Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

Confúcio - Um humano entre os homens…

 

Imagem popular de hoje em dia

ConfúcioConhecido no ocidente pelo nome latino de Confucius, Kong Zi está frequentemente associado à imagem de um erudito velhote agarrado a uma tradição ancestral e a protocolos rígidos de um passado completo.
É, antes de tudo, um dos maiores filósofos da história da China que fundou um dos pilares do seu pensamento milenar para lá das agitações passageiras dos períodos obscuros. Durante a vida, respeitado, honrado, glorificado ou incompreendida, temida, rejeitada, e, depois, na história venerado, adulado, divinizado ou desonrado, diabolizado, a potência da sua mensagem e do seu exemplo de vida nunca deixaram ninguém indiferente e atravessou inexoravelmente por capilaridade os estratos do tempo.

A literatura e os testemunhos do passado dão-nos a oportunidade tanto de tornar límpidas as imagens veiculadas pela era moderna ocidental e o intelectualismo estéril como de ver a marca gravada da religiosidade da China tradicional e o utilitarismo político do presente.

O objectivo deste curto trabalho não consiste em colocar acima de tudo a imensa sabedoria contida nos ensinamentos do mestre mas em propor uma aproximação mais humana, que se relacione mais com o que ele foi em vida e verosimilmente mais de acordo com o que ele teria gostado que a humanidade tivesse retido de si.


A Lenda

Nos confins da história, a lenda mistura-se com os factos reconhecidos e o imaginário próprio da visão chinesa tradicional do mundo vem confundir o modo de reflexão racional moderno.

 Da mesma forma que a mesma vinha origina um vinho diferente de acordo com o terreno onde foi plantada, os grãos de sabedoria dão origem a um pensamento caracterizado pelo passado cultural da sociedade onde vêm a expandir-se.

A título de ensaio, introduzamos alguns esteriótipos histórico-lendários que caracterizam a vida de Kong Zi.
O seu pai, de linha real, governador de uma cidade do seu principado, contraiu um casamento tardio para contrariar a fatalidade que o tinha prendado com nove filhas e com um filho doente que não estaria apto a assegurar a continuação da linha e da cultura dos seus antepassados. A mãe, meio século mais nova que o seu pai, tinha aceitado esta união para agradar à família e honrá-la com um belo casamento.

Um dia, durante a gravidez, ela viu cinco velhotes que eram considerados como as essências dos cinco planetas. Conduziam com eles um unicórnio que se ajoelhou diante dela e depositou uma peça de jade anunciando que «a criança nascida da essência da água sucederá à dinastia decadente dos Zhou, como rei sem coroa». Diz-se que a criança se fez desejar durante muito tempo, uma vez que a mãe andou onze meses com ela no seu ventre.

No momento em que dava à luz, dois dragões zelavam enquanto dois espíritos femininos apareceram e regaram o local com perfume. Ouviu-se uma música no ar e nasceu uma fonte de água quente para lavar o corpo do recém-nascido.

O rapazinho recebeu o nome de Qiu («outeiro» ou «colina»), que designava a montanha não longe de Qufu  ( a cidade mais próxima), que, como todas as suas semelhantes suscitava o medo dos camponeses da planície  contígua e que tinham transformado em lugar sagrado o sítio onde a mãe do bebé se tinha dirigido para rezar e pedir um filho.

Diz-se que o seu vigor, a sua grande testa e o seu nariz poderoso suscitavam a admiração das redondezas enquanto a forma do seu crânio, alto e um tanto em forma de bossa, um pouco plano no cimo e levantado nos bordos, espantava. Tinha no centro uma espécie de depressão, como um maciço montanhoso que, no seu umbigo, tivesse podido recolher água. Alguns diziam que o seu nome derivava daí.

A lenda deleita-se a acrescentar que os ensinamentos do mestre teriam sido muito apreciados desde o princípio e que os jovens afluíram a ele vindos de todo o lado, tanto pobres como ricos, com o desejo sério e sagrado de ouvir a verdade e de praticarem a virtude. O número dos seus alunos teria aumentado de ano para ano e teria ultrapassado vários milhares no fim da sua vida.

Uma Vida de Homem

A verdade situa-se incontestavelmente noutro ponto. Kong Qiu, antes de se tornar o célebre mestre, teve uma vida de criança, de adolescente, de jovem adulto e depois de adulto maduro com as suas alegrias, as suas dores, os seus êxitos, as suas dificuldades, as suas esperanças e os seus desesperos.

Quando o seu pai morreu, a criança tinha apenas três anos. Portanto, a mãe criou-o sozinha e, para que a sua educação fosse boa, instalou-se na capital do principado. O pequeno Qiu conheceu aparentemente uma infância feliz. Parece que desenvolveu precocemente o sentido da dignidade e das responsabilidades. Era uma criança calma que se divertia a dispor os vasos de bronze dos cerimoniais da mesma forma que outras brincam aos jantarzinhos. Aplicava-se a reproduzir os rituais e as cerimónias oficiais cujos pormenores observava com muito prazer.

A mãe, por seu lado, fazia tudo para lhe evitar as tristezas da existência e nem lhe falava do túmulo do seu defunto marido.

Quando atingiu a maioridade, que na época era aos quinze anos, a criança recebeu o nome oficial de Zhong Ni que, segundo o uso da época, devia marcar a sua entrada no mundo dos adultos. Significava « Ni o irmão mais novo», em relação ao seu meio-irmão que também se chamava Ni, mas alguns viam nisso também um carácter homófono que designava uma colina onde se forma uma cova de água.

Foi nesta idade que se apaixonou pelos estudos. Embora relativamente pobre, pôde frequentar os colégios dos nobres onde eram ensinadas a vida militar e a da corte. O ênfase era dado sobre a história, a literatura, o cálculo, a música, o tiro ao arco, tendo como importância central a virtude da fidelidade (ao príncipe, ao mestre e ao pai).

Zhong Ni casou-se com dezanove anos, depois teve um filho a quem chamou Li, «a carpa», como sinal de reconhecimento ao duque do país de Lu que lhe tinha enviado uma carpa para festejar o feliz acontecimento.
Foi-lhe dado o cargo de intendente dos celeiros públicos, e notado pela sua exactidão e precisão, foi depois encarregado pela vigilância dos estaleiros de construção. Estudava constantemente e tornou-se rapidamente erudito, o que lhe permitiu uma rápida ascensão social.

Esta felicidade séria durou até à morte precoce de sua mãe, quando Zhong Ni tinha apenas vinte anos.
O jovem Zhong Ni, apesar das suas boas maneiras e excelentes intenções, passou no entanto por um grosseiro quando foi apanhado num banquete onde compareceu na maior inconsciência sem se aperceber que o luto regulamentar imposto pela morte da mãe ainda não tinha terminado. Esta lição tocou-o como uma bofetada e adoptou desde esse dia uma humildade que chegava a irritar os seus interlocutores. Ele valorizava assim a expressão e o respeito de uma tradição familiar de modéstia.

ConfuciusFoi aos 22 anos, já reputado pelos seus conhecimentos, que abriu uma escola em Lu onde ensinava História e Antiguidade. Aí se estudavam os ritos, a música, a poesia, os actos dos reis e a crónica do país. Zhong Ni funda a sua escola à maneira de uma academia platónica, o que é uma novidade na China. Existem muitas grandes escolas, mas são, em geral, mais viradas para os títulos e os doutoramentos do que para a formação interior do homem. O ensino filosófico é praticamente individual ou limitado a pequenos grupos que vivem junto do seu mestre. Zhong Ni, graças ao seu notável poder de organização, reúne os dois métodos, retomando a estrutura das grandes academias burocráticas mas introduzindo nelas o humanismo e a preocupação filosófica do mestre individual para o discípulo único. Isso valeu-lhe, até hoje, o título de primeiro educador da China.

