ordenamento cósmico; segundo, a capacidade humana de descobrir as leis que o governam, servindo-se delas graças a uma vontade própria que, em última instância, não é senão um aspecto da vontade cósmica, já que nada surge do nada.

O conceito de criação foi de novo consciencializado como uma revelação.

A constatação de um Universo harmónico e em movimento dá-nos a percepção de um plano universal que tem, necessariamente, de abarcar todo o plano particular.

De tudo isto poderíamos deduzir aquilo a que os filósofos hindus chamaram, há milhares de anos, Sadhana, o sentido da vida; bem como um Dharma, que é a lei que a governa, e o Karma, ou seja, o conjunto de acções e reacções que se produzem no seu seio.

Então, como é que poderíamos mover um único fio do nosso destino? Concebendo o que Platão chamava obediência à natureza das leis universais, descobrimos que nessa obediência também está implícita uma certa liberdade que exercitaria no homem a sua capacidade de discernimento e procura da verdade. A contradição aparente entre obediência e liberdade, do ponto de vista filosófico, é uma falácia, isto é, algo que tem aspecto de realidade, mas que não é real. O erro deve-se ao facto de termos a tendência de trabalhar com valores absolutos que, afinal, não passam de relatividades, por muito firmes que pareçam em determinado momento. Todos os nossos conceitos de grande e de pequeno, novo e velho, próximo e distante, são meras ilusões nascidas do nosso egocentrismo, já que atribuímos um valor às coisas segundo o nosso tamanho físico, a duração da nossa vida ou o lugar em que nos encontramos.

E uma vez que é evidente um caminho no desenvolvimento de todos os acontecimentos – coisa que legitimaria os presságios – não podemos afastar a hipótese de que o homem sábio, com as suas previsões, possa – sem contrariar o fluxo da vida, mas navegando habilmente nele – fazer certas bordejadas que, a menos que alguma força superior desconhecida ou imprevista os altere, o irão conduzir a uma ou outra margem do rio.

O que converte em inexoráveis os verdadeiros presságios é a nossa própria falta de conhecimento, o programa imobilista que fazemos das nossas próprias vidas e, o que é ainda mais importante, a nossa incapacidade de reacção perante os imprevistos.

Assim, é-nos impossível alterar as coisas que já estão planeadas pelo destino e determinadas pelo nosso karma individual; mas, em contrapartida podemos encaixar as novas circunstâncias com maior ou menor habilidade, na procura de uma felicidade básica a que todos temos direito.

Sim… podemos acreditar nos presságios, mas também temos de acreditar em nós próprios e na Graça de Deus que sabe, melhor do que ninguém, o que é que realmente convém à nossa alma e ao destino do mundo.

Rejeitemos o medo e, como dizia o imperador-filósofo Marco Aurélio: «O que é que pode acontecer ao homem que não seja próprio do homem?»

 

Jorge Angel Livraga
In revista Nueva Acropolis nº 143 de Novembro de 1986.


 

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