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Hipátia ou a busca da Verdade

 

Quero, em primeiro lugar, agradecer, à Nova Acrópole o honroso convite que me foi dirigido para apresentar esta obra, Viagem iniciática de Hipátia: na demanda da alma dos números. Agradecer simultaneamente ao Dr. José Carlos Fernández, Director da Nova Acrópole em Portugal e ao Dr. Paulo Loução aos quais me ligam laços de fraternidade platónica na incessante busca da verdade e da sabedoria.

Feitos os agradecimentos circunstanciais, regressemos a Hipátia, essa quase desconhecida do comum dos mortais até ao momento em que Alejandro Amenábar através do seu filme Ágora nos fez recordar como o processo do devir histórico sempre se submete às leis do pêndulo, em busca permanente do inalcançável equilíbrio.

Esta obra que agora se apresenta, tradução do original em castelhano, apesar de se apresentar com a classificação de romance histórico, é muito mais do que um simples romance, ou não tivesse o seu autor o cuidado de iniciar o apêndice com a advertência de «que tudo o que se sabe de Hipátia pode ser escrito numa só página».

Restavam, assim, ao autor, apenas duas possibilidades. Escrever um romance que de histórico teria apenas uns laivos de enquadramento geral ou uma reflexão sobre o pensamento dos finais do Século III e início do IV, período em que Hipátia exerceu a sua influência no universo erudito da cidade de Alexandria.

Trata-se, de facto, de algo muito mais profundo que um simples romance histórico, embora esse género literário nos mereça todo o respeito.




Hipátia de Alexandria ensina na sua escola.


O que José Carlos Fernández nos apresenta nesta Hipátia é um verdadeiro hino de amor. Hino de amor à busca da verdade e à compreensão da causa última das coisas, do uno primordial que engloba e abraça a diversidade das formas e das manifestações quer do espírito, quer da matéria.

Nesse amor, José Carlos Fernández abraça tudo o que Hipátia representa e tenta preservar num mundo em profunda e acelerada transformação, em que as trevas se vão sobrepondo à Luz, em que o caos parece submergir o Logos, o Espírito universal, as ideias puras, como se os habitantes da caverna de Platão para sempre se perdessem por entre o labirinto das sombras sem que atingissem um leve vislumbre da claridade exterior.

O mundo que o autor nos apresenta, a Alexandria de Hipátia, historicamente datado e para cuja compreensão a Cronologia anexa se revela de extrema utilidade, é um mundo em que os personagens evoluem num cenário errado, sem que de tal se apercebam. De facto, aquele não é já o seu mundo, aquele já não é o seu filme.

Os edifícios são os do mundo clássico, as instituições, apesar de pequenas alterações terminológicas, são aparentemente as mesmas, mas algo mudara profundamente. Da turbulência intelectual da velha Alexandria, ponto de convergência de todas as correntes filosóficas que haviam enriquecido os mundos helenístico e romano durante os últimos séculos, restava apenas uma chama cada vez mais bruxuleante, ameaçando extinguir-se pelo efeito das rajadas de intolerância que sobre ela incidiam. As nuvens que se perfilavam no horizonte ameaçavam tempestades que, ao invés de lavar ruas e praças, se mostravam capazes de destruir os próprios fundamentos em que, setecentos anos antes, fora criada por Alexandre.

Talvez as ruínas do Bruchion, na área nordeste da cidade, onde se haviam erguido as principais estruturas da Alexandria ptolomaica, prenunciassem algo funesto no destino da cidade.

Afirmei atrás que esta obra é um hino de amor. É-o, de facto, mas em resultado de uma paixão confessa pelo próprio autor. Amor pela filosofia, consubstanciada na Escola Platónica que a tradição atribui a Hipátia e cuja existência é comprovada pelos poucos documentos que Kronos preservou. Nela poderemos ver, como o autor insinua, o raio de luz que estabelece a ponte entre os dois mundos, evitando que toda a sabedoria se perca, transformando-se assim num raio de eternidade.

É em resultado desse amor que José Carlos Fernández nos descreve o longo percurso da formação de Hipátia.




Busto do deus Serápis.


Mostra-no-la no Templo de Serápis, dominando a cidade do topo da colina de Rakhotis, sob a direcção e o carinho de seu próprio pai, Theon, o velho filósofo responsável pela Biblioteca do Serapion e que, desde a infância, lhe incutia no espírito a ideia de irmandade entre todos os homens, resultante da condição racional da alma.

Por ela nos tornávamos cidadãos do mundo, independentemente da raça, da escola filosófica ou da crença religiosa. Que importava, afinal, o culto adoptado para reverenciar o mesmo princípio universal?
Com ela, deambulamos a vista pela cidade, admiramos a multiplicidade de templos e meditamos sobre a diversidade de formas de cultuar a mesma essência divina, o espírito universal, o uno, cujos raios de luz dão vida a todos os seres existentes na terra. Todos fazendo parte do mesmo todo, todos e cada um sendo, simultaneamente, parte e todo da unidade.

Através dos seus olhos, repousamos a vista no Cesarion, o antigo templo dedicado a César, agora transformado em igreja, onde os mestres gnósticos cristãos ensinavam as teorias de Platão, segundo as perspectivas de Plotino e Orígenes. Dar-se-iam conta que o Cristo que aí reverenciavam representava o mesmo princípio que Ra, o Deus Sol tinha para os egípcios?

É, ainda, pela mão de Hipátia que José Carlos Fernández nos faz deambular pelo templo de Serápis e atingir a pirâmide escalonada representando a estrutura septenária do universo e do homem, os sete planos da consciência, presidida por Serápis, Rá, o Cristos universal de Paulo de Tarso, o iniciado apóstolo dos cristãos, cujos textos ficavam, cada vez mais, de tão literalmente interpretados, expurgados da alma, do raio de luz divino que os inspirara.

A Pirâmide que, no fundo, é a cristalização de Maat, da verdade, da ordem, da Justiça, erguida de acordo com a divina proporção, a que se manifesta em todos os seres criados, como uma constante desse raio divino primordial, cujo sopro deu origem a todas as formas de vida. A mesma Maat que representa a recta medida, a filha de Ra, deus da vontade que surgiu como um sol das águas do caos. O tetraedro que para Pitágoras representava o «fogo divino», a acção de Deus para agir na Natureza.

Mas para José Carlos Fernández, à semelhança de Hipátia, todo o universo se interpreta pela antiga ciência dos números. Eles não passam de símbolos hieroglíficos das ideias que governam a natureza, transformando-se no raio de fogo divino que permite desvendar as trevas da ignorância. Por isso nos explica de forma tão clara como o piramidon, que encimava a pirâmide, fora metamorfoseado em templo a Serápis, formando o sétimo elemento da estrutura septenária, ao qual se acedia por uma escadaria de cem degraus, o quadrado de dez, a mónada da árvore da vida, ou, citando as palavras do autor «a potência dinâmica da Natureza e o Cosmos na sua plenitude».

Bela é, também, a descrição que José Carlos Fernandez nos dá da estátua do próprio Deus Serápis, mostrando como os materiais utilizados pelos artistas iniciados que a haviam esculpido correspondiam a símbolos da própria Ideia que era a essência de Serápis. Tudo isto através de uma forma poética, ela própria a linguagem divina que emana do Espírito Universal.

O percurso de Hipátia é-nos relatado de forma primorosa. Primeiro a sua viagem até aos confins do Alto Egipto, onde se vislumbram já as terras da Núbia, seguindo o curso do Nilo que alimentava o Egipto, como Isis fazia com seu filho Horus; esse rio cuja notação matemática, em grego, correspondia ao número 365, o número dos dias do ano. A sua chegada a Philae, por entre acácias e sicómoros, a sua descrição dos templos, das provas da sua iniciação que lhe garantiam ser capaz de resistir aos medos que engendram o ódio e provêm da ignorância. As provas que representavam o caminho da alma, quer pelos dois elementos inferiores, constituintes da personalidade, a Terra e a Água, quer pelos que integravam a consciência moral, o eu superior, o Ar e o Fogo.

Através dessas provas, Hipátia sabia que deveria resistir aos seus medos interiores, materializados, quer no orgulho do sucesso, quer na ira no fracasso, de modo que a sua alma conseguisse ultrapassar a prova da Balança de Maat para que não fosse consumida pelo crocodilo que mora no mais profundo de cada um de nós. A iniciação que representava o casamento místico com o seu eu superior, depois de liberta de todas as formas de egoísmo e de subjugação aos sentidos e desejos materiais.




As cónicas, figuras que se dá para extrair a partir de um cone.


José Carlos Fernández conduz-nos, ainda, na sua viagem até ao templo de Heliópolis, junto das pirâmides que muitos atribuem aos faraós Keops, Kefren e Mikerinos, mas que outros tantos afirmam provir desde os tempos antigos do Egipto Vermelho, anteriores ao iniciado pelos reis humanos.

Pelos ensinamentos de seu pai, Hipátia conhecia muitos dos segredos que a grande pirâmide encerrava, quer os que a transformavam numa autêntica estrutura septenária, com as suas sete câmaras relacionadas com os sete planetas, quer os que a relacionavam com a sua correcta orientação, o que lhe permitia ser, em conjunto com as suas duas irmãs, o reflexo, na terra, da constelação de Orión, a representação de Osiris.
O templo de Heliópolis, consagrado a Ra, «coração e pináculo de toda uma pirâmide de ideias» nas palavras do autor, simbolizando o Solus, o único, a Unidade Universal e força criadora em plena potência, dedicava-se ao estudo dos ideais-números que originam a pirâmide luminosa que garante a sustentação da Natureza.
Aí pretendia Hipátia regressar ao mundo das sombras da caverna de Platão para compreender o sentido íntimo dos acontecimentos que arrastavam a sua cidade e os ideias da sua civilização para o caos, como se Némesis pretendesse conduzir o universo para um ponto onde a Política se distanciasse da Justiça, anulando o fluxo do Bem, Verdade e Beleza que organizam as sociedades humanas, piramidalizando-as.

Libertando-se dos poucos atavios materiais que, porventura, ainda a limitavam na capacidade de ver e ouvir com a alma, de modo a que, definitivamente se libertasse das trevas da caverna, aprofundou os seus conhecimentos matemáticos, utilizando talvez os mesmos papiros que o seu amado Platão. Aí aprofundou os princípios que levam à elaboração do duplo quadrado que origina a Divina Proporção; estudou os princípios que permitem calcular o duplo volume, através do que hoje designamos por números primos, semente e chave de toda a matemática sagrada; aí terá entrado em contacto com o Côvado Real, unidade sagrada de medida, na qual cada número correspondia a um Deus, o garante da Recta Medida, a filha de Ra, enfim, da própria Maat.

A sua formação completar-se-ia através de contactos com a escola neopitagórica de Atenas, tornando-se discípula dos ensinamentos de Plutarco.

Independentemente de ter ou não frequentado a Academia em Atenas, certo é que Hipátia demonstrava conhecer as várias correntes filosóficas gregas, tendo sido, provavelmente, iniciada em vários dos mistérios, então, ainda praticados.

Passava a aliar os conhecimentos mistéricos egípcios que permitiam entrar em comunhão com os Arquétipos e energias do Cosmos, aos gregos que ajudavam a encontrar o equilíbrio entre a mente, a psique e o corpo, eliminando o medo, e harmonizando o pensamento analítico e racional dos gregos com a filosofia egípcia.
Aprofundando os seus conhecimentos de Matemática sagrada, recordou quanto havia aprendido até então, especialmente o que se referia aos triângulos que Platão tão bem mostrara no Timeu, partindo para a geografia sagrada de modo a entender como os lugares sagrados se distribuíam segundo condições astronómicas, telúricas e matemáticas muito rigorosas, de maneira a poderem sintonizar o céu e a terra e as acções dos homens com a natureza dos deuses.

Finalmente, a sua formação completava-se com a Oratória e a Dialéctica. A oratória que lhe permitia captar a atenção dos discípulos e a transformava, nas palavras de José Carlos Hernandez, numa figura com a beleza de Afrodite, a dignidade de Hera e a sabedoria de Atena.

A Dialéctica que lhe garantia as armas para lutar contra os sofismas e deformações das sombras que nascem da dúvida e do medo, numa guerra total ao mundo das ilusões.

Mas a sua cidade mostrava-se cada vez menos propícia ao ecletismo neoplatónico que em todas as correntes filosóficas e religiões via uma caminhada para a compreensão do Uno primordial, quer se tratasse das religiões e astronomia dos caldeus, dos mistérios egípcios, associados à sua Matemática e Geometria Sagradas, à religião, mistérios e correntes filosóficas dos gregos, à sabedoria dos homens das montanhas do Oriente ou mesmo dos gnósticos cristãos, para quem o Cristo Cósmico representava o homem celeste do qual irradia a luz divina, a Sabedoria, transmitida pelo galileu, também ele iniciado na sabedoria dos Antigos Mistérios.

Desde o Édito de Milão, em 313, pelo qual Constantino concedera liberdade de culto a todos os cristãos do império, o sectarismo e a intolerância haviam-se tornado apanágio deste movimento que, de perseguido, passou a revelar um fanatismo, até então, praticamente inédito em todo o império. Cada vez mais próximos do poder, os cristãos não hesitavam em recorrer ao poder imperial para resolver as suas questões e divergências internas.

O mundo romano foi lentamente invadido por uma névoa que tudo submergia, precipitando a decomposição dos valores e dos princípios em que assentara a força que sustentara o seu edifício que a todos albergara, com as suas diversidades, desde que não colocassem em causa a própria essência em que se fundamentava.

Fora essa circunstância, aliás, a verdadeira causa que conduzira às perseguições de que os discípulos do nazareno haviam sido alvo. A sua intolerância para com o pensamento dos outros, relegara-os para um gueto em que acabaram por ser vítimas do próprio cancro que haviam engendrado. Ainda perseguidos, foram-se tornando perseguidores de quantos, de entre eles, ousavam pensar dialecticamente, interpretando alegoricamente os textos que lentamente se iam estruturando como fundacionais da nova religião. A diferença rapidamente se tornou objecto de ódio, por oposição ao princípio básico dos ensinamentos de Jesus, «amai-vos uns aos outros.» Não o amor carnal, mas antes o amor na fome humilde da busca da Verdade e da Sabedoria, que se transforma em fraternidade universal, como tão bem cantou o iniciado Paulo de Tarso.

Constantino que via, no ímpeto e fanatismo deste grupo, uma força que facilmente poderia utilizar na tentativa de reunificação e revitalização do império, não hesita em se intrometer entre eles, de modo a transformar a grande diversidade de correntes teológicas e filosóficas num único grupo, que se revelará simultaneamente controlado e manipulador das iniciativas imperiais. O Concílio de Niceia, em 325, é o paradigma do que se passaria posteriormente.

O fanatismo da sua intolerância foi, entretanto, aumentando, à medida que ascendiam aos meandros do poder, situação que se verificou sob todos os imperadores, se exceptuarmos Juliano, sintomaticamente apelidado de apóstata pela igreja. Igreja que, após Niceia e a condenação das inúmeras leituras e interpretações dos múltiplos textos que nela circulavam, passou a autodesignar-se «católica», universal, excluindo todos os que se não revissem nos artigos de fé aí aprovados. Excluídas, ficavam, por exemplo, todas as correntes do cristianismo gnóstico e dos discípulos de Ario, corrente teológica com ampla aceitação no Oriente.

Teodósio marcaria, no entanto, a viragem fundamental da política imperial, invertendo os papéis até aí desempenhados pelos diversos actores. De subordinada, a Igreja Católica passava a dominadora, transformando muitas vezes os imperadores em joguetes dos seus interesses. O próprio imperador é publicamente humilhado por Santo Ambrósio, bispo de Milão, que ordena a sistemática destruição de todos os templos existentes na sua diocese.

Em 380, através do Édito de Tessalónica, o Cunctos Populos, torna o catolicismo na religião oficial e exclusiva do Império, passando todos os cultos tradicionais a ser considerados como ofensivos aos interesses do Estado.

É certo que se abria uma excepção para os judeus, mas rapidamente o antisemitismo ganharia forças suficientes para transformar o antigo povo eleito, num dos escolhidos para perseguições que se manteriam por séculos. O incêndio da sinagoga de Calínio, na Mesopotâmia, despoletado por cristãos enfurecidos no ano de 388, era já um mau presságio do que o futuro lhes havia destinado.

Os anos seguintes são de tremenda brutalidade e destruição. O novo poder religioso, que se arvorava como detentor único da verdade e sem intermédio do qual não havia possibilidade de salvação para os humanos, revelava-se incapaz de reciclar o que rejeitava.

Mal tolerava a cristianização dos locais sagrados da velha tradição. Importava destruí-los fisicamente para que deles não restasse lembrança e não permanecessem como fonte de tentação a todos os que, forçadamente, aderiam ao baptismo da nova religião.

Nem a cidade de Hipátia, a Alexandria dos filósofos, conseguiu permanecer imune aos ventos de destruição e intolerância que varriam os territórios do Império, em processo de morte acelerada.

Enquanto Prisciliano era perseguido na Ibéria, Timóteo, patriarca de Alexandria semeava a intolerância para com todos os que se mantinham fiéis à velha Sabedoria, à prática dos mistérios, e a tudo o que com ela se relaciona.


Foi com a serenidade de quem cultiva o estoicismo que Hipátia assistiu à destruição do Templo de Serápis, ao incêndio da sua biblioteca, reduzindo a cinzas praticamente tudo o que fora salvo do incêndio da Biblioteca Ptolomaica, durante as lutas com Zenóbia, rainha de Palmira. Hordas de parabolanos, de deserdados da fortuna e de eremitas vindos do deserto transformavam-se no exército que o populismo de Timóteo incitaria, alimentado pelo ódio, por uma côdea de pão e pela sede de vingança sobre os que, agora, eram considerados os responsáveis pelo desabar das instituições e da ordem.

Mas Hipátia prosseguia serenamente, sabiamente, a encantar todos os que mantinham sede de Sabedoria e insistiam na busca da Verdade, certos de que se não encontra na intolerância e no fanatismo.
Entre os seus discípulos hdistinguiam-se cristãos católicos, judeus, homens das religiões tradicionais, gnósticos para quem Cristo se identificava com a egípcia estrela Sírio, o Logos platónico, o Adão Kadmon Cabalístico, fonte de luz mas também de vida. Todos se irmanavam na fraternidade gerada pelo devoção à Sabedoria, pelo amor aos homens com a clemência de quem reconhece que a busca da Verdade é um caminho com muitas vias que, ora se cruzam, ora divergem.

De longe chegavam os ecos da acção fanática. A proibição dos mistérios de Samotrácia, a destruição dos templos em Chipre e a proibição dos mistérios de Afrodite, a proibição dos Jogos Pítios e dos Jogos Olímpicos, a destruição e incêndio do santuário de Elêusis, a morte dos sacerdotes de todos os templos destruídos e saqueados.

As destruições e desmandos dos povos bárbaros que, um pouco por todo o lado, se iam instalando nos territórios do império em desagregação, pareciamm leves se comparadas com o ódio que os fanáticos dedicavam a todos os lugares onde se preservava a antiga Sabedoria e a quantos insistiam em pô-la em prática e a transmitiam.

Indiferente a tudo, Hipátia tentava preservá-la, tanto quanto possível, através dos seus discípulos. Serão eles, está convencida, os pontifices entre os dois mundos.

Por isso, lhes alarga os horizontes. Não há tema que lhe não desperte o interesse, quer na Academia que orienta, quer nas conferências que vai insistindo em manter um pouco por toda a cidade, sob a protecção dos seus discípulos bem colocados na estrutura do poder.

Dedica especial atenção à Matemática e à Geometria Sagradas com destaque para a interpretação dos números e das curvas originadas pelas secções cónicas.

Não hesita mesmo em demonstrar como muitos dos símbolos utilizados pelos cristãos não passam de apropriações indevidas e retiradas do contexto de símbolos antiquíssimos da Sabedoria Tradicional.

Exemplificava como a cruz cristã, latina, era a representação da planificação do cubo, ou como a cruz grega era o símbolo da alma do mundo referida no Timeu por Platão, o Logos que converte a luz espiritual na Luz do Mundo, estilização da dupla pirâmide, a pirâmide invertida do céu, gerando a segunda, terrestre.

Mostrava como o Crismon que os cristãos referiam como o monograma de Cristo, era já utilizado pelos romanos como símbolo de IANUS – QUIRINO, representando o Espírito que governa a Natureza.

Mas também a representação de AXPW = ACRO que segundo a chave numérica do alfabeto grego resulta no número 1618, ou seja na divina proporção, o número que rege toda a Natureza e que corresponde à série de números que nos permitem definir a espiral áurea ou do crescimento harmonioso, presente em todas as manifestações da matéria.

A = A = Alfa             1
C = X = Chi = C =  600
P = Ró = R =           100
Ww = Omega = O = 800




Crismon.

O Crismon representa assim, o Logos, a Razão. Talvez S. Jerónimo aludisse a estes conhecimentos quando afirmava que a cruz do cristianismo era a mesma que Platão referia no Timeu, quando aludia ao Chi, numa alusão á crucificação do Logos, isto é, a Árvore da Vida, para citar palavras de José Carlos Fernández.

Para Platão, uma das hastes do Chi representava o movimento da terra e o seu horizonte, enquanto o outro significava o movimento zodiacal. O Chi é, portanto a relação do Uno com o outro, ou como diria Ortega y Gasset do Homem e a sua circunstância.

Mas de tudo isto a história oficial daria interpretações diferentes. Às invasões bárbaras serão atribuídas as responsabilidades pela destruição de toda a cultura do mundo clássico, cabendo à Igreja Católica a tarefa de recuperar e preservar os poucos manuscritos que resistiram à hecatombe. Formas de reescrever a história, perfeitamente compatíveis com quem a dividiu entre um «antes absoluto de ignorância» e um «depois também absoluto de salvação».

Mas este é um livro de amor, não de ajuste de contas. Apesar de a morte de Hipátia se manter como um labéu nunca assumido. Por vergonha? Por receio de que a própria audácia tenha ido longe de mais?

Mártir da Sabedoria, transformar-se-ia em mónada do que os seus inimigos queriam destruir. Afinal, quer a Academia de Platão de Atenas, quer os mistérios de Philae perdurariam até meados do século VI, quando a intolerância de Justiniano, pretendendo revivificar o império, enterrou o corpo da civilização romana a quem Constantino já usurpara a alma.


António M. Balcão Vicente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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