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Os Alquímicos Jardins de Bomarzo


bomarzo


De cada vez que visitei os Jardins de Bomarzo, fosse verão ou inverno, cobertos de frondosa vegetação ou sob o pálido manto da neve, tive a sensação de caminhar sobre uma vereda aberta ao infinito, ou de percorrer as páginas de um livro de símbolos herméticos, como os emblemas de Athanasius Kircher ou Alciato.

Os textos alquímicos mais importantes que se publicaram foram levados a cabo a partir de signos e ideogramas que o aprendiz deve desentranhar e, nos Jardins de Bomarzo, estes textos estão escritos em pedra. Chamou-se-lhe o “Parque dos monstros” (Il Parco dei Monstri), não só pelas representações alegóricas que podem parecer-nos mais ou menos oníricas, mas também porque se trata de um lugar de ensino, de algo que se deve “mostrar”, pois como assinala Emanuela Kretzulesco-Quaranta (“Os Jardins do sonho”, ed. Siruela, 2005) “as esculturas que o adornam são conhecidas como os “Monstros de Bomarzo”, mas o termo deve entender-se no seu sentido latino – verbo mostrare- de coisas que mostram, que aclaram (os conceitos) ”. Este Bosque Sagrado, e enigmático, é, na realidade, um itinerário para uma viagem mística na busca do conhecimento ao fundo de nós mesmos.

Foi realizado por ordem do príncipe Pier Francesco Orsini, com o cognome Vicino, diz-se, ante o desconsolo que lhe produziu a morte prematura da sua querida esposa Giulia Farnesio falecida em 1560. Encomenda a sua realização ao arquitecto Pirro Libório, que também se ocupará de culminar a obra de São Pedro, aquando da morte de Miguel Ângelo, e levar a cabo a conhecida Villa d’Este em Tivoli (ainda que não exista consenso a este respeito pois muitos vêem nestes jardins a mão de Raffaello da Montelupo, Jacopo del Duca, Vignola ou Bartolomeu Ammannati). Outros jardins italianos também nos recordam a arquitectura simbólica baseada em referências geométricas, aritméticas e herméticas como os jardins de Villa d’Este (Tivoli), Villa Lante (Bagnaia), Médicis (Pratolino), Giulia (Roma), Frascati ou Farnese (Caprarola).

Vicino vive de 1523 a 1583 num ambiente culto e refinado que funde as suas raízes nas tradições neoplatónicas da sua família. O seu avô Franciotto Orsini era sobrinho de Clarisa, a mulher de Lorenzo o Magnífico, e terá passado a sua juventude em Florencia onde recebeu a mesma educação renascentista que os seus primos, os filhos da sua tia, de mestres como Marsilio Ficino ou Poliziano ao abrigo do centro mais reputado do conhecimento da época, a Villa Careggi. Vicino Orsini mantém correspondência com as melhores mentes do seu tempo, como se reflecte nas cartas com o alquimista francês Jean Drouet, ou os encontros com o núcleo de pensamento liderado por Renée de Valois, filha de Luis XII, ou as suas relações intelectuais com os mais doutos cardeais da sua época, como foram Gambara ou Farnesio ou Madruzzo que seguiam o rasto de Papas ilustrados como Nicolás V ou Pio II, que um século antes já se tinham aberto ao humanismo.

Amor

Neste ambiente desenvolveu-se a vida desse “peregrino do amor” que foi Vicino e que no Sacro Bosco de Bomarzo lutou por vencer a morte da sua amada, o que a alquimia chama O Triunfo do Amor, mais além das portas da morte onde as almas dos amantes voltam a reencontrar-se outra vez, num hieros gamos eterno.

Da maqueta do Jardim parece desprender-se o mesmo percurso que Polifilo realiza em busca da sua amada Polia, tal como se reflecte na obra atribuída a Francesco Colonna “Il sogno di Polifilo” (a Hipnerotomachia Poliphili, publicada em Veneza em 1499 pelo editor Aldo Manuzio).

