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Arte e Pedagogia Infantil

Desde as suas primeiras manifestações, a arte é uma aprendizagem de grande importância para a criança. É fundamental para o seu processo mental, seu desenvolvimento perceptivo e afectivo, sua progressiva tomada de consciência social e seu desenvolvimento imaginativo e criador.

A imposição do conceito que o adulto tem da arte carece de valor e pode, pelo contrário, estabelecer uma dependência que frustra o processo criador da criança. A arte, nos primeiros anos é, para o menino, um meio de educação, não um fim. Ela aproxima-o do seu Ser. A criança não trabalha pelo resultado obtido, mas pela necessidade de expressão e de experiência.

Primeiros Traços

Um dos primeiros meios de expressão da criança é o desenho. Após os 18 meses, ela começa a fazer uns traços que não só a levarão ao desenho, mas à pintura e à escrita.

Então, é importante, para que desenvolva a sua capacidade criadora proporcionar-lhe materiais apropriados para que não rabisque paredes, mesas ou sofás.

A estes primeiros traços dá-se, comummente o nome de rabiscos e podem ser analisados sob três aspectos:

a) Rabisco desordenado;
b) Rabisco com nome;
c) Ausência de rabisco

Rabisco Desordenado

Responde ao desenvolvimento físico e psicológico: a criança delicia-se vendo que deixa uma marca no papel. A missão do educador, nesta fase, é oferecer-lhe papel e giz de cera ou lápis. Não se deve procurar relação entre o desenho e nenhum outro objecto, mas devemos interessar-nos pelo trabalho da criança, pois esta tem de sentir que o seu caminho de comunicação é bem visto e aceite pelos seus educadores. É importante que este conceito seja do conhecimento dos pais, os quais, geralmente por desconhecimento, ensinam às crianças como fazer o desenho. O adulto só tem de mostrar o caminho, motivando-a e estimulando-a: o como fazer tem de vir da própria criança.

O seu professor pode dizer: “Mas que bonito! Gosto que faças assim! Vais muito bem!...”

Nesta idade, a motivação não necessita de ser muito grande, uma vez que, como já dissemos, a criança sente necessidade de expressar-se. No entanto, é muito importante o estímulo posterior ao trabalho.

Mais ou menos seis meses depois de ter começado a fazer rabiscos desordenados, a criança descobrirá que existe um vínculo entre os movimentos do seu braço e o traço que deixa no papel. Toma, então, consciência do controlo visual-motor, que significa, para ela, uma conquista muito importante. E é nesse momento que, entusiasmada, é absorvida pelo seu trabalho. Raras vezes interrompe a linha com pontos ou traços curtos.

Geralmente, a criança mostrará aos adultos o seu desenho acabado, desejosa de compartilhar o seu entusiasmo. Nesta fase, é fundamental que os pais e educadores participem da experiência criadora. E isso é, precisamente, o mais importante: a experiência criadora e não o resultado do desenho.

Rabisco com nome

Tempos depois, começará a dizer, enquanto desenha: “este sou eu, esta é a minha mãe”, etc., ainda que no desenho não se reconheça nada disso. Isto é indício de que o pensamento da criança mudou. Já relaciona os movimentos com o que a rodeia. Trocou o pensamento cinestésico pelo pensamento imaginativo. Acontece por volta dos 3 anos e meio; falará enquanto desenha, mas esta conversa não se dirige a nenhum adulto; é uma comunicação com o seu próprio Eu.

A missão do educador é incutir confiança na sua nova maneira de actuar. Quando nos mostra o seu desenho, convém falar dele e perguntar-lhe, por exemplo: “O que é isto? E este, quem é? Onde estás tu?”
 
Ausência de Rabisco

Quando a criança não se atreve a rabiscar pode ter um bloqueio emocional, ou por ter sido castigada por rabiscar as paredes, ou por não ter tido material para expressar-se ou, inclusive, por não ter conseguido desenhar a maçã ou a casa que os mais velhos lhe ensinaram; Ao ver que não consegue, frustra-se e deixa de tentar. Infelizmente, este fenómeno antinatural encontra-se em todas as idades. O ser humano não pode saltar etapas. Para ajudar a criança a superar este bloqueio, não há que insistir para que desenhe; bastará dar-lhe um material diferente, desconhecido para ela, como a argila ou a plasticina, ou convidá-la a fazer pintura a dedo. Com a argila, o educador pode perguntar-lhe: “Está fria? Podes amassá-la? Podes fazer pedacinhos?” Este tipo de criança necessita de muito estímulo, pois precisa de auto-afirmação e de voltar a ter confiança em si mesma.

Por isso temos de ter especial atenção naquilo que devemos evitar nesta etapa:

- Nunca falar mal do desenho da criança, ainda que não se entenda;
- Não dar pincel nem tintas, pois não deixam ou traço concreto no papel;
- Não dar livros para colorir, pois inibem o processo criador. A criança, depois de colorir, quererá realizar estes desenhos, e como será difícil, tentará mais algumas vezes, mas depois abandonará inclusive os desenhos da sua própria criação;
- Não ensinar como se desenha;
- Não pedir que copie desenhos prontos;
- Não interromper o trabalho criador do gatafunho.

 

"Um dos primeiros meios de expressão da criança é o desenho. Após os 18 meses, ela começa a fazer uns traços que não só a levarão ao desenho, mas à pintura e à escrita"

 

Etapa Pré-Esquemática (entre 4 e 7 anos)

Nesta idade, é apropriado desenvolver o tacto, pois complementará a capacidade criadora da criança. Mediante jogos, convidá-la a tocar materiais diversos; tecidos de diferentes texturas, argila molhada e seca, esfregão, veludo, lixa, folhas de planta, etc., tendo em conta que o tacto não só se percebe com as mãos, mas também com a face, os lábios, os braços ou qualquer outra parte do corpo. Os materiais devem ser dados pelo educador.

Esta etapa é a continuação do gatafunho com nome. A criança começa a criar formas conscientemente.
Os desenhos não são só importantes para a criança como trabalho criador, mas também para pais e educadores, que agora contam com um testemunho de como a criança está a começar a organizar a sua relação com o meio envolvente. Por volta dos 3 anos e meio aparecem os primeiros esquemas da figura humana; curiosamente, é a primeira coisa que desenha de modo consciente. Ao princípio, pode ser só um círculo e duas linhas, para ir completando pouco a pouco o esquema, que ficará fixo após os sete anos.
O uso da cor e dos pincéis constitui uma experiência cativante; porém, não há indício de que possa relacionar ainda cores e objectos. Por isso, o céu pode ser verde, um homem pode ser azul, etc.
 
Os temas do desenho

Entre os quatro e os sete anos, todos os temas devem estar relacionados com a própria criança. Por exemplo:

- O dia que magoei o joelho;
- Escovo os meus dentes;
- Fui ao dentista;
- Estou a comer;
- O meu novo irmãozinho;
- Tenho uma roupa nova;
- A minha festa de aniversario;
- Atei os meus sapatos;

Em geral, todos os temas canalizam-se para uma crescente tomada de consciência do próprio corpo da criança, e dela com o meio circundante, tanto físico como afectivo.

Às vezes são as próprias crianças que relacionam os temas com algo muito importante que lhes aconteceu, como brincar com a neve ou algo que lhes chamou fortemente a atenção.

A motivação artística

A motivação é uma conversa baseada em perguntas e respostas que provocará na criança a necessidade de expressar-se. Também tem que se criar um clima alegre, onde o educador se entusiasme igualmente com a experiência que conta.

Para conseguir uma boa motivação, convém ter bem claro o tema sobre o qual se vai falar. Naturalmente, a conversa estará previamente organizada para que todas as crianças respondam à vez, num clima leve e harmónico. Por exemplo:

- Como foi a festa? De que é que foste disfarçado? A tua mãe ajudou-te a vestir? Pintaste o rosto? Onde foi a festa? Tinha muita gente? Tinha balões? E a torta? Do que era? Estava apetitosa?

Depois desta conversa, serenamente e sem que as crianças se distraiam, dá-se-lhes uma folha de papel com o resto dos materiais e pede-se para desenharem, dizendo: “Agora, mostra-me no teu desenho como foi a festa”.

Cada criança deve trabalhar no seu próprio processo criador. Tem de haver um silêncio natural; quando muito, algum comentário sobre o que está a fazer.

Se alguma criança não desenha, terá que ser motivada individualmente, sem distrair os demais. Se não foi à festa sobre a qual desenham as outras, haverá que procurar outro tema do seu interesse e conversar com ela previamente, da mesma maneira que com os outros.

Toda a motivação tem de estar baseada no onde, com quem e como foi, para que a criança seja parte activa do tema.

 Geralmente, a conversa é mais longa que o tempo que dedicam a desenhar, especialmente nesta idade. Quando as crianças se acostumam a criar, o tempo de conversa pode ser mais curto.

 

"Desde as suas primeiras manifestações, a arte é uma aprendizagem de grande importância para a criança. É fundamental para o seu processo mental, seu desenvolvimento perceptivo e afectivo, sua progressiva tomada de consciência social e seu desenvolvimento imaginativo e criador"

 

Como criar o estímulo

Assim como é fundamental a motivação, também o é o estímulo. Geralmente são necessários poucos comentários, porém alguns, de apoio e entusiasmo pelo trabalho das crianças.

Em nada as ajudaríamos se, depois de nos esmerarmos numa boa motivação, elas nos mostrassem com entusiasmo o seu desenho e lhes disséssemos: “Isto não é um homem, é um círculo com dois paus” ou “O homem não se faz assim, faz-se de outra forma…” 

Desse modo, é importante não destacar em especial o trabalho de nenhuma das crianças. Insistimos: o que vale é o esforço, o processo criador e não o resultado.

A criança tem que aprender a trabalhar pelo trabalho em si, não pelo resultado.
           
Teatro de Fantoches

Este teatro pode ser muito útil para crianças que tenham habilidade em expressar-se com as mãos. O educador conta um conto simples e a criança expressa com os fantoches (os personagens do conto) o que vai dizendo.

Desenha-se sobre um papel a mão da criança com o polegar aberto e os outros dedos fechados. Esse será o molde do fantoche. Podem fazer-se diversos animais:

Uma Rã

Corta-se um molde num feltro verde e outro num feltro de cor bege. Costura-se a borda, deixando a parte interior sem costura. Costura-se uma tira vermelha na parte superior e, na metade da parte verde, colam-se dois olhos ou dois círculos de feltro branco e, sobre eles, outros dois menores, de feltro preto. A criança coloca o fantoche, abre e fecha a mão e a rã fala.

Um Leão

Com o mesmo sistema da rã, mas de cor castanha e rosa, cola-se uma abundante peruca de lã castanha e olhos negros.

O Capuchinho Vermelho

Fazem-se duas partes em cor de pele, sempre em feltro. Cola-se uma boca, dois olhos e um capuchinho vermelho. No polegar, pendura-se uma cestinha com flores.

Fazer uma máscara

Pede-se a cada criança que diga que personagem quer ser. Trabalhar-se-á com esta meta.

Enche-se um balão para cada uma. Faz-se um nó, procurando não perder ar. As crianças cortam papel de jornal em pedaços de mais ou menos 3x3 cm. A primeira camada de papel que se cola no balão deve ser só com água. A partir da segunda camada, vai-se colando com cola branca diluída em água. Cobre-se apenas a metade do balão. Deixa-se o mais liso possível. No dia seguinte, se estiver seco, retira-se o balão e o educador recorta com uma tesoura o que será a borda da máscara e os buracos para os olhos. Cada criança pinta com tinta a sua própria máscara. No dia seguinte, pode ser colada com lã para que se faça o efeito de cabelo e franja.

Depois, coloca-se na máscara um elástico para que as crianças possam colocá-la e mostrar a personagem que fizeram.
 
O som escondido

Finalidade: reconhecer diferentes sons, timbres e lugar de procedência do som.

As crianças colocam-se em semicírculo e uma delas coloca-se à frente, de costas. As outras escolhem, em silêncio, uma para que emita qualquer dos sons que previamente todos ensaiaram com a educadora, podendo ser o rugido de um leão, o miado de um gato, o latido de um cão, um assobio, um grito, uma palmada, um bater no chão com o sapato, etc. a criança que está de costas deverá reconhecer quem emitiu o som. Depois, se adivinhar ou não, passará adiante para colocar-se no semicírculo e continuar a brincar.

O instrumento surpresa

Finalidade: reconhecer distintos timbres nos instrumentos musicais.

O esquema do jogo é o mesmo que o anterior, porém cada criança terá um instrumento musical (uma flauta doce, umas castanholas, um pandeiro, um tambor, um triangulo, dois palitos, etc.). A criança que está de costas terá de reconhecer qual foi o instrumento tocado.

 Também se pode fazer de maneira que seja a monitora quem toque os instrumentos e as crianças, de costas, adivinhem que instrumento ela tocou, ganhando aquele que descobrir antes.

A roda ou ronda

A roda ou ronda (caminhar em circulo, de mãos dadas) são jogos ancestrais que desde o começo da humanidade se utilizam com variadas finalidades, seja para a celebração de ritos sagrados, festejos ou para mera diversão. É muito interessante que as crianças aprendam a brincar harmoniosamente à roda, já que se desenvolve o sentido rítmico, o sentido de trabalho em conjunto, a capacidade motriz e se lhes oferece a oportunidade de aprender a cantar todos juntos.

É importante que a educadora se integre também na roda para que, pouco a pouco, as crianças aprendam as canções. Convém que a roda inclua movimentos com mímica, que tomarão o jogo mais enriquecedor e divertido. 

Jogos para o despertar musical

Em conclusão, a proposta que aqui expusemos é a de planificar, da melhor maneira possível, os primeiros anos da criança, conduzindo-a à musica de forma natural para que, no momento adequado, se dê inicio a uma educação musical completa que, no caso de ela mostrar aptidão, se possa converter, no decurso dos anos, numa disciplina de vida.

 

                                                                                                         
Irene Melfi Svetko
In Nova Acrópole Nº 64

 

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