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A Arte de Viver em Crise

A expressão “em crise”, hoje em dia, é generalizada, desde a camada de ozono até às profundidades da alma humana, passando pelos sistemas políticos, economia, saúde, sistemas educativos e tantas outras coisas díspares... ou talvez tão relacionadas. Talvez um denominador comum esteja por detrás das múltiplas manifestações da crise global, uma causa que conecta toda a diversidade de formas da sua manifestação.

Assistimos a uma crise de paradigmas, da queda dos velhos sistemas de pensamento, científicos, éticos e religiosos, como uma raiz comum da enorme árvore da crise global contemporânea. O velho paradigma moderno está a chegar ao fim, e não só por atingir o cume dos seus efeitos negativos, mas pelo impulso renovador dos novos paradigmas filosóficos, científicos, culturais e civilizatórios.

Durante séculos viveu-se um mito de progresso interminável, pensando que todo o avanço é sinónimo de melhoramento e felicidade. A ganância económica fez com que fosse mais importante a máquina que produz mais riqueza, do que a dignidade da vida humana com o direito que cada ser humano tem ao trabalho, e não um trabalho escravizante com vista apenas de lucros e produção, mas um trabalho que dignifique e proporcione felicidade ao ser humano.


"Crise vem do grego krisis, latinizado como crisis, proveniente do verbo krinein, o que permite a acção de separar ou decidir e também pode referir-se a algo que se quebra."


O progresso que se desenvolveu foi-o apenas no formal, no ilusório. Nunca houve tantos pobres como hoje (307 milhões), nem tantos escravos (27 milhões) e desempregados (202 milhões, só em 2012, mais 6 milhões que em 2011).

Como explica o Prof. Jorge Livraga nas sua obra “Mitos do Século XX”, esta fuga para a frente  fez prevalecer o número sobre a qualidade e a rapidez da marcha sobre a orientação da mesma... o resultado é o que podemos observar.

Esta formatação mental de um progresso linear acabou por penetrar em quase todos os aspectos da nossa vida, a ponto de não conseguirmos admitir qualquer baixa, qualquer crise. Com isso a economia denominou a linha descendente de “crescimento negativo”, pois não se pode falar de decrescimento, e a vida tornou-se um tormento de cada vez que temos um reverso. O tempo, a vida, a história e tudo o que nelas se encontra não é um processo linear, hoje, como sempre, o tempo é cíclico, ligado a processos naturais de amplas transformações e que as nossas curtas visões muitas vezes não conseguem vislumbrar.

Na China, os ideogramas que compõem a palavra crise são o de “perigo” e o de “oportunidade”. Mas para nós, ocidentais, a crise é vivida mais como perigo do que como oportunidade, pois somos herdeiros de uma cultura de conforto, em que temos medo de abandonar a “zona de conforto” que nos mantém reféns. Embora nos deslumbremos com o movimento superficial, a atracção pela novidade, por saltar de uma para outra coisa, quando se trata de mudanças profundas sentimo-nos perdidos.

Entrámos na era da incerteza e deve-se viver a incerteza não como uma angústia mas como uma possibilidade, este é o grande desafio para se desenvolver a arte de viver em crise. Podemos, por isso, agradecer ao momento em que nos calhou viver, pois ele impulsiona-nos à transformação, abre-nos as portas da oportunidade.



"... os únicos entre vós que serão verdadeiramente felizes serão aqueles que procuraram e encontraram uma forma de servir." (Albert Schweizer)



Crise vem do grego krisis, latinizado como crisis, proveniente do verbo krinein, o que permite a acção de separar ou decidir e também pode referir-se a algo que se quebra. Indica sempre uma contenda entre duas forças contrárias, uma que resiste e outra que quer mudar: a velha dialéctica entre o antigo e o novo, o que conserva e o que transforma. A crise é como um estado de crisol, como a crisálida (crise alada), o estado que leva à passagem da lagarta a um ser alado, é o atanor alquímico onde se separa o ouro da sua escória mais pesada.

A condição humana é a de um ser em permanente crise, pois a condição humana é a de se ir transformando e toda a transformação obriga à passagem do estado de crise. Só a não transformação, se isso fosse possível, é que estaria ausente de crises.

Os tempos de crise promovem o questionar-se e a reflexão. É nesses momentos que mais nos interrogamos. É quando surgem os problemas, as dificuldades, as próprias dores, que nos questionamos sobre o valor das coisas, sobre as decisões que tomamos, o sentido da vida, os valores, etc. O valor de uma realização cresce no meio de lutas, dificuldades, obstáculos e incompreensões. A gratificação do viver está no crescimento.

Os tempos de crise exigem coragem. As mudanças tiram-nos da nossa “zona de conforto”, servem para nos provar, para nos exercitar, para nos aperfeiçoar.

Necessitamos sempre de “desastres” para aprender?

Realmente não devíamos necessitar, mas é que sem eles não mudávamos. Somos seres de hábitos e, por isso, continuamos a fazer o que habitualmente fazemos até sermos forçados a mudar.

Os obstáculos, dores e dificuldades com que a vida nos contempla não têm o propósito de nos castigar mas sim de nos educar, são o nosso potencial de mudança da nossa forma de pensar. Devemos encarar os “desastres” como necessidade de uma experiência. Se a conquistamos, e não a rejeitamos, então não necessitaremos de passar por ela de novo. Quando mudamos a nossa forma de pensar atraímos circunstâncias diferentes.

A nossa vida é o reflexo das crenças que temos. A prosperidade, a capacidade de mudança, está na medida em que somos donos da nossa própria mente, independentemente daquilo com que os outros ou os meios de comunicação nos bombardeiam, formas mentais paralisantes e catastróficas da crise, pois se cedermos ao medo ficamos à mercê da manipulação dos “amos da caverna”. O problema da carência económica, para além dos casos de real pobreza, é mais um problema mental, da relação que temos com o dinheiro e da valorização que lhe atribuímos.

Como a história que se conta de Sócrates, que um dia ao passear por um mercado com os seus discípulos, por cada bancada que passava esboçava o seu espanto. Após algum tempo e o constante espanto de Sócrates pelas bancadas dos mais diversos produtos, os discípulos, intrigados, resolveram-lhe perguntar, como era possível que o mestre Sócrates se espantasse pelos mais diversos bens materiais e de luxuria, ao que Sócrates respondeu: “Ah, como me espanto pela quantidade de coisas que não necessito”.

Ao contrário de Sócrates, cada coisa que vemos, achamos fundamental; cada coisa que possuímos, um prolongamento de nós próprios; sofrendo com cada perda material ou com cada coisa que não se consegue possuir.

A prosperidade não é necessariamente monetária, mas talvez fundamentalmente de estilo de vida. Enquanto se acreditar que algo na vida é um desastre, esse algo continuará a ser um desastre. Não é por a vida estar um desespero que pensamos mal, mas é por pensarmos mal que a vida é um desespero.

O dinheiro permite ser rico mas não necessariamente ser feliz.

O propósito da vida não é estar sem problemas, coisa impossível, mas sim estar entusiasmado. É importante não apenas fazermos aquilo de que se gosta mas gostarmos daquilo que fazemos. Com esta atitude podemos ter prazer e usufruir do que fazemos em cada momento ou em cada trabalho que temos. Torna-nos livres e abre-nos enormes oportunidades de conhecimento e crescimento. Devíamos pensar que não trabalhamos para um patrão, mas que trabalhamos para nós mesmos. Devemos dar o nosso melhor, não para agradar, mas para desfrutarmos do trabalho e sermos felizes.

Se queremos descobrir a nossa vocação há que quebrar as rotinas e a crise traz-nos essa possibilidade, a de experimentar outras vias, outros modelos, etc.

Os momentos de crise permitem também desenvolver o espírito de partilha e solidariedade.

“... os únicos entre vós que serão verdadeiramente felizes serão aqueles que procuraram e encontraram uma forma de servir.” (Albert Schweizer)

Os momentos de crise permitem fazer crescer a coragem, pois o acomodar-se na agradável “zona de conforto” faz amolecer a coragem e a determinação. A coragem não é a ausência do medo, mas a coragem de agir não obstante o medo. As pessoas que não fazem nada nas suas vidas estão tão ou mais assustadas do que aquelas que correm riscos enormes. O problema é que as primeiras se assustam, vivem em pânico à mínima coisa.

Quando dizemos que as coisas são “impossíveis” o que queremos dizer é que são “muito inconvenientes”, isto é exigem esforço e/ou abdicação. Como dizem os estóicos: “Não é por as coisas serem difíceis que não ousamos, mas é porque não ousamos que elas são difíceis”.

“Um homem conhecedor vive a agir, não a pensar que tem de agir.” (Carlos Castañeda)

A motivação surge na medida em que vamos realizando coisas e não a passarmos o tempo a pensar nelas. É a acção que entusiasma e revela a oportunidade.

A crise obriga-nos a sair da rotina, a descobrir e alcançar outras possibilidades, outras alternativas, pois se se fizer o que sempre se fez, vai-se conseguir o que sempre se conseguiu.

 


"O dinheiro permite ser rico mas não necessariamente ser feliz."


Temos feito depender muito a nossa felicidade das circunstâncias externas, do que a sociedade oferece, de como os outros se comportam e respondem às circunstâncias.

Quanto menos rígidos formos sobre como a vida deveria ser e sobre como as outras pessoas se deveriam comportar, mais fácil será ser feliz. Não são os incidentes que nos perturbam mas os julgamentos que fazemos sobre eles. Durante toda a vida fomos condicionados a ter determinados pensamentos sobre as coisas e vamos repetindo-os através das nossas palavras, julgamentos, acções, modos de vida, etc., quase como máquinas formatadas. Os momentos de crise levam-nos a questionar essas mesmas premissas a mudar as posturas frente aos acontecimentos da vida, a descobrir outros ângulos sobre o qual podemos olhar o mundo, os outros e a nós mesmos.

Gostaria de concluir esta reflexão com as palavras claríssimas de Einstein sobre a atitude frente à crise:

Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar “superado”.

Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la.
Albert Einstein

 

José Ramos
Director da Nova Acrópole Coimbra

 

Bibliografia:
Llamazares, Ana Maria; El arte de vivir en crisis.
Livraga, Jorge Angel; Grandes Mitos do Século XX.
Mathews, Andrew; Siga o seu coração.

 



 

 


 


 

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