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Carnaval – Saturnalis 

De acordo com a sua etimologia, Carnaval provém de Currus Navalis, uma espécie de barco que se lançava à água no dia 5 de Março durante as festas romanas em honra de Ísis e nas quais as pessoas se mascaravam como se faz hoje nas festas de Carnaval.

O termo Carnaval – proveniente de Itália – tornou-se usual a partir de séc. XVIII e é composto de duas palavras, carne e vale, que significa o fim da carne, termo que institui a interdição de consumo de carne, estritamente ligado à Quaresma, como início dos rituais de penitência.

O período de celebração varia sensivelmente de um povo para outro, mas todos os povos têm em comum o facto de fazerem coincidir o seu início um pouco antes do novo ano astrológico, que corresponde ao equinócio da Primavera.

Em Roma, as festas do Carnaval, chamadas Saturnais, começavam em Janeiro e acabavam em Março com o culminar dos CURRUS NAVALIS.

Se analisarmos as diversas origens desta festa de passagem (do Inverno para a Primavera), poderemos deduzir que existe sempre uma relação entre os ciclos da natureza e os próprios ciclos da vida humana. O homem é uma parte da natureza e, portanto, sofre como ela de vários estados (estações) de tipo físico, psicológico e mental.

O Carnaval, ou seja, o período que assinala a instituição da interdição do consumo de carne, está também associado ao factor tempo (Saturno-Saturnais).

Saturno tem por atributo uma foice que talha e que corta tudo o que é efémero e transitório. A carne, ou natureza mortal, representa o elemento corruptível, aquele que é abolido pelo tempo.

Saturno, deus do tempo e da evolução, assinala o fim de um ciclo de vida (Inverno), permitindo assim a renovação da natureza. O homem esgotado por um ano de vida e de experiências, deverá também regenerar-se interiormente e aprender a libertar-se das máscaras da personalidade para renascer como ser puro, espiritualizado. A personalidade do homem é uma máscara, como nos faz lembrar a etimologia desta palavra (persona = máscara).


"...o objectivo do Carnaval é possibilitar que se arranque a máscara. É a oportunidade de uma nova criação; recriar o homem novo, renascido para e eternidade..."

Assim, o objectivo do Carnaval é possibilitar que se arranque a máscara. É a oportunidade de uma nova criação; recriar o homem novo, renascido para e eternidade. Neste contexto, a magia do Carnaval é tomada no seu sentido ritualista; é um ato consciente de regeneração, após a purificação da personalidade.

Para os povos da antiguidade, a festa do Ano Novo e do Carnaval tomavam assim um aspecto de drama, que confrontava a Vida e a Morte, o Inverno e a Primavera, o Bem e o Mal. Durante as cerimónias que iniciavam este ato de regeneração, os povos primitivos narravam as palavras míticas da criação, reviviam o ato inicial da vida, o que permitia ao homem regressar às origens das coisas, fundir-se com o divino e, pela narração destas palavras sagradas, purificar-se das máculas do tempo profano. Encontramo-nos aqui com a atitude de retorno à essência, aos primeiros modelos – os arquétipos – às ideias puras de que nos fala Platão.

Assim, para estes povos da antiguidade, os ritos de renovação são simbolizados na pessoa sacralizada do Rei.

O rei representa aquele que leva na consciência a responsabilidade de um povo; representa a ponte entre o alto e o baixo, entre a terra e o céu, entre os homens e as forças supremas; e deverá então purificar-se, pois é o símbolo da coletividade e sobre ele recaem todos os males e pecados realizados durante o ano, como também a responsabilidade das secas, das calamidades, das doenças…

Como símbolo do microcosmo, o rei representa a natureza terrestre. Como ela, sente as suas forças desvanecerem-se com a aproximação do Inverno. Nesse momento, a sua vitalidade alcança o ponto mais baixo (solstício de Inverno). É o regresso ao caos, à desordem. É a noite total. Todos os fogos são extintos, todos os seres são reabsorvidos pelas trevas durante o retiro solitário do rei.

É, então, que o Carnaval se manifesta no máximo da sua intensidade. É a noite que favorece a aparição das sombras, das máscaras que representam o mundo dos mortos, a ilusão. É também o momento da rutura com as cadeias da razão, pois tudo se torna possível. O rei torna-se escravo, e o escravo torna-se rei; o senhor torna-se servo, e o servo torna-se senhor. É o início e o fim de um ciclo de manifestação.

A eterna luta entre o bem e o mal é representada durante estas celebrações carnavalescas por um combate ritual que opõe a luz à obscuridade. Por um momento, a noite e a ignorância parecem vencer a batalha e o Carnaval culmina numa manifestação orgiástica. Depois da purificação da carne – personalidade – tem lugar a renovação da consciência. Os elementos do inconsciente são controlados e acontece então o desabrochar da luz. Com o equinócio da Primavera surge o retorno à vida, à fecundidade: é o início de uma nova vida que se abre para uma nova luz.

A hierogamia – união divina – é o ato que acompanha a vitória da luz (ordem – cosmos) sobre a noite (desordem – caos). Uma vez passado o Carnaval, é bom fecundar de novo a terra para assim garantir um ano fértil e próspero, para a comunidade.

O rei e a rainha – símbolos do céu e da terra – tornam-se então, os responsáveis  deste novo ano. Através da cópula – ato mágico de fusão das suas forças de criação – eles podiam estimular de novo a vida. O povo reproduzia este ato de recriação, acreditando deste modo colaborar com a natureza.

Dessa forma, desde os tempos mais remotos o Carnaval desempenhou uma função social muito importante, ao ajudar a sociedade a libertar-se das suas tendências inferiores e reprimidas, permitindo a sua exteriorização momentânea. É uma exorcização das forças infra-humanas. É a depuração do eu inferior humano.

O Carnaval também representa a última prova do homem, o último passo para a libertação. É nesse momento que o homem pode dissipar as últimas ilusões, levantar o véu de maya (a natureza). Deve também lutar contra as sombras da noite que são as projeções do desejo de continuar a viver na ilusão e no efémero. É a tentação do daimón que seduz a alma cega pelos próprios desejos. Em todas as mitologias, Saturno é o símbolo do deus iniciador. É o tempo que experimenta a alma do aprendiz, é o tempo que destrói tudo o que é construído sem a sua ajuda. É o símbolo da paciência e da perseverança que conduz ao termo do caminho iniciático.

Redescobrimos assim o aspeto benéfico de Saturno presente nas festas de Carnaval. Sob a sua máscara de desgaste oculta-se a esperança de um homem melhor, de um homem novo. A vida é um grande teatro, e cada um de nós possui a sua máscara, a sua personalidade. Esta surge como um esboço do Ser autêntico que dorme em cada um de nós. Lancemos, pois, por terra esta máscara de ilusão para que então se manifeste o que desde sempre, é eterno e inefável.

As Saturnais terminavam com todo o povo unido ao sacerdote, o qual subia ao Capitólio para reacender o fogo da cidade, o fogo da inteligência que consome a ignorância.  

Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole

In Revista Nova Acrópole Nº 66

 

 

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