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Para uma cultura de tolerância

 

Durante muito tempo, as sociedades ocidentais acreditaram que a crise que começou nos inícios dos anos setenta era apenas uma crise económica.
As diversas crises petrolíferas, os desequilíbrios económicos reflectidos na sudiba das taxas de inflação e desemprego, as tensões entre os blocos do Leste e do Oeste ocultaram, durante quase duas décadas, um problema muito mais profundo, uma verdadeira crise cultural e moral.
As consequências da queda do muro de Berlim, a efervescência da História e a busca de identidade dos povos fazem hoje soar o alarme.

tolerancia

Um défice cultural

Há que reconhecer que durante quase meio século a cultura no Ocidente foi totalmente descuidada. Quase sem nos darmos conta, a escola, a família, as instituições religiosas e políticas deixaram de ter um sentido. Hoje, a cultura converteu-se num simples objecto de consumo. Apesar de não faltarem homens com ideais nas nossas sociedades, estas padecem, no entanto, de uma carência de redes humanas capazes de assegurar a socialização dos valores éticos, da convivência, da tolerância e do respeito pelo outro.
Ter uma cultura não significa apenas conhecimentos intelectuais. Toda a verdadeira actividade cultural deve despertar necessidades interiores (como a necessidade de ordem, de justiça, de verdade, de igualdade, de honra, de liberdade) que unam os indivíduos entre si.
Se o código genético transmite a todas as espécies as suas qualidades inatas, a cultura transmite o adquirido, ou seja, a experiência de gerações passadas através de uma imagem comum do mundo, de códigos e de costumes e abre o caminho para a consciência humana, a fim de se sair do imediato e criar.
As mensagens transmitidas pela cultura, através dos costumes, das crenças, dos idiomas, das ideias, dos gostos, das ferramentas, das técnicas, etc., incluem em si um sentido e respondem a necessidades que transcendem a sua função material.
O homem converteu-se em humano quando pôde observar as coisas para além das aparências, criar símbolos e fazer analogias.
A cultura permitiu ao homem assumir as contradições e os paradoxos, aprender a servir-se das forças contrárias ou adversas, como o moinho de vento, a navegação à vela, entre outras.
Mas se a cultura não souber lidar com as contradições – fazer frente ao desconhecido, poder representar o outro –, entra em disfunção. Reduz o real ao branco ou preto, ao bem ou mal. A imaginação e a criatividade detêm-se. A cultura passa unicamente a transmitir uma visão fechada, caracterizada pela lógica de exclusão, e é então que perde o seu papel de integração.
A lógica de integração torna compatível e complementar o que, ao princípio, aparece como oposto, como a música feita de sons e de silêncios, a escultura feita de espaços vazios e cheios. É capaz de incluir as pessoas, as ideias e os sentimentos novos e diferentes num conjunto social que se torna mais rico e mais aberto.
As civilizações morrem quando os povos já não podem utilizar as suas próprias culturas para responder aos desafios que se lhes deparam.

 

"A Nova Acrópole oferece um terreno de expressão para todos aqueles que constataram que a origem da intolerância está, sobretudo, neles próprios. Quem é que pode dizer que nunca apanhou o vírus da intolerância, que nunca se mostrou arrogante, depreciativo, separatista?"

 

A Unidade-Plural

O nosso desafio é praticar a tolerância. Trata-se de encontrar e de demonstrar os mecanismos da intolerância e dar um novo significado à palavra tolerância, pois está vazio de conteúdo.
Há que tomar consciência do perigo que representa o desprezo pela cultura do próximo, pois isso significa, de algum modo, recusar tudo o que o outro ama e admira.
Longe de ser uma debilidade, a prática da tolerância exige uma extraordinária força interior, uma firme determinação para se converter num guerreiro da paz.
A tolerância não é debilidade, mas exigência. Implica o abandono de comportamentos fáceis, para a resolução dos seus próprios problemas, sobretudo a tentação da violência, da força bruta, da exclusão ou do sectarismo. Não existe tolerância sem o direito à justiça.
A tolerância não é inacção, nem submissão, mas sim uma acção permanente em benefício do que une e não do que separa. Para que a tolerância não se transforme num sinónimo de fraqueza há que mostrar um espírito de responsabilidade e de determinação.
A tolerância necessita ao mesmo tempo de adaptabilidade para enfrentar a novidade sem “fugas” e sem se fechar sobre si próprio e, sobretudo, capacidade de incluir as diferenças na sua própria visão da realidade.
A tolerância exige uma disciplina de vida que nos conduza a escutar e a respeitar o outro antes de actuar, a controlar a nossa própria impulsividade e a libertar-nos dos preconceitos a fim de construir em vez de, simplesmente, reagir às atitudes contrárias. Só então a tolerância se transforma num programa de formação para libertar a alma humana e desenvolver a consciência.
A tolerância não é homogeneização nem nivelamento, mas harmonização dos contrários para que estes se convertam em complementares. A tolerância favorece a capacidade filosófica de integrar a multiplicidade numa Unidade Plural
A tolerância também não é a perda de identidade. Permite voltar a descobrir a harmonia que se obtém com entidades diferentes e orgulhosas de o ser, colocadas como as notas musicais numa participação harmónica. Ensina-nos a enriquecer com o contributo dos outros, sem por isso deixarmos de ser nós próprios.

A intolerância e o intolerável

A intolerância nasce, nas nossas sociedades contemporâneas, da confusão permanente entre o ter e o ser. Quando se pensa que somos aquilo que temos, vive-se no medo de o perder, mas quando sabemos quem somos – quando fazemos prevalecer o ser sobre o ter –, ninguém nos pode privar disso.
Só os homens e os povos seguros de si próprios, das suas raízes e do seu futuro podem ser tolerantes. Não se pode tolerar sem ter valores, convicções, caso contrário a tolerância converte-se na porta aberta para a homogeneização geral, o “relativismo”.
A tolerância deve também conjugar-se – como afirma Jean d’Ormesson –, com a “recusa do intolerável”. Tolerar tudo sem um prévio exame é perigoso. Hoje em dia a fronteira situa-se entre os que recusam a violência e a exclusão sob todas as suas formas (racismo, sectarismo, integrismo, purificação étnica, etc…) e os que as querem impor.
Mas não devemos ceder à tentação de recusar em conjunto tudo o que não é como nós ou como nós gostaríamos que fosse.
Não podemos apenas acusar o outro de intolerância.
Vivemos numa época de uma profunda revisão interior sobre as causas e os motores que impelem cada um de nós para a intolerância. Um dos nossos problemas é que não soubemos aprender com os genocídios nem com os holocaustos do nosso século. Como sugeriu em tempos Max Weber, devemos definir um “espaço ético comum” que permita a convergência entre uns e outros e que possa ser o terreno de tolerância onde se expressem as convicções que despertem o humano e não os fanatismos cegos.
Por isso pensamos que devemos despertar em nós próprios o homem autêntico, o filósofo, que desde a infância se pergunta: Quem sou? Para onde vou? O amor pelo conhecimento de si próprio e dos outros abre-nos uma pista generosa e acessível a todos, rumo à cultura da tolerância.
Esta filosofia tira-nos do isolamento egoísta e abre os nossos olhos para o mundo, conduzindo-nos através das nossas portas interiores, fechadas até essa altura.

Atrever-se à tolerância

A Nova Acrópole oferece um terreno de expressão para todos aqueles que constataram que a origem da intolerância está, sobretudo, neles próprios. Quem é que pode dizer que nunca apanhou o vírus da intolerância, que nunca se mostrou arrogante, depreciativo, separatista? Quem poderá dizer que a cegueira ou os preconceitos, em alguns momento, não o afastaram da tolerância, porque pensava que a sua cultura, as suas crenças ou a sua pessoa eram melhores que os outros?
Não se trata de culpabilizar-se, nem de acusar o outro dos comportamentos sectários, violentos, ou simplesmente agressivos ou negativos, mas de incentivar a reconciliação consigo próprio e com o próximo.
A prática da tolerância não é sinónima de sonho ingénuo ou de utopia. Dirige-se a todos aqueles que tomaram consciência da necessidade de superar a barbárie interior que alimenta o nosso próprio egoísmo. Apoia-se em valores de união e de complementaridade para fazer nascer novos corações, graças a uma filosofia activa da vida.
Se todos temos consciência de fazer parte de uma mesma humanidade, apesar das nossas diferenças, atrevamo-nos então a ser tolerantes!

Fernando Schwarz
Antropólogo e escritor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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