Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

O Fim das Nossas Certezas

 

fim_certezas

O ser humano, já desde os tempos mais remotos, quando tomou consciência de si mesmo, teve de confrontar-se com a incerteza e a angustia perante a ameaça que representava aquilo que o rodeava, começando pela morte.

"Pensávamos que a Europa se tinha libertado para sempre das guerras e, no entanto, é hoje palco de espantosas guerras civis. Pensávamos que os holocaustos tinham acabado para sempre e, no entanto, em lugares situados a menos de duas horas de avião de Paris, pratica-se impunemente a depuração étnica"

 

Após ter-se restabelecido dos piores massacres e das mais loucas ditaduras, o optimismo histórico desaparece; é o fim de um reinado de mais de três séculos, inspirado na ordem e no progresso. Pensou-se que era o progresso da nossa civilização, já que, apesar dos seus tropeções, a História iria caminhar na direcção certa: o milenarismo comunista levaria esta convicção até ao absurdo. Ordem, paralelamente, de um mundo que acabava de encontrar um equilíbrio, imperialismo, colonialismo, no concerto das nações… Tal era o ritmo, dizia-se, dos tempos modernos (Alain Minc, A Nova Idade Média, Gallimard, 1993).
Pensávamos que nos tínhamos libertado para sempre da desordem e estabelecido definitivamente a ordem na terra. Julgámo-nos herdeiros de um mundo edificado sobre certezas imutáveis. Sob a égide do progresso tecnológico, de um sistema mundial de intercâmbios, de uma paz garantida pelo «guarda-chuva» atómico, pensávamos que essa ordem iria durar para sempre. Esta convicção está tão imbricada em nós que, embora desde 1989 o nosso mundo tenha começado a desabar, ainda é muito difícil darmo-nos conta disso.
Não obstante, eram muito numerosos os que tinham a vaga sensação de que estas certezas repousavam sobre bases artificiais. Contudo, paralisados pelas recordações, não totalmente assumidas, de um século marcado pelas tragédias, genocídios, guerras civis, milhares de refugiados errantes e pessoas à deriva, não se atreviam a enfrentar-se com tudo isso. Não se atreviam a imaginar que o que estavam a fazer era manter as nossas ilusões sobre o homem, a sociedade e a historia, por medo de se enfrentarem com a realidade e, acima de tudo, questionarem-se sobre os nossos êxitos materiais, o nosso conforto. Fazíamos parte dos vinte por cento de privilegiados possuidores de oitenta por cento das riquezas do mundo e vivíamos protegidos. A miséria, a instabilidade política, a existência de regimes abomináveis, isso não nos dizia respeito. Cada pequeno problema da sociedade – aumento de impostos, flutuação da moeda, reformas do ensino – transformava-se numa montanha, como se dele dependesse o destino do mundo. Tudo isso nos dava a sensação de existir, sem sermos obrigados a ir ao fundo das coisas. Todos éramos cúmplices.
Naquele dia de 1989 em que caiu o muro de Berlim, julgamos que as nossas certezas estavam mais firmes do que nunca. Milhões de seres humanos recuperaram a liberdade, a possibilidade de serem donos de si mesmos. Que alegria! Na nossa utopia, imaginamos que o regresso à liberdade seria suficiente para operar milagres. Pensávamos que, por artes mágicas, iria surgir uma ordem mundial baseada sobre mais riqueza, mais justiça, mais felicidade. Não só a realidade nos mostrou que isso era uma ilusão, como pôs um ponto final nas nossas certezas, deixando-nos órfãos num mundo sem sentido.
Aquele mundo estático da guerra-fria alterara-se. Pensávamos que podíamos parar o tempo: em Moscovo, após o golpe falhado de 1991, circulava uma anedota sobre um russo que adormecera em 1917 e só despertara em 1991 para encontrar os mesmos problemas, mas com mais pobreza. A guerra dos Balcãs, segundo os historiadores, foi a continuação do conflito de 1914-18.
Não estávamos preparados para acolher os nossos irmãos. Emergiram os nacionalismos, com os velhos mal-entendidos, as feridas não cicatrizadas.

Um mundo que se tornou imprevisível

O mundo tornou-se incerto, imprevisível. Imaginávamos o velho continente disposto à união, quando hoje não passa de um mosaico partido, sob o império da discórdia. Acreditamos no aparecimento de uma nova ordem mundial, mas o que estamos a viver manifesta-se cada vez mais como uma nova desordem mundial, instigada pela cobiça das potências secundárias, pela indecisão e o retraimento da última grande potência. Pensávamos que a Europa se tinha libertado para sempre das guerras e, no entanto, é hoje palco de espantosas guerras civis. Pensávamos que os holocaustos tinham acabado para sempre e, no entanto, em lugares situados a menos de duas horas de avião de Paris, pratica-se impunemente a depuração étnica. Imaginávamos os exércitos das Nações Unidas como portadores da paz: agora são reféns de carcereiros sem escrúpulos. Pensávamos que a generalização do liberalismo iria trazer prosperidade a todos, e agora vê-se que só traz benefícios aos especuladores que não criam riqueza, geram desemprego e acentuam as desigualdades.
O suave e o brando governam o mundo político. «Este período excepcional de quarenta e cinco anos deu-nos formas distorcidas de pensar: tomamos como norma o que, na realidade, era excepcional». Esta incapacidade para movimentar-se no campo do relativo está na origem dos nossos erros de perspectiva.
Um universo de categorias rígidas, estáticas, que se quis manter a qualquer preço de forma artificial, dá lugar a um mundo muito mais móbil, repleto de matizes, muito mais incerto, onde o risco é a regra. «A procura da certeza dentro dos limites do tecnocrático foi e continua a ser um dos males fundamentais da nossa época, que a conduziram a inúmeras catástrofes. Este século serviu-se de meios muito mutilados para obter umas certezas que afinal eram falsas. Hoje, essas falsas certezas desmoronam-se. Volta-se à incerteza» (Edgar Morin, Entrevista).

Humanidade ou Barbárie

Devido ao facto de os homens terem rejeitado tudo aquilo que escapava à razão e terem empreendido um processo redutor dentro de uma lógica de exclusão, somos hoje em dia vítimas do efeito contrário àquilo que pretendíamos: o homo sapiens engendrou, paradoxalmente, o homo barbaricus e, assim, somos vítimas de um regresso à barbárie.
Tecnologia, conforto, desafogo material, são conquistas que não geraram um mundo melhor; em vez de ajudarem a vencer a violência, o egoísmo e a cobiça, contribuíram para o seu aumento. Equivocamo-nos quanto aos objectivos e essa é a razão do nosso desinteresse em aceder ao domínio do moral e espiritual. Há toda uma concepção do mundo a reconsiderar, na qual os outros factores da realidade, especialmente aqueles que escapam à razão, devem voltar a ser integrados.
Pelo facto de querermos utilizar exclusivamente a razão, enganamo-nos. O homem é ao mesmo tempo sapiens e demens, racional e intuitivo, poeta e cientista. Vive num vaivém constante entre consciente e inconsciente. Escolher de forma exclusiva um destes elementos leva-o a um comportamento que o priva da sua humanidade e aproxima-o do comportamento animal com os seus corolários de violência, paixão, cegueira, barbárie. A sua humanidade reside precisamente na capacidade que tem em manejar esse paradoxo, essa ambiguidade natural. A dimensão espiritual e as suas funções, que a Modernidade relegou para a categoria de infantilismos, sem efeito nos comportamentos individuais e sociais, voltam a despertar interesse: os mitos, que se referem simultaneamente a várias dimensões da existência; os ritos e os símbolos, com a sua capacidade de conter vários significados ao mesmo tempo, são os instrumentos que ajudam a manejar a contradição, superando-a. A dimensão espiritual – já se admite – é constitutiva do ser humano e irredutível. Mas esta dimensão deve integrar-se adequadamente na vida do homem. Pois, caso contrário, se for canalizada, ou é negada ou aparece sob formas patológicas. A proliferação das seitas e o fundamentalismo são exemplos da incompetência em tratar do sagrado e em utilizar esta função renovadora para a alma humana. A nova antropologia, através do estudo das sociedades e das civilizações tradicionais, fez-nos tomar consciência de que era fundamental considerar as funções psíquicas que constituem os mitos, os ritos e os símbolos para compreender as nossas sociedades contemporâneas e como as suas irregularidades podem perturbar os comportamentos sociais.
Vivemos um momento muito particular no qual os homens devem encontrar uma resposta face ao sentimento de incerteza e de ameaça que os oprime. Este cenário, provavelmente nunca vivido até agora à escala mundial, não é novo. O ser humano, já desde os tempo mais remotos, quando tomou consciência de si mesmo, teve de confrontar-se com a incerteza e a angústia perante a ameaça que representava aquilo que o rodeava, começando pela morte. O homem elaborou uma série de respostas totalmente independentes do carácter mutável das circunstâncias.
Mircea Eliade explicou este mecanismo; todas as respostas elaboradas pelo homem têm a sua origem no sentimento religioso, fundador da ordem humana. Do ponto de vista antropológico, isto está determinado pela capacidade do homem em integrar na sua representação das coisas outras dimensões, outras realidades, para além das perceptíveis e vividas na vida quotidiana. Recorda-nos que, ao contrário das outras espécies do planeta, a consciência humana tem uma função que lhe é própria: o sagrado.
«O sagrado é um elemento da estrutura da consciência e não um momento da História» (Mircea Eliade, A nostalgia das origens). O sagrado permite ao ser humano conferir aos elementos do quotidiano – do profano – um significado diferente. Um objecto trivial adquire, deste modo, um sentido e uma importância que vai para além da sua função imediata e do seu valor material e objectivo. Convertido em símbolo, portador de sentidos, está capacitado para criar um vínculo entre o visível e o invisível, o presente e o ausente. «Uma árvore, uma planta, não são sagrados como tais. São sagrados pela sua participação numa realidade transcendente; são-no porque significam essa realidade transcendente» (F. Schwarz, A tradição e as vias do conhecimento).
Deste modo, o profano muda de dimensão e adquire um significado que lhe dá coerência. O sagrado fundamenta o sentimento religioso e permite, como dizia Eliade, «transcender os limites da condição humana pela vivência de fenómenos paradoxais».
O homem «não pode viver num caos, sente a necessidade de colocar-se sempre num mundo organizado cujo modelo é o cosmos (…) Não se pode viver sem um eixo vertical que garanta a abertura para o transcendente e, ao mesmo tempo, torne possível a orientação. Uma vez quebrado o contacto com o transcendente e desarticulado o sistema de orientação, não é possível a existência no mundo» (Mircea Eliade, O nascimento do mundo).
Há que fazer surgir do caos uma ordem que seja fonte de coerência e de sentido. É assim que, quando um homem se instala num lugar, plasma um micro-universo que, segundo os estudos antropológicos, é sempre um reflexo da sua representação da ordem invisível que subjaz nas realidades materiais. As grutas, casas, palácios, cidades, representam sempre a imagem cosmológica dos homens que os construíram. Para se instaurar a ordem e a coerência, fontes de paz e de harmonia, num território habitável, o homem tradicional deve, paradoxalmente, separar esse território do meio profano que o rodeia, para relacioná-lo com a ordem cósmica, ou seja, com o céu, através dos ritos de orientação; para «cosmizá-lo», segundo o termo inventado por Eliade. As avenidas principais da cidade ou a entrada das casas representavam eixos relacionados com o nascer ou o pôr-do-sol ou das estrelas que, no seu percurso, uniam a Terra dos homens com a Terra dos deuses. O que constituiu a fonte de segurança para o se humano não foi a força armada, nem a espessura das muralhas, mas esse sentimento de união com algo que está para além de si mesmo, a abertura para um mundo desconhecido com o qual se estabelece uma relação.
O ser humano «conquista incansavelmente o mundo, organiza-o, transforma a paisagem natural num meio cultural». O grande acontecimento da ordem humana é transformar a natureza em algo diferente dela própria, em algo que ela jamais teria produzido por si mesma. É assim que o homem transcende a natureza sem deixar de estar relacionado com ela. O acto cultural por excelência consiste em fazer nascer a ordem do caos. Extrair as coisas de um plano em que se encontram sumidas na confusão, incompreensíveis e, por conseguinte, inacessíveis, e fazê-las passar a um outro plano de existência no qual podem encontrar o seu próprio sentido.
Toda a história das civilizações representa o esforço dos grupos humanos em responder à incerteza, ao risco, à ameaça. Os mecanismos que governam essas respostas competem ao homo religiosus e são os mesmos desde sempre, mas a natureza dessas respostas varia segundo as épocas, as regiões e os homens e nenhuma delas é definitiva.

Um mundo desencantado

Como no caso da queda do Império Romano, devemos hoje elaborar uma resposta face à incoerência e ao caos. A resposta encontrada pelos homens da Idade Média assentava numa ordem estático fundamentada na Trindade Deus-Senhor-Padre, à qual estava subordinada a trindade senhor-sujeito-filho, num mundo maniqueu em que o bem e o mal estavam definidos de forma definitiva. O Renascimento e o mundo Moderno rebelaram-se contra esta resposta medieval, mas, na realidade, não conseguiram eliminar o problema ao sobreporem de maneira sistemática à tradição do novo, e ao tríptico medieval, o da revolução francesa: liberdade, igualdade, fraternidade.
A primeira das rupturas que deram origem ao mundo moderno teve lugar no próprio seio da Igreja quando, no século XIII, as teologias consumaram o divórcio entre fé e razão, entre ciência e crença. O homem está, desde então, separado do divino e do universo. A preocupação já não é o invisível, terreno reservado aos teólogos: o ser humano, privado do divino, entrincheira-se no visível e na razão. A natureza reduz-se ao estado de objecto, o ser humano conquista-a para pô-la ao seu serviço. O divórcio entre o profano e o sagrado é total.
A Reforma acentua ainda mais este cisma, erradicando o mundo dos símbolos: já não há imagens «subjectivas»; a única coisa que subsiste é a objectividade profana.
O corpo é reprimido, o homem mutilado. A filosofia «prática» com que sonha Descartes tende para a reabilitação do mundo sensível, mas pretende igualmente dominar uma natureza completamente separada do homem, que perdeu o domínio de si mesmo, que já não é – segundo a definição de Descartes – senão um «homem-máquina» submetido às suas paixões e um «cogito» vazio e abstracto.
Foi no século XIX que se desenrolou a última etapa da dessacralização do Ocidente. Fortalecido pelo êxito da industrialização e do maquinismo, o homem elaborou o mito do progresso linear e indefinido e do crescimento. Começou então o reino da qualidade que pretendeu que somente o mensurável e quantificável era digno de interesse. Os intelectuais converteram-se nos novos sacerdotes da religião laica.
Progressivamente fomos eliminando o sagrado, até ao ponto de o mundo se tornar, em aparência, exclusivamente profano. No entanto, o sagrado, função irredutível da consciência humana, expressou-se por outras vias, revestindo-se de formas profanas e reaparece, camuflado, na publicidade, discursos políticos, cinema, etc. E pior ainda: manifesta-se por vias ocultas, violentas, através do inconsciente colectivo, sob a forma de seitas, do fundamentalismo, do racismo, etc.
Com efeito, as estruturas do mundo contemporâneo desqualificaram-se para manejar a dimensão do sagrado: ao terem reduzido o real à sua dimensão exclusivamente material, ao terem proposto à juventude como única busca a do proveito e da aparência, ao terem desiludido um mundo empobrecido no qual os sonhos estão desnaturados, em que não se podem propor como exemplos heróis que poderiam ser fonte de inspiração, mas sim anti-heróis que incitam à violência, ou estrelas de cinema que vivem para seu próprio proveito. Não nos deve surpreender o facto de termos diante de nós um mundo fragmentado, assente numa mentalidade medieval a nível planetário, com as suas hordas de bárbaros e as suas ilhas de prosperidade.
A vida não é possível sem modelos ou pontos de referência, tanto a nível individual como colectivo, porque o ser humano não pode viver no caos. Por isso, cada qual busca, só ou em grupo, valores que possam dar sentido e coerência à sua vida. Mas ao não haver consenso a nível social nem coesão a nível cultural, isto produz-se de maneira anárquica, já que tudo pode constituir um ponto de referência, o que gera forças centrifugas e debilidade, reforçando a fragmentação da sociedade em tribos, como assinalou o sociólogo Michel Maffesoli.
Os valores que favorecem a convivência e a tolerância e que tornam possíveis os compromissos passaram de moda; o interesse e a necessidade da complementaridade não são compreendidos; pelo contrário, defende-se acima de tudo os interesses próprios, e os interesses regionais ou locais triunfam sobre o interesse geral e a visão global.
A nossa falta de preparação para a confusão actual é tal que os nossos reflexos primários de protecção desencadeiam-se com uma violência inaudita, suscitando reacções de depuração religiosa, étnica ou cultural. Dividindo sem voltar a unir, criámos uma ordem bárbara na qual somente as nossas paixões instintivas e os nossos interesses imediatos têm protagonismo.
Deste modo, a pertença comum a um grupo limitado geográfico, linguístico ou religioso, já não é fonte de coesão e nem sequer uma imagem comum do mundo, de grandes ideias ou de sentimentos elevados. A fragmentação e o entrincheiramento aumentam de modo significativo, recordando a Idade Media em que cada aldeia tinha a sua fortaleza.

Face a uma Nova Idade Média

Os racionalistas pensaram que a história linear se baseava num progresso permanente. Neste sentido, é chocante constatar a irrupção na história de momentos que se julgava estarem definitivamente ultrapassados e que, no entanto, se manifestam com uma força, uma vitalidade e uma juventude espantosas.
Na sua obra A nova Idade Média Alain Minc sublinha que foi a incapacidade de descobrir o princípio fundador do mundo pós-comunista que nos está a conduzir para uma nova Idade Média. Analisa com lucidez a falta de preparação dos espíritos cartesianos, desarmados perante esta revolução das mentalidades, sublinhando o perigo que representa a incapacidade de dar outra resposta que não seja a da passividade face ao que se nos apresenta como uma regressão da história.

 

"O mundo tornou-se incompreensível e o homem ocidental, desorientado, enfrenta realidades face às quais os seus modos habituais de resposta são impotentes e não oferecem resultados"


A idade média constitui um dos cenários cíclicos da História. As diversas épocas que podem ser qualificadas de idade média têm características comuns. O mesmo sucede com qualquer outro tipo de época, quer se trate de um período de renascimento ou de um período clássico.
Uma idade média surge quando o modo de funcionamento natural da espécie, o inato, predomina sobre o mundo cultural, elaborado e transmitido ao longo dos séculos. São períodos em que as sociedades se mostram incapazes de transmitir e de recriar os valores e o saber cultural que fundaram a sua identidade. Já não têm capacidade para gerir as tensões. Os impulsos inatos prevalecem sobre o adquirido, o predomínio da força impõe-se em detrimento do direito e os valores de justiça e solidariedade, criadores de civilização, são esquecidos. Entramos numa nova idade média. Graças à educação e aos agentes de socialização, os indivíduos integram-se na civilização. Toda a negligência, ou perda de controlo neste campo, faz com que reapareça o natural de forma imediata. E a pertença à etnia, a força, o ter, o egocentrismo, o instinto, arrastam-no de novo. Com efeito, o natural no homem não é a civilização, o desinteresse, o desapego ou o interesse colectivo, mas sim o egoísmo e o interesse particular.
Independentemente da época em que surja na história, toda a idade média apresenta as seguintes características:

1 – O poder mantém a sua legitimidade pela força e não pelo direito. A justiça deixa de ter a primazia para dar lugar aos valores de honra, força e segurança.

2 – A coesão social faz-se através da pertença étnica, geográfica ou religiosa: a proximidade torna-se essencial. O poder central perde força e deixa de interferir no quotidiano. O seu poder é, sobretudo, moral, como podia ser o do papado, e feito à base de compromissos, como o da realeza na época medieval. Os impérios são mais de nome do que de facto e fazem-nos recordar as federações. O Estado, enfraquecido, dá lugar a uma espécie de rede de cidade-Estado, como o Sacro-Império germânico.

3 – A instabilidade e o sentimento de insegurança permanente reforçam a importância que se dá à vizinhança. Os ofícios mais perigosos são os que implicam deslocações, e o comerciante corre mais perigo do que o soldado.

4 – Apaga-se a fronteira entre razão e imaginação. Por um lado, todas as coisas materiais estão carregadas de poder mítico, irracional. Assim, quando o vento sopra no bosque, é portador, para o homem da idade média, de uma mensagem incompreensível para a razão, que explica o rumor do vento quando passa entre as ramagens. Por outro lado, toda a realidade espiritual está profundamente enraizada na realidade material. As pequenas igrejas e aldeias medievais tinham um troço de madeira ou um espinho que imaginavam que provinha da cruz de Cristo ou da sua coroa. Não precisavam de um certificado de autenticidade. Era verdadeiro ou falso? Ao fim e ao cabo isso não interessava, pois a questão não era essa, mas sim guardar uma relíquia que unia os homens às suas crenças. Verdadeiro ou falso, para eles era tão real que se faziam guerras em nome dessas relíquias.

Porém, quando falamos da época que agora começa, da nova idade média, não nos referimos a uma regressão à Idade Média que surgiu após a queda do Império Romano: nenhuma idade média é exactamente igual às outras. Os cenários e as estruturas características de um tipo de época repetem-se, mas não os acontecimentos em si. É certo que a história ver-se-á obrigada, pela nova idade média, a tomar novos rumos. Contudo, isto não quer dizer que os conceitos redivivos não irão fazer parte do novo caldo de cultivo, só que manifestar-se-ão de outro modo.
Alain Minc considera duas classes de modelos-síntese susceptíveis de surgir como estruturas político-social no início desta nova idade média. Uma síntese nacional-comunista e um movimento ecolo-populo-nacionalista. Estes poderão, sob o nosso ponto de vista, coexistir e influenciar-se mutuamente.
Os velhos enfrentamentos de esquerda-direita, as ideologias, até este momento promotoras do sistema, perdem terreno e, mais tarde ou mais cedo, os seus enfrentamentos serão marginais. Estes dois modelos têm, por outro lado, certos pontos em comum: o seu motor já não é a razão – que não passa de um meio – mas a afectividade e a religiosidade. Começam a surgir os perigos de cair no fanatismo, o obscurantismo, mas também a possibilidade de irrigar e voltar a dar uma alma às sociedades ressequidas pelo racionalismo extremo e o reducionismo. Recordemos que em plena Idade Média, na França, Cluny reinventou o mundo enquanto no sul florescia a civilização provençal.
O mundo tornou-se incompreensível e o homem ocidental, desorientado, enfrenta realidades face às quais os seus modos habituais de resposta são impotentes e não oferecem resultados. Se não for capaz de uma reformulação integral a fundo, não lhe restará outra saída que refugiar-se numa fortaleza tipo Bizâncio.
No entanto, apesar do seu aspecto apocalíptico para um espírito cartesiano, esta nova Idade Média contém as sementes do renascimento. Um mundo congelado, por excesso de ordem, dá lugar a um mundo mais cálido; o calor, a proximidade e o movimento que substituem a distância, o imobilismo e o frio, criam também a barbárie e a desumanização. Porém, não se pode regenerar um sistema mediante o frio e o imobilismo. Ciclicamente, os povos entram em movimento e, do aparente caos e das erupções anárquicas que isso implica, nascem as possibilidades de novas culturas e de novas formas de abordar a existência. Assim, a queda de Constantinopla, em 1453, permitiu a construção do Império Otomano, poderosa cultura que durante séculos deu estabilidade ao Médio Oriente e à Ásia Central. A queda do Império Romano e a Idade Média ocidental permitiram o advento da Europa que conhecemos. Em todos os tempos, os homens souberam viver na desordem para recriar a ordem. Se os europeus assumirem o risco de viver um universo de contradições, em vez de se protegerem por detrás do escudo das ordens estabelecidas, alheias às realidades, terão um lugar no mundo futuro.
O verdadeiro desafio que enfrentamos não é tanto fazer frente à desordem da nova idade média, mas sobretudo ter o valor de levar a cabo uma revisão a fundo; dar-nos conta das nossas carências e dos nossos erros; determinar tudo aquilo a que devemos renunciar. Encontramo-nos perante uma ocasião única: a de aprender as lições do passado, reformular ideias e comportamentos erróneos, encontrar a inspiração necessária para construir um futuro não só novo mas melhor.


Fernand Schwarz
Antropólogo, Cruz de Paris em Artes, Ciências e Letras.

 

 

 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster