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A Dança Sagrada

 

Dança SagradaA dança é um diálogo onde as palavras são movimentos. Para executar uma dança sagrada, os movimentos devem ser consagrados. A consagração do gesto equivale a uma direccionalidade do movimento em que este se torna um sinal e é portador de uma mensagem. Exige-se primeiro a presença de uma ideia ou de um objectivo a alcançar, e em seguida trabalha-se o corpo para adquirir a máxima maneabilidade para exprimir a Ideia.

Exemplo:
Ideia de elevação: subida do corpo para o alto; Ideia de libertação: abertura do corpo para fora.

A dança sagrada exige algo mais do que o próprio domínio corporal; exige também uma participação activa da consciência, que simultaneamente se irá manifestar na sequência dos movimentos. Aqui o artista não exprime algo que lhe é exterior: procura ser verdadeiro; o seu corpo é a oferenda e a sua consciência é o oficiante. Ele dança com o espírito, quer dizer, exalta o corpo para sublimar.

A dança é para ele uma via de libertação! Assim, a expressão corporal não será inata; o que é inato é a disponibilidade do corpo para se expressar. Para que haja expressão, tem que haver Ideia! Este motor oculto (inconsciente arquetipal) estimula a alma que irá comunicar ao corpo o caminho a seguir. Quanto mais a consciência estiver embebida na Ideia, melhor será a capacidade do oficiante em realizar os movimentos certos. Menor capacidade, menor transparência exterior.

A dança sagrada exige uma descida da Ideia (Ideal) no corpo. Só o Ideal perfeito poderá tornar o corpo perfeito. Os vários movimentos marcam as etapas da tomada de posse do Espírito sobre o corpo. Em termos filosóficos, poderíamos dizer que os impedimentos para realizar um movimento perfeito derivam do facto de nós nos termos afastado da realidade, da perfeição. Este ideal dorme em potência no corpo, na Alma e no Espírito (belo, bom, justo) do Homem. Falta-nos redescobrir esta meta, recordá-la para a tornar vivencial. Este é o caminho, e a dança é uma das suas vias de acesso.

Por isso também encontramos na dança sagrada uma apoteose final: o êxtase, estado sublime, onde deixa de existir diferença entre o exterior e o interior; entre e EU vontade e o EU corporal. Esse estado de união perfeita entre o corpo e o espírito surge quando a alma embriagada pela música, que ritma e sintoniza os movimentos, se deixa subjugar pela Ideia; é possuída por Ela numa dádiva total. Nas danças primitivas encontramos este processo através da 1ª fase ligada à Purificação: exorcizar ou fazer sair os maus génios (espíritos) que habitam o homem; afastar o Mal para que o Bem possa intervir. Depois desta 1ª fase surge então o diálogo do homem com as Forças Superiores. Os ritmos musicais procuram aureolar o Homem num campo vibratório apropriado; a música dá a cadência marcando os diferentes estados de evolução da dança sacralizada.

De facto, nós encontramos sempre o mesmo princípio da Maiêutica socrática em todas as atitudes sacralizantes, seja a música, a psicologia, a filosofia, a dança ou outras disciplinas: esvaziar para encher, sair para entrar, morrer para renascer.

"A verdadeira dança é um puro acto de Amor, sendo esta a união perfeita da alma com Deus. A dança não é somente prazer para o corpo e para os olhos; ela deve transmitir algo mais que movimento; deve procurar exaltar e recordar ao homem a ideia do Belo"

Hoje temos afastado de nós este sentido sagrado da dança, talvez devido ao facto de não existir a ideia do Sagrado. Sagrado significa puro, precioso, o que é verdadeiro, real na sua essência. O Sagrado exige a consciência do Bem supremo e a sua veneração. Em oposição ao sagrado está o Profano, o que está por debaixo, em posição de menor importância, de menor valor. Profanar significa desvalorizar algo, destituí-lo do seu valor essencial. A atitude profana é um gesto sem intenção transcendente; é comum e falta-lhe a consciência do porquê.

Sem o conhecimento, o Homem não é Mestre de si mas passa a ser escravo das circunstâncias e dos outros. O Sagrado, pelo contrário, marca a presença da consciência pelo facto de conhecer o valor intencional do gesto, o princípio que o ilumina e direcciona. A dança sagrada terá, então, por objectivo a busca do essencial através do movimento, enquanto que a dança profana usa o movimento como um fim em si.

A dança profana reflecte duas tendências:

- Regresso ao mero instinto (espontaneidade do corpo). Aqui é a natureza inferior que predomina. Estas danças expressam formas caóticas onde as emoções convulsionam o corpo de uma maneira orgíaca. O corpo sobrepõe-se à mente o que resulta em impressões sensoriais sem grande transcendência. É uma forma primária de deixar falar o corpo; trata-se, pois, de uma dança orgânica que procura sensações rápidas e passageiras. A música que lhe corresponde utiliza vibrações violentas com cadências curtas ou então lânguidas com cadências longas.

- Corresponde ao tipo tecnicista que se situa no outro extremo já que a 1ª nega a própria técnica, utilizando unicamente o instinto. Esta segunda tendência procura através da forma o artifício que tem mais a ver com a performance corporal do que com a arte da Dança. É uma dança que, vazia de mensagem, pretende transmitir sem saber o quê. Por isso recorre à exuberância, à pseudo originalidade para parecer rara. Requer muita técnica para se justificar, pois joga com a ilusão e necessita do público para auto-lisonjear-se.

Estas formas de dança seguem correntes de opinião, fortemente intelectualizadas, que manipulam a Arte numa dialéctica de convenções sociais. A Arte para ser Arte tem que ser universalmente sentida. Os olhos da Alma sabem reconhecer espontaneamente a beleza de uma rosa, de um pôr-do-sol sem por isso recorrer a um dicionário de estética. A Arte verdadeira fala por si, não é elitista, exclusiva, e tem um objectivo comum a todos os seres: a perfeição, que procura expressar através de múltiplas atitudes. As formas diferem mas a essência é a mesma para todas as disciplinas. O objectivo é expressar a vida, a beleza, o desabrochar da Alma através de um simples passo de dança que eleve o corpo ate às Alturas.

A transmissão do ideal de Perfeição através da dança é querer expressar um princípio universal, do qual nós reconhecemos a supremacia. Hoje as pessoas recusam-se a aceitar este princípio pela simples razão de que têm inconscientemente medo de não estar à altura de o viver. Negando o perfeito é mais fácil legitimar a imperfeição. Que melhor lugar para a mentira do que aquele de onde a verdade foi banida?!

A segunda tendência da dança profana, dita contemporânea (que está limitada a um tempo determinado, restrita a um momento) é para nós um puro sofisma. Urge, então, erguer uma nova dialéctica da profundeza para que renasça a dança sacralizada (a que perdura sempre). Neste reencontro com o objectivo da Vida o Homem irá beneficiar de um novo impulso e poder-se-á regenerar através da dança participando da sua essência.

A verdadeira dança é um puro acto de Amor, sendo esta a união perfeita da alma com Deus. A dança não é somente prazer para o corpo e para os olhos; ela deve transmitir algo mais que movimento; deve procurar exaltar e recordar ao homem a ideia do Belo, da Perfeição que só poderá ser transmitida na medida em que o executante a torne em si mesmo vivencial.

A dança é uma iniciação à Vida. É o eterno movimento ate Deus. É a oração do corpo.

Que mais poderemos dizer senão encorajar todos aqueles que por esta arte se sentem atraídos. Pois, no fundo, onde existe amor à Arte existe o Artista, esse homem que, frente à Beleza, frente à Perfeição, manifesta a sua mais sincera homenagem através da dação de si próprio.

 

Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole

                                                                      

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