DELFOS – O Centro do Mundo
Diz a tradição que Zeus soltou um dia duas águias em sentido contrário. Quando, após várias viagens estas se encontraram, deixaram cair uma pedra lavrada com esotéricos sinais e o nome oculto do lugar eleito. Esta cravou-se ao pé do Monte Parnaso e o lugar foi Delfos.
Jorge Angel Livraga
A Apolo de Delfos compete as mais elevadas, as mais belas e mais importantes das disposições legais. (…) Pois sem dúvida é este deus que, em todos estes assuntos, é o intérprete nacional para todos os homens, quando profetiza sentado no omphalos, no centro da terra.
Platão, in República (427bc)
Tal como acontece com o arquétipo de Acrópole, a ideia de uma cidade sagrada com o seu omphalos (umbigo) é comum a muitas das civilizações antigas, existindo em culturas tão distantes como a tiawanacota e a tibetana. Trata-se de um símbolo directamente relacionado com os pontos de contacto entre os diversos planos da Natureza e deverá ter analogia com a teoria oriental dos chakras (rodas energéticas) terrestres.
Narram autores antigos que desde tempos remotos reinava em Delfos a deusa Gea que aí dava oráculos num espaço defendido pela serpente (ou dragão-fêmea, drákaina) Píton. Quando surgiu a cultura minóica, Apolo abandona a sua ilha de Delos ajudado por nautas cretenses e dirige-se a Delfos – vocábulo etimologicamente relacionado com útero. Mata o monstro guardião com as flechas do seu arco divino, torna-se Senhor do Santuário e cobre com a pele da serpente o trípode solar onde a pitonisa se viria a sentar. Este mito recorda imediatamente o combate de Hórus contra a serpente Apóphis. Trata-se do mitologema do deus-herói solar (seja ele Apolo, Horus, Siegfried ou S. Jorge) que vence (ou cosmisa) as forças do caos e regenera o cosmos.
Estrabão na Geografia refere-se ao ritual da pitonisa de Delfos: «Dizem que o oráculo se senta numa cova, profunda e de abertura não muito larga, e que dela sai um alento inspirador. Sobre a abertura está colocado um alto trípode ao qual sobe a pitonisa, esta recebe o hálito e dá ordens em verso e prosa. Estes são também transcritos em verso por uns poetas ao serviço do Santuário». Quer dizer, dessa fenda geológica saía em certos momentos especiais (quando o deus estava operativo) uns vapores que provocavam o êxtase na pitonisa que emitia umas palavras ou sons (parece que, por vezes, seriam uns sons desconexos) que os sacerdotes do Apolo délfico registavam ou interpretavam. Para verificar se o deus estava presente vertia-se água sobre uma cabra, se o animal estremecia, era sinal de que Apolo estava presente.
Estavam inscritas no Templo de Apolo máximas como «Nada em demasia», «Não se aproxime daqui quem não seja puro» e «Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses»
Historiadores da religião vêem no mito de Apolo délfico a verticalização solar de um culto ctónico matrilinear. Na sua Mitologia Grega, Junito de Souza Brandão considera Apolo um deus kathársios (purificador), harmonizador e mensageiro de uma nova ética: «O novo senhor do Oráculo do monte Parnaso trouxe ideias novas, ideias e conceitos que haveriam de exercer, durante séculos, influência marcante sobre a vida religiosa, política e social da Hélade. Mais do que em qualquer outra parte, o culto de Apolo testemunha, em Delfos, o carácter pacificador e ético do deus que tudo fez para conciliar as tensões que sempre exisitiram entre as pólis gregas. (…) Buscando ‘desbarbarizar’ velhos hábitos, as máximas do grandioso Templo Délfico pregam a sabedoria, o meio-termo, o equilíbrio, a moderação (…) um atestado bem nítido da influência ética e moderadora do deus Sol.»
Estavam inscritas no Templo de Apolo máximas como «Nada em demasia», «Não se aproxime daqui quem não seja puro» e «Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses». A primeira parte desta última inspirou o ofício maêutico de Sócrates. Em certa ocasião, Querefonte interrogou o oráculo sobre uma questão que o preocupava há muito: «Quem é o homem mais sábio de Atenas?» O oráculo respondeu: «Sábio é Sófocles, mais sábio é Eurípides, de todos os homens o mais sábio é Sócrates.»
Durante cerca de mil anos, Delfos exerceu uma forte influência na sociedade grega. O seu complexo foi-se ampliando com a construção de vários templos para além do de Apolo, de um Teatro com lotação para cinco mil pessoas e de um extraordinário Estádio com 200 metros de longitude com espaço para sete mil espectadores, onde se celebravam os Jogos Pítios cada quatro anos. Estes combinavam o desporto, a música e o teatro, tendo para os Gregos o condão de perpetuar a vitória de Apolo sobre Píton e de manter a serpente-dragão in bono animo.
A renovação espiritual concretizada com o culto apolíneo vem no seguimento da mensagem órfica e prosseguiu com a acção de grandes génios da sabedoria como Pitágoras, conhecido como o filho de Apolo, e Platão. O deus délfico, como viajante que era, estava muitas vezes ausente mas regressava sempre na altura da Primavera vindo do reino dos Hiperbóreos. No Inverno, Dionísio governa em Delfos. Dionísio, o deus dos êxtases e da transgressão, num certo sentido contraparte de Apolo, era esotericamente uma divindade mistérica de simbolismo muito profundo. Tem relação com o Osíris egípcio.
Entretanto, a Fonte Castália onde se banhavam ritualmente as pitonisas e se purificavam aqueles que desejavam consultar o deus, perdeu o seu dom lustral e de Apolo não sabemos em que lugar está presente…
Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor