Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

Bela entre a Verdade e a Beleza

Florbela de Vicente do Ó

 

«As almas das poetisas são todas feitas de luz,
como as dos astros: não ofuscam, iluminam…»

In À Margem de um Soneto

Há algo que é fascinante quando nos aproximamos da poesia de Florbela, quando a começamos a ler naturalmente, a seguir a sua melodia, o seu ritmo, a vibração dos seus versos… que é o contacto com outro mundo, além do quotidiano da sua época ou de outra qualquer, e entrar num tempo, espaço, sentimento diferentes. Contactamos, de forma inconsciente, ao início, com uma marca fortemente inspiradora e genial. A síntese que encontra e cria em alguns versos, fundindo o seu mundo interior com o envolvente, o quotidiano da sua alma com as aspirações mais elevadas do seu espírito.

Entender isto, em algum momento, no nosso percurso, lendo Florbela Espanca, é fundamental. É absolutamente essencial entendermos e percepcionarmos que além de uma mulher dos anos 20, além de camponesa por uns, lisboeta por outros e de Matosinhos nos últimos anos; além de ser mulher, filha, aspirar a ser mãe, além de ser rejeitada, de ter vitórias e derrotas como todos nós, nela fluía algo da eterna seiva da natureza, do feminino que é vida e doa vida, especialmente portuguesa… O seu supraquotidiano é o que nos prende, o que cativa o leitor, o que o faz voar e identificar-se por vezes. Enfim, o que o faz manter-se fiel ao sagrado e ao imortal que capta a sua poesia:

«E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...»
(F. E., in «Amar!»)

Portanto, foi com grande agrado e expectativa que recebi, há vários meses, a notícia de que se levaria Florbela às salas de cinema, que se poderia relembrar a grande poetisa e a nobre mulher, de ideias convictas e acções determinadas, de coração sensível e apaixonado, de enorme esforço e dedicação ao Belo, sempre procurando a verdade última das coisas.

«Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.»
            (F. E., in «Versos de Orgulho»)

Como nas Cantigas de Amigo da Idade Média, aqui encontramos o eu poeta na demanda partilhada com o sua senhora amada, a sua alma.

Bela – assim gostava de ser chamada pelos muito próximos – como poetisa foi provocante na ideia, atrevida na forma (tornou o soneto vivo, cantável pelo povo*), sobretudo sensível e profunda na fusão dos dois. E estes foram os seus dons, pecados vistos ao olhar do outro sempre pronto a diferenciar.

Muito se vai falando da poetisa, particularmente dos seus menos bem sucedidos factos pessoais, que a seguem desde o pré-nascimento à morte. Da mãe ausente, do pai distante e, por vezes, alienado do real, do irmão excêntrico, da relação entre os dois – tentando sempre recriar-se um amor que o era fraternal e cúmplice, em que Florbela passa de quase mãe, que foi, a amante amoral – dos casamentos em que respirava incompletude e dos sucessivos divórcios, das várias gravidezes sem sucesso, da morte inesperada do irmão – que a leva a escrever belíssimos Contos, compilados em «Máscaras do Destino» – que título enigmático! Destes destaco «O resto é perfume…» e «Oferta do Destino», pela sua profundidade subtil e transparência nessa procura que transmite. Ainda se aborda a homossexualidade do último marido, Mário Lage; do pai a ter perfilhado cerca de 20 anos após a sua morte; da saga hilariante da colocação do seu busto de homenagem no Jardim Público de Évora; e, das eternas demandas da Escola Florbeliana encabeçada pela ilustre Aurélia Borges, sua discípula, a que – passados hoje mais de oitenta anos da sua morte – sempre se escusou a julgar a sua vida pessoal mas antes a divulgar a sua poética e o valor inquestionável da sua obra.

Mas pouco se aborda a sua transcendência, tentando encaixá-la num determinado diagnóstico psiquiátrico ou psicanalítico que, a custo, e com alguns vieses, vai acabando por fazer certo sentido – pelo menos a quem o defende ou o faz por aceitar – e se aplica a todos os génios do nosso e de outros tempos! Assim, se sintetiza a história da nossa História, um conjunto de desequilibrados que fruto da sorte foram sobressaindo, cada vez mais fora do que dentro do território nacional, pelo menos nos últimos séculos.

Quem lendo Florbela, despindo-se dos seus preconceitos, pode primeiramente entendê-la como instável, senão antes como uma alma trilhando o seu caminho, buscando uma via de cumprir o seu génio, a sua vocação, a de sentir tudo com uma tal sensibilidade e de o traduzir divinamente em versos. Como me dizia uma artista calipolense, há alguns meses atrás, «Não podemos esquecer que a poesia de Florbela está viva!». O certo é que está! – ao dispor de quem o queira sentir.  Pessoa escreveu «Alma gémea da minha» num poema encontrado no seu baú, a que chamou Florbela.

Pois bem, as inúmeras pessoas que em Portugal, no Brasil, Espanha,… – para citar alguns países – penetram em Florbela e no que ela significa para a Arte e como símbolo da Alma Lusitana, sabem que não é assim. Não a podemos entender somente somando algumas acções ou factos e excluindo outros para construir uma análise que se quer consistente e inabalável.

Não obstante todos os seus sofrimentos físicos, Florbela lutava por uma harmonia, uma estabilidade criadora. Encontrara, desde a infância, nos livros e depois na escrita, as amizades profundas que lhe faltavam, os tesouros que ia levando consigo até ao porto final. Todos estes dados estão claramente reflectidos nas suas cartas, particularmente a correspondência que, durante anos, manteve com a sua amiga da capital, Júlia Alves. A sua dor parece ter sido sempre superada, pela arte, pela entrega e pelo Amor Maior.

Até que sentida terminada a sua missão ou esgotadas as suas forças para buscar novas formas se entregou, tranquila e ainda esperançosa, ao cuidado justiceiro e terno da morte. Como uma Flor murcha se entrega ao leito quente e maternal da terra, regeneradora, alimentadora, transformadora. Florbela entregava-se a novos frutos, a novas folhas, a novos ramos verdejantes, em pleno Inverno frio e terrivelmente chuvoso, nas palavras de Guido Battelli, enfim, a uma nova Primavera.

Recordar Florbela, para mim, como poetisa e escritora, é entrar nesse outro lado invisível em que se reflectem todos os espelhos da alma, é partilhar a nutrição que nos vem da Natureza, da sua sabedoria e amor.


«Volto para o grande monte iluminado, lá ao fundo, lentamente, sem grande pressa de chegar. A noite envolve-me toda, anestesia-me, mãos pálidas e suaves que afagassem devagarinho um mendigo leproso. Sinto-me mais pura nesta pureza imensa, mais limpa, mais lavada de culpas do que se tivesse nascido agora.
(…)

Janela aberta, noite alta, o luar canseiroso vem ainda dar a última demão de cal às paredes do meu quarto, e quando o sono me vem, enfim, fechar os olhos, ainda fica a trabalhar até de madrugada, até a esse instante em que a andorinha, a primeira ave acordada, solta o seu grito de oiro e atravessa, como uma flecha, o céu ainda pálido sobre a charneca ainda adormecida.»
(F. E., in «Carta da Herdade»)

Ao assistir, em antestreia, ao filme Florbela foi, de algum modo, a oportunidade de entender como a nossa concepção e forma social nos pode perturbar, confundir e levar mesmo à deturpação.

De realçar, particularmente no quadro do cinema nacional até então, a qualidade da Fotografia e a acção, incluindo efeitos especiais e alguns aspectos da trama em si, como a completude no detalhe artístico e sequência nos diferentes estádios do filme (cenas). São de especial beleza os seus momentos de inspiração, em que Florbela mergulha noutro tempo-espaço.

Numa das suas cartas faz referência a um episódio que a surpreendera. Pela noite, já no seu quarto, ouvira um cantar natural e espontâneo que corria nas vozes populares e, quando se aproximou, verificou que estas gentes, como tributo ao seu génio, haviam musicado um poema seu, cantando-o alegremente.

 

 

Destacaria ainda a cena que, para mim, contem um carisma singular, a qual retrata um diálogo de Florbela com o pai do Mário Lage, no jardim de sua casa em Matosinhos, apresentando uma profundidade filosófica e vivencial impar.

No entanto a desilusão surge quando percebemos que toda a ambiência do filme é imagem de um cambiante de intrigas que, durante décadas, penalizou a sua imagem literária, irmanada da pseudobiografia de Agustina Bessa-Luís. É de incerteza se o seu segundo marido, António Guimarães, alguma vez a terá agredido fisicamente; é absolutamente inacreditável a relação incestuosa com o irmão, a tentativa de suicídio em Vila Viçosa em que o pai a salva, … nestes factos se baseia o filme! Não nos opomos à liberdade ficcional, todavia a uma boa oportunidade não valorizada para realçar a expoente nacional e internacional que representa esta mulher – Florbela. Fica ainda aquém a caracterização e cenário que, mais do que passado no decurso da década de 20 do século passado, parece um revivalismo das décadas de 50-60!


Isto muito nos impactou bem como àqueles que amando a obra de Florbela a ela se tenham dedicado em estudo atento e detalhado ou simplesmente espontâneo e ocasional.


A sua singularidade não se prende com aspectos quotidianos do seu eu, da sua personalidade; todavia na capacidade de voar, de contactar com a subtilidade de conceitos noutra dimensão maior, altamente inspirada e inspiradora, contentores de algo mais daquilo imaterial que nos aproxima da realidade e da verdade da Alma, à semelhança do que apresenta o Prof. José Carlos Fernández na sua obra «Florbela Espanca – A Vida e a Alma de uma Poetisa».

Nesse sentido, não podemos terminar sem louvar a dedicação da sua discípula, Aurélia Borges, que há várias décadas divulga a sua obra, destacando a sua sabedoria e elegância, manifestas também na sua doce e penetrante literatura.

Por fim, desde há alguns meses para cá, destacaria o afinco dos «Amigos de Florbela» e do Grupo de Poesia Florbela Espanca da Associação Cultural Nova Acrópole, em Lisboa, que tem realizado inúmeros recitais, representações teatrais e conferências a nível ibérico, integrando, divulgando e explicando a obra da talvez maior poetisa portuguesa. E, autores da única iniciativa conhecida, a nível nacional, que comemorou, de forma especial, os 80 anos da morte da poetisa, no passado ano de 2010.

Pensamos que o maior agrado que poderíamos entregar à poetisa calipolense é viver a sua poesia, trazê-la de volta, de um modo que as circunstâncias do mundo não ofusquem, de alguma forma, a sua grandeza e completude.

Para além das tormentas por que passava, grande foi o sucesso verificado aquando da publicação de «Soror Saudade», em sua vida. Este encontra par no apreço bem evidente que os leitores lhe reservam até hoje. Este afecto é para-racional, resulta da delicadeza e pertinácia da sua pena que toca o coração do leitor simples, descomprometido e livre.

 

Severina Gonçalves

* Numa das suas cartas faz referência a um episódio que a surpreendera. Pela noite, já no seu quarto, ouvira um cantar natural e espontâneo que corria nas vozes populares e, quando se aproximou, verificou que estas gentes, como tributo ao seu génio, haviam musicado um poema seu, cantando-o alegremente.


curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster