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A Filosofia de IBN Arabi, Exemplo de Ecletismo e Tolerância Religiosa

 

Aquele que leva em consideração o ser humano não leva em consideração, na realidade, mais do que a Deus (1).

Enquanto o homem permanecer vivo, pode esperar-se dele que alcance a perfeição para a qual foi criado. Aquele que pretenda destruí-lo impede-o de obter aquilo para o qual foi criado.

Ibn Arabi, Os Engastes da Sabedoria, capítulo 18

 

Quem visitar a cidade de Córdoba depara-se com maravilhas tanto do seu passado romano como do islâmico, período no qual foi sede do Califado Omíada e, em certo modo, capital cultural e ideológica do mundo muçulmano durante o século X (segundo a cronologia cristã). Partindo da mesquita, atravessando a ponte romana que o caudilho Almanzor mandou reconstruir, encontramos a Torre da Calahorra, fortificação defensiva que nos dias de hoje está convertida em Museu Vivo do Al-Andalus. O visitante fica, em geral, muito impressionado com as alocuções das estátuas do rei cristão Afonso X o Sábio, do filósofo e médico judeu Maimónides, do também filósofo e legislador Averroes e do sábio e místico Ibn Arabi, os dois últimos enraizados dentro da tradição islâmica.

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Torre da Calahorra Maimóndes, Averroes, Ibn Arabi e Afonso X,

 

"Todo o amor, tenha-se ou não consciência disso, é amor de Deus."

Este último pronuncia as seguintes palavras, magistralmente extraídas do seu pensamento sufi:

Os legisladores dizem-nos: isto está proibido, isto podes fazer; mas nunca esperes que te digam: És responsável pela tua pessoa, aprende a reflectir por ti mesmo, que é o que o Corão nos recorda em cada uma das suas páginas.

Se os juristas fossem tidos em conta, as relações entre Deus e o homem não seriam diferentes das de um amo e do escravo. No entanto, a fé e a filosofia começam ali onde termina o domínio das áridas leis.
O Corão diz-nos: “Deus exalta os homens que ama e o amam”. E também: “Se amam Deus, Deus amar-vos-á porque Deus é unidade, a unidade do amor, o amante e o amado”.

Todo o amor é desejo de união. Todo o amor, tenha-se ou não consciência disso, é amor de Deus. Há um amor natural em que somente acreditas estar à procura da satisfação do teu próprio desejo, mas nele também comprovas que não te bastas a ti mesmo. Inclusive na união dos corpos, onde querias encontrar o êxtase, experimentas a nostalgia e a necessidade daquilo que não és.

Há um amor espiritual no qual amas o amado pelo próprio amado. Já não podes viver mais do que entregando-te, preferindo à tua a sua alegria, a sua plenitude de ser; este amor ensinar-te-á o sacrifício.
Há um amor divino, o mais elevado, no qual em cada coisa amas aquele que a criou, e não amas Deus mais do que por si próprio, sem temor a castigos nem desejos de recompensa. Esse amor que envias a Deus é um reflexo do que Ele te envia a ti. Não podes identificar-te com Deus, mas sim actuar de acordo com a sua vontade, revelada pelo seu mensageiro.

O Profeta disse: Quando és amado por Deus, Ele converte-se no ouvido com que escutas, no olho com que vês, no passo com que avanças, na mão com que trabalhas. Deus insuflou o seu espírito no homem como testemunho desta presença divina em ti do acto de Deus que não cessa na sua criação. Os teus actos exteriorizam a tua fé, tornas visível o invisível cada vez que consegues superar-te. Se és artista, expressando a beleza amada por Deus; se amante, vendo e servindo Deus naquilo que amas; se sábio descobrindo novas verdades; se és chefe, criando para cada um as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Saber ver em cada ser o acto que o criou e submeter a vida inteira à vontade do criador é o que identifica qualquer homem de fé. Todos os homens são chamados por Deus, não desprezes os que, buscando-o, acreditam tê-Lo encontrado em algo que não é Ele. O Islão reconhece a todos os profetas como mensageiros de Deus. Aprende a descobrir em cada homem o gérmen interno do desejo de Deus, inclusive se a sua crença é ainda confusa ou idólatra, para poder orientá-lo em direcção à luz total.

Escrevi isto num poema de amor:

“O meu coração tornou-se capaz de revestir
todas as formas,
é pradaria para as gazelas e convento
para o cristão,
templo para os ídolos e peregrino
rumo à Kaaba,
as tábuas da Torah e o livro do Corão.
Minha religião é a do amor,
para onde quer que se encaminhe a caravana do amor,
ali vai o meu coração e a minha fé”

Este último poema talvez seja a mais bela declaração de ecletismo e tolerância religiosa alguma vez escrita, pois ensina como o coração é o verdadeiro depositário do oceano do Amor Universal, mar sem margens ao qual podemos, se assim quisermos, chamar Deus. O Amor, esta infinita irradiação do Sol Espiritual do Bem (segundo o pensamento platónico) é a quinta-essência da religião. Ali onde não há amor por todos e por tudo, e vontade de fazer o bem, a chama que dá vida à religião esgota-se e morre. Como afirmou o professor Jorge Angel Livraga, fundador da Organização Internacional Nova Acrópole:

JALAo estudar comparativamente todas as Escrituras de um modo desapaixonado superam-se as barreiras do ódio e chega-se às puras fontes, mais além do lodo que costuma rodeá-las (…) Quando chegamos a tão eclética opinião de tolerância para com os que não pensam como nós, humanizamo-nos realmente e aproximamo-nos da Divindade e das Escrituras Originais da nossa Religião – se é que preferimos uma – mais do que cumprindo um milhão de vezes os ritos formais que encadeiam e envilecem. O brahman pode passar cem vezes por baixo de uma vaca, o cristão ouvir a missa diariamente, o muçulmano pode prostrar-se virado para Meca todos os dias da sua vida, que se não têm Amor no seu coração e não realizam esse Amor sem distinções e generosamente, se não vêem como irmão até o mais miserável verme que adormece o seu esboço biológico sob a mais pesada das pedras, não terão dado um passo na Senda rumo ao exemplo do Mestre, seja este qual for (2).

"A ignorância é a mãe do temor, e este do ódio, base de toda a violência."

Durante o reinado dos últimos Omíadas, no século X, Córdoba converteu-se num modelo de convivência entre culturas e religiões, de aprendizagem mútua e de respeito nas diferenças. Talvez a situação não fosse tão utópica como muitas vezes se faz apologia, e os textos da época demonstram que existiam tensões entre cristãos, judeus e muçulmanos que se podiam traduzir em violência. É uma conquista da alma e um exercício de humildade não rejeitar aquilo que não compreendemos. A ignorância é a mãe do temor, e este do ódio, base de toda a violência. Alguns cristãos fanáticos comportaram-se na Córdoba Omíada como autênticos terroristas no seu desejo de morrerem como mártires e provocarem uma revolução que alterasse o status quo de um modo violento.

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Mesquita de Córdoba

Entravam nas mesquitas e insultavam aos gritos o nome de Alá, blasfémia que, naquela época, estava condenada com a morte. Há que recordar que naquele século, e durante vários mais depois, os cristãos, especialmente os que estavam fora das fronteiras do califado, eram considerados bárbaros, sujos, fanáticos e indecentes, quebrando os seus juramentos de fidelidade pouco depois de os fazer (era lógico quando o faziam submetidos pelas armas e pela máquina bélica muçulmana, muito superior. No século X, exércitos eram os formados pelos muçulmanos, os cristãos não formavam mais do que bandos armados, dizimados por lutas intestinas). Também é certo que os cristãos eram idealistas e sonhadores, capazes de dar facilmente a vida por aquilo em que acreditavam, impulso e fé que iam desaparecendo gradualmente da sociedade do Al-Andalus, já debilitada pelo consumismo e pela satisfação dos sentidos.

De qualquer modo, e superando as tensões e dificuldades, esta sociedade, durante o período omíada foi um exemplo de concórdia, uma idade de ouro numa Europa devorada pelo fanatismo, pela violência, pela ignorância e querendo sair, desesperadamente (e graças ao influxo oriental) do terror e obscuridade da Alta Idade Média, uma etapa pavorosa (3).

"o único caminho que não é de Deus é aquele no qual não se avança, e o peregrino se descompõe e apodrece na sua ociosidade"


ibn_arabiIbn Arabi (1165-1240) nasce em Múrcia, no período dos reinos taifa, politicamente instável, mas ainda assim cultural e espiritualmente muito fértil. Depois de aprender com autênticos mestres iluminados – e muitos – por todo o Al-Andalus continuou a sua viagem geográfica e espiritual pelo norte de África, pelo Cairo, Jerusalém, até chegar a Meca. Após dois anos nesta cidade santuário do Islão continuou rumo a Bagdad e várias cidades da actual Turquia estabelecendo-se em Damasco até ao fim dos seus dias, 17 anos depois.
Ibn Arabi, nos seus textos de filosofia política (tão geniais como pouco estudados, e sempre enraizados na Via Espiritual) diz claramente que há que ser rigoroso na aplicação das leis e que é necessário ter os cristãos muito controlados e sujeitos, pois estes não faziam mais do que promover desordens com a sua conduta violenta. Mas isso era no plano político, no aqui e no agora, perante a necessidade de manter a ordem e a concórdia, a civilização, a bem ou a mal. Na dimensão que penetra na alma das Religiões, deixando atrás os véus do tempo, do conveniente e as necessidades sociais, Ibn Arabi é o melhor exemplo de tolerância e de ecletismo filosófico e religioso de toda a Idade Média.

As suas vivências místicas e o encontro, portanto, com o motor espiritual oculto de todas as religiões (a Fonte Infinita do Amor, a Vontade do Bem e da Inteligência) permitiram-lhe ensinar que, como diz o Bhagavad-gita indiano, todos os Caminhos são, certamente, Caminhos do Senhor (o único caminho que não é de Deus é aquele no qual não se avança, e o peregrino se descompõe e apodrece na sua ociosidade). E embora o judaísmo, zeloso da Torah, fosse racista pela lei (os judeus, aparece nos seus textos sagrados, são o povo eleito de Deus e estão destinados, portanto, a subjugar todos os outros povos: isto é o que repetem ainda hoje os rabinos nas suas sinagogas) e os cristãos, em geral, ignorantes e fanáticos, acreditaram ter o monopólio da verdade sagrada (se interpretarmos ao pé da letra o “só através de Cristo se pode chegar a Deus”), a filosofia lúcida e inspiradíssima de Ibn Arabi reconhece a validade, e ao mesmo nível, de todas as religiões e formas de culto sempre que estas sejam sinceras e inspiradas no amor. É sempre esta a mensagem, se não for mal interpretada, da palavra dos Enviados de Deus; do verbo divino, portanto.

Ibn Arabi é um místico e filósofo, um exemplo ainda nos dias de hoje, decorridos mais de sete séculos sobre a altura em que enunciou o seu pensamento e revelação. Tanto para os apaixonados pela sabedoria como para os estudiosos ou participantes de qualquer religião, sendo um exemplo a seguir, mais definitivo ainda para os que, como os filósofos neoplatónicos, estudam a verdade comparativamente sem perder a chama mística que dá vida e alma a todas as religiões e cultos; e sem a qual, as religiões são só sistemas de crenças vazias e sem sentido, cadáveres sem vida que ninguém no seu são juízo quereria levar atado às suas costas enquanto se descompõem.

Não é em vão que Ibn Arabi é chamado Mestre Máximo pela tradição sufi, embora os seus escritos fossem olhados com suspeita por toda a ortodoxia islâmica pois desafia em virtude do seu encontro com Deus, qualquer proibição formal e mundana que desobedeça a vontade do Céu.

"É necessário, insiste Ibn Arabi, encontrar a síntese, pois do mesmo modo que combinando ou fazendo passar as diferentes cores do Arco-Íris por um prisma surge a luz branca, compreendendo as diferentes formas, nomes e caminhos para Deus encontramos a essência que está por trás e dá sentido a todas elas"

As leis mantêm a ordem e a coesão social quando respondem à justiça. Mas Ibn Arabi diz-nos, em Os Engastes da Sabedoria, o mesmo que contínua a repetir há mais de mil e quinhentos anos o budismo mahayana e durante incontáveis anos mais a voz eterna das Escolas de Mistérios: do mesmo modo que graças à luz, na luz e da luz, manifestamo-nos uns aos outros em Deus, Nele damo-nos a conhecer uns aos outros.

Também o budismo mahayana – ao representar a Roda da Vida com as suas esforçadas ascensões e repentinas quedas – ensina que o Deus da Morte sujeita nas suas fauces um espelho, que é onde se verificam todas estas transformações no samsara (a sucessão de ilusões do mundo manifestado); e que, na verdade, nem a Vida nem Deus (se é que podemos separar um do outro) nos julgam senão que somos nós próprios que o fazemos, ao contemplarmo-nos no espelho da realidade. Julgamo-nos a nós próprios e aceitamos a redenção como a única cura possível. Ibn Arabi diz nesta obra: Somos nós que nos julgamos a nós próprios, mas Nele (…) Verão então que não foi Deus que fez aquilo que eles pretendiam que Ele tinha feito e que, na realidade, isso vinha deles mesmos: Ele conhece-os unicamente tal como são. É o que a filosofia védica chama Karma. Ibn Arabi menciona-o no Corão como “fundamento” ou “argumento decisivo”.