Graças à  sua erudição foram-lhe confiados trabalhos de intendência das grandes famílias. Depois, os dirigentes solicitaram-no para alguns postos mas ele só aceitava se o governo estivesse de acordo com a sua ética. Para Kong Qiu, a função pública tinha conservado um sentido religioso e ele era sobrecarregado pelos que se arrogavam ter as prerrogativas dos reis.

 Aquele a quem chamavam então mestre Kong (Kong Fu Zi ou Kong Zi) foi nomeado governador do distrito de Lu e depois ministro da justiça. Diz-se que então o país viveu uma idade de ouro durante a qual não havia nem ladrões, nem criminosos. Celebrou-se mesmo um acordo de paz entre o estado vizinho de Qi, inimigo de longa data. Aceitou em seguida o papel de conselheiro, associando-o ainda mais ao governo. No entanto, mais tarde, o duque de Qi tentou corromper o príncipe de Lu. Assim, Kong Zi acabou por se demitir e deixou o seu estado caído na corrupção para fazer múltiplas viagens através de numerosos estados  tentando encontrar quem o escutasse e o ouvisse.

Apesar de ter sido quase sempre bem acolhido pelos príncipes, Mestre Kong teve dificuldade em obter a adesão à sua filosofia moral por parte dos soberanos, dos ministros e das famílias poderosas, e nunca recebeu a escuta que desejava. O seu rigor moral e o seu «estilo» forçavam à admiração mas os soberanos decadentes não podiam apoiá-lo concretamente.

Depois de catorze anos, cansado de não poder ver o seu ensino posto em prática, voltou a Lu e consagrou o resto da sua vida a ensinar os seus discípulos.

Diz-se que setenta e dois discípulos puderam beneficiar de um ensino completo e que três mil estudantes teriam vindo ouvir os seus ensinamentos. Os textos parecem no entanto revelar que o número de verdadeiros discípulos foi nitidamente mais restrito. Quanto ao resto, assemelha-se ao número de estudantes que viriam ouvir um professor reputado de qualquer universidade actual…

 

"Kong Zi tinha uma consciência muito clara da sua missão e tinha desenvolvido uma enorme confiança em si próprio sem, por isso, mostrar sinais de orgulho ou de arrogância. Nunca se fez passar por um perfeito sábio, dizendo de si próprio que nem podia comparar-se a um homem de uma virtude completa, mas sim que só se esforçava por fazê-lo."

 

Uma época difícil

É conveniente retermos bem que a época em que Kong Zi viveu é particularmente perturbada. Com efeito, a dinastia Zhou que assegurava a coesão moral do mundo chinês é ameaçada devido à oposição entre os reinos do centro, guardiães das antigas tradições, e os reinos periféricos. No período chamado das «primaveras e outonos», os Zhou só conservam uma presidência religiosa teórica enquanto os reinos potentes assumem a presidência militar e fazem reinar a ordem que os reis já não são capazes de assegurar. É o início de uma longa sequência de guerras e de alianças que só terminará com a unificação dos países pelo reino de Qin no final do século III antes da nossa era.

Os chefes dos reinos procuram libertar-se da influência das famílias mais poderosas, o poder utiliza o princípio da usurpação que vai, em seguida, descer progressivamente na hierarquia. As estruturas políticas e sociais desagregam-se. Aparecem os exércitos de carreira e as milícias pessoais. As lutas acarretam um aumento de impostos sobre os camponeses enquanto a nobreza se torna cada vez mais ávida de luxo.
Esta época, muito perturbada dará lugar ao período dos «reinos combatentes», provavelmente a mais sombria da antiguidade chinesa.

Como frequentemente, estes séculos perturbados foram propícios ao aparecimento de numerosas correntes filosóficas e não é raro ser denominado hoje como o período dos filósofos.

É, portanto, neste meio caótico que temos de voltar a situar a vida do mestre Kong especialmente nos seus longos períodos de errância, de idas e voltas incessantes através de todos os pequenos Estados que existiam na planície central que tinham desde sempre desenvolvido a sua vida própria; em relação aos soberanos destes estados Zhou só tinha um respeito superficial.

A vida política tendia a reduzir-se aos combates diários pela supremacia de uma região sobre a sua vizinha e cada corte regional tentava atrair talentos esperando ganhar receitas para fazer trabalhar o povo e melhores tácticas para suplantar os seus inimigos.

Foi neste sentido que Kong Zi, pela sua notoriedade, viu abrirem-se-lhe as portas dos palácios reais.

Neste mundo de intrigas violentas, Kong Zi não tinha nenhuma hipótese de ganhar a partida, só perdendo a sua alma, e foi assim que acabou por preferir voltar a centrar-se no ensino, seguindo assim a via que o céu lhe mostrava. Dedicou-se a um trabalho filológico, que tinha como objectivo repor por ordem os textos herdados da Antiguidade, por exemplo as áreas e as odes que classificou no célebre «Livro das Odes».


Em carne e osso

Embora Kong Zi não tenha tido a intenção de escrever para as gerações vindouras no sentido em que o entenderíamos hoje, conhecemos a vida e os ensinamentos do mestre através do livro «O Grande Estudo», que ele próprio compilou a fim de ensinar aos homens a sua origem celeste, o «Lun Yu», chamado «As Conversações», a obra de Meng Zi, (aliás Mencius) chamada o «Meng Zi», «O Meio Invariável?» redigido por Kang Qi (considerado como seu neto), o «Livro dos Ritos» atribuído a Kong Zi em pessoa, e depois às «Memórias Históricas» de Si Ma Qian (O Heródoto Chinês).

O «Lun Yu» ou «Os Entretenimentos» constitue o livro de referência. É uma compilação redigida pelos seus discípulos e pelos seus descendentes que reuniram uma escolha de textos ligados aos diversos temas abordados por Kong Zi através dos seus ensinamentos. A versão actual é uma síntese redigida no século III na qual os autores souberam conservar como deve ser todo o sabor da língua falada e das respostas do filósofo ao seu auditório.

Contrariamente aos numerosos comentários redigidos durante dois mil anos, a maior parte do texto mostra um ser bem vivo. Em vez de um teórico austero, encontramos lá simplesmente um homem em carne e osso, um sábio educador rodeado de um pequeno número de discípulos fiéis. Descobrimos Kong Zi procurando, hesitando, duvidando, por vezes enganando-se e corrigindo-se a seguir. Nunca utiliza uma gíria de escola salpicada de sofismas ou de argúcias, mas, pelo contrário, transmite verdades práticas ilustradas com anedotas e imagens. O seu ensino demonstra a fé que ele tem no Homem, pensando que ele é capaz de progresso e de aperfeiçoamento graças ao estudo, até ao ponto de se pôr à altura de um dirigente de Estado. De uma educação que se entende ser acima de tudo fiel à mais pura tradição, consegue produzir ideias novas.

Quanto aos pormenores da vida de Confúcio, encontram-se nas «Memórias Históricas» de Si Ma Qian.

Conhecemos a sua fisionomia através dos textos citados acima. Percebemos então que Confúcio era de estatura alta, tinha os olhos salientes, o nariz proeminente com as narinas largas, a maçã de Adão bem saliente, as orelhas planas e os dentes avançavam um pouco sobre os lábios, deixando-os entreabertos.

Tinha a cara larga, de uma cor sombria, as mãos fortes, «parecidas com as patas de um tigre», a boca larga e a barba abundante. O seu passo era rápido. Falava com um ar sorridente. O seu aspecto doce, calmo e severo, inspirava respeito sem assustar; era digno e tranquilo.

O seu comportamento no dia-a-dia é-nos dado pelos mesmos textos. Quando não estava ocupado tinha um ar afável e alegre. Quando recebia em nome do príncipe, mantinha as mãos juntas e o corpo imóvel, virando-os à direita e à esquerda. Ficava na mesma atitude quando apresentava os hóspedes e levantava os cotovelos «como as asas de um pássaro». Tanto na corte como no templo, exprimia-se claramente, com uma atenção respeitosa e uma gravidade nobre. Era circunspecto na sua acção.

