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Confúcio e a Arte de Governar

 

Introdução

Aproximar-se ao pensamento do Extremo-Oriente é toda uma aventura que nos permite descobrir a grandeza da civilização que floresceu aos pés dos imperadores filhos do Céu.
Os desígnios do Céu foram transmitidos aos homens pelos primeiros reis divinos que governaram na noite dos tempos. Os seus ensinamentos foram guardados no Livro das Mutações ou I Ching (Li-King), obra simbólica que resume nos seus hexagramas as leis que regem a dinâmica da ordem universal que, desde a mais remota antiguidade, recebeu o nome de Tao, quer dizer, a senda por onde decorre todo o Cosmos existente.

Tao é o princípio, Tao é o caminho, Tao é o destino final de todos os seres. Mas Tao contém dois aspectos consubstanciais nele, opostos mas, não obstante, complementares, dinâmicos e interdependentes: Yin e Yang.

 

"Lao Tsé, através do Tao Te King mostrou o caminho de regresso ao Tao, cósmico e metafísico, e Kung Fu Tsé (Confúcio), indicou a via formal do Jen Tao – a via dos homens – através da ética transcendente"

 

O pequeno, o obscuro, o oculto, o feminino são Ying; o grande, o claro, o evidente, o masculino são Yang.
Baseado no Ying e no Yang e nas suas múltiplas combinações codificadas nos 64 hexagramas, o I Ching guiou não só a conduta dos filhos do Céu e dos seus ministros, mas também toda a vida na luminosa civilização que cresceu nas margens do rio Amarelo.

Muitos séculos mais tarde – obedecendo ao ritmo cadenciado do Tao – a cultura e a profunda religiosidade do povo chinês decaíram até tal ponto que a antiga vertente dos sábios sublimes se foi separando em duas correntes, uma, a metafísica e outra, a analítica e formalista, con­servando oculta a essência comum que em ambas sempre palpitou.

Foi assim que, seis séculos antes da nossa era, frente ao obscurantismo e à barbárie reinantes, brotaram no cenário mágico do Extremo Oriente dois mestres: Lao Tsé, que através do Tao Te King mostrou o caminho de regresso ao Tao, cósmico e metafísico, e Kung Fu Tsé (Confúcio), que indicou a via formal do Jen Tao – a via dos homens – através da ética transcendente, depois da harmonia perdida entre os homens nobres e os homens simples, para que voltassem os imperadores a conduzir o seu povo pelo caminho dos altos cumes, pelo caminho do Céu.

Confúcio nasce na China, viveu e morreu na China. Não obstante, a sua obra não tem fronteiras, pertence a todas as nações, pertence a todos os povos.

 

Situação histórica

Confúcio, conhecido como o sábio Kung (Kung Fu Tsé), aparece na existência histórica em meados do século VI a. C. É considerado contemporâneo de Lao Tsé, na China, de Siddharta Gautama o Buda, na Índia, e de Pitágoras, na Grécia.

A China encontrava-se no seu período feudal. Sob a dinastia dos Tchou, o Império decompunha-se em lutas internas entre os estados, marcando uma época turbulenta e de caos político. A filosofia confuciana surge nestas circunstâncias, com a finalidade de resgatar a cultura e o po­vo chinês do caos moral e político que imperava. Confúcio apoiou-se, para isso, na mais antiga tradição chinesa, adaptando-a a uma época mais humana e assentando as bases de uma ordem social fundamentada nas leis imutáveis da Natureza.

 

Biografia

A data de nascimento não é conhecida com exactidão, mas segundo as fontes mais aceites nasceu no ano de 551 a.C. A sua terra natal foi Kuo Hi, que se encontrava sob a jurisdição do duque Hsiang, responsável de todo o estado de Lu, nas margens do mar da China, entre os rios Amarelo e Huai.

