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A Amizade em Tempos de Crise

 

É evidente que nos precipitamos na garganta obscura a uma crise económica profunda, a qual em sucessivos avanços e retrocessos – como as ondas do mar – que vão por fim mudar o nosso modus vivendi. Também é evidente que se esta crise não tivesse sido precedida por uma crise de valores, por uma falência moral dos nossos princípios, fins e meios, esta crise económica não nos surpreenderia tão passivos, tão inertes, tão pasmados e carentes de imaginação. As dificuldades aguçam o engenho e o fogo do nosso carácter se a alma não se encontra doente, mas quando vivemos no temor, na angústia e no vazio moral, qualquer esforço converte-se num mundo que não queremos percorrer nem conquistar. E, no entanto, um olhar de esperança, um olhar de filósofo sabe que no fundo toda a crise é, como a palavra indica, uma «mudança», uma transformação dos nossos valores, dos nossos objectivos e do modo de nos relacionarmos uns com os outros, e também, no geral, de perceber o mundo. Toda a crise é uma metamorfose da alma, a qual, quando bem aproveitada permite que nasça a luz de um novo sol de esperança, novos desafios, novas capacidades, como as de uma lagarta que se converte em borboleta. Isto é fácil de comprovar nas crises que vivemos ao longo da nossa existência e que correspondem às diferentes idades da vida: a criança «morre» na sua condição infantil para se converter em jovem, e este, como a serpente que muda de pele, vai avançando pouco a pouco na maturidade com base nas experiências que exigem o melhor de si, e etc. A questão está sempre em não se apegar nem querer agarrar-se àquilo que se perde, ou, para sermos mais exactos, àquilo que não existe porque já o perdemos, porque mergulhou-se nas sombras imóveis do passado, tesouro de experiências na memória, mas já não de vivências. As vivências e as oportunidades da alma encontram-se sempre no presente. Nunca no futuro que maquinamos e quem sabe nunca chegue, nem no passado do qual já não somos e onde já não estamos. Como no exemplo anterior da serpente, se esta renunciasse a abandonar a sua pele velha, jazeria imóvel, sonhando, quem sabe, em futuros de pura irrealidade; seria presa fácil de qualquer dos seus inimigos naturais.

Shakespeare diz no seu imortal Henrique V que tudo está bem se o nosso ânimo o está, e podemos acrescentar que, se não é assim, nada é suficiente para acalmar a nossa inquietude. As experiências bem assimiladas fazem vibrar como um gongo o metal da alma, mas esmigalham e fazem cair o barro com o qual na nossa ignorância nos identificamos. As experiências fazem sucumbir o homem de barro que vive dentro de nós, esse que é uma massa informe de desejos e medos, sem nome nem princípios; e dão brilho ao melhor de nós mesmos, a quem São Paulo chamou «o Homem Novo». Pois bem, esta crise da nossa «sociedade de consumo» que fez triunfar o «homo economicus» em vez do «homo honorabilis», e que conseguiu tantas vezes que vendêssemos a nossa alma por algumas moedinhas de fantasia multicolor; que nos saciou, insensibilizados e adormecidos, envelhecendo e letargiando a nossa imaginação, audácia e iniciativa; é possível que leve a situações difíceis e aflitivas no aspecto material mas que permita renascer ou avivar o fogo de valores como o da amizade e o da verdadeira solidariedade. Quem sabe possa permitir dar outra vez valor à palavra empenhada, confiar no próximo que está perto e que agora é quase um anónimo desconhecido. A verdadeira amizade, aquela sem a qual não se pode viver, e pela que se pode morrer, lutando. Não é necessário ver o filme «A Bandeira dos Nossos Pais» de Clint Eastwood, sobre a sangrenta batalha de Iwo Jima no Pacífico para saber – como na guerra já se demonstrou uma infinidade de vezes – que se combate pela nação, ou por um ideal, mas morrer, só se morre por um amigo, por esse «outro eu» – como o definiu Aristóteles – que verdadeiramente necessita de nós e em nós confia.

As piores feridas morais, que ao contrário das do corpo jamais fecham, são aquelas em que traímos a amizade, sujamos com o barro do egoísmo, dos nossos interesses e medos as suas asas de luz: estas asas poderosas, imortais e divinas da amizade pura que nos leva ao céu.

É que não há céu sem amizade nem amizade sem céu pelo que podemos pensar que amizade e céu são uma mesma e maravilhosa verdade para a alma.

Aventuramo-nos nas trevas de um tempo em crise: Falso! A verdadeira crise está na perda dos nossos valores morais, esses que desde há decénios o mundo parece conspirar em nos arrebatar, e com eles a nossa própria alma, e por isso não é só agora que estamos penetrando nessa obscura senda. Talvez esta crise económica e fim de um modo de ver a vida ajudem e permitam a ressurreição do melhor de nós, novos cenários da alma que deixam para trás as ruínas de um passado estéril.

Difíceis, sim, mas radiantes de vida e beleza, se os olharmos olhamos com os olhos da alma.


José Carlos Fernandez
In Revista Acropole nº 3 - editorial


 

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