Quando estava de carro, olhava em frente, não se voltava para trás e não apontava para nada com o dedo.
Com as pessoas das classes baixas, era simples e falava pouco. Diante de um homem que estivesse de luto ou que fosse cego, levantava-se.

Era pouco apreciador de bons petiscos, partidário em tudo do equilíbrio e da medida certa. Tinha uma certa concepção da alimentação, só comendo coisas que estivessem cortadas regularmente e misturando sempre com a carne uma certa proporção de legumes. Bebia de boa vontade, mas sempre sem excesso. Dava atenção a tudo o que dissesse respeito à saúde e às abstinências purificadoras.

 Não falava enquanto comia ou quando estava na cama, mesmo que lhe fizessem perguntas. No seu vestuário não usava roupas de cores pouco definidas.

Gostava muito de música e quando alguém cantava uma área de que ele gostava, pedia-lhe para repetir.


Traços de carácter

Auto-confiança

Kong Zi tinha uma consciência muito clara da sua missão e tinha desenvolvido uma enorme confiança em si próprio sem, por isso, mostrar sinais de orgulho ou de arrogância. Nunca se fez passar por um perfeito sábio, dizendo de si próprio que nem podia comparar-se a um homem de uma virtude completa, mas sim que só se esforçava por fazê-lo. Dizia também que lhe era fácil encontrar pessoas como ele, leais e dignas de fé, mas concordava que havia, sem dúvida, poucas que quisessem mesmo aprender.

Uma célebre anedota que ilustra o seu sangue frio e a sua confiança na sua missão descreve a forma como os seus discípulos conseguiram desalojar alguns homens que estavam ocupados a serrar uma árvore para a fazerem desabar em cima do mestre, que se esforçava para explicar à multidão o desenvolvimento de um ritual. Kong Zi não se preocupou e disse simplesmente que a sua virtude o protegia de tudo. Claro que esta confiança em si próprio não servia para apaziguar a antipatia dos seus difamadores.

Kong Zi deu provas de uma enorme confiança quando acabou por renunciar a exercer uma grande influência directa no seu tempo para investir de outra forma, escrevendo a história.

Combatividade

De uma humilde condição na juventude, Kong Zi teve de desenvolver um temperamento combativo e assim aprendeu várias formas de arte. Kong Zi explicava que não nasceu com a sabedoria mas que a tirava da Antiguidade, graças ao ardor da sua paixão por ela.

Perto do fim da sua vida, o Mestre explica como teve de dar sempre provas de perseverança. Resume o seu encaminhamento confiando aos seus discípulos: «Aos quinze anos resolvi aprender. Aos trinta, fortaleci-me na Via. Aos quarenta, já não tinha dúvidas. Aos cinquenta, conhecia as leis do Céu. Aos sessenta tinha um discernimento perfeito. Aos setenta agia com toda a liberdade, sem, apesar de tudo, transgredir regra nenhuma.»

Kong Zi não podia compreender a falta de combatividade dos seus discípulos. Um dia em que ouviu uma conversa onde um deles dizia que achava excelente a Via do Mestre mas que ele não tinha forças para fazer o mesmo, Kong Zi replicou «Aqueles a quem acabam por faltar as forças caem esmagados a meio do caminho, mas tu limitas-te antecipadamente!»

Da mesma forma, quando um dos seus discípulos veio dizer-lhe que a sua sabedoria era de uma grandeza extrema e que era por isso que ninguém no Império podia admiti-lo como mestre, aconselhando-o a baixar um pouco o nível do deu ensino, Kong Zi exprimiu o seu carácter combativo, explicando que um bom trabalhador semeia mesmo sem saber se vai colher ou que um artesão hábil não tem a certeza de agradar ao público. Longe de sentir qualquer espécie de travão ao seu combate, disse simplesmente que o homem de bem põe em prática a sabedoria, mantém as regras essenciais, observa os princípios, tudo isto sem ter a certeza de que vão aceitá-lo. Censurou então ao seu discípulo a sua curta visão: «Se dizes que não é preciso praticar a sabedoria para se ser aceite, então as tuas intenções não vão longe!»

O seu optimismo e o seu espírito de vitória levaram-no a nunca abrandar na sua missão, mantendo-se sempre pronto a servir um soberano que governasse segundo a via.

Exigência

Kong Zi nunca se deu por satisfeito com o que conseguiu atingir. Na idade madura ele dizia: «No estudo dos textos antigos, não creio que seja mais medíocre que outro qualquer, mas quanto a comportar-me como um verdadeiro homem de bem, acho que ainda não consegui».

Esta combatividade e esta exigência em relação a si próprio, nortearam-no também na sua maneira de dirigir tanto os seus assuntos como os do Estado.

Ainda jovem, já as «Conversas» mostram como Kong Zi ordenou ao seu filho para moderar os seus queixumes no momento da morte de sua mãe, tendo o filho, como obediente que era, secado as lágrimas.

Quando Kong Zi, com 22 anos, abriu a sua escola em Lu, fazia com que cada um pagasse à medida das suas possibilidades mas exigia uma predisposição para o exercício da vontade e da inteligência. Dizia que só estava pronto para despertar aquele que procurava arduamente compreender e só guiava aquele que se esforçava em vão para se exprimir. No entanto, exigente, afirmava que não continuaria se, ao mostrar um ângulo, o aluno se mostrasse incapaz de deduzir os outros três.

Ao não procurar o número, Kong Zi explicava aos seus alunos que aprender, era viver na aceitação de nunca atingir a sua finalidade e de perder o que já se tinha ganho.

Mostrava-se pouco tolerante em relação à preguiça, à inércia e à ociosidade. Uma vez, quando voltava para casa, viu um seu antigo conhecido, um daqueles que tinha optado pela doutrina taoista de Lao Zi e que esperava ali de cócoras. Vendo-o nesta posição, o Mestre afastou-o do caminho e dando-lhe com a bengala nas pernas, ralhando-lhe e dirigindo-se à assistência. «Quando jovem, não tem nenhum respeito pelos irmãos mais velhos; quando adulto, não tem nada de válido para apresentar ao mundo e quando velho, está sempre aí para nos envenenar a existência!»

Perante a ociosidade de uma parte da população, Kong Zi indignava-se: «Olhem para esta gente que se empanturra durante o dia sem usar minimamente o seu espírito! É desesperante! Não há jogos de xadrez ou de damas? Pois que joguem, vale mais do que não fazerem nada!»

Confrontado com os pseudo-intelectuais, Kong Zi irritava-se também: «Há pessoas capazes de passar um dia inteiro juntas perdendo-se em conversas sem interesse, sem ligação com o Justo e a comprazerem-se com pequenos jogos de espírito; triste espectáculo, realmente!»

Mais tarde, o Mestre dizia que conhecer a verdade sem a cultivar, acumular conhecimentos sem os aprofundar, ouvir falar do Justo sem o praticar e ver os seus próprios defeitos sem os remediar era exactamente o que o preocupava. Acusava também os bem-falantes. «Revender no caminho o que acabaram de ouvir sobre a Virtude, é desvalorizá-la!»

Ele não era pateta e percebia bem que os notáveis locais só viviam para e pela sua aparência. «Todos estes «honestinhos» da aldeia são os piores inimigos da virtude!» dizia ele com gosto.
Kong Zi manifestava muita esperança na juventude, assegurando que «Os jovens devem merecer o nosso respeito; como é que sabemos que o futuro deles não vale mais que o nosso presente? Um homem só não merece ser respeitado se chegar aos quarenta ou cinquenta anos sem ter feito nada de útil!»

O Mestre prescrevia aos seus discípulos para terem sempre uma fé rigorosa, para se consagrarem ao estudo e para preservarem a Via, mesmo que isso lhes custasse a vida. Recomendava que não entrassem num país de governo precário e que não vivessem num país em revolta. Por outro lado, dizia: «Quando a Via reina por baixo das Céus, mostra-te; se não, vale mais ires embora. Se o país estiver de acordo com a Via, cora se ficares na indigência e na obscuridade; se não, deves ter vergonha é da riqueza e das honras!»

Kong Zi era capaz de suportar as piores privações e as situações pelo menos difíceis. Um dia em que estava cercado por detractores, na companhia alguns discípulos, os víveres começaram a faltar. Pouco a pouco, os discípulos foram adoecendo ao ponto de já nem conseguirem levantar-se, enquanto o Mestre continuava a recitar Odes e a cantar. Um dos seus discípulos mais próximos, de natureza guerreira, foi ter com o Mestre e disse-lhe com um ar irritado: «Vai-me dizer que homens de bem podem ficar reduzidos a este estado?» Kong Zi respondeu firmemente: «O homem de bem pode não só cair na miséria, como a encara com coragem. O homem de pouco valor é que, numa situação idêntica, se deixa cair nos piores excessos!»

Kong Zi sabia criar à sua volta um mundo em ordem, organizado. Quando exercia um papel mais importante no governo, a sua intransigência levava-o quase a exigir a aplicação da pena capital. Um grande oficial de Lu teve um dia esta amarga experiência quando Kong Zi, novamente nomeado conselheiro do príncipe, o mandou decapitar por ele reunir em si cinco defeitos muito graves cujos efeitos causavam a maior desordem no país. Não foi a única pena capital lançada por Kong Zi numa situação extrema, produzindo uma enorme perturbação.

Simplicidade

Kong Zi tinha a reputação de dar provas de uma grande simplicidade no seu comportamento assim como de uma profunda modéstia. Um dia em que um personagem oficial perguntou a um dos seus discípulos como é que Kong Zi, mal chegava a um país, conseguia imediatamente ser informado da maneira como ele era governado, este respondeu: «O nosso Mestre é de uma natureza cordial, franca, cortês, simples e sem arrogância; através da sua própria pessoa, ele tem uma maneira muito dele de chamar as respostas».
Um dia, durante uma discussão, Kong Zi recusou ter conhecimento. Afirmava, por outro lado, que se o homem mais humilde lhe viesse fazer uma pergunta, estaria pronto, sem que tivesse obrigatoriamente resposta, a encará-lo sob todos os ângulos possíveis, até esgotar o assunto.

Kong Zi disse um dia que na Corte, tinha servido fielmente o duque e os seus ministros, assim como as pessoas em sua casa e os seus irmãos mais velhos; que no culto dos mortos, nunca tinha ousado faltar às suas obrigações, e que além de tudo isto nunca se tinha entregado ao vinho e que era mais ou menos disto que ele podia tirar partido. Também disse a quem o rodeava que podia pretender atingir a virtude da humanidade (o famoso «Ren») ou, com mais razão ainda, a sabedoria suprema, e que tudo o que podiam dizer dele era que ele tendia para isso com toda a sua alma e que nunca se cansava de ensinar. Alguém respondeu que era exactamente disto que os outros eram incapazes.

Quando o duque de um país vizinho interrogou um discípulo próximo sobre o seu mestre, ele não respondeu nada. Kong Zi, que tinha seguido a cena, disse-lhe: «por que é que não lhe respondeste simplesmente que eu sou um homem que, no seu ardor de aprender, até se esquece de comer e que, na sua felicidade de tocar a Via, até se esquece dos seus aborrecimentos, ao ponto de nem sentir a sua velhice a aproximar-se?»
Segundo testemunhas, em casa dele, na aldeia dos seus antepassados, Kong Zi mostrava-se simples e apagado, como se não tivesse o dom da palavra, mas na Corte ou no Grande Templo ancestral, falava com à-vontade, embora pesando as palavras. Era firme e cordial com os ministros subalternos; digno e franco com os grandes ministros. Na presença do soberano, mostrava um medo respeitoso misturado com uma nobre gravidade.

Embora a sua sabedoria e a sua erudição o tenham distinguido, sabia tornar-se acessível aos seus discípulos para melhor derramar os seus conselhos. Assim, o Mestre sussurrou: «Se fosse possível enriquecer sem compromissos, pudesse eu pôr-me no papel de um moço de estrebaria manejando o chicote, e eu seria o primeiro a fazê-lo. Mas como isso não é possível, continuarei na Via que me cativa o coração». Noutro dia, o Mestre disse: «Aconteceu-me ficar um dia inteiro sem comer e toda a noite sem dormir para me dedicar à meditação, mas não tive resultados; Então, vale mais estudar!»

Surpreendendo por tanta simplicidade, Kong Zi disse um dia aos seus discípulos que não deviam pensar que ele lhes escondia qualquer coisa, que na verdade não dissimulava nada, que não havia nada que ele praticasse que não partilhasse com eles e que esta era a sua verdadeira natureza.

Quando o primeiro-ministro perguntou a um discípulo. «O seu Mestre atingiu a sabedoria suprema? O que é que ele faz para ter tantas competências práticas?» este respondeu: «Claro, o Céu tinha-lhe destinado ser um Sábio, mas também o dotou com múltiplos talentos». Informado desta conversa, Kong Zi disse: «O Primeiro-ministro conhece-me mal. Cresci num meio modesto, portanto também tive de aprender a fazer coisas sem importância. Mas isso é necessário a um homem de bem? Pelo contrário».

O Mestre Kong também se mostrava de uma grande prudência nas suas palavras e nos seus actos. Nunca falava do censurável ou dos espíritos, da força bruta ou dos actos contra natura. Da mesma forma, reservava a sua opinião, não por ignorância, mas por prudência.

Num dia em que estava com dores e um oficial lhe enviou um medicamento, ele aceitou-o com muita humildade, mas assim que o oficial se afastou, disse que não conhecia as propriedades e que não se arriscava a experimentá-lo.

Tendo sonhado com um reino digno do duque de Zhou, modelo de sabedoria e de governação baseados na virtude da humanidade, quando sentiu que o seu sonho não se cumpriria, exclamou simplesmente: «Já estou tão velho! Há tanto tempo que não vejo em sonhos os duque de Zhou!»


Relação com o sagrado

Rituais e cortesia

Confúcio 1Desde a sua mais tenra infância, Kong Zi ficava como que fascinado pela solenidade dos rituais e a harmonia impregnada de beleza das cerimónias. No momento da morte de sua mãe, quando tinha apenas vinte anos, as cerimónias fúnebres permitiram-lhe pôr em prática a sua ligação aos ritos. Teve, primeiro de fazer uma pesquisa hábil para poder finalmente encontrar o túmulo de seu pai, do qual a mãe nunca lhe tinha falado. Foi assim que pôde, apesar das dificuldades, instalar os restos mortais dos seus pais ao lado um do outro, embora em dois jazigos separados, como impõe a decência. Kong Zi teve então o sentimento de que tudo tinha entrado de novo em ordem. Toda a vida, levou os que o rodeavam a respeitar os rituais com simplicidade e a maior sinceridade.

Um dos seus discípulos mais próximos quis muito acabar com aquele costume que achava desusado de sacrificar uma cabra a cada lua nova. O Mestre disse-lhe então: «Meu amigo, tu estás pela tua cabra, e eu, eu estou pelo meu ritual!» Kong Zi não era menos pragmático. Disse um dia «A touca de cânhamo fino é a que o ritual manda. Hoje, tecem-na com seda vulgar, o que a torna mais barata. Eu isso, aceito. O ritual pede que nos inclinemos diante do soberano uma primeira vez antes de subirmos à sala. Hoje, sobe-se à sala, antes de se inclinar. Isto é muita presunção! Desta vez, correndo o risco de ir contra o que se usa, estou a favor da manutenção do rito antigo».

Afirmava: «Vale mais muito respeito com pouco espectáculo». Um dia em que Kong Zi entrou no Grande Templo, procurou saber os pormenores das cerimónias. De entre os que o rodeavam, alguém murmurou: «Quer saber tudo acerca dos ritos! Vejam bem, entra no Templo para fazer perguntas!» O Mestre, que ouviu o reparo, respondeu: «Mas é justamente nisso que consistem os ritos», que era uma maneira de dizer que o espírito deve anteceder a palavra.

Kong Zi integrava o sentido do ritual e do cerimonial no seu dia-a-dia de homem de Estado. Quando ultrapassava a Porta do Palácio para se dirigir à audiência, diz-se que se curvava como se lhe faltasse espaço, que não se mantinha no meio da entrada e que evitava pisar a soleira da porta. Quando passava diante do lugar do soberano, mudava de cara e de passo e as palavras pareciam faltar-lhe. No momento de subir à sala do príncipe, curvava-se levantando um pouco a ponta da sua túnica e retinha a sua respiração como se tivesse medo de respirar. Quando levava o tabuleiro de jade, curvava-se, como que esmagado pelo seu peso, levantava-o como para fazer uma saudação e depois baixava-o como para apresentar uma oferenda. A sua cara mostrava o receio e, no seu andar prudente, os seus pés pareciam de chumbo. Em contrapartida, quando saía, a sua cara descontraía-se e reencontrava o seu à-vontade desde o primeiro degrau. Depois, ao chegar ao fundo das escadas, voltava dignamente ao seu lugar a passos rápidos e retomava a sua atitude de receio respeitoso. Quando vinha a hora dos presentes rituais, ele escondia a sua solenidade. Em audiência privada, mostrava-se sorridente e descontraído. Quando o soberano o encarregava de receber um convidado, mudava de cara e de passo. Inclinava-se e saudava, à esquerda e à direita, com os hóspedes alinhados dos dois lados, sem incomodar uma prega da sua túnica nem para trás nem para a frente. Quando chegava a sua vez, avançava rapidamente com a maior dignidade. Quando terminava a visita, era ele que dizia ao soberano: «Pode entrar, o seu hóspede já não se virará mais».

Se o soberano o convocava, punha-se a andar imediatamente a pé, sem esperar que o carro estivesse pronto para o transportar.

 Fora da Corte, conservava uma atitude cortês em relação às pessoas e ao ambiente, adoptando assim um certo comportamento ritual no seu dia-a-dia. Nunca se permitia utilizar adornos cor de malva ou carmim nem fatos vulgares encarnados ou púrpura, deixando estas cores reservadas para os períodos de abstinência ou de luto. No verão, por baixo da sua túnica de tecido fino e ventilado ele punha outra e no inverno tinha o cuidado de conjugar uma túnica preta com uma pele de borrego da mesma cor, uma de pano-cru com uma pele de gamo e uma castanha com uma pele de raposa. As roupas forradas a pele que usava habitualmente eram compridas mas a manga direita era mais curta do que a esquerda para lhe permitir uma maior liberdade de movimentos. Exceptuando o avental direito de cerimónia, todas as suas roupas eram cortadas mais largas de perímetro do que de altura. As peles de raposa e de marta usava-as em casa. Pele de borrego e touca de seda pretas estavam excluídas durante as visitas de condolências. Ao anúncio da lua nova, apresentava-se na corte em fato de grande cerimónia. Durante a abstinência que precedia um sacrifício, usava a túnica de purificação que devia ser de tecido, e mudava de regime alimentar e de lugar de estadia.

Durante uma doença, se o soberano ia visitá-lo, mandava pôr a cabeça virada para leste para respeitar a posição do dono da casa que recebe os seus convidados, e vestia-se com as suas roupas da corte.

Quando mandava saudar um amigo de outro país, prosternava-se duas vezes em sua intenção antes de enviar o mensageiro.

A alimentação diária devia igualmente respeitar as regras de cortesia. Não era proibido comer arroz puro e carne muito picada mas a proibição verificava-se sobre tudo o que não cheirava a fresco ou cuja cor tivesse mudado, o que não estivesse bem cozido ou não fosse da época, todas as travessas que não tivessem sido bem trinchadas ou servidas com bom tempero. A carne podia ser abundante mas Kong Zi só comia arroz. Nunca comia de mais. Evitava as bebidas e a carne seca das quitandas. O vinho não estava limitado, mas ele nunca abusava. Mesmo que a sua refeição consistisse só num pouco de arroz grosseiro ou em caldo de legumes, fazia sempre, primeiro, uma oferenda aos antepassados com toda a reverência devida a um sacrifício.
À mesa do soberano, quando este fazia a oferenda às almas dos mortos, ele provava primeiro os pratos.
Se o soberano lhe mandasse um presente de víveres, apreciava-o sobre a sua esteira, bem posta. Se era um presente de carne crua, começava por cozê-la e por oferecê-la às almas dos mortos; se era um animal vivo, guardava-o para o criar.

Quando as pessoas da sua aldeia se reuniam, só saía da festa depois das pessoas mais velhas. Se era convidado para um banquete rico, mudava de cara e levantava-se em sinal de agradecimento.
Ao ver uma pessoa de luto, por muito familiar que fosse, ou com touca de cerimónia, ou cega, por muito informal que fosse o encontro, a sua cara enchia-se de respeito. Se estivesse de carro, inclinava-se muito diante de uma pessoa de luto carregado ou encarregada de documentos oficiais. A pé, mesmo que essa pessoa fosse mais nova do que ele, o Mestre levantava-se e, no momento em que se ia cruzar com ela, apressava o paço em sinal de respeito.

Kong Zi conservava, no entanto, um sentido preciso dos usos ligados às funções. No momento da morte de um dos seus mais próximos discípulos, o pai deste veio pedir-lhe para lhe dar o seu carro para colocar um caixão externo. O Mestre respondeu-lhe: «Aos olhos de um pai, um filho é sempre um filho, seja dotado ou não. Quando o meu filho morreu, só teve um simples caixão, não teve um caixão externo. Acha que devia ir eu a pé para lhe dar um caixão externo? Pertenci à escolta dos grandes ministros e a minha posição impede-me de ir a pé».

Um dia, Kong Zi condenou a impertinência de um oficial que tinha feito oferendas aos espíritos do monte sagrado Tai Shan, usurpando assim uma prerrogativa do seu príncipe.

Diz-se que ele não era formal, no entanto nunca falava quando estava a comer ou deitado e quando dormia, evitava a posição dos mortos. Desejoso da boa ordem exterior, nunca falava de actos de violência ou de desordens para não perturbar os corações dos homens.

Em relação ao Céu

Embora só tenha explicado poucas coisas em relação às potências que governam o mundo dos homens, Kong Zi entregava-se de boa vontade às leis da natureza que sintetizava na palavra Céu. Afirmava que a vontade do Céu é absoluta e universal e que nenhum homem podia opor-se-lhe.

A sua vida era, exactamente para ele, uma missão que tinha recebido do céu e afirmava-o sem equívoco. Ele dizia: «Se a minha doutrina se expande é porque o Céu o deve ter querido…» No entanto, nunca duvidou que o Céu lhe tinha confiado a missão de propagar a via da sabedoria, porque se ele tivesse preferido a ruína, o Céu não lhe teria confiado este legado. Ao ser o seu depositário, afirmava que nenhum homem pode o que quer que seja contra ele. Por várias vezes, quando o Mestre Kong foi ameaçado de morte, ele quis sossegar os seus discípulos, declarando que: «foi o Céu que fez nascer em mim a força da Virtude. O que é que um homem pode sobre mim, mesmo que seja o Ministro da Guerra?» Noutra vez, rodeado por uma multidão hostil, disse: «a cultura dos Antigos não devia viver ainda aqui em mim? Se o Céu tivesse querido enterrar essa cultura, mais ninguém podia chamar por ela como eu faço. Ora, se essa não é a intenção do Céu, o que é que eu tenho que temer destes homens?»

No entanto, o Mestre Kong só falava aos seus discípulos, aos seus íntimos, que eram capazes de o compreender, daquilo que o Céu tinha dado ao homem e da conduta que este devia ter perante isto. Ele dizia «aquele que não se preocupa com a vontade do Céu tem falta daquilo que faz precisamente o homem de bem. O sábio respeita a vontade do Céu mas o homem vulgar, esse, não se ocupa a conhecê-la e não a respeita».

Uma vez em que foi criticado pelos seus próximos por ter visitado uma concubina influente mas de costumes pouco ortodoxos, o mestre manifestou a sua desaprovação e declarou «se fiz algo de inconveniente, que o Céu me castigue!»

Kong Zi afirmava a sua veneração pelo Céu e dizia «O sábio não se queixa do Céu e não quer mal aos homens; espera em paz que a vontade do Céu se manifeste». Um dia, quando suspirava por ser desconhecido de toda a gente, embora confiante na sua missão celeste, confidenciou a um dos seus discípulos: «Não acuso o Céu nem quero mal aos homens. Os meus estudos são modestos mas a minha visão é grande. Quem me haveria de conhecer, exceptuando o Céu?

Quando Kong Zi ouvia o ruído do trovão ou do vento, a expressão da sua cara mudava, demonstrando o seu respeito pelo Céu irritado. Confrontado como qualquer um com a doença e com a morte, remetia-se para o Céu. Quando um dos seus discípulos adoeceu, o Mestre disse: « Ele morrerá, é a vontade do Céu. Por outro lado, tocado pela morte do seu melhor discípulo com o qual contava para transmitir os seus conhecimentos, gemeu: « Pobre de mim, o Céu arruína-me!  O Céu arruína-me! É a minha morte, é a minha própria morte que o Céu quis!»

Perante os mistérios

Se Kong Zi falava pouco da virtude fundamental, «ren», falava ainda menos, ou só a alguns discípulos próximos da essência do homem e da Via do Céu. Evitava falar sobre assuntos esotéricos ou coisas misteriosas e não quis formular teorias gerais.

Assim, não é fácil conhecermos bem o que pensava Kong Zi sobre os espíritos e os seres etéreos. Quando um dos seus discípulos lhe perguntou se os mortos tinham conhecimento ou eram desprovidos dele, o Mestre respondeu. «Se eu disser que eles têm conhecimento, haverá filhos piedosos que se suicidarão para irem encontrar o seu parente defunto. Se eu disser que são desprovidos de conhecimento, haverá filhos ímpios que nem sequer se darão ao trabalho de sepultar convenientemente os seus parentes defuntos. Fiquemos assim, sem aprofundar. Depois da tua morte, saberás como é».

A doutrina de kong Zi era, no entanto, banhada de uma certa mística (o que fez com que fosse compreendida mais tarde como uma religião) mas nunca foi propriamente uma religião. O Mestre Kong foi fundamentalmente um legislador e um moralista. A sua doutrina refere-se às regras de boa conduta e de co-existência pacífica. Afirma que o essencial para o povo não é a religião propriamente dita mas uma moral estrita, uma autenticidade e uma honradez que possam conduzir naturalmente cada um em direcção a uma nova mística transcendente.

No fundo dele, habitava um sentimento recolhido e vigilante, reflexo de uma ordem interior que o levava a conduzir a sua vida como um ritual ou uma oração.

Em relação aos taoistas

Na mesma época que Kong Zi apareceu um outro filósofo maior, Lao Zi, o fundador daquilo que o ocidente baptizará mais tarde como «taoismo». A doutrina de Lao Zi está centrada sobre as ideias de unidade, de vazio e de não-acção onde o universo é a medida do homem e onde só há a lei da Natureza.

Considerando o homem como o intermediário entre o Céu e a Terra, os partidários do pensamento taoista convidavam a que se seguissem as vias do Céu e da Terra para encontrar a unidade e a via original, e depois efectuar o retorno ao essencial  e ao mistério. Os valores sociais apresentavam-se aos seus olhos como preconceitos nefastos que escondiam a realidade, alimentavam o círculo vicioso das contradições e destruíam a espontaneidade natural dos seres.

Por um lado, o pensamento de Kong Zi pedia aos homens para moderarem os seus desejos que os impediam de se integrarem no mundo, por outro, a corrente taoista tendia a fazer desaparecer o desejo exactamente para escapar ao mundo. Os taoistas mantiveram-se de boa vontade na retaguarda, não acreditando na equidade nem nos ritos, nem em nenhuma forma de organização social.

Através das «Memórias Históricas», sabemos que Kong Zi, então com 35 anos, teve ocasião de encontrar esse grande mestre Lao Zi. Este mostrou-se muito frio em relação a ele e ter-lhe-á dito: «Renuncie ao orgulho e à pluralidade dos seus desejos, despoje-se desses adornos brilhantes e abandone as suas ambições…» Profundamente marcado por este encontro, Kong Zi terá dito: « Já vi pássaros a voar, serpentes a rastejar, veados a correr, mas hoje, vi um Dragão: chama-se Lao Zi» .Pela imagem do Dragão, Kong Zi queria referir o seu encontro com um homem que ele achava superior e que o tinha alterado muitíssimo.
A incompreensão entre os adeptos da Via e os que aderiram ao pensamento de Kong Zi está ilustrada por muitas anedotas.

Numa delas, conta-se que, numa das suas viagens, Kong Zi enviou um dos seus discípulos informar-se acerca de um lugar onde passar um rio a vau junto de dois eremitas que estavam a lavrar o seu campo. Estes, perguntaram quem era aquele que tinha ficado no carro. Quando souberam que era Kong Zi, um deles respondeu que ele devia saber onde estava o vau, e depois acrescentou « grosso modo, é a mesma corrente que nos leva a todos. Quem poderia mudar alguma coisa? Você mesmo, em vez de seguir um homem que ziguezagueia por um lado e por outro, não faria melhor em seguir um que se tenha retirado do mundo?» E a seguir, pôs-se a cobrir os seus sulcos de terra sem voltar a levantar os olhos. Quando o discípulo ia contar isto ao Mestre, este disse suspirando: «Não é possível acompanharmos as bestas e os pássaros. Se não consigo a ajuda dos homens, a quem é que tenho de ir? Se a Via já reinasse sob os Céus,  eu procuraria mudar alguma coisa?»


Sabedoria e sentimentos

As artes

Desde a sua mais tenra idade, Kong Zi desenvolvia uma sensibilidade marcada para a música. Tornou-se para ele um modo de expressão maior que não podia ser minimamente medíocre. Ele próprio tocava pedras musicais, o litofone, este instrumento que fazia já figura de nobre relíquia na sua época, e diversos instrumentos de cordas dos quais consegui aprender as subtilezas, junto de um célebre mestre. Este, que no início se irritava por ouvi-lo repetir descuidadamente o mesmo trecho, acabou por se prosternar diante do seu aluno. Compreendeu, com efeito, que Kong Zi tinha conseguido reencontrar e fazer ressurgir do passado, através das suas interpretações, a extraordinária personalidade do virtuoso soberano da dinastia Zhou, modelo entre todos.

Encontrando-se num país vizinho, o Mestre Kong teve um dia a oportunidade de ouvir a música tradicional destas regiões. Ficou tão comovido que, segundo se diz, esqueceu o sabor da carne durante três meses. Repetiu então: «Nunca pude imaginar que a música pudesse atingir tal intensidade!»

Também gostava muito de cantar. Quando encontrava alguém que tivesse uma boa voz, ao princípio ouvia, depois fazia coro.

Kong Zi detinha uma imensa cultura literária que lhe permitia ligar toda a descrição que lhe fizessem de uma coisa, de uma anedota de um acontecimento ou de um ser notável, com referências artísticas ou históricas e de fazer notar as ligações de forma espontânea.

Em relação aos discípulos

Ao distribuir os seus ensinamentos pelos discípulos ele tomava em linha de conta os traços característicos de cada um. Assim, ao que fosse mais bravo mas irreflectido e perturbado, Kong Zi recomendava constantemente a prudência. Fizeram-lhe esta pergunta: «Se fosse comandante de um exército, quem é que queria ver combater ao seu lado?» O Mestre respondeu: «Nunca iria para o campo de batalha com alguém que tivesse a ilusão de que podia combater um tigre sem armas na mão, nem com um perturbado que atravessasse um rio sem se ter preparado; iria sim com aquele que age com sangue frio e prudência». Em relação ao que parecesse um homem perfeito em todos os aspectos mas que se mostrasse dócil demais em relação ao seu Mestre e que não ousasse exprimir a mínima opinião que fosse diferente da sua, o Mestre diz «Está sempre de acordo comigo. Isso não é bom nem para ele, nem para o seu mestre».

O Mestre disse um dia ao seu mais bravo discípulo: «A minha Via não está a ser seguida. Se eu partisse agora numa jangada para o mar, quem me acompanharia? Tu, sem dúvida?» Este mostrou-se muito orgulhoso. Mas o Mestre acrescentou «No que toca a bravura, ultrapassas-me em muito! Mas se pudesses ter só mais um pouco de sentido crítico!»

Kong Zi respondia de forma diferente à mesma pergunta segundo a pessoa que o interrogava, oferecendo os seus ensinamentos caso a caso. Quando o mais impetuoso dos seus discípulos lhe perguntou «Devemos aplicar um bom conselho assim que acabámos de o ouvir?», o Mestre respondeu-lhe «Nesse caso deverias consultar primeiro os que são mais velhos do que tu, porque têm mais experiência». À mesma pergunta feita pelo mais tímido de todos, Kong Zi respondeu: « Tens de passar imediatamente à acção». Quando um outro discípulo se apercebeu com estranheza que o mestre tinha respondido de forma diferente à mesma pergunta feita por duas pessoas, perguntou-lhe a razão. O mestre respondeu-lhe «o primeiro age sem reflectir, é por isso que tenho de lhe aconselhar a prudência, enquanto o segundo, como hesita em tudo, tenho de incitá-lo, de atirá-lo para a frente, dar-lhe coragem . É normalíssimo responder de forma diferente a duas pessoas diferentes».

Graças a este justíssimo princípio de ensino, os seus discípulos adquiriram, cada um deles, uma qualidade particular, distinguindo-se quer pela sua bondade, quer pela clarividência política, o seu talento de oratória ou os seus dons literários.

Quando um notável da corte interrogou Kong Zi sobre um dos seus discípulos em relação ao seu ren , a virtude da humanidade, o Mestre respondeu que não sabia mas que o que podia dizer era que num país de mil carros de guerra, ele podia estar encarregado de levar as tropas. Ao fazerem-lhe uma pergunta idêntica sobre um outro, Kong Zi respondeu que não podia dizer nada mas que num feudo de mil lares poderia seguramente ser nomeado governador. Fizeram-lhe a mesma pergunta sobre um terceiro discípulo, e quanto a este, o Mestre disse que o via perfeitamente na corte de um príncipe, com a sua faixa bem posta, ocupado a receber os convidados de honra mas que não podia pronunciar-se sobre o seu ren.

O mestre pergunta um dia a dois dos seus discípulos que se encontram junto a ele: «Digam-me lá, mais ou menos, qual seria o ideal de cada um de vós?» O primeiro respondeu «Eu gostaria de ter cavalos, carros e casacos de bela pele para os partilhar com os meus amigos e achar normalíssimo que eles mos devolvessem usados». O segundo tomou a palavra: «O meu ideal é não me vangloriar das minhas próprias qualidades e não ostentar os meus méritos». Os dois perguntaram em coro «Mestre, e o senhor, qual é o seu ideal?». Ele respondeu-lhes «É inspirar a serenidade nos velhos, a confiança nos amigos, o afecto nos jovens».

Um dos seus discípulos encontrava-se ao serviço do clã que acabava de usurpar o poder. Um dia, em que ele voltou tarde da Corte, Kong Zi perguntou-lhe a razão. Ele respondeu que havia assuntos de Estado na ordem do dia. O Mestre ironizou sobre o clã e retorquiu que eram acima de tudo assuntos de família porque se fossem de Estado, embora ele não estivesse em funções, teria certamente sido informado.

Kong Zi gostava de repetir: «Quando passeamos, nem que seja a três, cada um tem a certeza de encontrar no outro, um mestre, fazendo a parte do bom para o imitar e a do mau para o corrigir».

O Mestre disse ao seu discípulo mais próximo: «Se fores chamado para uma função, faz o teu dever. Se ficares sem emprego, sabe retirar-te. Tu e eu somos os únicos a agir assim».

Kong Zi apregoava constantemente a sua confiança na capacidade que os homens têm de evoluir. Um dia, quando parecia muito difícil falar da Via às pessoas de uma cidade por onde passava Kong Zi, um jovem rapaz conseguiu apesar de tudo uma entrevista com o Mestre. Os discípulos admiraram-se mas este opôs-se «Porquê tanta severidade? Se ele se purificou antes de vir ver-me, eu aceito-o, sem no entanto lavá-lo do seu passado nem garantir o que fará à saída».

Kong Zi conservava o seu sentido de humor em todas as circunstâncias. Dizem que um dia um habitante da cidade que ele visitava exclamou «Este Kong Zi é certamente um grande homem e, além disso, muito instruído. Mas o que é que ele sabe fazer de especial que lhe valha a celebridade?» O Mestre virou-se tranquilamente para os seus discípulos para lhes dizer «O que é que posso fazer de especial? Corridas de carros? Tiro ao arco? Está bem, pode ser corridas!»

Tendo-se dirigido à cidadela de uma aldeia próxima, Kong Zi ouve uma música de instrumentos de cordas acompanhada de cânticos. Volta-se para o seu discípulo que é governador, com um sorriso divertido, deixando escapar «Não nos armamos de um cutelo para bois para matar um frango!», subentendendo assim que ele não teve o sentido da proporção ensinando a grande música dos rituais da Corte aos habitantes desta pequena territa. O discípulo respondeu-lhe «Mestre, eu lembro-me de o ter ouvido dizer que o soberano que progride na Via gosta de todos os homens e que o povo que progride na Via é fácil de governar» O Mestre, dirigindo-se então ao conjunto dos seus discípulos, disse «Meus amigos, ele tem toda a razão. Eu queria só arreliá-lo».

Um ministro da Corte convidou-o e Kong Zi estava tentado a ir. Um dos discípulos admirou-se: «Mestre, lembro-me de o ter ouvido dizer que o homem de bem não vai a casa do que fez mal por suas próprias mãos! Ora, este Ministro rebelou-se ocupando uma praça que não era dele; o que é que significa a sua visita? Mestre Kong respondeu «De facto, foi isso que eu disse. Mas não se diz também que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Então eu sou uma planta que vai ficar aqui suspensa a secar sem servir para ser consumida?»

Quando Kong Zi estava muito doente, o mais empreendedor dos seus discípulos teve a ideia de transformar alguns de entre eles em intendentes. De repente, o Mestre disse «este género de impostura é mesmo teu! Ao quereres fazer ver que tenho intendentes ao meu serviço, quem é que pensas que eu engano? O Céu, talvez! Não só eu preferia morrer nos vossos braços do que nos dos intendentes, como ainda, mesmo sem se falar em funerais de grande pompa, eu tenho a certeza de que vocês não me deixariam à beira da estrada!»

