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O Santuário de Epidauro

 

 

epidauro

 

Um dos lugares sagrados mais importantes de toda a Hélade era o Santuário de Asclépios em Epidauro, «lugar onde não é lícito nascer nem morrer», como escreveu Pausânias, fazendo referência à proibição de que entrassem no recinto mulheres grávidas e moribundos.

A antiga cidade de Epidauro estava edificada numa península (Akte ou Nisi) com dois portos naturais, no Golfo Sarónico, frente à ilha de Egina. Dali se controlava a passagem dos que se dirigiam a Poros e a Metana e dos que percorriam a costa para o interior por estreitas passagens que conduziam a Argos ou a Corinto.

«O Epidauro coberto de vinhas» citado por Homero na Ilíada, rodeado de bosques e montanhas, estende-se por uma fértil planície de laranjeiras e limoeiros. Segundo informa Estrabão, esta terra de clima saudável foi povoada pelos cários, antes da chegada dos dórios, vindos de Argos.

Durante séculos, Epidauro teve de resistir à ameaça dos seus poderosos vizinhos: Argos e Corinto. No século VI a.C., Epidauro, sob o comando de Procles, coloniza a ilha de Egina, Ionia e Samos. Este é o momento de maior poder da pólis de Epidauro. Nesta data as escavações revelam o começo do esplendor do Santuário dedicado a Asclépios. A partir de então, e durante os séculos V e IV a.C. até ao domínio romano, o nome e a fama de Epidauro seriam sinónimos do seu Santuário.

O Santuário de Asclépios encontra-se num vale entre os montes Tithion e Kynortion, a 300 m acima do nível do mar. Um caminho sagrado co­bre os 9 km que separam a pólis de Epidauro, entre os bosques de pinheiros e oliveiras silvestres.

Como acontece com outros santuários, a origem do culto à Divindade une-se intimamente com o culto a outras Divindades ancestrais do lugar. Neste caso, o culto a Asclépios fundamenta-se sobre o culto primitivo a Apolo no monte Kynortion, tal como o demonstra o templo a Apolo Maleatas, achado na montanha, perto do teatro.

A origem do culto a Asclépios é hoje em dia uma questão controversa, que divide a opinião dos peritos. Por um lado, há os que defendem que era uma Divindade local (como relatam as tradições do lugar); por outro lado, parece mais provável que fosse uma Deidade importada de Trikka (ou Trikala, na Tesália). No entanto, ninguém duvida que foi em Epi­dau­ro que foi venerado pela primeira vez.

Homero recorda Asclépios como um herói que alcançou grande fama pelas suas curas, e situa a sua pátria na Tesália. Hesíodo e Píndaro também nos mencionam a região de Tesália como pátria deste Deus sanador. Nos seus poemas relatam-nos uma das mitologias mais conhecidas e aceites acerca do nascimento de Asclépios.

Segundo Hesíodo, Asclépios é filho de Apolo e da bela Coronis (ou Corónides), filha de Plégias, que se uniu ao Deus da Luz na «Rochosa Epidauro», como diz o Oráculo. Quando Apolo soube que Coronis lhe tinha sido infiel cedendo ao amor de Iskis, filho de Elatos, consentiu que a sua irmã Artemisa matasse a jovem para vingar a ofensa.

No entanto, Apolo chegou a tempo de salvar o seu filho das entranhas de Corónis, antes que esta ardesse na pira funerária. E levando-o para o monte Pélion (Tessália), entregou-o ao centauro Quíron, para que o educasse. É atribuído a Quíron o conhecimento transmitido ao jovem Asclépios sobre a Ciência, a Arte e a Medicina, assim como o seu grande Amor pela Humanidade.

Conta-se que chegou a ter tanto conhecimento sobre a arte de curar, que até se atreveu a ressuscitar os mortos. E por isso, Zeus, Deus Supremo do Céu, temendo que ele transtornasse a Ordem do Mundo, abrasou-o com o seu Raio.

Em Epidauro contava-se de forma diferente o nascimento do Deus. Segundo as crónicas de Pausânias e o hino de Tsilo (poeta local do século III a.C.) encontrado no Santuário de Asclépios, este tinha nascido no bosque de Epidauro e tinha sido abandonado no monte Tithion. Ali o encontrou o pastor Arestanas, e cresceu em companhia de um cão que guardava o rebanho, e de uma cabra que o amamentou. Por isso tanto o cão como a cabra eram animais especialmente consagrados ao Deus, e nunca se sacrificavam.

Aquilo que se destaca primeiro nas duas versões é a repetição do esquema típico dos Deuses-heróis civilizadores, de origem indo-europeia. Asclépios é um herói bondoso e benfeitor da humanidade, que traz a luz de Apolo em forma de Ciência e chega a instaurar um culto em torno de Epidauro. O mito repete o esquema presente de alguma maneira na his­tória de outros heróis:

Um Fatum ou Destino, que marca o seu nascimento de forma especial. Neste caso, o que desencadeia a tragédia é o adultério de Coronis com o mortal.

A perseguição do filho. Uma Deusa ciumenta e vingadora tenta impedir o nascimento da criança. No nosso mito esta etapa reflecte-se na figura de Artemisa a matar Coronis e a pôr em perigo a vida do filho de Apolo.

A salvação milagrosa. O pequeno Deus ou herói é atirado à morte, mas salva-se milagrosamente. Aqui se vê claramente como numa das versões Asclépio é abandonado no monte, onde é salvo pelo pastor; na outra versão é o próprio Apolo que salva o seu filho, arrancando-o do ventre de Coronis (tal como Zeus fez com Dionísio).

Ele é o eleito dos Deuses. Estes velam pelo jovem Deus ou herói para que se cumpra o seu Destino. Tal como no mito de Zeus, Asclépio será amamentado por uma cabra como símbolo da protecção divina. Noutra versão, vemos como Apolo o entrega ao cuidado do centauro Quíron.

A luta contra o caos. O Deus ou herói realiza alguma façanha que simboliza a sua vitória sobre as forças caóticas. No mito de Asclépio, as suas façanhas são constituídas por numerosas curas e milagres que o jovem Deus sanador realiza.

O herói organiza o Caos e restabelece a Ordem no Mundo. Asclépio leva a cabo a sua missão de Deus cosmificador quando o seu neto Alexanor erege o Santuário de Epidauro, tal como tinha feito Apolo em Delfos.

Este esquema mitológico aparece na Grécia tal como noutras culturas vinculado ao nascimento de muitos Deuses e heróis: Zeus, Apolo, Hefaistos, Dionísio, Hércules, Perseu, Édipo, etc. No nosso mito, o nascimento de Asclépio trás como consequência a instauração de um culto em torno de um lugar sagrado (Epidauro), que não é mais do que outra forma de simbolizar o princípio cosmificador: a luta entre a saúde (cosmos, ordem) contra a doença (caos, desordem).

Dos mitos sobre o nascimento de Asclépio, assim como das suas representações em estátuas, relevos ou moedas, podemos entender como é que o culto deste Deus passou de Tesália para Epidauro.

No princípio, Asclépio era uma forma de Apolo (possivelmente o seu nome será um epíteto deste), simbolizando a acção benéfica da luz solar. Assim era venerado em Mecénia. De facto, nas mais antigas representações, encontramos um Deus jovem e imberbe, parecido com o brilhante Apolo.

Mais tarde este culto impor-se-ia na região de Epidauro, e dali, estender-se-ia a toda a Hélade e a Roma. Pelas suas semelhanças com vários as­pec­tos simbólicos de Apolo, foi tornado seu filho de maneira oficial através do Oráculo de Delfos.

Em Epidauro, Asclépio assume o culto ancestral da serpente, próprio do lugar. Antes da chegada do Deus da Medicina, existia na Argólida um culto ctónico à serpente como símbolo de força telúrica. A serpente pas­sou a ser não só um símbolo do Deus sanador, como também as formas vivas que continham a divindade. Estas serpentes de Epidauro eram de uma espécie única, de cor avermelhada e totalmente mansas. Nas representações do Deus seja erguido ou sentado, aparece sempre o fiel réptil aos seus pés ou enroscado no seu cajado.

Como exemplo da importância da serpente no culto a Asclépio, há que mencionar o Templo circular do Santuário de Epidauro. A obra data de 360 a.C. e o seu autor é Polícleto o jovem, descendente do autor do Do­ríforo. Consiste numa câmara rodeada de uma colunata interior de estilo coríntio, de catorze colunas de mármore branco pentélico sobre uma ba­se de mármore negro de Argos. O exterior é formado por 26 colunas dó­ricas que sustentam uma cornija, também dórica, com métopas decoradas com rosáceas em relevo. O tecto do peristilo possui por sua vez uma decoração em caixotões de mármore, cujo fundo contém uma flor de lírio estilizada, rodeada por uma roseta que emerge de uma planta de acanto de quatro folhas. Ambas as colunatas (interior e exterior) estavam separadas por uma parede de mármore branco com um janelão. O tecto estava decorado, segundo Pausanias, por dois quadros do célebre pintor da escola de Esción, Pausias: um representava Eros pousando o arco e as flechas para pegar na lira, e o outro era uma alegoria da Ebriadade a beber numa taça de cristal. Finalmente, uma acrótera vegetal coroa a obra arquitectónica.

Mas o mais importante deste Templo consiste no seu interior. Sob o pa­vimento de lajes brancas e negras de calcário, encontra-se o labirinto circular que se supõe que constituísse o centro das cerimónias dedicadas ao an­tigo herói Asclépio; um culto ao homem divinizado ou ao Deus ter­restre vinculado às serpentes e de origem pré-grega. Este tholos (que recorda as tumbas micénicas da Ática) era o lugar de descanso do Deus, que re­cebia a sua força da terra e dela saía, como as serpentes. Por isso, no centro do labirinto havia um poço onde se guardavam vivas as serpentes con­sagradas ao Deus. Noutros santuários consagrados a Asclépio, como o do Pérgamo, também foi encontrada esta edificação circular. Tudo isso tes­temunha a sobrevivência de um culto a uma antiga Deidade egeia, sub­terrânea, associada a Asclépio.

O outro animal vinculado a Asclépio é o cão. Nas representações clássicas, o Deus aparece semelhante a Zeus e também a Hades, mas com rosto mais suave e benigno. Quando aparece sentado, ao seu lado estão o cão e a serpente.

Conforme nos relata a lenda de Asclépio, um dos seus episódios mais célebres (além do da sua participação na famosa expedição dos Argonautas em busca do Tosão de Ouro) foi a ressurreição de Glaucor, Aretao, Capaneos, e finalmente o desafortunado Hipólito. Foi precisamente a ressurreição de Hipólito que acabou por irritar o Deus dos mortos, Hades, que exigiu a Zeus que pusesse fim às alterações que Asclépio vinha a exercer nos seus domínios ao ressuscitar os mortos. Então Zeus decidiu fulminar com o seu Raio o filho de Apolo.

Este mito fala-nos de uma rivalidade entre Hades e Asclépio; mas trata-se mais concretamente de um complemento. Se Apolo ou Hades trazem a morte, Asclépio trás a esperança de uma vida para além da morte. Por isso compartilha com Hades e também com Apolo, o cão como ani­mal que acompanha na sua viagem aos mortos.

O culto a Asclépio realiza-se no Templo do Deus, centro do Santuário. O Templo de Asclépio foi construído por Teódotos por volta de 380 a.C. É, pela sua forma períptera, de estilo dórico, com 6 colunas no frontão e 11 nos lados. A sua planta era composta por um recinto e um pronau com duas colunas in antis e não possuía opistódomos. Estava cimentado sobre pedra calcária, o alçado era de pedra de corinto e possuía o ornamento de mármore pentélico. Lajes de mármore branco e negro alternavam no pavimento produzindo o efeito estético de oposição de cores, usado já nos templos de Olímpia e Delos. O tecto, segundo Pausânias, reluzia de dourados.

No interior do recinto encontrava-se a estátua de Asclépio feita em ouro e marfim, obra do escultor Trasímedes. Pausânias descreve-nos a estátua que representava o Deus sentado, acariciando com a mão a cabeça de uma serpente; junto ao trono está encostado um cão. O Deus aparece desta forma representado também em dois baixo-relevos de Epidauro, as­sim como moedas gregas e romanas.

Era também obra de Trasímedes a rica porta de ébano, ouro e marfim que encerrava o recinto do templo.

Quanto à decoração escultórica, sabe-se que nela participaram vários artistas: Timóteo, Teódotos, Hectóridas, Agathinos e Teótimos. O frontão oeste estava decorado com uma Amazonomaquia: Pentesileia, Rainha das amazonas, a cavalo com outras nove amazonas combate os gregos. No frontão leste estava representada a destruição de Tróia.

A parte superior e os extremos dos frontões estavam decorados com estátuas acroteriais. As estátuas do frontão leste representavam Nereidas, enquanto o frontão oeste estava custodiado nos seus extremos por duas amazonas, e no alto uma Niké (Deusa da Vitória) coroava o edifício. Também o trono de Asclépio estava decorado com relevos das façanhas dos heróis Belerofonte e Perseu.

Tanto o Templo como o tholos guardavam as oferendas dos doentes que chegavam ao Santuário para se curarem e para se oferecerem ao Deus. Os doentes que chegavam a Epidauro percorriam o caminho sagrado até chegarem às portas do recinto do Santuário. Ficavam alojados no edifício de dois andares, de 76m de lado, dotado de 160 quartos em redor de qua­tro pátios.

Quando o doente chegava ao Santuário, tinha de se apresentar ao sacerdote, que decidia se ele era digno de ser admitido. Se a resposta era positiva, passavam três dias de jejum e banhos purificadores na fonte sagrada que há junto ao Templo, dentro do bosque, também sagrado, que rodeava e limitava o Santuário. Depois era oferecida uma vítima a Asclépio. Os animais que se sacrificavam eram o touro, o porco, o galo e o cordeiro.

No Santuário de Epidauro as curas realizavam-se através do sonho. Era através deste sonho, que o Deus se apresentava ao suplicante (geralmente sob a forma de uma das serpentes sagradas que deambulavam livres pelo recinto) para lhe indicar o remédio. Um sacerdote interpretava estes sonhos na manhã seguinte e indicava o remédio que o doente devia receber, assim como a oferenda de agradecimento ao Deus que devia deixar no lugar.

O século IV a.C. esteve ligado ao momento de maior expansão do Santuário de Epidauro e do culto a Asclépio em geral. A partir desta data e nos séculos seguintes, o culto difundiu-se por toda a Grécia: fundaram-se mais de duzentos santuários, entre eles os de Argos, Sición, Corinto, Ate­nas, Cós, o famosíssimo santuário de Pérgamo e o de Roma, na ilha Ti­be­ri­na, dedicado ao seu equivalente romano: Esculápio.

Durante esta etapa e até praticamente ao século V d.C., o Santuário foi ganhando em edifícios e esplendor. Construíram-se banhos e albergues para os visitantes. Durante o apogeu da cultura helenística, Epidauro foi um centro importante de intercâmbio cultural: no Santuário de Asclépio ergueram-se templos a Artemisa, Témis, Afrodite e, mais tarde, inclusive a Deuses egípcios como Amón, Seráphis e Ísis.

No Santuário eram adorados juntamente com Asclépio outros Deuses menores, que são conhecidos como os Asclepiades, e são eles: Higia (a Saúde), filha de Asclépio, Iaso (a Cura), Telésforos (a Convalescença), Aegle, Panaceia, Podaliro e Macaón.

Junto ao Santuário foram edificados banhos e instalações para curas, pousadas e outros edifícios destinados às competições desportivas. Foi construído um estádio, um ginásio, um odeão e uma palestra.

Em cada quatro anos e nove dias depois dos Jogos Istmícos (entre Abril e Junho) celebram-se as Asclepieias, onde decorriam competições desportivas, musicais e dramáticas.

As encenações dramáticas realizavam-se no famoso teatro de Epidauro ao pé do monte Kynortion. Este teatro é atribuído a Polícleto (o autor do tholos), mas os arqueólogos actuais defendem a hipótese de que o actual teatro se construiu sobre um anterior. O teatro tinha capacidade para 6200 pessoas. Mais tarde, durante a primeira metade do século II a.C., aumentou a sua capacidade para 14000 pessoas e assim permaneceu até aos nos­sos dias. Ali se erguia o altar de Dionísio, no lugar destinado às declamações do coro.

O teatro e o resto dos edifícios serviram para engrandecer o prestígio das Festas em honra a Asclépio e divulgar o seu culto por todo o mundo. Durante a Época Imperial Romana, o senador Antonino mandou restaurar alguns edifícios e construir outros novos. São desta época os banhos romanos, a biblioteca e as vilas que existem no exterior do Santuário.

O Santuário de Epidauro sobreviveu durante a época helenística a muitos outros cultos e conviveu com outras religiões já na Época Imperial Romana. Perdurou inclusive apesar do saque no ano 86 por parte das legiões de Sila.

Por fim, em 426 o culto desapareceu do Santuário. Os terramotos dos anos 522 e 551 acabariam por destruir a famosa cidade sagrada da Argólida: Epidauro.

 

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