Confúcio pertencia a uma família nobre cuja origem remonta ao tempo da dinastia dos Chang. Os seus imediatos antecessores, guerreiros e políticos, foram todos homens de valor, honoráveis e de excelente reputação. Os historiadores comentam o arrojo, a audácia e as proezas militares do seu pai, Kong o ancião.
Este era pai de nove filhas quando Confúcio nasceu. Diversos acontecimentos, sonhos e presságios se associam ao nascimento da nossa personagem, o desejado varão que faltava na família. Assim, conta-se que, tendo a sua mãe chegado ao final do período de gravidez, retirou-se para uma gruta que lhe tinha sido indicada em sonhos como um lugar propício para dar à luz o seu filho. Enquanto a sua mãe dava à luz, «dois dragões velaram toda a noite junto à porta da morada… e as fadas acendiam incensórios cujo incenso perfumava o ar».

 

"Completou e ordenou os Quatro Clássicos
e compôs o seu Tratado das Mutações (I Ching)"

 

Da sua infância sabe-se muito pouco. Diz-se que gostava de «brincar aos sábios imperadores»; era uma criança muito séria e desde uma idade precoce consertava vasos rituais e pro­cedia com os gestos adequados, sem que ninguém lhe tivesse ensinado, nas cerimónias e sacrifícios.

Aos 17 anos tinha adquirido grande reputação entre os seus condiscípulos. Não obstante, como o seu pai tinha morrido pouco tempo antes e a sua família se encontrava em situação difícil, não lhe foi possível, no início, dedicar-se unicamente ao estudo. Começou por ser vigilante de um armazém de grão no seu distrito natal e durante o ano em que desempenhou esta função, tudo decorreu numa ordem perfeita. No ano seguinte encarregou-se dos campos públicos e, sob a sua administração, o gado esteve sempre são.

Aos 22 anos abandonou as funções públicas para se consagrar ao ensino. Abriu as portas a todos os jovens que tivessem sede de conhecimento. A todos recebeu bem, sem considerar ninguém demasiado pobre nem demasiado humilde. As únicas qualidades exigidas eram uma mínima inteligência e um inegável desejo de aprender. O ensino teórico era alternado com exercícios práticos e com a tradição oral eram explicados e desentranhados textos clássicos.

Um dos seus discípulos descreve-o como «bom sem pretensões, cortês, ponderado e complacente». A impressão geral que deixava era a de um homem austero, quase ascético, a quem repugnavam os elogios, firme nos seus juí­zos, infatigável, tanto no estudo como no ensino, so­mente intolerante perante a estupidez e a preguiça.

Confúcio não foi somente um sábio e um filósofo; prático e realista, soube ser na ocasião propícia um homem de acção. Assim, em 500 a. C. acede à primeira magistratura do estado de Lu e em pouco tempo proporcionou tanta ordem à cidade que os visitantes que vinham de todos os pontos do Império sentiam-se como em sua própria casa.

A inveja levou os senhores dos estados vizinhos a conspirarem contra Confúcio, valendo-se das debilidades do duque de Lu, que esqueceu os seus deveres como governante. Confúcio, entristecido ao ver que tinha bastado um instante para destruir todos os seus esforços realizados para assegurar ao estado a dignidade com a qual ele sonhara, abandonou as suas actividades político-administrativas.

Passou os seus últimos anos dedicado a estudar e a escrever, completou e ordenou os Quatro Clássicos e compôs o seu Tratado das Mutações (I Ching).

Conta a lenda que na Primavera de 480 a. C., no decurso de uma caçada régia, foi capturado e morto um ani­mal estranho. Como ninguém conhecia nem a classe, nem o nome do animal, chamaram Confúcio e este, horrorizado, comprovou que se tratava de um unicórnio. Segundo a tradição, este animal era tão bom e inofensivo que nem uma formiga teria que o temer. O seu aparecimento era, portanto, o presságio de uma era de paz e de prosperidade… Mas foi aqui que uns ignorantes o mataram!

A interpretação deste relato mostra-nos que o homem sábio, se aparece num momento inoportuno, acaba por encontrar a morte. Confúcio sentiu-se profundamente afectado pelo facto e exclamou: «Por quem vieste, então? Por quem vieste? Ai! Os dias dos meus ensinamentos estão contados…»
Dois anos após o acontecido, morreu.

 

Pensamento confuciano

É melhor amar a verdade do que o frio conhecimento da mesma; é melhor comprazer-se na prática da verdade do que no simples amor a ela.

A sua doutrina, denominada «a religião dos ritos» (Li) ou «a religião do cavalheirismo» (Ju), caracteriza-se pela sua ên­fase na parte moral e prática, aplicadas ao individual e ao colectivo, sem descartar por completo o metafísico. O seu raciona­lismo fundamenta-se na mente superior (Manas) como via de acesso à perfeição e, co­mo consequência, à felicidade.

A sua filosofia, puramente humanista, sacraliza o quotidiano, eleva o sentido dos costumes e as relações humanas adquirem misticismo. A sua aspiração foi a de purificar e concretizar as formas dos fenómenos temporais de acordo com as mais profundas leis da vida e segundo o caminho do homem. Este caminho conduzia à cultura, a uma cultura que não era incompatível com a Natureza, mas que tinha de ser harmonizada e ordenada pela própria Natureza. Mais do que uma religião, Confúcio legou-nos uma filosofia prática, profundamente pedagógica.

 

«Governar é manter-se correcto».

 

A moral

A ética confuciana baseia-se no auro nedio (a harmonia dourada), no equilíbrio e na harmonização interior, que se verão reflectidos no homem de bem (jen), através de uma con­duta moderada que evite os extremos; não se apaixonar, não exagerar, não ter ímpetos e não ter arranques emocionais.

Confúcio ensina-nos que o Universo segue uma ordem, uma harmonia – a qual denomina «o caminho do Centro» (chung) –, em cuja direcção deve também marchar o homem. Esta lei cósmica também é reguladora do comportamento hu­mano. Quer dizer, não só nos indica o caminho que devemos seguir, mas também ajusta as nossas ac­ções aos seus desígnios.

«O caminho recto do Universo é o centro; a harmonia é a sua lei universal e constante».
A virtude consiste, portanto, em manter-se com perseverança no centro (chung).

«Quando o centro e a harmonia alcançaram o seu máximo grau de perfeição, a paz e a ordem reinam no Céu e na Terra, e todos os seres alcançam o seu total desenvolvimento».

O homem alcança a felicidade através da perfeição interior, da paz e da serenidade inalteráveis. O homem deve meditar e penetrar na essência de todas as coisas, dedicar toda a sua vida, com diligência e perseverança, à descoberta do bem e da verdade.

O bem é o caminho do centro, o equilíbrio, a vibração em harmonia com o Universo. O mal é artificial, antinatural; o homem é arrastado ao mar por um erro de juízo, pelo predomínio da paixão sobre a razão.

 

As cinco relações cardinais

De soberano para súbdito: benevolência, que inclui o espírito público e a piedade filial.
De pai para filho: rectidão, que compreende o valor, a fraternidade, a integridade e a pureza.
De irmão mais velho para irmão mais novo: correcção, que abarca o respeito, a solicitude, a humildade e a deferência.
De esposo para esposa: conhecimento, que inclui o conhecimento da natureza humana, da Natureza em si e do destino.
De amigo para amigo: boa fé, que compreende a ver­dade, a simplicidade, a sinceridade e a honestidade.

 

A moral individual

A vida do homem moral é uma verificação individual da ordem moral do Universo.
A moral individual é a base ou chave do desenvolvimento humano; o melhoramento colectivo e político parte de um melhoramento do homem em si mesmo e, para isso, Confúcio descreve a imagem de um homem modelo, um arquétipo: um homem sábio, nobre e superior.
Este homem superior encontrar-se-ia no verdadeiro cavaleiro (tsun tsé), aquele que não se desvia jamais do recto caminho, da virtude. O seu amor pela virtude está, pois, na íntima relação com o seu amor pela beleza, que é uma suprema expressão de moral e de equilíbrio.
«O homem sábio aspira à perfeição, o homem vulgar, ao bem-estar.»
Os homens mais elevados são os que por nascimento têm a sabedoria (os santos ou sábios sublimes); aqueles que mediante o estudo e a recta conduta a adquirem, são os homens superiores.

