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As Amazonas

 

Amazonas. Mito ou Realidade? Se considerarmos a acepção vulgar de mito, toda nossa investigação girará em torno da ideia de que as Amazonas são uma espécie de conto, sem fundo real, imaginadas talvez para entretenimento nas noites de inverno. Se, ao contrário, nos aproximarmos do mito considerando a possibilidade de que este seja instrumento de uma realidade não literal, senão implícita nele, poderemos contemplar aspectos reveladores dessa pouco conhecida parte da História na qual as mulheres guerreiras teriam desempenhado um papel protagonista. A escolha é nossa.

Ao ouvir falar de Amazonas, geralmente pensa-se nas mulheres armadas que os colonizadores dos séculos XV e XVI avistaram, nas margens do rio mais caudaloso da Terra. Não obstante, possuímos testemunhos, neste mesmo sentido, da época clássica ocidental: os gregos têm-nos legado diversas tradições acerca de mulheres organizadas em tribos guerreiras e distantes do contacto com os varões.

Façamos um ligeiro resumo sobre sua possível etimologia. Podemos entender que ama "em conjunto", e zen "viver", supunha "as que vivem juntas"; também alfa (intensiva) e mazos "peitos" daria como possível solução "de peito proeminente"; e por outro lado, alfa (privativa) e novamente mazos significaria "que não tem peito". Em favor desta última interpretação, Hipócrates conta-nos que as mulheres provenientes de Cita, desde meninas, mutilavam seu peito, para disparar o arco com mais soltura; a forma grega ámazon, também corroboraria esta conjectura, pois, literalmente, significa "sem peito". Actualmente entende-se por Amazona uma mulher de carácter varonil e belicosa, que gosta da guerra, ou aquela que se dedica a exercícios equestres.

 

"Ao ouvir falar de Amazonas, geralmente pensa-se nas mulheres armadas que os colonizadores dos séculos XV e XVI avistaram, nas margens do rio mais caudaloso da Terra. Não obstante, possuímos testemunhos, neste mesmo sentido, da época clássica ocidental"

 


Outra possibilidade é a origem circassiana (região da Rússia europeia) do termo: Maza é a Lua, e as esquivas sacerdotisas do astro da noite bem poderiam chamar-se Amazonas.

Na mitologia helénica, as Amazonas eram filhas do Deus Ares e da náiade Harmonia, e procediam dos vales da Acmonia frígia. Outras versões pretendem que sua mãe seja Afrodite ou Otrere, sendo esta última filha de Ares. A princípio viviam junto ao Amazonio, rio a que fazia honra a denominação das guerreiras, porém a tradição mudou o seu nome para Tanais, em lembrança do filho da amazona Lisipe. Conta-se que Afrodite se ofendeu pelo desprezo ao matrimónio e a afeição à guerra que demonstrava Lisipe. Em vingança, a Deusa fez com que Tanais se enamorasse de sua mãe, porém este, em vez de ceder a uma paixão incestuosa, lançou-se ao rio e morreu. Para abafar as reprovações da sua alma, Lisipe conduziu as suas filhas a uma planície situada junto ao rio Termodonte, ao redor das costas do mar Negro, e aí formaram três tribos, cada uma das quais fundou uma cidade.

