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A Filosofia Oculta e o Renascimento Inglês

 

Os livros oficiais de História dizem-nos pouco acerca da realidade, sobretudo se essa realidade não está na moda. Tal é o caso do Renascimento inglês e do Ocultismo. A história profana daquela época conta-nos as façanhas de Sir Francis Drake e Walter Raleigh. Fala-nos da brilhante corte da rainha Isabel e de como se afundou a Armada Invencível. Mas dos estudos ocultos de Raleigh fala-se pouco. Do interesse da rainha em tais assuntos ainda menos. E o ocultismo de John Dee é visto como uma espécie de aberração, uma excentricidade algo ridícula de um grande matemático e homem de erudição.

Um livro escrito nos anos 70 tratou de corrigir aquela visão tão parcial e incompleta da História. É uma das obras da grande investigadora Frances W. Yates e intitula-se A Filosofia Oculta na Época Isabelina. Apesar de ser um livro muito interessante e nada difícil de ler, actualmente encontra-se esgotado (tal é o caso também da biografia principal de John Dee, de Peter French). A tese do referido livro vai formar o fundo deste artigo, embora com acrescentos de outras fontes. Segundo Yates, «a filosofia dominante da época isabelina foi o ocultismo».

 

"Os principais expoentes desta Filosofia Oculta no Renascimento foram Pico de la Mirandola, Johannes Reuchlin, Francesco Giorgi, Giordano Bruno e John Dee"

 

O que é a Filosofia Oculta?

A Filosofia Oculta própria do Renascimento baseia-se em várias correntes antigas. Uma das mais importantes é o Hermetismo, uma recompilação greco-romana dos ensinamentos do sábio egípcio Hermes Trismegisto, com o seu aforismo chave sobre as correspondências mágicas: «Assim é em cima como é em baixo».

Outra das suas fontes principais é o Pitagorismo com a sua ideia da música das esferas. «O divino Platão», como lhe chamava John Dee, era outra personagem muito importante da tradição da Filosofia Oculta, pois nas suas obras encontram-se as ideias principais da referida Filosofia, tal como a divindade do homem, a reencarnação, ou o mundo sensível como reflexo ilusório do mundo do inteligível, do qual há que se libertar.
De igual importância é o Neoplatonismo, que não só repetia as ideias de Platão mas também as expandia e as integrava em outras tendências como a Cabala hebraica, com as suas hierarquias celestes e a trindade que aparece em todas as Religiões. Uma das ideias chave do Neoplatonismo que influenciaria muito o pensamento e sobretudo a literatura do Renascimento é a do Amor como motor de todas as coisas e, em especial, da ascensão até ao Ser.

Os principais expoentes desta Filosofia Oculta no Renascimento foram Pico de la Mirandola, Johannes Reuchlin, Francesco Giorgi, Giordano Bruno e John Dee entre outros.

 

O Renascimento inglês

O Renascimento inglês é um dos últimos da Europa e segue a tradição renascentista que começou em Itália no século XIV, sobretudo na Florença de Cosme de Médicis onde se traduziu pela primeira vez Platão e os textos herméticos. Ali brotou uma nova fé no ser humano (o Humanismo), um interesse apaixonado pelo mundo clássico, um estudo sério da Magia como Ciência sagrada e a crença de que o homem podia aproximar-se da divindade através de uma investigação profunda da sua obra, quer dizer, da Natureza (o espírito científico).

Temos que considerar, ao mesmo tempo, as ideias medievais e o ambiente pré-renascentista. Segundo esta conceção, Deus criou o mundo e acabou-se; não há que perguntar nada, simplesmente obedecer a lei de Deus que está escrita nas Sagradas Escrituras. Deste ponto de vista, o homem é uma criatura dominada e há que desconfiar da mente. É uma mentalidade profundamente oposta à atitude renascentista.

Na época isabelina, em meados do século XVI, já estamos a entrar na Contra-Reforma. O Catolicismo lutava para recuperar o território perdido para os protestantes. As posições chegavam a ser cada vez mais intransigentes. A tolerância era um fenómeno do espírito renascentista, mas nesta época era ainda algo fora do comum. Em Inglaterra reinava Maria Tudor, uma católica zelosa cuja missão era restaurar o Catolicismo em Inglaterra. No último ano do seu reinado casou-se com Filipe II de Espanha, líder político do movimento contra-reformista. No seu breve reinado Maria chegou a queimar na fogueira cerca de 300 protestantes e introduziu as «Leis da Heresia».