 

A virtude e o caminho do centro

As três virtudes capitais e universais para poder percorrer o caminho do centro são:

— Prudência do entendimento.
— Amor a todos os homens.
— Força de ânimo.

Qualidades do homem nobre:

— Digno e comedido na sua vida pessoal.
— Deferente com o seu príncipe.
— Magnânimo com o povo.
— Justo na distribuição dos trabalhos públicos entre os cidadãos.

O homem nobre encontra-se livre de quatro ataduras:

— Não tem orgulho.
— Não tem preconceitos.
— Não é obstinado.
— Carece de egoísmos.

O homem nobre causa uma impressão tripla:

— Se o observamos de longe, parece inacessível e sério.
— Se nos aproximamos mais a ele, parece simples e afável.
— Se ouvimos as suas palavras, parece intransigente e severo.

«Para o homem nobre, o importante é a essência e nada mais.»

 

Moral social. Humanitarismo

A essência da moral social para Confúcio é o humanitarismo.
«O fundamental do amor universal encontra-se no próprio homem.»
«Do sentimento de humanidade nasce o desprendimento.»
«O sentimento de humanidade consiste em amar a todos os homens.»

O princípio fundamental do humanitarismo ou benevolência universal para todos os homens encontra-se, segundo Confúcio, na piedade filial, no respeito fraterno, na sinceridade e na lealdade.
Confúcio propugnou a doutrina do Jen-Tao («o caminho do homem de bem») e ensinou também que a conduta moral do homem é a base do progresso social e a harmonia universal.

 

Moral política

A moral política está dirigida ao príncipe ou governante e aos funcionários que exercem a autoridade sobre o povo, com o objectivo de reformar os seus costumes privados e públicos, já que somente desta maneira é possível um governo justo e próspero.
A arte do bom governante consiste em mostrar, com uma boa conduta e um bom carácter, o exemplo aos cidadãos.

 

As virtudes do governante

— Cultivar a sua própria conduta.
— Honrar os homens de valia.
— Sentir afecto e cumprir os seus deveres para com os seus governados.
— Mostrar respeito para com os altos ministros da nação.
— Identificar-se com os interesses e o bem-estar de todo o corpo de servidores públicos.
— Ser como um pai para o povo.
— Estimular o cultivo, o progresso e a renovação das artes.
— Ser cordial e amável com os estrangeiros vindos de regiões distantes.
— Interessar-se pelo bem-estar dos príncipes do Império.

Podemos concluir, então, que a moral política se baseia numa aristocracia, com uma missão eminentemente pedagógica.

«Governar é manter-se correcto».

«Os governantes devem rodear-se de colaboradores que respondam aos seus próprios sentimentos; para que os seus sentimentos estejam inspirados no bem público, é necessário que coincidam com as leis do dever, e esta lei encontra-se na virtude do humanismo, o princípio de amor a todos os homens.»

 

 

Beatriz Diez Canseco

 

Bibliografia:

· Historia Universal, César Cantú

· Historia de China, Tsui Chi · Culturas Orientales, Raúl Ferrero

· I Ching, Mirko Lauer · I Ching. El Libro del Oráculo Chino, Judica Cordiglia

· Diccionario de Filosofía, José Ferrater Mora · Lao Tsé y las Enseñanzas del Tao, R. Wilhelm

· Confucio. Los Grandes Libros, Antonio Zozaya · Confucio, Juan Marín

· Confucio. Los Cuatro Libros Clásicos, Francisco Cardona y María Montserrat Martí

· Lao Tsé y Confucio, Samuel Wolpin · Kung Fu Tse, Fernando Schwarz, Revista Nueva Acrópolis N* 5, Perú.

· Confucio, Revista Nueva Acrópolis N* 27, Perú.


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