As Amazonas só reconheciam a descendência materna, e o seu regime social estabelecia que os homens realizariam as tarefas domésticas, enquanto que os aspectos políticos e militares diriam respeito às mulheres. Perante isto, aos varões recém-nascidos partiam os braços e as pernas, ou os deixavam cegos, com o fim de os incapacitar para lutar ou viajar. Elas foram as primeiras que empregaram a cavalaria; levavam arcos de bronze e escudos curtos em forma de meia-lua; os seus elmos, roupas e cintos eram feitos com peles de animais selvagens. Lisipe, a quem se deveriam estas disposições, fundou a grande cidade de Terniscira e foi vencedora de todas as tribos até o rio Tanais. Com os despojos de suas campanhas, erigiu templos em honra a Ares e à Ártemis Tauropola, cujo culto estabeleceu. Suas descendentes estenderam o Império Amazónico para o oeste, através do Termodonte até á Frígia.
Outras três famosas Rainhas Amazonas, Marpesa, Lampado e Hipo, apoderaram-se de grande parte da Ásia Menor e Síria, e fundaram as cidades de Éfeso, Esmirna, Cirene e Mirina; devem-lhes a sua origem também Thiba e Sinope. Em Éfeso, elevaram uma imagem de Ártemis debaixo de uma árvore sagrada; Hipo ofereceu-lhe os sacrifícios pertinentes, e, ante o altar da Deusa, o exército dançou em círculo com seus escudos, provocando um grande estrépito com suas aljavas e golpeando em uníssono a terra. Ao templo de Ártemis Efésia, construído posteriormente ao redor de tal imagem, não se iguala em magnificência nem sequer o de Apolo em Delfos, e figura entre as sete maravilhas do mundo. Dois córregos, ambos chamados Seleno, que fluem em direcções opostas, rodeiam-no. Foi naquela expedição que as Amazonas se apoderaram de Tróia. Depois do triunfo, alguns exércitos voltaram aos seus países carregados de troféus preciosos, porém as que permaneceram foram expulsas por uma aliança de tribos bárbaros e perderam a sua Rainha Marpesina.

Obviamente, a divindade principal foi Ártemis, a Deusa caçadora e, portanto, guerreira. De forma semelhante à virgem irmã de Apolo e sua hoste de ninfas, as Amazonas faziam as suas incursões geralmente em grupo sob as ordens de uma Rainha. Sua ferocidade e valentia eram inquestionáveis. Uma das provas que os heróis gregos tinham que passar era combater contra as Amazonas: Belafonte desafiado por uma ordem de Yobatas; Héracles forçado a apoderar-se do cinturão de Hipólita, etc. Homero, na Ilíada, faz alusão a elas em três ocasiões e, em uma destas ocasiões, a sua descrição não se reveste de nenhum sentido genuinamente mitológico, mas sim claramente histórico. E o que não deixa lugar a dúvidas é a origem etimológica dos cinquenta nomes de Amazonas que em distintas ocasiões os gregos mencionaram: Pentesilea, Telestris, Antíope, Deyanira, Hipólita, Menalipe, Oriza, Torniris..., todos eles helénicos.

As Amazonas e Héracles

Alcides era o nome do herói grego, filho de Alcmena e Zeus, que se viu obrigado a executar doze trabalhos, a mando de Hera, por haver matado os filhos que havia gerado com Mégara. Héracles, "a glória de Hera", foi o nome místico que lhe impôs Apolo através da Pítia. Seu nono trabalho foi conseguir o cinturão de Hipólita, a Rainha das Amazonas.

Na época em que Héracles foi visitar as Amazonas, as três cidades eram governadas por Hipólita, Antíope e Melanipa. Quando Héracles aportou seu barco nas proximidades, Hipólita visitou-o, e sentindo-se atraída pelo herói, ofereceu-lhe o cinturão de Ares como peça de amor.

Porém Hera, disfarçada de Amazonas, foi difundindo o rumor de que o estrangeiro se propunha raptar Hipólita. Diante de tal ameaça, as guerreiras pegaram seus corcéis e lançaram-se contra o navio. Héracles, suspeitando de uma traição, matou Hipólita imediatamente, apoderou-se de seu cinturão, do seu machado e de outras armas, e respondeu ao ataque; no combate matou uma após outra e pôs em fuga seu exército depois de uma grande matança.

Outras versões contam que Melanipa caiu numa emboscada e que o preço de seu resgate foi o cinturão de Hipólita. Ou que Teseu se apoderou de Hipólita e ofereceu o cinturão a Héracles, que em troca lhe entregou Antíope como escrava. Ou que Hipólita manteve um combate fabuloso contra o herói pelo troféu que aquele lhe exigia; então, derrubada de seu cavalo, Héracles conseguiu dominá-la e colocar sua maça no peito da guerreira; o filho de Zeus ofereceu-lhe o perdão em troca do cinto, porém Hipólita preferiu morrer a render-se.

