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Hildegard e Akiane

 

Ao longo da história da humanidade o Homem sempre sentiu necessidade em contactar com algo divino e transcendente desenvolvendo um conjunto de rituais e cerimónias, acompanhadas pela construção de grandes templos e lugares estrategicamente relacionados com o cosmos e Deus. Esta tendência ascendente gera alguma diferença de opiniões. Para uns é vista como uma necessidade psicológica, ou seja, o Homem na sua fraqueza precisa de acreditar em algo e com isto realizar um conjunto de práticas que o ajudem a materializar essa ilusão. Também existem aqueles que acreditam no Seu Deus colocando-lhe o título de único Salvador ou, em oposição, aqueles que procuram a Verdade a partir de um Deus Universal que se manifesta de diferentes formas, e em diferentes momentos históricos, mas que em essência é sempre imperecível. Estes são os Filósofos, os que procuram o Grande Conhecimento, a Sabedoria. Para isso não se centram num aspecto do Todo, vivendo-o como se fosse a única Verdade. Pelo contrário, são suficientemente audazes para querer conquistar o Todo e vivê-lo na sua plenitude. Dentro desta perspectiva, o Homem é um espelho de Deus, ele reflecte a sua magnitude e grandeza gerando a relação entre o Macrocosmos e o Microcosmos. É dentro desta visão filosófica, uma análise das diferentes formas de manifestação do divino, que vamos expor uma pequena parte do trabalho de duas visionárias de eco inquestionável, Hildegard Von Bingen e Akiane Kramarik.

Entre as duas místicas existem duas diferenças marcantes: a primeira ao nível do contexto histórico e social e a segunda ao nível da idade biológica. Num primeiro momento, estamos a falar de um afastamento histórico de nove séculos: Hildegard nasceu no ano de 1098 e Akiane em 1994. Por outro lado, Hildegard Von Bingen chega até nós com a extensa informação e experiência de uma mulher de 82 anos; Akiane é uma jovem de 13 anos ainda em desenvolvimento. Como consequência todo o nosso quadro de análise vai considerar a diferença histórico-social, que afecta a linguagem escrita, falada e retratada (nas pinturas), e cronológica, pois apesar da jovem Akiane demonstrar uma grande profundidade, não pode, por enquanto, apresentar as vivências de Hildegard.

Hildegard Von Bingen

Hildegard Von Bingen nasceu na Alemanha, a 16 de Setembro de 1098 no seio de uma família nobre que ocupava o castelo de Bockekheim perto do Rio Reno. Estamos numa época marcada pelo fervor religioso, tempo de cruzadas e evangelização. Nesta altura o Papa Urbano II ordenou a expulsão dos infiéis muçulmanos da Terra Santa concedendo indulgências permanentes a todos os cristãos decididos a entrar nesta Cruzada do Médio Oriente. A passagem para a Idade Média assinalou o domínio da Igreja sobre a política, a sociedade e a cultura. Como consequência, os jovens eram encaminhados para os mosteiros a fim de obterem formação literária e religiosa. Para as mulheres, o mosteiro aparecia como uma alternativa à maternidade e ao casamento. No entanto, dentro de toda esta atmosfera, o século XII viu nascer fortes personalidades como o Iniciado Bernardo de Claraval, monge cisterciense e redactor da Regra dos Templários e que, mais tarde, se tornaria mestre e confidente de Hildegard. Assim, de acordo com as regras culturais, Hildegard segue aos oito anos para o mosteiro Beneditino de Disibodenberg permanecendo lá um longo período. Durante a sua estadia, Hildegard nunca deixou de contemplar a «lux vivens», o brilho que acompanhava as suas visões divinas e que apenas partilhava com Jutta, sua mestra e abadessa do mosteiro.

«Como via que isso não ocorria a mais ninguém, ocultei o quanto pude a visão que tinha na minha alma». Desde muito nova Hildegard desenvolveu a capacidade de percepcionar para além das formas sendo contemplada regularmente por essa luz que ela caracterizava como sendo ígnea e calorosa. Nestes momentos ela via e ouvia aquilo que Deus lhe transmitia acerca da Sabedoria e dos desígnios Divinos.
Mesmo em clausura, Hildegard viveu a sua vida monástica estudando os manuscritos bíblicos, orando, meditando e trabalhando para o bem da comunidade. No ano de 1136, com a morte de Jutta, Hildegard toma o título de abadessa do mosteiro marcando uma nova fase da sua vida. No ano de 1041, Hildegard recebe uma ordem Divina: «No ano quarenta e três do meu percurso temporal, enquanto contemplava uma visão celeste, vi um grande esplendor, do qual se fez escutar uma voz desde o céu que dizia:"… Diz e escreve o que vês e ouves. Mas como és tímida para falar e pouco hábil para expor e pouco instruída para escrever estas coisas, diz e escreve não segundo a boca do Homem, nem segundo a lógica de uma invenção humana, nem segundo a vontade de compor humanamente, mas segundo o que vês e ouves das maravilhas celestiais vindas de Deus. Repete-as tal como te são ditas (…) não à tua maneira, nem à maneira de outro Homem, mas segundo a vontade daquele que sabe, vê e dispõe de todas as coisas no segredo dos seus mistérios"».

Após esta ordem Divina Hildegard inicia o seu primeiro livro Scivias, Conhece os Caminhos do Senhor, onde retrata, através da pintura, as visões que contemplava, escrevendo, paralelamente, o que ouvia da voz que daí emanava. Scivias foi reconhecido pelo Papa Eugénio III, através de Bernardo de Claraval e, a partir desse período, Hildegard começa a ser procurada e aclamada por toda a Europa e mesmo na América. Considerando-se uma mulher inculta, simples e pobre, Hildegard nunca utilizou este grande dom para ostentar a sua sabedoria que, como ela mesma afirmava, provinha da Vontade divina restando-lhe a simples missão de a difundir para o bem da humanidade. Foi procurada por grandes reis, imperadores e homens notáveis mas também pelos humildes e oprimidos. Entre 1158 e 1164 escreve O Livro do Méritos, um tratado moral acerca da luta interior vivida pelo Homem e a representação da imagem de Deus como Aquele que domina o cosmos. Entre 1163 e 1173, escreve O Livro das Obras Divinas onde reflecte sobre a posição do Homem como espelho da criação num retrato teológico do macrocosmos e do microcosmos. Hildegard viajou, e aprofundou o conhecimento que lhe foi revelado através da observação da Natureza levando-a a escrever O Livro da Medicina Simples ou Física, um tratado de medicina natural acerca das plantas, árvores, pedras, peixes, metais e outros elementos; e O Livro de Medicina Complexa ou Causas e Remédios, um estudo prático de medicina unida a um profundo conhecimento de psicologia, anatomia e fisiologia do homem e da mulher. Hildegard também compôs, escreveu poemas e realizou verdadeiros milagres de cura física e espiritual. Devido à sua extensa biografia, plena de vivências, não vamos aprofundar sobre este aspecto nem entrar em temas, igualmente interessantes, como as suas profecias, estudos e mesmo conflitos que estabeleceu com a igreja e o papado.

A 17 Setembro de 1179 esta grande mística e filósofa, que marcou a história da humanidade, abandona o plano da existência no mosteiro de Einbingen deixando um legado bibliográfico e visionário verdadeiramente transcendente.

Akiane Kramarik

Akiane Kramarik é uma jovem mística nascida a 9 de Julho de 1994, em Illinois, nos Estados Unidos da América, no seio de uma família descrente e afastada de qualquer contacto com Deus. Ao contrário do contexto histórico Alemão do século XII, o século XXI vivido nos Estados Unidos da América está marcado pelo mito do progresso, do consumismo e materialismo. Uma era onde a globalização deu origem à solidão e ao completo afastamento espiritual. Se em Hildegard vivemos um tempo de fervor religioso e transcendente, com Akiane abrimos a porta para uma época de total afastamento divino e místico. Como exemplo temos em Hildegard uma família católica, devota a Deus e em Akiane uma família céptica e ausente destes valores. A mãe de Akiane aborda este facto dizendo: «Tudo teve o seu início quando ela começou a partilhar os seus sonhos e visões. Em casa não rezávamos juntos, não se discutia sobre Deus e não íamos à igreja. Mas de repente, Akiane começou a falar de Deus (…) nós estávamos sempre com os miúdos (seus irmãos), por isso estas palavras de Akiane sobre Deus não podiam vir de fora, nós sabíamos isso. Mas de repente surgiram intensas conversas sobre o amor de Deus, o lugar onde vive e ela descrevia tudo com detalhes». Akiane inicia o seu dia às 4 da manhã para orar, realizar alguns exercícios e iniciar as suas pinturas onde retrata as visões divinas mas também acontecimentos, pessoas, alguns animais e a própria natureza sobre a qual exerce profundas reflexões:

«Eu oro e espero por uma resposta através de pinturas, palavras ou ideias. Quando eu tenho uma pintura na minha mente eu reflicto como poderia colocá-la na tela. Se é um retrato, eu procuro um modelo ou estudo muitas pessoas onde quer que eu vá. Se é uma paisagem, ou um animal, eu pesquiso fontes relacionadas ou trabalho directamente a partir de minha memória ou imaginação».

Depois de pintar, Akiane escreve poesia; domina o russo, o lituano, o inglês e uma linguagem de sinais. Como estuda em casa, a sua mãe é doméstica e professora de Akiane e dos seus três irmãos, esta jovem visionária aproveita todos os minutos para se dedicar à arte, à poesia, ao xadrez, ao piano, à leitura, à ajuda aos outros, ao salto de trampolim e às brincadeiras com os irmãos e o cão. Assim como Hildegard, Akiane também compõe, pois para ela «No céu, a música, a arte, a dança e a linguagem não estão separadas; não sei como, mas tudo está unido por milhares de sensações que não consigo descrever». Ao perguntarem a Akiane sobre qual era o seu prato favorito, com toda a simplicidade ela respondeu «quando a maior parte das pessoas dorme com fome, o meu prato favorito é aquele que posso partilhar com os outros». Os quadros de Akiane estão estimados entre 40.000 a 800.000 euros, revertidos para ajuda humanitária e a favor da sua fundação, Artakiane LLC, que também vende réplicas dos quadros por 1.500 euros. Para Akiane a venda dos quadros transformou-se numa oportunidade para realizar o seu maior desejo, «ajudar o máximo de pessoas possíveis».

Akiane explica: «Eu queria muito ajudar pessoas necessitadas em África e em outros lugares (…) especialmente as pessoas da Lituânia e as chamadas "crianças do lixo" porque vivem no lixo. Com dois e três anos muitas morrem na ansiedade de chegarem à primeira linha do centro de doação de comida. A Lituânia tem o maior índice de suicídios no mundo. Precisam de ajuda com alimentos, remédios e hospital grátis. Eu quero mesmo construir um hospital grátis para eles».

Akiane também reverte a favor da sua associação dois livros que retratam a sua obra e a sua vida: Her Life, Her Art, Her Poetry (A sua Vida, a sua Arte e a sua Poesia) e My Dream is Bigger than I - Memories of Tomorrow (O Meu Sonho é Maior do que Eu - Memórias do Amanhã). Akiane é actualmente procurada pela média tendo comparecido nos mais conceituados programas e revistas dos Estados Unidos da América bem como de outros países, realizando inúmeras exposições das suas obras visionárias. Akiane responde a todas estas solicitações dizendo: «Apenas Deus é famoso. O meu presente para Deus é aquilo que eu faço com o meu talento. Todos os minutos lhe agradeço por estas bênçãos na minha vida». Esta visionária considera-se uma jovem de «coração ousado e mente cautelosa», sendo o seu maior desejo «que todos amem a Deus e uns aos outros». Hoje, com 13 anos de vida mística, Akiane apresenta uma grande experiência no caminho do transcendente que, a valer pela qualidade e profundidade da suas obras, anuncia grandes revelações espirituais que colocarão em contacto com Deus aqueles que atenderem ao contributo destes pontífices da humanidade.

A Mensagem

Como referimos no início deste artigo, o contexto histórico das duas místicas e a idade biológica permite compreender a existência de duas realidades opostas cuja base nasce do facto de termos em Hildegard uma mística que viveu no seio das cruzadas religiosas e cristãs, e em Akiane uma jovem de 13 anos que vive em pleno século de cruzadas materialista plasmadas no consumismo, isolamento e descrença. Apesar deste aspecto temporal vemos em Hildegard e Akiane a transmissão de uma mensagem intemporal canalizada para as necessidades e para o entendimento vigente dos século XII e XXI. Nos escritos das visionárias a simbologia e a cor são uma constante, transmitindo sempre uma profunda intensidade interpretativa. Em relação às cores Akiane afirma: «Eu gosto de todas as cores. Cada uma transmite um sentimento diferente. O amarelo é a cor da energia. Violeta é a cor das visões. Verde é a cor da paz. Castanho é a cor do descanso. Rosa é a cor da confiança. Ouro é a cor da providência. Bege é a cor dos idosos. Terra é a cor de esperar. Laranja é a cor de ouvir. Vermelho é a cor do amor. Branco é a cor da verdade. Azul é a cor da mente». Também Hildegard relata muitas visões recorrendo às cores: «montanha de cor cinza» simbolizando a matéria, o perecível; «vestida com uma túnica descolorida mas com calçado branco» simbolizando a humildade pela pobreza mas que caminha (sapatos brancos) pela verdade; «a tíbia negligência, os rostos pálidos, e a luminosa pureza, os rostos brancos», a diferença entre aqueles que vivem na obscuridade e os que vivem na verdade. Estes são pequenos exemplos que nos ajudam a percepcionar a importância interpretativa da cor. Mas, para além da cor, a simbologia utilizada nos quadros é igualmente intensa apresentando um grau de complexidade muito além do nosso entendimento. A utilização de elementos simbólicos está carregada de um vasto sistema figurativo mesmo nos quadros mais simples. Em todas as pinturas de Akiane e gravuras de Hildegard presenciamos um complexo sistema simbólico unido por relações quase imperceptíveis, mas expostas de maneira diferente.

À medida que Hildegarda executa a interpretação divina, os símbolos, aparentemente desconexos, começam a soltar-se centrando o tema. Em Akiane sucede o contrário, pois os seus poemas fornecem um vasto conjunto de reflexões que abrem a pintura com uma profunda intensidade.

Por outro lado, Akiane possui vários estilos, denominados Akianismo, que quando aborda a temática da natureza ou o retrato humano aparenta fazer diminuir a complexidade simbólica. Apresentamos dois quadros desta jovem mística que exemplificam a reflexão citada. De um lado a pintura A Aventura, que recorre à Natureza, à vida selvagem, e do outro o Mundo Quântico que recorre ao abstracto, aparentando um sistema figurativo superior que se desfaz na oculta complexidade da aparência simbólica.

A Aventura, pintado por Akiane aos 12 anos. O Mundo Quântico, também pintado com a mesma idade.

Já em Hildegard o traçado mantém-se num simbolismo religioso e geométrico, um pouco diferente da pintura naturista e retratista de Akiane.

A Estrutura e Disposição do Mundo e os Lugares de Purificação, tirado do Livro das Obras Divinas, de Hildegard Von Bingen.

Nestas diferenças gráficas, sentimos por momentos a distância histórico-social das próprias visionárias. Imaginemos por momentos que Akiane apresentava a sua obra com as linhas gráficas de Hildegard! O impacto histórico actual não seria o mesmo.

Mas, sem querer entrar em grandes considerações técnicas, não deixa de ser interessante perceber que através de diferentes formas de expressão a mensagem forma-se considerando o contexto histórico vigente mas sem afastar-se de uma essência análoga. Quando observamos os quadros e lemos as interpretações de Hildegard e Akiane, o aspecto fotográfico e histórico rapidamente desaparece levando-nos a centrar nas palavras que afogam a nossa alma em tanto esplendor e sabedoria.

A dualidade humana, a necessidade de ascensão espiritual, a manifestação de Deus no Homem e na natureza, a conversão pela prática das virtudes, o Homem feito à semelhança de Deus, a procura da Divina Sabedoria são alguns dos temas tratados pelas visionárias através dos mesmos elementos como as cores, a natureza, o tempo atmosférico, os aromas, a oposição fogo e frio, a matéria e o espírito e mesmo a luta interior. Enquanto interceptoras divinas, pois transmitem aquilo que lhes é dado ver e ouvir por Deus, estas duas visionárias partilham alguns aspectos interessantes como o facto de terem recebido, pela primeira vez, a presença de Deus aos 3 anos de idade, considerado o número perfeito, o triângulo mágico.

«Aos três anos de idade vi uma luz tal que a minha alma estremeceu, mas por ser muito pequena não pude proferir nada sobre o sucedido.» Hildegard

Akiane refere que aos 3 anos de idade Deus lhe disse: «tu tens de fazer isto e eu vou ajudar-te. Agora podes ajudar as pessoas, e eu disse: Sim eu vou.» Akiane

Hildegard e Akiane definem a fonte da mensagem dizendo:

«As palavras que eu pronuncio não são minhas, mas da verdadeira sabedoria que as pronuncia através de mim: 'Ouve estas palavras e não as digas como se fossem tuas, mas minhas, e assim instruída fala por mim deste modo'» Hildegard

«As palavras vêm até mim. Sem saber como as ideias nascem em mim. Não escrevo por aquilo que eu sei, mas por aquilo que o espírito me apresenta.» «A sua voz é silenciosa e bela.» Akiane

Ambas as visionárias referem a forma como esta voz nasce dentro delas:

«Chegavam até mim (…) não pelos sentido da visão ou audição mas pelos olhos internos da alma.» Hildegard

«Antes de rezar estou vazia e sem nada para escrever. Mas depois eu sei, se estiver em silêncio, que começo a ver imagens e palavras (…) É como se fosse uma voz na minha mente conversando comigo.»

Para Akiane e Hildegard o silêncio e a completa abstracção dos sentidos externos são o veículo de contemplação divina. Quando Hildegard refere magnificamente «os olhos internos da alma», refere-se àquilo que o Homem tem de mais elevado, de mais sublime e calmo ou seja, o seu silêncio interior. Akiane diz que para ouvir Deus é importante estar em silêncio, caso contrário ele não se manifesta. Outro conceito sempre presente é a oração como veículo de captação divina

As visionárias também descrevem a imagem de Deus como sendo:
«… uma luz ígnea que se derramou como uma chama em todo o meu cérebro, em todo o meu coração e em todo o meu peito. Não ardia, apenas era quente, do mesmo modo que o sol aquece tudo aquilo que toca com os seus raios.» Hildegard

«Estive novamente com Deus (…) Ele mostrou-me onde vivia. Eu estava a subir escadas invisíveis debaixo de mim e vi (…) cascatas à medida que eu me aproximava dele, o seu corpo era puro e de uma luz intensa. O que mais me impressionou foram as suas mãos - eram gigantes! Não vi nenhum osso, ou veias, ou pele ou sangue, apenas mapas e eventos. Depois ele disse-me para memorizar milhares e milhares de palavras cheias de sabedoria num tubo que não parecia papel, mas uma luz intensa.» Akiane

« … a presença divina da qual eu tenho experiência pessoal aparece como um fogo.» Akiane

Nesta pequena análise, podemos constatar algumas particularidades: por um lado, a idade exacta em que foram contempladas e por outro a representação de Deus como sendo uma luz intensa e calorosa, simbolizada em Hildegard pelo Sol quente e em Akiane por um fogo que, como ela refere,: «se nos aproximamos muito queima, se ficarmos a uma distância segura encontramos conforto» e que pode ser contemplado pelo silêncio, pelos olhos internos da alma e não pelas sensações externas.

As Visões

Ao debruçarmos este trabalho sobre as visões de Hildegard e Akiane é importante ressalvar o facto de que este pequeno artigo não pretende abarcar a totalidade da mensagem transmitida nem focar todos os tópicos visionados devido à extensão dos mesmos. Nesta apresentação, apenas procuramos captar algumas das ideias abordadas pelas visionárias presentes na plasmação da ordem divina na terra e na luta existente entre o «fogo» e o «frio», simbolizando a dualidade matéria e espírito. Uma das reflexões centrais das visionárias refere a distinção entre aqueles que habitam a montanha de cor cinza (mundo) considerando a existência de um Verdadeiro Conhecimento e aqueles que estão perdidos no tempo e na sua real identidade. Nesta brilhante reflexão as visionárias identificam aqueles que norteiam o seu destino com a prática das virtudes (amor, humildade, inocência, fé) e aqueles que carecem de vontade caindo na discórdia e no egoísmo.
A prática da virtude surge em Hildegard e Akiane como meio de ascensão e resgate do Conhecimento Divino, acompanhada pelo auxílio dos intermediários de Deus: os Anjos.

O Homem no seu Tabernáculo

Nestas pequenas páginas vamos contemplar a mensagem transmitida por Deus a estas duas grandes visionárias, numa viagem que tem o seu inicio na descida da alma à terra, a Mortalidade, e o seu fim na subida da mesma à sua essência primeira, a Imortalidade. Nesta primeira visão, Hildegard apresenta um impressionante tratado acerca de todo o processo da descida da alma ao corpo e de todo o percurso que precede e antecede esse momento. Este é um verdadeiro relato metafísico que marca o início desta pequena viagem pelas mãos das duas grandes visionárias.

«Logo vi a imagem de uma mulher que tinha no seu ventre uma forma humana completamente formada. E então, por secreto desígnio do Criador Supremo essa forma moveu-se como um movimento que expressava vida e uma esfera de fogo sem figura humana penetrou no seu coração, tocou o seu cérebro e alargou-se através de todos os seus membros. Essa mesma forma de Homem assim vivificada saiu do ventre da mulher e mudava de cor segundo os movimentos daquela esfera que o habitava.»

Segundo Hildgard, a partir deste momento o Homem inicia o seu percurso terreno vivificado pela «esfera de fogo sem figura humana que penetrou no seu coração, tocou o seu cérebro e alargou-se através de todos os seus membros». No desenho traçado podemos contemplar essa magnifica visão onde a criança, ainda no ventre materno, é invadida por essa luz divina colocando nela a chispa celeste que transporta a essência Divina. Neste processo de mortalidade o Homem adquire a sua condição de filho de Deus iniciando todo o percurso de nascimento e vida terrena para a qual, segundo Akiane «todos somos voluntários para esta vida, no entanto muitos de nós esqueceu-se do compromisso feito para com estas experiências». Segundo Hildegard, ao ocupar o «tabernáculo terreno» o Homem é livre de decidir o caminho a tomar: a elevação espiritual ou a descida material, terrena. Para Akiane tudo depende das nossas escolhas e decisões. A jovem visionária refere esta verdade suprema neste magnifico quadro que revela um dos grandes mistérios do Homem: o Destino.

As Mãos do Destino

«Não interessa o que acontece à nossa volta, ou a nós, através do amor a nossa alma atinge a imortalidade conquis-tando todas as dimensões e des-tinos. À medida que experimen-tamos o golpe da dor e o toque da alegria cruzamos diferentes dimensões e participamos na criação do nosso próprio destino. Esta é uma história sobre a es-colha da felicidade ou da tris-teza, escolher fechar as feridas do tempo para não nos tor-narmos nessas mesmas feridas.

As mãos representam as nossas decisões e escolhas. Elas movem-se de acordo com a nossa vontade. Uma das mãos move-se na humana esfera do abandono. A outra mão move-se na esfera espiritual cessando a separação - a ferida da realidade terrena. Temos de desejar o nosso futuro. Por isso pintei a mão esquerda segurando o destino escolhido de acordo com o plano divino.

Todos somos voluntários para esta vida, no entanto muitos de nós esqueceram-se do compromisso feito para com estas experiências. Sem a nossa permissão e acordo divino estas infelicidades nunca teriam vindo até nós. Existem biliões de dimensões em direcção ao infinito. Talvez esta seja a mais dura, mas depois a mais desejada. Numa imperfeita vida humana e espiritual não existe compaixão sem dor, força sem luta e sabedoria sem reais experiências. Por isso esta história é uma descrição de esforço, força e opções enquanto travamos as nossas grandes lutas. E talvez, mesmo que de uma forma simples, consiga trazer um pouco de esperança para aqueles que a perderam.»

Esta brilhante visão de Akiane transmite uma intensa vibração de reconhecimento interno presente no facto do Homem participar na criação do seu próprio destino. Esta mensagem traça em nós uma linha intemporal de contínua construção e de pacto com o Divino segundo aquilo que karmicamente devemos superar. Ao vivermos de acordo com o destino estamos a experimentar o golpe da dor e o toque da alegria, enfrentando as lutas e as infelicidades acordadas entre nós e Deus. Segundo esta perspectiva o Homem não só cria o seu destino como também o escolhe, pois sem a nossa permissão e acordo divino estas infelicidades nunca teriam vindo até nós. Segundo a visão de Akiane, a escolha é do Homem: abandonar o seu próprio destino, ou viver de acordo com ele cessando a separação com Deus, a chispa que ele mesmo colocou em nós no seio materno. Mas para isso é necessário encontrar a compaixão, a força e a sabedoria, através do Amor e do Conhecimento Divino, de forma a atingir e conquistar todas as dimensões e destinos.

Conhecimento Divino

«Este é um quadro sobre como encontrar o Conhecimento Divino.

Este jovem escultor representa a nossa civilização guiada maioritariamente por homens. A sua juventude mostra como a nossa civilização ainda é imatura. Este escultor está a cravar esta grande pedra para encontrar o diamante que representa o divino conhecimento. O escultor ignora a dor, a tensão, a adversidade e a tentação que o rodeia. Está apenas concentrado em encontrar este diamante particular, ele sabe que se martelar o suficiente na pedra, representando o conhecimento humano, ele irá ver finalmente o diamante ou o Supremo Conhecimento. Por de trás da gruta, o contraste do gelo e pedras quentes representam o mundo de contrastes em que vivemos. O gelo derretido, que forma um pequeno riacho, que avança simboliza a sede da humanidade por conhecimento que apenas pode ser alcançado pela luz do amor.»

Consegues alcançar uma meta,
mas percebes que cada passo
e cada movimento para lá chegar
foi um erro.

Qualquer grande poder
que não consegue definir a sua força,
como vindo da fonte correcta,
não é tão grande, maduro ou justo.

O mundo tem demasiado
do seu próprio conhecimento
para reconhecer a divina sabedoria,
tal como matizes tentando escapar
à realeza das cores.

Para saber o que é divinamente vedado as acrobacias crescem.

Exigimos sinais da sabedoria mas no fim somos nós que a seguramos.

Neste fabuloso quadro Akiane brinda-nos com um dos seus poemas que abrem o tema central de uma forma surpreendente. Para Akiane a poesia é um puzzle que cada um tem de desvendar por si mesmo e neste magnífico poema a jovem mística reflecte a imagem de um jovem escultor representando a imaturidade da civilização que para saber o que é divinamente vedado cresce em acrobacias. Akiane comenta o facto: «este jovem escultor representa a nossa civilização guiada maioritariamente por homens» ao qual, curiosamente, Hildegard cita a seguinte frase: «…muitos disseram: O que é isto de tais mistérios serem revelados a esta mulher inculta e néscia quando existem tantos homens fortes e sábios?». A persistência deste jovem simboliza cada Homem na luta pelo Verdadeiro Conhecimento, pelo resgate da sua essência centrada no diamante que se encontra escondido na pedra. Segundo Akiane, para resgatar o Conhecimento Divino (diamante) é necessário lapidar o Conhecimento Humano (pedra).

No entanto, o mundo tem demasiado do seu próprio conhecimento para reconhecer a divina sabedoria ignorando o facto de que qualquer grande poder que não consegue definir a sua força, como vindo da fonte correcta, não é tão grande, maduro ou justo. Por isso encontramos na gruta os caminhos de gelo e pedras quentes simbolizando a escolha daqueles que vivem no fogo, na luz, no amor de Deus e os que anseiam esse fogo mas vivem no gelo pois o conhecimento apenas pode ser alcançado pela luz do amor. Trata-se de escolher o nosso destino, balançando as mãos segundo as nossas escolhas e decisões no difícil mundo de contrastes em que vivemos.

O Universo

Hildegard, deixou-nos neste retrato um verdadeiro tratado cosmológico que devido à sua extensão e profundidade não o podemos retratar na íntegra. Como no quadro acerca do «Conhecimento Divino», o desenho impresso em «O Universo», executa uma brilhante referência à dualidade onde a «lux vivens», o fogo, aparece em oposição às trevas, ao frio.

«Vi uma imensa esfera redonda (…) que na sua parte exterior tinha um círculo de luz brilhante e por baixo uma envolvente tenebrosa. Dentro deste circulo de chamas existia um globo com brasas sustentado por três estrelas (…) este globo por vezes se elevava dando mais luz e lançando os seus raios de fogo mais além. Outras vezes descia mais abaixo e o frio começada a ser mais intenso.»

Por de trás da gruta, o contraste do gelo e pedras quentes representam o mundo de contrastes em que vivemos.
Akiane

«Ouvi uma voz no céu que me dizia: 'Deus que fez todas as coisas pela sua vontade, criou-as para que se conheça e honre o seu nome. Não para mostrar nele as coisas visíveis e temporais, mas para manifestar nelas as coisas invisíveis e eternas.'»

Exigimos sinais da sabedoria mas no fim somos nós que a seguramos.
Akiane

Constatamos novamente o recurso à dualidade simbolizada neste quadro pela manifestação da natureza e a sua plasmação na vida externa e interna do Homem. «O Universo» explica toda a dinâmica do cosmos e do Homem segundo o conceito da ciclicidade que abarca todas as formas de vida. O dia e a noite, a vida e a morte, o semear e o colher, as estações, o renascer interno do Homem, tudo se relaciona com a manifestação desta grande lei expressa nesta maravilhosa gravura de Hildegard.

A última ideia contida nesta apresentação retrata uma das verdades inquestionáveis para as duas visionárias, o Homem feito à semelhança de Deus. Para Hildegard, o tabernáculo é apenas um meio de expressão divina, pois segundo a visão que contempla, Deus, pela sua vontade, criou o cosmos e o Homem a fim de manifestar as coisas invisíveis e eternas, o Conhecimento Divino, esse diamante que no fim somos nós que o seguramos. A ideia do Homem como portador da Sabedoria Divina está, para as visionárias, na base de todo o mistério da manifestação. Para entrar em contacto com o imperecível, o Homem tem de, como refere a jovem mística, resgatar a sua visão eterna e os sinais de sabedoria dos quais é portador.

O Amor de Deus, a Vida e a Salvação

Como referimos, a dualidade é uma constante nas visões das duas místicas e a luta entre o bem e o mal, Deus e Lúcifer, está em destaque na mensagem de Hildegard e Akiane. Na visão que se segue podemos presenciar novamente esta dualidade reflectindo o poder e a força de Deus através do Amor, Vida e Salvação.

«E vi, no mistério de Deus, como no meio da atmosfera austral, uma bela e maravilhosa imagem com figura humana, cujo rosto era tão belo e de tanta luminosidade que mais facilmente poderia eu olhar o sol…»

«No ponto extremo da curva da asa direita contemplei uma cabeça de águia com olhos de fogo e onde reflectia o esplendor dos anjos como um espelho e no extremo da curva da asa esquerda havia um rosto Humano que brilhava como a luz das estrelas. Estes rostos estavam voltados para oriente.»

Hildegard explica: «…porque, na grandeza da submissão, triunfa aquele que se sujeita a Deus e vence o demónio sendo exaltado na beatitude da protecção Divina (…) a águia simboliza os Homens Espirituais que, pela devoção do seu coração - como os anjos - contemplam a Deus.»

«Com os seus pé, pisava um monstro horrível, de cor negra.»

Hildegard Explica: «o verdadeiro amor, nas pisadas do Filho de Deus, quebra a injustiça e a discórdia, deformada pelos vícios, terrível pelas muitas perversidades, venenosa no engano e negra na perdição (…) porque às vezes o demónio semeia o engano da sua discórdia actuando pelo bem e pondo suavemente aqui e ali todo o género de vícios e no final mostra abertamente a sua perversidade na pior consumação da discórdia.»

Nesta imagem, a força de Deus está presente na luz e no amor que emana e com o qual pisa o monstro horrível de cor negra, simbolizando aqueles que cultivam a injustiça e a discórdia deformada pelos vícios, terrível pelas muitas perversidades, venenosa no engano e negra na perdição. Para Hildegard, aquele que encontra abrigo nas asas de Deus vence o demónio sendo exaltado na beatitude da protecção Divina. A águia e o ser Humano, virados a oriente, é o jovem que delapida a pedra, o conhecimento Humano e reconhece a sua essência por sentir em si a manifestação das coisas invisíveis e eternas. A águia com olhos de fogo é o reflexo do calor divino que contempla Akiane e Hildegard em forma de luz ardente. Estes são os Homens Espirituais, aqueles que pisam a discórdia gerada pela matéria, pelo monstro e a cobra. Aqueles que na sua luta ignoram a dor, a tensão, a adversidade e a tentação vencendo o demónio que semeia o engano da sua discórdia.

«De Fora para Dentro e de Dentro para Fora»

Num estilo admirável, Akiane refere estes mesmos elementos num excelente retrato da sociedade do século XXI.

Algumas plantas são artificiais, outras são reais, outras, artificialmente reais. Depois, existem plantas que crescem sozinhas ou que dominam as mais fracas. Outras são simples e pacíficas (…) outras gostariam de estar fora para experimentar novas mudanças. Fora da janela muitas plantas gostariam de estar dentro, acreditando que lá é sempre mais seguro e quente. Mas mesmo assim, todos gostamos de plantas com diferentes personalidades e propósitos. Precisamos da diferença que nos une e não separa. Mas mais do que tudo necessitamos de luz. Sem luz, iremos murchar, mesmo no vaso mais caro e belo.

Neste brilhante quadro Akiane aborda com toda simplicidade a ideia de Hildegard(7) , através de uma linguagem bastante distinta, como já referimos, mais adaptada às concepções actuais, pois Hildegard utiliza regularmente conceitos referentes ao diabo, ao monstro, à serpente, para designar o mal, a matéria e, neste caso a discórdia. Nesta perspectiva Akiane transmite a mesma essência utilizando conceitos mais actuais e menos teológicos.

Na interpretação deste quadro Akiane aborda o tema da discórdia gerada pela insatisfação humana. Este estado de descontentamento retrata a sociedade actual que nunca se encontra plenamente satisfeita acabando por ambicionar aquilo que as outras plantas têm: fora da janela muitas plantas gostariam de estar dentro acreditando que lá é sempre mais seguro e quente. Este estado leva o Homem a, como Hildegard refere, semear o engano da sua discórdia actuando pelo bem e pondo suavemente aqui e ali todo o género de vícios. Akiane identifica esse monstro como: algumas plantas são artificiais, outras são reais, outras artificialmente reais. Depois, existem plantas que crescem sozinhas ou que dominam as mais fracas. Akiane prossegue dizendo: Sem luz, iremos murchar mesmo no vaso mais caro e belo, ou seja, sem a presença de Deus, sem a protecção das asas Divinas nunca poderemos pisar o monstro da matéria e a serpente do desejo (retractada no quadro de Hildegard) acabando por murchar no nosso vaso, no nosso tabernáculo, por mais belo e caro que seja. O conceito de unidade que a jovem mística confere acompanha a única solução para a discórdia gerada pela insatisfação: Precisamos da diferença que nos une e não separa. Só a força do amor consegue criar plantas reais viradas a Oriente, representando os Homens espirituais, as águias com olhos de fogo e os rostos que brilham como a luz das estrelas.

O Amor também surge no quadro de Hildegard como a energia curadora que gera Vida e leva à Salvação. «O Amor, diz Hildegard, está na roda da eternidade sem tempo, como o calor no fogo. Pois na sua eternidade, Deus conheceu de antemão todas as criaturas que produziu na plenitude do seu Amor». Em toda a obra de Akiane, também presenciamos o Amor como fonte de salvação, pureza e humildade, para esta jovem visionária o «Amor foi criado para criar» e o mundo actual carece desta fonte unificadora, carece de Verdadeiro Amor, a principal virtude que o Homem deve desenvolver para ascender a Deus.
Nesta sequência, Hildegard e Akiane apelam constantemente às virtudes como fonte de transcendência e às quais Hildegad confere uma extrema importância como refere numa das suas composições musicais intitulada "O Drama da Virtudes", onde refere que: «As Virtudes apresentam-se a si mesmas (…) e assim encontramos a Humildade, a Caridade, o Temor a Deus, a Obediência, a Fé, a Paciência, o Discernimento; o Desprezo do mundo, a Castidade, a Disciplina. Também estão a Inocência e o Conhecimento de Deus». As virtudes de Hildegard estão igualmente retratadas em Akiane como: A Inspiração, a Aventura, o Acesso ao Conhecimento, o Silêncio, a Inocência, sendo o valor da humildade e do amor uma das mais citadas. Para as duas visionárias a prática das virtudes fornece ao Homem a força necessária para lapidar a pedra encontrando a sua verdadeira essência, o diamante. No quadro que se segue Akiane faz uma exposição brilhante de algumas virtudes estando grande parte delas representada nesta magnifica representação da «Oração».

O Poder da Oração

Nesta pintura, os pássaros representam os que oram. O poder da oração é direcção, humildade, sinceridade e fé. Estes pássaros, tal como os que oram na procura de Deus, voam em direcção à luz. (…) Durante o voo, os pássaros têm de ouvir a voz silenciosa de Deus a fim de o encontrar. Se estiverem ansiosos e zangados irão bater contra a montanha. Se não tiverem fé irão cair ao rio. Se voarem apenas pela aparência serão os primeiros a serem queimados pela intensa energia de Deus. Se não forem humildes e confiantes não serão aceites pela luz. A força da oração mais rápida e dedicada está a derreter o gelo das montanhas e declives. Quanto mais oração maior é a força. Nesta pintura, a neve representa a confusão, as dificuldades e a infelicidade. A maior parte dos cumes estão já sem neve, e à medida que os pássaros se aproximam da luz, toda a paisagem se enche de sol, cascatas e flores.

A oração está associada à prática do silêncio, à meditação e introspecção. Estes são os veículos de conhecimento interior, de aproximação com Deus pois só os pássaros que ouvem a voz silenciosa de Deus o poderão encontrar. A prática da oração derrete o gelo da montanha, o gelo que simboliza a sede da humanidade por conhecimento e que apenas pode ser alcançado pela luz do amor. Sem oração o Homem não consegue sair do frio, da neve que representa a confusão, as dificuldades e a infelicidade, o destino escolhido. Pela prática da virtude o Homem irá interiorizar a sua essência e lutar contra a ansiedade, a fúria, a descrença, a aparência e o orgulho. Para Akiane e Hildegard, o Homem tem de reconhecer a necessidade da oração a fim de transformar as pedras geladas da montanha numa paisagem que se enche de sol, cascatas e flores.

Para a visionária do século XII, «os pobres de espírito seguem o Temor de Deus na sua humildade, porque a honra e a ostentação não os atrai, mas a simplicidade e a sobriedade». Na alegoria «De Joelhos», de Akiane, compreendemos através do seu magnifico poema que «ser humilde é respeitar a nossa própria imaturidade», é consciencializar a nossa distância ante essa poderosa luz, esse fogo que pede uma elevação pela prática da Virtude, do Amor e da Humildade.

De Joelhos

Reflexões sobre «De Joelhos»

Desperto a tempo.
Ajoelho-me sobre um beijo.
Levanto-me vigorosamente.

Ser humilde é respeitar a nossa própria imaturidade.

A escolha do perfeccionismo
torna a obediência incompreensível.

Ajoelhado de dentro para fora
toda a tentação passa.

Na eternidade
a humildade torna-se um legado
de grandeza.

«Quando estamos sozinhos em oração ou meditação, alcançamos paz, alegria, amor e sabedoria. Esse momento íntimo eleva-nos para a eternidade. Cada um de nós caminha pela sua viagem espiritual. Mas antes de andarmos, antes de subirmos, antes de voarmos, precisamos de estar de joelhos. Muitas decisões têm de ser tomadas de joelhos. Ajoelhar não é fraqueza. Ajoelhar é a fonte da força, sabedoria e amor.»

Para Akiane, a humildade é a posição necessária a esta viagem espiritual pois antes de andarmos, antes de subirmos, antes de voarmos, precisamos de estar de joelhos. Para Akiane e Hildegard a humildade é vista como a principal virtude, aquela que gera no Homem a força e a vontade necessárias para lapidar a pedra e derrubar os seus demónios interiores. Para Akiane, só através da humildade toda a tentação passa pois com humilde devoção, refere Hildegard, não só se vence a si mesmo naquilo que é vicioso mas também ao demónio.

Akiane

A Mortalidade «apenas precisa
de um momentâneo tremor de terra
para perder a memória
da perspectiva eterna.

Tão complexo,
os nossos corações quebrados regressam
ao seu criador para serem reparados.
Somos todos museus.
Todos regressamos à Essência.
E hoje o nosso caminho
é totalmente vertical

O nascimento e a morte são os únicos
que entram e saem de ti
com o civilizado acordo da existência.

O destino é um alvo.
Deus é um arco.
A alma é uma seta.

Despertando os olhos concretos
passamos uma eternidade ensinando-os a ver.

A vida em espírito está plena de sentido.

De forma a escolher o caminho certo
não precisas de saber qual é o errado,
mas mesmo assim deves ter de o atravessar

 

Hildegard

«Na forma do Homem, Deus deixa estabelecida a totalidade da sua obra.»

«A alma, enquanto está no corpo, sente a Deus porque vem de Deus, mas enquanto realiza a sua tarefa entre as criaturas não vê Deus.

Quando abandonar a oficina, que é o seu corpo, e, quando se encontre frente a Deus, conhecerá a sua natureza e as velhas dependências corporais…a alma espera com avidez esse último dia do mundo, porque perdeu esse vestido que amava e que é o seu próprio corpo.»
A Imortalidade

A Mortalidade finda com a Imortalidade num ciclo contínuo de vida e morte presente em todo o manifestado. Ao lapidarmos o Conhecimento Humano estamos a traçar o nosso destino contra as plantas artificialmente reais, contra a discórdia e o peso da matéria. Com a prática das virtudes afastamo-nos do frio e recolhemos a nossa alma ante o fogo e o amor para sermos contemplados pela luz divina que desce sobre aqueles que colocam os seus sapatos brancos mesmo num vaso descolorido. Por isso Akiane refere: ante a verdade não fujas da luz, não estejas zangado com a luz, não penses ou lutes por ti, caso contrário, irás perder a luz por completo. O «Regresso a Casa» indica o nosso caminho de retorno a essa «lux vivens» que está dentro de nós. Com a ajuda dos guardiães divinos, os Anjos, o Homem pode traçar a sua senda sabendo que existe uma mão invisível que o sustém pois às vezes conhecemos certos anjos que aparecem como humanos mas não sabemos e num acto mágico ajudam o Homem na busca do seu diamante mesmo sabendo que não existe compaixão sem dor, força sem luta e sabedoria sem reais experiências. Por tudo isto, necessitamos de esforço, força e opções enquanto travamos as nossas grandes lutas. Ei, ei águia! Porque dormes no teu conhecimento! Levanta-te das dúvidas! Clama Hildegard numa das suas visões! Neste retorno, todos regressamos à Essência. E hoje o nosso caminho é totalmente vertical pois o destino é um alvo. Deus é um arco. A alma é uma seta.

«A entrada para o desconhecido é a entrada para a vida eterna repleta de diferentes dimensões, energias, tempos, personalidades, espíritos e escolhas, onde os níveis de experiências estão para além da nossa imaginação». Akiane.


Isabel Areias

Pedagoga e investigadora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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