Felizmente, o seu reinado foi breve pois morreu em 1558, depois de reinar somente 5 anos. Isabel I, que acedeu ao trono depois da sua morte, declarou que esta era uma obra da Providência. E, na verdade, com Maria o Renascimento inglês jamais teria acontecido.

Isabel tinha um carácter bem diferente. Era aberta, entusiasta do saber. O seu tutor, desde a juventude, tinha sido um grande humanista, Robert Ascham. Era protestante como o seu pai, Henrique VIII, mas não fanática. Via a religião como um assunto pessoal e esclareceu no princípio do seu reinado que, contanto que as pessoas observassem os ritos exteriores o resto não interessava, pois a alma é coisa da consciência individual. Os protestantes fanáticos ficaram dececionados, mas tiveram que vergar-se diante da habilidade da rainha e da força do seu carácter.

Isabel interessou-se muito pelos temas ocultistas. Para além de nomear John Dee para seu astrólogo oficial, também recebeu as suas aulas sobre matérias ocultistas. Alentou um círculo de cortesãos – o círculo de Sir Philip Sidney – para que cultivasse o espírito renascentista, com as suas concomitantes investigações na Filosofia Ocultista. Mas segundo Francês Yates, o verdadeiro centro de todo este movimento foi John Dee.

"Dee foi o poder oculto por trás do
movimento ocultista-renascentista inglês.
"

 

A fascinante figura de John Dee

Dee nasceu em 1527, de antepassados galeses e descende dos antigos reis da Bretanha. Ainda jovem viajou pela Europa e estudou na Universidade de Louvain nos Países Baixos. Ao passar por Paris, na sua viagem de regresso a Inglaterra, ofereceram-lhe o posto de Catedrático de Matemáticas no Colégio de Rheims da Universidade de Paris, com a idade de 23 anos. Negou a oferta mostrando assim a sua falta de ambição material e talvez a sua intuição de que o seu destino era muito mais amplo. Ao voltar a Inglaterra foi nomeado astrólogo da rainha Maria (parece que todos os monarcas, por mais católicos que fossem, tinham os seus astrólogos), mas era uma vida precária. Em 1555 foi encarcerado na Torre de Londres acusado de feitiçaria, mas as suas influências e a falta de provas puseram-no em liberdade passado pouco tempo.

No reinado de Isabel chegou a ser não só astrólogo, mas também conselheiro da rainha, que o chamava «o meu filósofo». Vivia na sua casa familiar em Mortlake, Surrey, onde tinha a maior biblioteca pessoal do país, que contava com cerca de 4000 livros. A referida biblioteca era considerada a terceira mais importante de Inglaterra, depois das de Oxford e de Cambridge. Continha obras de todo o tipo: Ciência, Literatura, Filosofia e Ocultismo… Era visitado por pessoas de diferente condição e ofício (navegantes, matemáticos, artesãos) que o consultavam sobre questões científicas e práticas, e cortesãos com interesses literários e filosóficos que vinham conversar com ele e consultar a sua biblioteca, que estava aberta para todos.
Era um grande matemático e editou a primeira tradução para o inglês das obras de Euclides, para a qual escreveu um prefácio que se considera como o seu «Manifesto Filosófico». Aí refere-se ao «divino Platão» e expressa-se sobre a importância dos números como chave do conhecimento do Universo.

O seu interesse pela Magia e pelos temas ocultistas era bem conhecido na sua época e causou-lhe bastantes problemas. Para além de ser astrólogo era também alquimista. Inclusive passou muitos anos tentando (ao que parece com êxito) comunicar com os Anjos. Tinha um ajudante, Edward Kelley, clarividente, que actuava como «médium». Dee consultava os Anjos sobre uma série de temas que estão anotados no seu «diário espiritual». Parece que nestas sessões sempre mantinha uma atitude de respeito profundo e pureza de coração, para impedir a aproximação de espíritos inferiores. Orava constantemente, como se diz que os alquimistas faziam durante os seus trabalhos.