Outra tradição helénica relativa às Amazonas é-nos oferecida por Homero no episódio de Aquiles contra Pentesilea, Rainha deste povo de mulheres. Aquiles era filho de Peleu, e portanto descendente da raça de Zeus, e sua mãe era a Deusa Tétis, filha do Oceano. O seu verdadeiro nome era Ligirón; foi seu mestre Quirón, o centauro, que concebeu Aquiles. Pentesilea agiu em socorro de Tróia quando se celebravam os funerais de Heitor. Começou fazendo os gregos recuarem até ao seu acampamento, porém, ao enfrentar-se com Aquiles, este feriu-a mortalmente. Momentos antes de expirar, o herói descobriu o seu rosto, e diante de tanta beleza e serenidade, ficou surpreendido de dor e de tristeza. E esta cena foi tal, que Tersistes chegou a zombar dele por enamorar-se de uma morta.

Com respeito à ligação das Amazonas com outras comunidades e países, podemos citar alguns casos peculiares. Diodoro fala das gorgonas como um povo de mulheres guerreiras muito primitivas, comparando-o inclusive às muito mais civilizadas Amazonas. A etimologia de gorgonas traz a idéia de temor, como encarnação física das Erínias ou terríveis forças desprendidas da natureza e do Karma.

A única designação genuinamente europeia que podemos citar fora da tradição helénica; é o termo húngaro "gyeneg", que significa "mulheres", semelhante ao termo mexicano "ciguattan", ou "povoado de mulheres". As crónicas dos mosteiros lamáicos também narram a história de uma nação centro-asiática, que o próprio Ghengis-Khan não pôde vencer jamais, à qual designam como zug-te-bung, "jovens juntas".

Seria um erro imperdoável deixar de citar aqui o conhecido "caso" das chamadas Walquírias, cuja etimologia correta seria aproximadamente "as que elegem os mortos", os dignos de serem salvos. A figura imponente da Walquíria, tão popularizada pela música alemã do século XX, parece ter herdado de outras figuras o aspecto heróico, a legendária lembrança mítica, e uma curiosa vinculação com aquilo a que se tem dado o nome de sykes, um estranho povo de mulheres guerreiras a cavalo.

Se analisarmos os nomes individuais das célebres Amazonas, que nos têm legado a literatura helénica, veremos que muitos deles estão ligados a um lugar geográfico concreto: Éfeso, Elea, Sanape, Tiba, Cuna, Anea, Mirina..., são nomes de lugares que se explicam pela fundação de uma Rainha Amazona. Do mesmo modo, outros nomes sugerem elementos de diferente interpretação filológica. Assim, Elaya significa "lugar rico em oliveiras", e Eurípile tem o significado de "cidade com portas grandes". Outros nomes, como Talestria, Antíope, parecem reflectir elogios ou designações galantes.

Não pretendemos neste breve artigo sobre as Amazonas ter esgotado o tema; muitos aspectos da vida destas curiosas mulheres guerreiras ficarão sem ser desvendados, outros serão talvez difíceis de assimilar para a nossa mentalidade, em parte dada à diferença espaço-tempo, que nos separa delas, e também dada à escassa informação de que dispomos. Não obstante, se conseguimos, por alguns instantes, aproximar o complexo enigma destas damas guerreiras ao homem de nosso século, coberto, às vezes, de uma enorme endoculturação, tão vasta quanto obsoleta e ridícula, o nosso trabalho terá servido para algo, e a estranha lenda terá desvelado talvez um dos muitos véus que cobre os nossos leitores.

É nossa mais sincera esperança que estes mitos ou realidades supra-históricas, como queiramos chamá-los, continuem sempre vivos em nossas aspirações.

 

Maria José Reina Navarro


 

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