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Diálogo Entre Hipátia e o seu Pai Theon Sobre o Nascimento e a Morte das Civilizações

 

A voz e os ensinamentos do pai acariciavam e fortaleciam a alma de Hipátia, como faziam com o seu corpo os raios do Sol e a brisa marinha entrando pela sua janela, heraldos de uma alegria do presente que desconhece as tragédias de ontem e as angústias do amanhã. E no interior, no jardim contíguo à habitação de Hipátia, o trinar dos pássaros multicoloridos parecia alheio às sombras de temores futuros ou presentes. A natureza, sábia e terna mãe, parecia selar com o seu sim perpétuo o ensinamento egípcio antes mencionado por Theon.

 

"... a crise, para as almas despertas, é sempre um tempo fecundo, um tempo para embandeirar os mais nobres ideais, os valores eternos."



 É certo, continuou o sábio, que vivemos tempos de mudança, de transformação ou talvez de sonho e morte de uma civilização. Tempos de crise. Mas, no entanto, a crise, para as almas despertas, é sempre um tempo fecundo, um tempo para embandeirar os mais nobres ideais, os valores eternos. Como dizia o filósofo Heraclito, a vida é uma batalha incessante, pois todo aquele que vive fá-lo numa tensa oposição em relação à sua circunstância, que somos também nós, claro. Essa luta torna-se mais evidente nestes momentos de dificuldade. É, portanto, um tempo propício para se afirmar nos princípios da Razão Recta, do Logos ou Dever Ser. Utilizando uma imagem tão cara ao pensamento egípcio e platónico, é como se as almas despertas formassem uma pirâmide na qual batessem furiosamente as águas, e a pirâmide resistisse firmemente na geometria perfeita da sua forma e na tensão das suas pedras. Essa pirâmide, como diz Platão, é o símbolo da tarefa humana iluminada pela Divindade e, elevando-se em triunfo ao procurar todo o justo, o verdadeiro, o belo e o bem que existe na nossa a alma, na dos nossos semelhantes e na da natureza que integramos. Repito, é a chamada ancestral rumo ao Justo, ao Bom, ao Belo e à Verdade que faz e sustenta a pirâmide, e a alma, portanto, de toda a verdadeira política, ciência, arte e religião. É, pois, o momento de nos unirmos fortemente ao melhor de nós mesmos e a todas as almas buscadoras dessa verdade e dessa justiça. Lembra-te de Plotino: a Luz do Espírito ou Inteligência une, o Fogo espiritual convoca-nos e as águas da matéria, as potências do caos, dissolvem tudo e os seus remoinhos tragam quem não se mantiver nessa incessante luta interior, nessa visão da unidade mais além de todos os véus e máscaras, a que chamamos Filosofia.

Mas, perguntou Hipátia, com uma certa tristeza, tudo o que nasce deve morrer, mesmo que nasça da beleza? Devem morrer os versos de Safo ou a ternura e a delicadeza dos poemas de Ovídio, chegará a submergir-se no esquecimento a divina filosofia de um Platão? Chegarão a morrer, como diz a profecia do templo de Denderah e os textos herméticos, as artes e ciências do Egipto, as suas escolas de Mistérios, o coração da sua mística inviolada?

Morre o corpo, nunca a alma, que busca novas formas nas quais continuar a sua eterna peregrinação. Recorda aquele texto em hieroglífico que lemos e comentámos há alguns dias:

 “O Viajante que cruza por milhões de anos é o nome de Um, e as Grandes Verdes (Águas Primordiais ou Caos) é o nome do Outro, um produzindo milhões de anos em sucessão e o outro absorvendo-os para devolvê-los.”

E sim, também o Egipto morrerá. Já começou a fazê-lo desde que deixou de ser chamado com o seu velho nome de Kem, Terra-Fogo, há mais de mil anos. Mas a sua alma peregrinará, reencarnando, com aqueles que são os seus filhos verdadeiros. E as imagens que no Egipto têm sido forjadas e enraizadas num perfeito Ideal de Beleza e Bondade, Justiça e Verdade, todas as que se reflectiram no Espelho da Divina Harmonia da Deusa Maat, viverão para sempre, inspirando, de um modo ou outro, os «viajantes através dos milhões de anos», são imagens talismânicas do passado cuja força espiritual atravessa as portas do presente e se projecta em direcção a um futuro quase infinito. É como uma grinalda de flores de eterna beleza e aroma. Armas mágicas para o Guerreiro Divino que vive no mais profundo do Coração, mais poderosas ainda para aqueles que forjaram as referidas imagens de eternidade, pois são, usando uma terminologia aristotélica, consubstanciais com a sua alma.

Então, perguntou Hipátia, uma civilização é um ser vivo, como tu e eu, como uma árvore?


E como uma estrela ou uma flor, acrescentou Theon.  Nasce, cresce, deve entrar na luta pela sobrevivência do mais apto e é submetido às vicissitudes da Necessidade, Fortuna ou Némesis, como quiseres chamar-lhe. Se chega ao seu esplendor, abre-se, como um lótus ao Sol, derramando a sua mensagem de vida e beleza, e as suas sementes para se perpetuar. A flor faz isto, tu já o sabes, e já aprenderás que também é a vida e o destino das estrelas, o mistério do chamado Fogo Cósmico, sobre o qual nada posso dizer-te, pois violaria um juramento. As estrelas são como lótus no jardim infinito do céu, flores de eternidade, dada a enorme duração das suas vidas.

Muitos têm sido os nomes e imagens usadas para compreender, por analogia, o que é uma civilização, uma pirâmide, um Templo de Valores imperecíveis, uma árvore que abriga e protege a todos os que nela se abrigam, uma Flor, um Ideal encarnado. Mas eu, entre todas elas, prefiro a imagem de uma Águia Solar que desce à terra…

As palavras de Theon e o esforço para que a mente e a alma de Hipátia se elevassem num voo seguindo o seu rastro, foram acalmando pouco a pouco a sua inquietude. Assim, Hipátia desde a elevação dos temas tratados e das brisas de eternidade que nestas alturas alentam, via as preocupações da terra como imagens de um sonho fugaz e sem importância. Hipátia pensava para si que a solução de todos os problemas, a verdadeira medicina para não ficar destroçada pelos males presentes e evitar os futuros, era libertar a alma da prisão em que se encontra cativa, libertá-la da ignorância e do erro e fazer com que se relembrasse do seu amor pelas alturas. A alma humana é, por natureza, divina, como diziam os filósofos pitagóricos. Somos Deuses Aprisionados e não animais dotados com a chama escura da astúcia. Se manchamos o nosso fogo divino, o fogo da razão celeste, o mais puro dos elementos, é por escravizá-lo aos nossos interesses mundanos e egoístas. E com as sombras desta razão celeste construímos um mundo que se converteu numa prisão e nos escravizou. Senão, pensemos em quanto tempo utilizamos a mente para tentar compreender o significado profundo daquilo que nos rodeia e quanto é utilizado para servir os interesses pessoais e egoístas. É como se fossem duas mentes ou razões, uma que olha para o céu e o reflecte, como um espelho, a segunda dirigida para a terra, desejando projectar as suas fantasias e o seu império tirânico sobre ela. Para não falar da mente que não sabemos onde está, vagabunda, sonhadora, sem se dirigir nem para o céu nem para a terra mas para um nada que fascina e desfaz…

 

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández
Director da Nova Acrópole Portugal

 


 

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