A figura de Kelley, o clarividente que o ajudava, é interessante e controversa. A maior parte dos relatos mostram-no como uma pessoa que só se interessava pelo dinheiro, em contraste com a figura pura de Dee, e como uma má influência. No entanto, no Royal Masonic Cyclopedia de Kenneth Mackenzie, obra citada muitas vezes por Blavatsky, lemos que Kelley foi um grande alquimista que conseguiu a transformação em ouro e está incluído na lista de «Eminentes Rosacruzes». Para além disso, segundo Yates, a associação de Dee e Kelley não foi unicamente devido ao talento deste como médium, mas tratava-se sobretudo de uma colaboração na alquimia. Mais tarde, Kelley foi nomeado cavaleiro pelo Imperador Rodolfo da Alemanha (outro monarca muito interessado no Ocultismo); mas posteriormente foi encarcerado e morreu ao tentar escapar. Enfim, foi uma personagem bastante enigmática que merece uma investigação mais profunda.

 

"John Dee era um visionário, um idealista,
um sábio cujo pensamento se centrava
no bem do mundo mais do que nele próprio."

 

Durante o apogeu da sua influência na corte da rainha Isabel, Dee tinha contactos com todas as personagens importantes da época, como veremos mais adiante. O alcance da sua influência continua a ser pura especulação mas, pelo que sabemos das suas próprias ideias e pelo que sucedeu em Inglaterra nessa época, Yates deduz que Dee foi o poder oculto por trás do movimento ocultista-renascentista inglês.
Segundo Yates, Dee tinha, da mesma maneira que Giordano Bruno, uma missão religioso-política. Para esta investigadora,  a dita missão consistia em promover uma nova Religião reformada baseada num Cristianismo cabalístico; nem protestante nem católico, mas algo similar ao que Bruno propôs: uma «Religião da Mente», embora com mais ênfase sobre a Cabala do que sobre a Religião egípcia, como era o caso de Bruno. Ao mesmo tempo, no campo político, esforçava-se por apoiar a expansão do nascente Império Britânico, não só por patriotismo mas porque o via como um poder progressista e tolerante (em comparação com a maioria de países europeus da época).

Também fomentava o mito da rainha Isabel como monarca ideal.

Segundo esta tese, John Dee era um visionário, um idealista, um sábio cujo pensamento se centrava no bem do mundo mais do que nele próprio. Foi sempre um servo leal da rainha e pôs todo o seu amplo e profundo saber ao serviço daqueles que queriam usar os seus conhecimentos para o bem do império ou da verdade. Por isso ajudou os navegadores nas suas explorações, para expandir um império que podia lutar contra a intolerância da Contra-Reforma. Por isso alentou os poetas da corte, que inspiraram o mito da Rainha Virgem, a monarca ideal, bem como o culto ao amor cortês e neoplatónico. Juntos tentaram criar um novo mundo baseado nos ideais clássicos e ocultistas.

 

Ocultismo na corte

As influências de Dee e do Ocultismo são bastante evidentes na corte inglesa da época. Robert Dudley, conde de Leicester e protector de Dee, era amigo íntimo da rainha Isabel. Desde criança tinha sido aluno pessoal de Dee e continuou sendo seu amigo durante o resto da sua vida.

O sobrinho de Dudley era o famoso Sir Philip Sidney, cortesão exemplar, poeta e homem de ação, líder do círculo literário e científico que dominou a corte nos seus anos de apogeu. Foi esse círculo que acolheu Giordano Bruno durante a sua visita a Inglaterra nos anos oitenta e leu com fruição as suas obras. Sidney foi também diplomata (com a idade de 20 anos) e viajou numa missão à corte do Imperador Rodolfo, supõe-se que para ver a possibilidade de uma aliança entre os dois reinos, tão influenciados pela Filosofia Oculta.

Outro grande poeta foi Edmund Spencer, amigo de Dee e cujo patrocinador foi Dudley. Para além de escrever a famosa obra The Faerie Queene, um poema épico que mostrava a rainha Isabel como monarca ideal, era um neoplatónico e hermético-cabalista notável.

Não podemos tão-pouco deixar de mencionar Shakespeare, cujas obras estão cheias de referências à Filosofia Oculta. Hamlet diz-nos que há muito mais no Universo do aquilo que nos mostra a filosofia racional. E Yates afirma, inclusive, que a figura do rei Lear representa John Dee na sua época do exílio, enquanto que a personagem chamada Próspero n’ A Tempestade, seria uma reivindicação deste, mostrando-o como um bom feiticeiro ou mago e não como um feiticeiro diabólico como o consideravam muitos dos seus contemporâneos.

Sir Walter Raleigh é famoso por ter importado o tabaco e a batata da América, mas não o é tanto pelos seus estudos herméticos. Parece que era notável na sua época devido aos seus conhecimentos profundos sobre Hermetismo. Para além de ser um grande amigo de John Dee pertencia a um círculo chamado a Escola da Noite. Junto com o conde de Northumberland, o poeta Chapman (autor do Hino à Noite) e outros, levavam a cabo estudos científicos e esotéricos profundos e conversavam sobre temas filosóficos avançados para a época. Os jesuítas chamavam-lhes, injustamente, a «Escola do Ateísmo».

 

O fim de uma era

Voltando à vida de John Dee. Entre 1583 e 1589 viajou para a Europa juntamente com o seu colega Kelley, sua mulher e filhos. O propósito desta viagem tem originado várias teorias, desde políticas a religiosas. Não foi, evidentemente, uma viagem de turismo. Visitou a famosa corte do Imperador Rodolfo, em Praga, centro do Ocultismo na Europa nessa época. Talvez quisesse negociar uma aliança entre Rodolfo e Isabel, para unir as duas potências que teriam mais força para lutar contra as crescentes forças católicas da Europa. Se foi assim, parece que a missão não teve êxito. Outra teoria interessante, novamente de Frances Yates, é que foi uma missão de tipo religiosa, e que aquela viagem está intimamente ligada à fundação do Rosacrucianismo, no princípio do século XVII, que aparece inicialmente sobretudo na Alemanha. Esta suposição baseia-se no facto de que as ideais religiosas de Dee são quase idênticas às do rosacrucianismo.

Ao voltar desta viagem tudo começou a correr-lhe mal.

O seu poderoso protector, o conde de Leicester, tinha caído em desgraça e faleceu em 1588. Sir Philip Sidney, líder do círculo renascentista da corte, também tinha morrido. Começaram os problemas sociopolíticos no país na última década do reinado de Isabel, e as forças contra-reformistas e anti-ocultistas tornaram-se cada vez mais apreciáveis. Por tudo isso John Dee já era «persona non grata» e inclusive teve dificuldade em encontrar trabalho. Teve que aceitar um emprego em Manchester (ele, que tinha sido o centro espiritual da corte), que abandonou no ano de 1600 para voltar à sua casa familiar em Mortlake. Ali passou os últimos oito anos da sua vida na miséria, frequentemente atacado como se fosse feiticeiro e sempre proclamando a sua inocência. Isabel morreu em 1600 e sucedeu-lhe Jaime I, anti-ocultista e pessoa muito cristã que não tinha nenhuma simpatia por Dee nem pelas suas ideias. O Renascimento tinha sido abortado e a época moderna começou a nascer, com o seu racionalismo e o seu materialismo. O sonho de um império filosófico tinha naufragado, a ideia da tolerância afundou-se e o ideal do amor e do conhecimento que iam mais além das formas religiosas para unir o homem consigo próprio, com os seus semelhantes e com a Natureza, ocultou-se como um sol poente sobre o horizonte da Humanidade europeia. Mas, como bem sabemos, as ideias nunca morrem, mas renascem uma e outra vez até que atingem uma forma permanente e real. A época isabelina foi um fogo que aqueceu e iluminou a obscuridade da Europa durante umas décadas. O fogo passou para outras formas menos visíveis e gerais, mas tão-pouco morreu. O Fogo não pode morrer, somente adormece. O Fogo sabe esperar, sempre pronto para estender-se rapidamente quando a matéria combustível está bem seca e é em quantidade suficiente.

 

Julian Scott


 

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