Um dia, o Mestre fez um elogio a um dos seus discípulos e disse «Se há aqui alguém que vestido de linho grosseiro e usado até ao fio não cora por estar entre as mais belas peles de raposa e de marta, é ele». Desde então, o discípulo gostava de recitar para si próprio «Sem maldade, sem avidez, como é que se pode não ser irrepreensível?» irritado, o Mestre protestou «Vá lá, então, achas que isso chega para ser perfeito?»
Um discípulo perguntou ao Mestre «aquele que não desse importância a todos os favores do povo e que conseguisse socorrer todas as suas necessidades, não mereceria o nome de ren?» O Mestre replicou «Isso não seria ren seria a sabedoria suprema! Mesmo os reis sábios da Antiguidade teriam tido dificuldade! Praticar o ren , é começar por si próprio, querer formar os outros tanto quanto se quer formar a si próprio, e desejar o seu êxito tanto quanto se deseja o nosso. Tira da tua cabeça a ideia do que tu podes fazer pelos outros, e é isso que te coloca na via do ren.

Quando soube da morte do seu discípulo mais bravo e devotado, Kong Zi sofreu um enorme desgosto e chorou-o amargamente. Algum tempo mais tarde, o seu discípulo mais próximo deixou este mundo, isso afligiu-o muito e caiu numa grande tristeza. Os que o rodeavam, ao consolá-lo aconselhavam-no a cuidar da sua saúde que não estava bem. O Mestre respondeu «É preciso sabermos esquecer-nos de nós. Se não chorássemos um homem como ele, quem é que teríamos para chorar? Os discípulos quiseram então fazer-lhe um funeral com grande pompa mas o Mestre disse que seria inconveniente. Os discípulos enterraram-no, apesar de tudo, com algum fausto. O Mestre disse-lhes mais tarde que o seu discípulo o tinha tratado sempre como se ele fosse seu pai, mas que ele não o tinha podido tratar como a um filho e que a culpa era deles, discípulos, não dele.

Em relação aos homens

 O Mestre afirmava que ao povo se deve mostrar a Via a seguir sem procurar explicar-lhe as razões.

Alguém disse a Kong Zi «O homem de ren a quem dissessem que um dos seus semelhantes estava no fundo de um poço correria a juntar-se a ele, suponho». O Mestre respondeu «E porquê, podes dizer-me? O homem de bem talvez vá ao poço mas não se deita lá para dentro; pode deixar-se enganar, mas não cegar!»
Ao ver um aluno de longa data que dormia a meio do dia, Kong Zi disse «É tão impossível esculpir madeira podre como passar com a pá de pedreiro por cima de um muro de lama. A este, para que serve repreendê-lo?» Depois prosseguiu «Ao princípio eu ouvia o que as pessoas diziam, pensando que elas aliavam a palavra à acção, mas agora, depois de as ter ouvido, observo o seu comportamento. É a este aluno que devo esta minha mudança!»

Cansado por não encontrar homens prontos a seguir a Via, Kong Zi suspirou «À falta de adeptos apaixonados pelo Justo Caminho do Meio, temos de nos deixar virar para os impetuosos e para os escrupulosos. Os primeiros, pelo menos vão à toa e os segundos sabem o que não se deve fazer!»
Inquieto pela pouca atenção dispensada ao seu ensinamento, o Mestre Kong deixa que se saiba que encara a hipótese de ir viver entre as tribos bárbaras. Os que o rodeiam, espantados, dizem-lhe que são povos rudes e primitivos, portanto, o que iria lá fazer? O Mestre responde: «Se um único homem de bem se estabelecesse lá, será que eles continuavam a sê-lo?»

Quando um príncipe, considerado um usurpador do poder, quis encontrar-se com Kong Zi, este saiu. O príncipe tinha-lhe mandado entregar um leitão. Kong Zi fez-lhe então uma visita de cortesia escolhendo uma hora em que sabia que o príncipe não estava em casa, mas encontrou-o no caminho. O príncipe interpelou-o dizendo que precisava de falar com ele. «Esconder o seu tesouro dentro do seu seio e deixar o país perder-se, é isto o ren?» O Mestre respondeu que não. O príncipe continuou «Ser responsável por uma função e perder mais do que uma vez a oportunidade, isto é sinal de inteligência?» «Também não» disse Kong Zi. Os dias, os meses correm; os anos não param para esperar por nós!». Mestre Kong respondeu-lhe então «Bem, eu talvez aceitasse uma função».

Quando uma outra personagem de Corte solicitou uma entrevista com Kong Zi, este declinou o convite dizendo que estava doente. No entanto, no momento em que o mensageiro saía de casa, ele pegou na sua cítara e cantou bem alto para que o outro pudesse ouvi-lo.

Quando o duque de um Estado que queria adquirir serviços de Kong Zi quis dar-lhe um imenso domínio, o Mestre percebeu a forma como isso iria desagradar aos vassalos e decidiu afastar-se imediatamente.
Noutra vez, o Duque de um estado foi perguntar a Kong Zi como devia dispor as tropas. O Mestre respondeu-lhe que tinha alguns conhecimentos acerca dos vasos dos rituais mas que nunca tinha estudado nada sobe a arte da guerra. No dia seguinte, saiu desse Estado.

Embora Kong Zi conservasse uma imagem ideal da mãe, desconfiava das mulheres. Nesta época, estas serviam regularmente de engodo junto de chefes dos principados que eram tão fortes nas palavras como tímidos e cobardes e vulgarmente prazerosos na sua conduta. Era realmente uma manobra habitual das pessoas do país vizinho, quando temiam ser conquistadas por outra potência, enviarem ao seu duque várias dezenas de cantoras e de bailarinas sumptuosamente vestidas, assim como belos cavalos. Este estratagema resultava quase sempre, pois o duque deixava de pensar na política e preferia passar os dias a acariciar mulheres e cavalos de batalha. Kong Zi concluiu que as mulheres eram embriões de morte e de mananciais inesgotáveis. Dizia que mesmo as mulheres belas, cobertas de jade e com muita dificuldade em respeitar os rituais e as convenções, faziam esquecer aos seus maridos o amor pela virtude.

Um dia, mais severo, o Mestre afirmou «As mulheres a as pessoas medíocres são as menos fáceis de tratar: se estão muito próximo, pensam que tudo lhes é permitido, se estão muito longe, guardam-nos rancor.»
Quando o Ministro da Justiça do Estado-vizinho perguntou se era verdade que determinado duque do seu Estado conhecia os rituais, Kong Zi respondeu afirmativamente e depois retirou-se. O ministro mandou então entrar o seu conselheiro e disse-lhe que sempre tinha ouvido dizer que um homem de bem nunca tomava partido, e que o que ele acabava de encontrar, segundo lhe parecia, era um contra-exemplo flagrante. Com efeito, o duque em questão tinha casado com uma princesa do seu próprio clã, infringindo assim a regra de exogamia que tentou camuflar fazendo passar a sua mulher por membro de outro clã. O Ministro quis demonstrar que dizer que o duque conhecia os rituais foi o mesmo que dizer que qualquer pessoa os conhecia. Quando o conselheiro levou estas palavras até Kong Zi, este exclamou: «Tenho muita sorte! Qualquer passo em falso que eu dê, toda a gente nota!»

Mestre Kong tinha de si próprio uma ideia simples e justa. Traímo-lo fazendo dele um super-homem. Ser um homem entre os homens, um homem humano numa sociedade humana, herdeira da obra civilizadora dos homens do passado, era tudo o que ele queria ser. Era nisso que ele punha todos os seus esforços, determinado em tornar-se naquilo que ele queria ser. Não se contentava em conceber uma doutrina ou uma ética. Se o fez, foi à sua custa, e sem o saber.

 

Jean Michel Chatelier

 

Bibliografia

 « As Conversações de Confucio» de Anne Cheng
« Confucio na alvorada do Humanismo Chinês», Catálogo exposação no Musée Grimet
« O Livro da Piedade Filial», Confucio
« Confucio, a sua vida, a sua obra, a sua doutrina» de Eul sou Youn
« Confucio e o Humanismo Chinês» de Pierre Do-Dinh
« Os quatro Livros de Confucio» de Séraphin Couvreur

 

Pode Desenvolver mais a Temática deste Artigo sobre Confúsio
no Curso de Filosofia Prática


Veja o Programa do Curso e Increva-se Aqui

 

 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster