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Educação em Esparta

Esparta, testemunho de uma educação clássica, constitui um reflexo fiel da educação cavaleiresca homérica. Cidade antes de mais militar e aristocrática.

Juntamente com Creta, e também como ela conservadora, aristocrática e guerreira, Esparta ocupa um lugar de privilégio na história da Educação, e em particular, da cultura helénica. Na Lacónica existe já uma arte florescente a partir do século VIII a. C.; o século VII a. C. é o grande século de Esparta, cujo ponto culminante, cujo Akmé, poderia fixar-se mais ou menos por volta do ano 600.

As fontes que nos permitem estudar a educação espartana são tardias; só no século IV a. C. é que podemos encontrar informações em Xenofonte e em Platão, e o testemunho de ambos é menos explícito que o de Plutarco e das inscrições, a maior parte das quais não remontam mais além dos séculos I e II da nossa era.


"A Polis é tudo para os seus cidadãos. É ela que faz deles o que são: Homens."


Na época arcaica, Esparta era um grande centro de cultura hospitaleira, dos estrangeiros, acolhedores das artes, da beleza, de tudo aquilo que mais tarde irá rejeitar. Esparta era, na altura, o que Atenas só chegaria a ser no século V a. C.: a metrópolis da civilização helénica.

Esta Esparta dos séculos VIII-VI a. C. é, indubitavelmente, antes de mais, um Estado guerreiro: o seu poderio bélico permitiu-lhe conquistar e conservar o seu território que, duplicado devido à anexação de Messénia (735-716 a. C.), tornou-o um dos mais vastos Estados da Grécia; fazendo com que ninguém, antes dos vitoriosos atenienses nas Guerras Médicas, pudesse sonhar em oferecer luta.

O lugar predominante que o ideal militar ocupou na sua cultura, aparece já testemunhado pelos relatos bélicos de Tirteu, que ilustram belas obras plásticas contemporâneas, consagradas também como aquelas à glorificação do herói.

A Polis é tudo para os seus cidadãos. É ela que faz deles o que são: Homens. Daí o sentimento profundo de solidariedade que une todos os cidadãos de uma mesma cidade ou Polis, o ardor com que os indivíduos se consagram ao bem-estar da pátria, para que esta seja imortal: “Belo é morrer para o Homem que cai na primeira fila combatendo valentemente pela sua pátria”, diz Tirteu, o melhor intérprete desta nova ética.

Estamos na presença de uma revolução moral: descobrimos uma nova concepção de virtude, da perfeição espiritual, da Areté, que não é a Araté agonística de Homero. Tirteu, com plena consciência, contrapõe o novo ideal ao antigo: “Eu não julgaria um homem digno de memória, nem faria caso algum dele só pelo seu valor nas corridas pedestres ou na luta, se fosse tão grande e forte como os ciclopes, mais veloz que o Trácio Bóreas, mais belo que o Titono, mais rico que Midas ou Ciniras, mais poderoso que o Rei Pélope, filho de Tântalo, se a sua língua fosse mais doce que a de Adrasto e possuísse toda a espécie de glória, se carecesse de valor militar, se não fosse um homem capaz de aguentar de pé firme a batalha… que este é o valor verdadeiro, Areté, o mais alto prémio que um homem pode obter entre os homens, é um bem comunitário, útil à cidade e a todo o povo, que cada um, bem assente sobre as suas pernas, se mantenha firme numa fileira firme, afastando do seu coração toda a ideia de fuga”. Bem se vê com quanta energia, o novo ideal subordina a pessoa humana à Polis: a Educação espartana já não terá por objectivo seleccionar heróis, mas formar uma cidade inteira de heróis, isto é, guerreiros prontos a seguir e a se consagrarem à Pátria.

Mas temos uma ideia pobre da Educação espartana, sem nos limitarmos somente à perfeição exclusiva do ofício militar. Também tinham importância o gosto e a prática dos desportos hípicos e atléticos. Da sua participação nos jogos olímpicos conhecemos a primeira vitória espartana na XV Olimpíada; entre os anos 720 e 576 a. C., num total de 81 vencedores olímpicos, 46 eram espartanos; na prova decisiva das corridas pedestres, em 36 campeões, 21 foram espartanos. Estes êxitos eram produto tanto da sua perfeição física como também dos inovadores métodos de treino; sabemos por Tucídides, que atribuíam aos espartanos inovações importantes nas técnicas desportivas gregas: a nudez completa dos desportistas e o uso do azeite como unguento. O desporto também era praticado pelas mulheres; Plutarco fala-nos bastante disso, e vemos estátuas de bronze representando jovens espartanas em plena corrida, levantando com uma mão a franja da sua túnica desportiva.


"Estamos na presença de uma revolução moral: descobrimos uma nova concepção de virtude, da perfeição espiritual, da Areté."

 

Mas, indubitavelmente a cultura espartana não é só um desenvolvimento físico e atlético. Também desenvolveram as artes e as letras. Assim vemos como Plutarco, ao narrar a história das origens da música grega, seguindo Glauco de Regio, diz-nos que Esparta foi a verdadeira capital da música grega no século VIII a. C. e princípios do VI a. C. Em Esparta floresceram as duas firmes escolas que essa história enumera – Katastaseis. A primeira, a de Terpandro, caracterizava-se pelo solo vocal ou instrumental; na segunda “catástasis” (fins do século VII a. C., princípios do século VI a. C.), dedicado especialmente à lírica oral, brilhavam Taletas de Gortina, Xenodamos de Citeres, Xenócito de Locres, Polimnesto de Colofon e Sakadamos de Argos: todos estes, quase desconhecidos para nós, sabemos que tiveram fama no seu tempo. São mais conhecidos os poetas como Tirteu ou Alcman, cujos fragmentos conservados, permitiram apreciar o seu talento ou o seu génio. De todas as partes acudiam a Esparta criadores e virtuosos, prova de que estavam seguros de ali encontrar um público suficientemente culto e educado para oferecer as suas obras. Reaparece aqui a influência do papel desempenhado pela Polis: a vida artística de Esparta comprovava-se em manifestações colectivas que, ao mesmo tempo, são instituições do Estado: as festas religiosas.

Assim, temos os sacrifícios aos deuses protectores da cidade. Serviam de passagem solene para as procissões, como no caso das Jacíntias, os comités acompanhavam o cortejo de donzelas em coros de sete jovens a cavalo e, especialmente para competições de todo o tipo, atléticas ou musicais: no santuário de Artemis Orthia as crianças de 10 e 12 anos disfrutavam de dois concursos musicais e um jogo de caça, kassaratorion, na festa nacional onde se realizavam as corridas, além dos banquetes, uma corrida de perseguição; e as gimnopedias, organizadas por Taletas, actuavam dois coros: um de jovens solteiros, e outro de homens casados. Em termos gerais, parece que estas festas alcançavam um nível muito alto de refinamento artístico: apesar de incompletos, os fragmentos do “Parterio” de Alcman que chegaram até nós - onde um coro de jovens donzelas celebra em versos apaixonados de beleza os seus condutores, Agido e Magesícora - evocam magnificamente aquela atmosfera impregnada de graça e de poesia, de juventude e também de bom humor.

Na sua forma clássica, a educação espartana, a agogé, conserva o mesmo objectivo claramente definido: o “treino” do hoplita (a infantaria pesada que forjou a supremacia militar espartana). Completamente organizada em função de todos servirem o Estado. Por isso recebia a agogé, que é ser educado de acordo com as normas vigentes, era a condição fundamental para aceder aos direitos cívicos.


"A educação do espartano concedia também grande importância à preparação Moral, orientada, fortemente, para a formação do carácter, conforme um ideal comum para todos."



A lei interessa-se pela criança antes dela nascer: em Esparta funcionava toda uma política de eugenia. Mal acabasse de nascer, o menino deveria ser apresentado ao conselho de anciãos, onde se verificava se era uma criança bela, bem constituída e robusta; os desmazelados e malfeitos eram condenados a ser levados para os Apotetas, depósito de lixo.

O Estado consente em delegar as suas faculdades na família até que a criança cumprisse sete anos de idade. Então o jovem espartano passava directamente para as mãos do Estado, passando a pertencer, a partir desse momento, completamente ao Estado. A educação propriamente dita é desde os sete anos de idade até aos vinte anos de idade; estava confiada à autoridade directa de um magistrado especial, o Paidónomos, verdadeiro encarregado da educação geral. O menino era inscrito em brigadas juvenis, cujas categorias hierarquizadas tiveram uma certa semelhança com as bem conhecidas do século passado juventudes fascistas ou hitlerianas. A classificação da agogé compreende treze anos, distribuídos em três ciclos da seguinte maneira:

8 aos 11 anos: 4 anos de camarada ----------  Rubidas
  - Pré-camaradas (Prominkizómenos)
  - Camaradas (Minkizómenos)
  - Pré-jovem (Propai)

12 aos 15 anos: 4 anos de jovem -------------  Jovem 1.º grau (Pratopampais)
  - Jovem de 2.º grau (Hatropampais)
  - Futuro Iren (Melleiren)
  - Futuro Iren, 2.º ano (Melleiren)

16 aos 20 anos: 5 anos de “Efebía” ------------ Eiren 1.º ano
  - Eiren 2.º ano
  - Eiren 3.º ano
  - Eiren 4.º ano
  - Proteiras (Chefe-Irén)

Aos vinte e um anos de idade, completando a sua formação, ainda que não estivessem satisfeitas todas as exigências do Estado, o jovem ingressava nos agrupamentos dos homens feitos; em firmes termos nos “jogos de bola”, sphireís.

Os meninos espartanos dividiam-se em unidades, ilsi ou agelsi, comandados por jovens mais velhos; os Proterai de vinte anos, ou seja, os mais velhos dos Irenes. Estas unidades, por sua vez, dividiam-se em pequenos grupos, bonais, sob o comando dos mais preparados de cada grupo, que se distinguiam dos seus camaradas pelo título de Bonagós, chefe de patrulha.

Esta educação do Estado é, portanto, uma educação colectiva que retira o menino do seio da sua família para o fazer viver numa comunidade de jovens. A transição, além do mais, é progressiva, durante os primeiros quatro anos, reúnem-se unicamente para fazer exercícios e jogos; aos doze anos, o jovem, Pampais, submetido a uma disciplina mais severa, deixa a casa paterna para ingressar no internato ou, melhor dito, no quartel, que já não abandona, nem sequer para casar-se, antes dos trinta anos de idade.

Todas as energias estavam dirigidas para a perfeição militar, a ginástica e a música. Tudo canalizado para a formação fundamental do soldado. O manejo das armas, a esgrima, lançamento do dardo, movimentos de formação compacta, eram parte importante da preparação do exército espartano, único exército profissional da Grécia Clássica, as formações militares despertavam grande admiração; disse Plutarco a esse respeito: “O Espetáculo do exército espartano que marchava ao ataque, ao som da flauta, era, ao mesmo tempo, majestoso e terrível.”.

 


"Esta educação do Estado é, portanto, uma educação colectiva."


Por isso, a educação do espartano concedia também grande importância à preparação Moral, orientada, fortemente, para a formação do carácter, conforme um ideal comum para todos: a sobrevivência e grandeza do Estado, da Pátria.

Procurava-se desenvolver o sentido comunitário e um grande espírito de disciplina. Esta forte Moral desenvolvia-se num clima de austeridade e ascetismo. O educador espartano procurava desenvolver nos jovens uma grande resistência ao sofrimento e ao esforço excessivo.

Mal vestido, cabelo rapado, e pés e cabeça descobertos, o menino espartano dormia sobre uma liteira perto do Eurotas, que, no Inverno, era guarnecida com lanugem de cardo. Desenvolvia-se a virilidade e o espírito combativo endurecendo-os, com jogos e simulacros de guerra, ensinando-os a ser autossuficientes, tanto para o combate como para a luta pela sobrevivência.

Os jovens espartanos mais velhos também recebiam uma educação semelhante, onde a música, a dança e o canto desempenhavam um papel menos importante que a ginástica e o desporto.

Esparta não tem um lugar à parte na história e na filosofia. Ela tem um lugar preponderante na Educação, a sua criação de um Estado em que a sua força está fundamentalmente na Pedagogia. Sendo fonte de inspiração para muitos povos e filósofos posteriores, como o próprio Platão.


"Esparta é um exemplo de valor e integridade em momentos difíceis."


Infelizmente, são muito obscuras as fontes existentes sobre o Estado de Esparta, mas o fundamental é o legado para a posteridade, que não é a sua educação ou vida, mas o espírito que animou este povo a converter-se em um ninho de heróis, de guerreiros amantes da paz, mas não temerosos das guerras, as quais pareciam ser uma verdadeira festa que desfrutavam com toda a alma.

Para nós, Esparta é um exemplo de valor e integridade em momentos difíceis. Em assim como eles afirmavam que as suas muralhas defensivas eram compostas pelos seus próprios homens, também o homem moderno deve ser uma muralha inexpugnável contra o materialismo ateu, ser uma porta aberta à esperança e uma porta fechada para a ignorância.


Mario O. Ilabaca V.
Nova Acrópole Panamá

 

Bibliografia:
Marrou, Henri-Irenne; Historia de la Educación en la Antiguedade. Ed. Universitaria de Buenos Aires.
Jaeger, Werner; PAIDEIA. Fondo de Cultura Económica. México.
Plutarco; Vidas paralelas. Colección Austral. Espasa Calpe.


 

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