Vicino Orsini e o sonho de Polifilo

No Sacro Bosco de Bomarzo podem-se encontrar as referências oportunas que nos permitem identificar estes jardins com o itinerário simbólico que segue Polifilo nos seus sonhos.

O Sonho de Polifilo (a Hipnerotomachia Poliphili/Battaglia d’amore in sogno di Polifilo) é uma complexa e enigmática obra que se atribui a Francesco Colonna, o que se deduz do acróstico que deriva das primeiras letras dos trinta e oito capítulos e que reza assim: ”poliam frater franciscos columna peramavit” (“Frate Francesco Colonna amou muitíssimo Polia”), e que autores como Maurizio Calvesi (O sonho de Polifilo prenestino, ed.Officina,1980) quiseram ver um membro de uma ilustre família romana, senhores da Palestrina, chamado Francesco Colonna nascido em 1430 e formado na Academia de Pomponi Leto. Atribui-se comummente a um monge dominicano de Treviso, apelidado de Colonna e morto em Veneza em 1517, embora para Emanuela Kretzulesco-Quarante pareça impossível que tenha sido este o autor, inclinando-se para atribuí-lo a Leon Battista Alberti.

Seja como for, a Hipnerotomachia Poliphili é uma obra de importante conteúdo simbólico, e como tal foi utilizada em numerosas ocasiões como livro de cabeceira de sociedades mistéricas. Assim, a Sociedade da Névoa à qual pertenceu Júlio Verne, Alexandro Dumas, Gérard de Neval, Gaston Lerroux, Maurice Leblanc, Maurice Barrès, George Sand e Delacroix reunia-se a analisar as enigmáticas paisagens do Sonho de Polifilo (Enigma, Cebrián et alter, ed. Temas de Hoy, 2005); não é em vão que a personagem principal da “Volta ao mundo em oitenta dias” é apelidada de Phileas Fogg (algo assim como o que ama a névoa).

Polifilo, através dos seus sonhos deambula na busca de Polia, sua amada, e as suas rotas levam-no às mais recônditas paragens que o levam a sonhar dentro do sonho, numa espécie de sono sem sonhos, no qual ele se sonha a si mesmo.

Na sua busca tem que ir superando uma série de obstáculos e experiências que o levam por distintos cenários nos quais se tornam presentes a mitologia e as antigas ruínas dos templos e monumentos. O bosque onde ele se encontra no início do seu percurso é o que lhe inspira um certo temor e que os próprios Jardins de Bomarzo relembram na sua totalidade. É como uma referência ao bosque da matéria que tudo oculta e onde o neófito se perde na sua densidade, a selva selvaggia, a selva escura…

 

Cavalo

 

Polifilo tem que passar frente à pirâmide e ao obelisco, à estátua do cavalo alado, ao elefante com outro obelisco no seu dorso, os hieróglifos que deve decifrar, o dragão na porta da pirâmide, o encontro com as cinco ninfas, simbolizando os cinco sentidos, na fonte, a pirâmide sobre o cubo que o recorda da qualidade trinitária do ser, a presença de Vénus, os Campos Elíseos, o jogo do xadrez, Marte, o Anfiteatro, o Templo e o adeus final a Polia, recordando que, embora sepulta, continua viva, todas elas imagens alegóricas que voltamos a encontrar no Parque dos Monstros de Bomarzo.


Um “caminho” nos jardins

O tempo e o abandono deixaram que os jardins se fossem cobrindo com ervas daninhas, como ocorreu com quase todos os jardins do Renascimento, até que os viajantes os foram redescobrindo. André Pieyre de Mandiargue descreve-os como “o jardim endormi de Bomarzo”, o pintor surrealista Salvador Dali em 1948 entusiasma-se com eles, Jean Cocteau interessa-se por Bomarzo, o escritor argentino Manual Mujica Laínez escreve o seu Bomarzo, ou a ópera Bomarzo de Alberto Ginastera, todos eles se vão interessando na sua beleza até que Giovanni Bettini se encarrega de os adquirir e de os pôr em ordem e elaborar uma “Guida al Parco dei Monstri”.

Jardins de Bomarzo

Duas esfinges vigiam a entrada do jardim, com enigmáticas inscrições em remedo daquela que venceu Édipo: “Tu que aqui entras com a ideia de vê-lo de parte a parte, diz-me logo se tantas maravilhas se fizeram por engano ou antes por arte”; “Quem não deixa este lugar com as sobrancelhas arqueadas e os lábios apertados, tão pouco saberá admirar as sete maravilhas do mundo”, preludiam um caminho cheio de surpresas…

No final da avenida das árvores, o viajante encontra-se com imagens de Saturno, Jano, e uma referência clara aos números com as colunas de uma, duas ou quatro caras com a qual nos recorda o Timeu de Platão, “um, dois, três, mas querido Timeu, onde está o quarto?”, e isso conduz-nos à Grande boca de fauces abertas e coroada por um astrolábio, sobre o qual se apoia um fortim de cinco torres, que no seu conjunto representam os três planos do conhecimento onde, como o mítico Jonas, devemos ser engolidos pelo monstro para poder ascender ao fortim superior, onde se encontra a Cidade Celeste coroando os três níveis.

Hércules

 

 

 

 

 

 

 

 

Em tempos de Vicino, continuava um labirinto de sebes que conduzia ao templo dedicado ao Amor, e mais adiante, a luta entre o bem e o mal, na representação de Hércules esquartejando Caco pela metade, o andrógeno abre-nos dois caminhos e um busto de Pan recorda-nos que aqui começa o itinerário filosófico e poético.

 

 

 

Tartaruga

 

Como no sonho de Polifilo, uma tartaruga gigante com um globo na sua carapaça, e sobre ele uma bela jovem que pode representar a matéria na tartaruga e o Anima Mundi na donzela vitoriosa sobre ela; e olhando na mesma diirecção um Pégaso que está a ponto de levantar voo.

Uma Harpia com rabo de peixe, uma Sereia bífida e um casal de leões recordam-nos o fundo aquático da matéria, que nos serve de baptismo e não podia faltar, na terra, o Urso heráldico dos Orsini que nos presenteia uma rosa.

O cérbero de três cabeças custodia o caminho que nos conduz a uma grande Cara que se assemelha a uma gruta, pois a ela nos leva um conjunto de degraus que finalizam numa enorme boca que imprime no seu lábio superior: Ogni pensier vola (todo o pensamento voa) e no seu interior há uma mesa de pedra onde se pode realizar uma refeição ritual e sair da gruta renovado.

 

 

Elefante

Depois, como emulando a Polifilo, o caminhante encontra-se com o elefante, neste caso rematado por uma torre, que com a sua trompa pega no neófito vestido de guerreiro. Este ao ser afastado do solo trepa-o na torre onde, se supõe, se refugia no contacto com a sabedoria. E mais adiante o Dragão lutando com a loba, que como no sonho de Polifilo custodia a “entrada”, e o ninfeu, ou seja, a gruta das ninfas onde o peregrino deverá controlar os seus sentidos. Adornam Bomarzo uma série de divindades mitológicas que nos resenham, cada uma delas, ideias e meditações. Assim encontramos Vénus (vestida como uma antiga matrona romana), Neptuno sentado, a ninfa dormente do bosque encantado como a alma que espera ser despertada, Ceres, as três graças, Zeus, Proserpina…

 

Casa inclinada

 

Uma das representações mais enigmáticas do parque é a Casa inclinada que nos recorda um mundo que se afunda, instável, no qual há que sobreviver e superar as dificuldades, um verdadeiro lugar de meditação, que na época da sua construção foi sítio de retiro, como o corrobora uma inscrição que atesta que o cardeal Madruzzo amou este lugar. E também inclinado, é o leito funerário etrusco, que nos recorda a passagem para o outro mundo e que o mítico sorriso etrusco nos sugere a felicidade do trânsito a outra dimensão, sorriso que neste caso o visitante deverá pôr pois o leito encontra-se vazio.

 

 

 

 

Templo

 

 

 

 

E finalmente, o Templo ricamente construído, onde Vicino Orsini, como Polifilo, reencontraria a sua amada Giulia, tal como Polia, mais além da morte num jardim que é um hino à vida, um jardim, um bosque sagrado, onde “se mata a morte pela força do amor”.

 


Níveo Bomarzo

Bomarzo no Inverno, com as suas figuras que surgem do conjunto de plantas e de pedras onde se desenham os seus intrincados labirintos, os seus jardins cobertos de neve, torna-se, se é possível, ainda mais enigmático. Nada é igual no parque dos monstros. Cada vez que Segismundo retornava, tudo parecia ter mudado, mas, no entanto, as figuras gigantescas continuavam permanentes, impertérritas, como alheias à passagem do tempo, pois o que na realidade mudava eram as estações e o próprio Segismundo.

Como noutras ocasiões, tinha um encontro, desta vez na casa inclinada. Fazia-o sempre assim, mas este tinha que ser o definitivo. Nos encontros anteriores, sempre na primavera, os supostos eruditos não o haviam brindado com a resposta às suas demandas. O que significavam aqueles monumentos de granito que falavam desde a rocha, com signos opacos rodeados pelas nervuras da folhagem? Arcanos silenciosos, que pareciam, agora, ainda mais silentes sob a neve espessa de um dezembro inclemente.

De cada vez que regressava, imaginava o príncipe Orsini desenhando o labirinto de imagens pétreas para diminuir a dor pela morte da sua amada Giulia Farnese e, também recordava passadas adivinhações no Orco dentro da boca do monstro, ou no Templo, outras vezes no Teatro… sem encontrar as chaves da mão de jardineiros peritos. Desta vez tinha elegido a Casa inclinada, quiçá pela inclemência do inverno ou por essa premonição de buscar os símbolos instáveis.

Quando passou pela estátua do elefante com a torre às costas, uma das suas preferidas, recapitulou na sua memória encontros anteriores e tentou recordar os ensinamentos recebidos, mas a sua consciência fundia-se na incerteza, como as suas pernas, até quase aos joelhos, na neve branda do jardim. Deixou a um lado a ninfa dormente, passou junto à Tartaruga e ao ultrapassar o Pégaso, imaginou que a ele também lhe tinha chegado o momento de voar.

Ao chegar à Casa inclinada, o frio era muito mais intenso e pelas janelas sem gelosias corria um vento gélido. Protegeu-se num recanto e esperou. Era a hora assinalada mas ainda não tinha chegado. Desta vez, já não se tratava de um perito em jardins simbólicos, tinham-lhe falado dela e tinham-lhe dito que filosofava.

- Eu sou a Alba, há muito tempo que me esperas?

- Só uns minutos (ou talvez séculos…)

- Disseram-me que queres saber como desentranhar o mistério deste jardim encantado.

- É possível?

- Estes jardins de Bomarzo são algo mais que uma história de amor. Aproximam-se mais à filosofia do Amor. Toma, quiçá aqui esteja tudo…

Segismundo apertou o livro entre as suas mãos, enquanto Alba se fundia no ocaso da tarde e se perdia enredada entre a neve, as pedras e as plantas. A luz perdia-se nas entranhas do mundo e na penumbra da Casa inclinada conseguiu ler Hypnerotomachia Poliphili. Forçou a vista e continuou a ler: “Amável leitor, escuta Polifilo falar dos seus sonhos. Sonhos enviados pelo céu mais alto”. A noite caía sobre o níveo Bomarzo submergido em neve e com notável dificuldade pôde ler, mais adiante: “Ali verás os palácios perfeitos dos reis, a adoração das ninfas, as fontes, os ricos banquetes. Os guardas bailam em trajes heterogéneos, e toda a vida humana se expressa em escuros labirintos”.

A noite submergiu, definitivamente nas sombras, a casa inclinada e dentro dela Segismundo continuava imóvel, como outra estátua de pedra do jardim dos monstros. Havia tanta luz naquele livro.

Juan Manuel de Faramiñán Gilbert
In Revista Esfinge


 



 

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