A filosofia de Ibn Arabi é ao mesmo tempo:

1-Um politeísmo sincrético, o dos Nomes de Deus, que subsistem graças à Luz que a vida lhes dá, do mesmo modo que os números o fazem graças à unidade que subjaz sempre.

2-Um panteísmo sublimemente expresso no qual a Natureza é Deus e Deus a Natureza e não podemos separá-los. Deus não é a Inteligência ex machina, ou seja, fora do universo, de Anaxágoras; conceito, em geral, mal interpretado. Todo o livro Os Engastes da Sabedoria – o qual podemos chamar “testamento esotérico” de Ibn Arabi, junto com O Livro das Iluminações de Meca – é um desenvolvimento filosófico deste panteísmo. E ele deixa esta postura bem clara: (Deus) não pode ser mais conhecido do que se nós o somos, porque o Profeta disse: “Aquele que se conhece a si mesmo conhece o seu Senhor” e ele é a criatura que possui a ciência maior em relação a Deus. No entanto, alguns sábios, entre os quais se encontra Abû Hamîd al-Gazâlî, pretendem que Deus pode ser conhecido sem que seja identificado com o mundo, mas isso é um erro.

3-Um monoteísmo tão filosófico como místico, o monoteísmo que é a primeira declaração de fé do muçulmano e que Ibn Arabi percebe não com os olhos da crença mas com os olhos de águia do Vidente Espiritual. Os seus actos são unicamente os que determinam os Nomes Divinos. Os seus Actos são tu e também os seres que existem. Pelos Seus efeitos é chamado “Deus” e pelos teus és chamado “bem-aventurado”. Deus Altíssimo confere-te assim a sua própria categoria quando cumpres perfeitamente a religião e te submetes ao que Ele prescreveu. Ou seja, quando tu mesmo te convertes em Criador sendo, assim, tu mesmo a vontade que move o universo e ajustando-te à lei que emana dessa Vontade.

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99 nomes de Allah Os Engastes da Sabedoria Iluminações de Meca

Nesta obra, Os Engastes da Sabedoria, há um texto que expressa de modo enigmático a relação entre Deus, a Natureza e o ser que adora a ambos, advertindo ao mesmo tempo sobre os perigos das crenças sectárias, estas que dizem (sectárias embora tenham centenas de milhar de associados ou crentes): O meu Deus é o único verdadeiro e a minha crença o único caminho para Ele e rumo a Ele lícito. É necessário, insiste Ibn Arabi, encontrar a síntese, pois do mesmo modo que combinando ou fazendo passar as diferentes cores do Arco-Íris por um prisma surge a luz branca, compreendendo as diferentes formas, nomes e caminhos para Deus encontramos a essência que está por trás e dá sentido a todas elas. Talvez seja este o seu mais sólido ensinamento sobre o Ecletismo como verdadeira filosofia da religião, pois não se podem estudar as religiões alheias partindo do princípio que são falsas, mas somente do princípio de que são verdadeiras ainda que, talvez, tenham sofrido adulterações ou más interpretações.

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Quem está aqui? Quem está ali?

Um é a essência do outro.
Quem O considera universal particulariza-O
Quem O considera particular universaliza-O.
Nenhuma essência que não seja a outra.
A Sua luz é a Sua obscuridade.
Quem isto esqueça
não encontrará nele mais do que trevas.
Só conhece o que dizemos
o servidor dotado de verdadeira inspiração.

 



Na verdade, há nisso uma chamada para aquele que está dotado de coração (Cor. 50,37), devido às suas mudanças na diversidade das Formas e dos Atributos. Não disse “para aquele que está dotado de intelecto”, porque o intelecto condiciona e reduz a manifestação a uma qualificação única, o que é contrário à verdadeira Realidade. Não se trata de uma chamada para os que estão dotados de intelecto, os que professam credos, os que declaram incrédulos uns aos outros e se amaldiçoam.

E não têm defensores (Cor. 3, 22). Com efeito, a Divindade professada por alguém não tem nenhum poder sobre a professada pelo outro. Aquele que se cinge a um credo defende a sua concepção da Divindade e rejeita qualquer outra, mas o que o seu credo encerra não lhe serve de ajuda e permanece sem efeito, carecendo de efeito sobre o credo do que se opõe a ele. Do mesmo modo este oponente não deve esperar ajuda alguma da Divindade presente no seu próprio credo: não têm defensores. Deus negou que as Divindades das crenças possam servir de qualquer tipo de ajuda quando são consideradas separadamente. O que obtém auxílio é a Síntese, e o que auxilia é a Síntese. Deus, para o gnóstico, é “o Sempre Conhecido que nunca é rejeitado”.

E insiste: A religião é completamente para Deus e procede inteiramente de ti, não Dele (embora no seu aspecto essencial, tudo o que procede de ti procede na realidade Dele).

"Triste filosofia a do cristianismo, do islamismo ou do judaísmo se forem consideradas ao pé da letra e com visão estreita"

É evidente que uma coisa é religião, considerada como crença vitalizada por uma verdade espiritual, outra é filosofia e outra ainda é a vivência mistérica. É a este caminho que Ibn Arabi se refere nesta mesma obra quando explica o que acontece quando a crença desaparece e se converte em visão:

(Por outro lado),tratando-se da Essência, alguns servidores decretam nas suas profissões de fé que Deus é deste modo ou de outro. Quando desaparecer o véu, verão a verdadeira forma do seu credo. O que tinham conseguido atar deste modo será desfeito. O credo desaparecerá e dará lugar a uma ciência obtida por uma contemplação directa. Quando o olhar se tornar penetrante, nunca mais se tornará débil. A diversidade das manifestações nas formas fará com que estes servidores vejam aparecer, então, o que diferirá do seu credo, porque as manifestações de Deus jamais se repetem, de modo que o versículo que diz: aparecer-lhes-á da parte de Deus a respeito da Essência o que eles não tinham previsto, verifica-se, também, a propósito desta última.


Triste filosofia a do cristianismo, do islamismo ou do judaísmo se forem consideradas ao pé da letra e com visão estreita: uns porque dizem que antes de Cristo era impossível existir um encontro com Deus e com a Verdade, manchados como estávamos com o pecado original, os outros porque ensinam que depois de Maomé já não haverá mais profetas ou Enviados de Deus, e os últimos porque continuam à espera do Messias há mais de 3000 anos, mas este deve ser à sua medida, e com as qualidades que eles mesmos atribuíram ou interpretaram dos seus textos religiosos, e ai do Messias que não se ajuste à descrição! Em círculo estreito limitam a acção do que eles mesmos chamam Absoluto e Omnipotente! Tudo isto cheira (e desculpem-me a expressão tão dura) a monopólio sectário do Sagrado. Graças a Deus, as inteligências mais esclarecidas destas religiões conseguiram romper tais cadeias do pensamento e ultrapassar com asas de águia estas limitações que são certamente nada mais do que a expressão, ou melhor, “cristalização” da sua ignorância hermenêutica. Ibn Arabi é, e repito com orgulho e devoção, uma destas inteligências que nos permitem ver mais além do aparente e do regulamentado pelos sábios e autoridades de ofício.

"Ibn Arabi reconhece a validade de todas as religiões e cultos, sempre que a adoração surgir da chama do coração"


Ibn Arabi também diferencia o que é servir a religião e servir a Deus, aludindo ao que H. P. Blavatsky chama Mestres de Sabedoria e Iniciados nos Mistérios, que pertencem a uma Hierarquia ou Pirâmide de Luz que é o Coração Espiritual da própria Humanidade, o modelo ideal ao qual todas as religiões e cultos fazem referência e ao que se denominou “Motor do Espaço” ou Iman de todo o movimento em direcção a Deus (assim o menciona Paracelso). Ibn Arabi fá-lo, entre muitos outros textos, neste de Os Engastes da Sabedoria (4):

Deus tem sobre a Terra representantes que obtêm a sua autoridade directamente Dele. São os Seus Enviados. Por outro lado, os representantes da autoridade religiosa obtêm a sua autoridade dos Enviados, não directamente de Deus, visto que a exercem unicamente em virtude da Lei Sagrada que o Enviado estabeleceu para eles, e limitam-se a isso. Trata-se de uma tema delicado, conhecido somente pelos que estão à nossa altura.

Diz respeito ao fundamento das decisões que os representantes religiosos tomam, e que formam parte disso que é a Lei Sagrada para o Enviado. Com efeito, a autoridade religiosa que obtém a sua autoridade do Enviado de Deus fundamenta as suas decisões quer no que se transmitiu do Enviado, quer no esforço interpretativo do que foi transmitido. No entanto, há entre nós seres que obtêm a sua autoridade directamente de Deus, de modo que são os “representantes de Deus” em virtude da fonte da sua autoridade. A sua situação é análoga à do Enviado de Deus. Segundo as aparências, seguem a este último, pois não entram em conflito com a sua autoridade, como Jesus quando descer e reinar, ou como o Profeta Muhammad, segundo o versículo: “Esses são aqueles que Deus guiou. Submete-te, pois, ao seu Guia” (Cor. 6,90).

(…) Por esta razão, o profeta Muhammad não designou alguém para o suceder após a sua morte. Não deixou nada dito a respeito, pois ele sabia que haveria na sua comunidade seres que obteriam a categoria de Representantes directos do seu Senhor. Sabendo que isso seria assim, o Enviado de Deus não tomou essa decisão.

Nesta obra, Os Engastes da Sabedoria, existe um capítulo inteiro, o número 24, chamado O engaste de uma sabedoria do Imâm num verbo de Aarão que faz referência à validade de todas as religiões e cultos, sempre que a adoração surgir da chama do coração. Isto, que o tradutor para o espanhol desta obra, Andrés Guijarro, chama “paixão e que é a força espiritual inata, Deus em (e sendo) a alma humana, o entusiasmo ou fogo criador e adorador. Pois este é, e não outro, o fogo que Prometeu roubou aos deuses e nos converte, com as nossas limitações, num deles. É muito enigmático o que narra Ibn Arabi neste capítulo e as reflexões que faz sobre a história de Moisés e o Bezerro de Ouro. Naquilo que consideramos riqueza, ali está o nosso coração, isto é o que queremos obter e proteger a qualquer preço. Mas se vemos a riqueza ali onde não está, naquilo que não sendo duradouro não é mais do que uma sombra, não estamos a prostituir essa chama sagrada, não estamos a tornar as sombras mais sombras e a arrastar a chama para o não ser? Mas ainda assim, Ibn Arabi insinua que a natureza humana é tal, como filha de Deus, que diviniza tudo quanto toca com a sua chama de adoração, ainda que se converta no Bezerro de Ouro. O problema é que a Lei é uma e qualquer acto gera as suas consequências, as que deveremos enfrentar… embora isto não invalide o anterior.

O final deste livro de Ibn Arabi é uma jóia filosófica no seu sentido universalista das religiões, todas elas como as diferentes (infinitas) direcções no espaço do Movimento (que é a natureza da Vida e o próprio Deus), pegadas que o eterno deixa no espaço e no tempo, como a luz do relâmpago na nossa retina.

Aquele que se limita a um objecto de adoração em particular mostra-se ignorante nisto, sem dúvida, pelo mesmo facto de que se opõe aos restantes nas suas convicções dogmáticas a respeito de Deus. Se conhecesse o sentido das palavras Junayd (“a cor da água é a do recipiente que a contém”) deixaria a cada um em paz com a sua própria crença. Conheceria Deus sob qualquer forma e em qualquer religião. Não há mais do que uma opinião, não uma verdadeira ciência e, por isso, Deus disse num hadiz quasî: “Eu sou conforme a opinião que o meu servidor tem de Mim”. Ou seja, Ele não se manifesta ao crente senão sob a forma da sua crença. Se ele quer, de um modo absoluto; se ele quer, de um modo condicionado.

A divindade das religiões é prisioneira das limitações. É a divindade que contém o coração do servidor. Mas nada pode conter a Divindade absoluta, visto que Ela é a essência de todas as coisas e a essência Dela própria. Não podemos dizer de uma coisa que se contém a ela própria, nem que não se contém. Compreende bem isto.

E Deus diz a Verdade, e é Ele Quem nos guia na Via.

 

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole


(1) De Os Engastes da Sabedoria, Ibn Arabi. Tradução por Andrés Guijarro. Editorial EDAF, colecção Arca de Sabiduría. Todos os textos de Ibn Arabi referidos são desta obra e tradução.

(2) Introdução à Sabedoria do Oriente, tema V.

(3) O livro A Queda do Império Romano, do historiador Adrian Goldsworthy é claro e contundente. Desfaz a versão romântica de que este período foi muito criativo e fértil para a civilização. Demonstra com testemunhos arqueológicos e literários a vida miserável e quase de brutos – com a excepção do mundo islâmico, justamente – que tiveram que suportar os que nasceram nesses séculos de obscuridade mental e frio físico.

(4) Mais concretamente no capítulo 17 desta obra que se chama O engaste de uma sabedoria da realidade num verbo de David.


 

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