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Ibn Qasi, o Rei Iniciado do Algarve
e seus Discípulos Muridinos

 

Perguntei a um homem (sábio) do Alcorão: como se reconhecem os homens dedicados à sabedoria? E ele respondeu-me dizendo: são devorados profundamente pelo trabalho e pela busca.
Carta do sufi Ibn al-‘Arif de Almeria a Ibn Qasî (1)

(Há) certas pessoas que possuem erudição porém, não têm verdadeiro conhecimento quando a utilizam… o que lhes aumenta a crueldade e a cegueira. São essas as pessoas eruditas que só falam por falar, para serem ouvidas e vistas. Isto apenas lhes aumenta o distanciamento de Deus. Erudição e sabedoria (gnose) são coisas totalmente distintas… O testemunho disso são a humildade e o temor (a Deus), a marca é a compaixão e a piedade, as características a beatitude, a suavidade, a bondade e a misericórdia; o seu atributo exterior (dos que amam e servem a sabedoria) é uma gentil alegria no tratamento com os outros e a generosidade com a comunidade. Aquele que agir de acordo com estas provas evidentes, e aquele a quem a linguagem, muda mas eloquente, do seu comportamento (aparência) exterior conferir estas qualidades, esse conseguirá o acesso à inacessibilidade (realidade interior transcendente) e pode considerar a sua intocabilidade como protegida. Para eles estão abertos os seus sagrados região e baluarte…
O Descalçar das Sandálias de Ibn Qasî (2)

Quando uma pessoa ascende, o seu olhar não cai sobre as coisas, antes se dirige à face de Deus.
Ibn al-‘Arabí (3)

(Para aquele que é eleito) Deus será o advogado e o gerente dos seus negócios, Ele garantir-lhe-á os seus meios de vida, dirigirá os seus passos até eles, de estado em estado, sem esforço nem ansiedade.
Ibn al-‘Arif, Mestre da Escola Sufi de Almeria

"O verdadeiro poder de Ibn Qasî era a palavra, que imaginamos que a par da sublime beleza devia ser como uma espada em chamas quando guiava os seus discípulos e combatia a injustiça."

Existe uma narração (4) sobre a estância de Ibn al-‘Arabi em Lisboa, na sua juventude, narração geralmente descuidada pelos seus biógrafos. Lisboa já teria sido conquistada pelo rei Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, uns 25 anos antes, em 1147. O místico nascido em Múrcia e que a tradição sufi reconhece como o Mestre Máximo (Sheikh al Akbar) seguia as pegadas e ensinamentos de um personagem misterioso e maldito entre os almôadas, Ibn Qasî, falecido em 1151. Lisboa, precisamente por estar fora do controlo dos almôadas, e pela política conciliadora de Afonso Henriques, rei templário mais que simples “mata-mouros”, conservava ainda tradições, textos deste rei sábio do Algarve, Ibn Qasî. E muitos dos seus discípulos (muridinos) deviam ainda viver entre as suas muralhas, e podia assim aprender deles, das suas doutrinas e vivências místicas. Porque não refere Ibn Arabí esta viagem de estudos na sua obra ciclópea Futuhat (As Iluminações de Meca), quando menciona todos os seus Mestres de Alandalus (5), é fácil de compreender. Lisboa era já uma cidade sob o jugo cristão e para cúmulo Ibn Qasî um tema candente e tabu para o poderio almôada, que não só se estendia por todo Alandalus, mas também pelo norte de África. Os comentários de Ibn Arabí sobre o rei filósofo do Algarve deviam ser prudentes, e melhor ainda, contraditórios, para que cada um lesse e interpretasse como pudesse, deixando reservada a pérola do conhecimento àqueles que pudessem ler entrelinhas e quebrar o paradoxo. A verdade é que a trajectória deste grande Revivificador do seu tempo que foi Ibn Arabí esteve muito ligada ao Rei e Mestre Ibn Qasî. Foi discípulo de um dos seus discípulos directos, al-‘Uryani, com fama de taumaturgo. De facto, este sábio procedente de Loulé foi o seu primeiro Mestre, e encontrou-se com ele na cidade de Sevilha.

Em 1153 encontramos Ibn Arabí com o filho e também discípulo de Ibn Qasî, aprendendo deste as chaves para desvelar a sua obra O Descalçar das Sandálias, em que expõe com alegorias suas, a Doutrina Secreta.

As menções de Ibn Qasî na obra de Ibn Arabí são abundantes e, como mencionei, paradoxais. Um dos seus livros está exclusivamente dedicado ao Mestre Silvense, é um comentário ao Descalçar das Sandálias, e, curiosamente, não são muito abundantes os livros em que o sábio murciano comenta outras obras. Ele dá-nos a medida da importância que dava ao Descalçar das Sandálias e como Ibn Qasî era uma figura quase mítica, a sua sombra luminosa. Mais além da campanha de difamação empreendida pelo governo almôada depois de tê-lo assassinado, continuava a incendiar os anseios místicos e de cavalaria espiritual (Futuwah) em numerosos jovens, alguns dos quais se converteram, precisamente em discípulos do Sheikh Al-Akbar.

Ibn Arabí declara num dos seus livros (6) que o verdadeiro poder de Ibn Qasî era a palavra, que imaginamos que a par da sublime beleza devia ser como uma espada em chamas quando guiava os seus discípulos e combatia a injustiça. Recordemos o ensinamento do professor Jorge Angel Livraga (1930-1991) que dizia que a quinta-essência do orador, o seu rasgo distintivo, é a vontade, pois as palavras sem vontade são como aves sem asas que as sustentem. Disse Ibn Arabí: (Ibn Qasî) pertencia às pessoas das Belas Letras e dos estilistas e o seu saber fundamentava-se no léxico árabe. Estava versado na língua e era ilustrado nas palavras de eloquência e não buscava senão os termos de modo a que estes fossem incomparáveis… Para ele o caminho estava no verbo e quando não encontrava fundamento no comentário por meio da sua palavra… então não se cumpria a sua verdade na expressão do que dizia… Havia ali um segredo de sentido especial…

Infelizmente, o pouco que sabemos deste rei iniciado é o libelo difamatório (7) que escreveu Ibn Sâhib al-Salâ, por volta do ano 1160, por ordem de, ou para comprazer ao governo almóada em Alandalus, quando ainda a rebelião dos muridinos, morto o seu Mestre, se agitava em algumas cidades, como em Tavira. Era necessário utilizar as sujas tácticas de guerra psicológica, que incluíam claro está a calúnia e o distorcer dos factos até que aparecessem separados dos causais que lhes deram nascimento… a história é escrita sempre pelos que vencem, sejam os melhores ou não… E ai de aquele que contradissesse publicamente a versão oficial, pensemos no século XX, nos campos de extermínio de Eisenhower, sobre os quais os alemães jamais tiveram a audácia de levantar a voz para equipará-los aos campos de concentração nazis!

VIDA DE IBN QASÎ

O Grande Mestre do Sufismo no Gharb Al-Andalus Abu al-Qasim Ibn Qasî

O Grande Mestre do Sufismo no Gharb Al-Andalus Abu al-Qasim Ibn Qasî


O nome completo deste místico rei é Abu al-Qâsim Ahmad Ibn Husayn Ibn Qasî, pelo que a sua linhagem parece associada a uma origem cristã ou conversa. Segundo o historiador Ibn al Abbâr, é natural de Silves no Algarve, e segundo Ibn Kathib, de Mértola: ambas as cidades do sul de Portugal disputam portanto o seu nascimento.

De família rica e, segundo os seus historiadores, trabalhando em Silves, depois de uma juventude dissoluta, como supervisor de alfândega e consultor jurídico, sente uma chamada mística, abandona a sua vida secular, vende os seus bens e doa a metade de tudo aos pobres, dedicando a outra metade à sua fraternidade. Converte-se num asceta errante, predicando por todo o Alandalus o desprezo dos bens do mundo. Não se sabe, segundo o professor Adalberto Alves, quem são os seus Mestres, somente Ibn Arabí menciona Ibn Khalil de Niebla e Khalaf Allâh Alandalusî. Ignora-se se viajou até Meca ou se esteve ou não em Marrocos. Miguel Asín Palacios divulgou a versão de que teria sido formado numa escola esotérica sufi em Almeria, com Ibn al-‘Arif, mas Adalberto Alves mostra claramente que a relação epistolar com este não é de mestre discípulo, mas sim de Mestre Mestre:

Encontrei, junto ao meu parente Ahmad, um conjunto de cadernos sobre alguns dos ramos de saber nos quais anotou alguns dos teus ditos e respostas. Alegrei-me perante a tua compreensão perfeita, pela tua firme determinação e pelo facto de estares a ponto de concluir um livro sobre questões semelhantes.

Que todos os meus louvores se elevem até Allâh por ter feito chegar até mim o que eu desejava sobre as pessoas ilustres do meu tempo.

Há 26 anos perguntei a um homem sábio do Corão. Como reconhecer os homens dedicados à sabedoria? E ele respondeu dizendo: são devorados profundamente pelo seu trabalho e pela busca. E então respondi. Ai de mim! Tomo pois conhecimento de que há pessoas (como tu, Ibn Qasî) desde o Levante ao Poente, nos nossos dias, que se dedicam de corpo e alma às verdades do saber, o que muito me apraz.

Que a Paz, a Clemência e a Generosidade de Allâh estejam contigo e com todos aqueles que te amam e são por ti amados.

Depois de uma longa peregrinação e ascese, da qual nada sabemos, encontra a Pérola Mística reservada aos escolhidos, a Pedra Filosofal, e é fácil pensar, a julgar pelos escritos, vivências e realizações, que tenha sido iniciado por um Mestre de Sabedoria. Regressa à sua região natal e reúne em torno de si um grupo de discípulos, monges guerreiros e aspirantes à Cavalaria Celeste (Futuwah) no ribat (a arrábida) de Jilla, da qual sabemos o nome mas não onde está com exactidão, tão só que se encontrava na região junto a Silves. Quiçá a zona de Arrifana (8) (Aljezur), onde recentes escavações arqueológicas encontraram os fundamentos de um ribat.

Os almorávidas, frente à corrupção dos costumes que não podem enfrentar por tão-pouco serem um exemplo moral suficiente, e com o fanatismo próprio dos rígidos intérpretes da Lei islâmica (fuqaha) opõem-se e condenam publicamente os textos de Al Gazzali, cujas obras são queimadas em praça pública. Supondo isto, a escola teosófica, em Almeria, de Ibn al-Arif continuava muito próxima dos ensinamentos deste sábio escritor do Ihya (“Revivificação” das Ciências Religiosas) e do seu maravilhoso resumo, A Alquimia da Felicidade. O mesmo Ibn al-Arif na sua obra Os Adornos das Sessões advoga por um reencontro com a Luz Mística como fundamento da verdadeira religião, seguindo as pautas do grande ideólogo do Islão que foi Al Gazzali. Começa este livro com a frase “A Sabedoria é o meu verdadeiro caminho…” A intransigência fanática dos almorávidas abre as portas à violência. Um discípulo de Ibn al-Arif, Ibn Barrajan é aclamado como Imam, ou seja “guia predestinado” por mais de 130 povos, e a influência da Escola Almeriense cresce cada vez mais, atemorizando os almorávidas. O sultão destes, em 1141 dá a ordem de perseguir, encarcerar e dar chicotadas a um dos discípulos de Ibn al-Arif, Abû Bakr al-Mayurkî, que depois se refugia no Oriente; executa Ibn Barrajân em Marrocos e envenena o seu Mestre almeriense. Foi pouco antes destes infelizes acontecimentos que Ibn Qasî se encontrou com estes Mestres antes de se dirigir à sua arrábida no Algarve português, que ao que parece devia já estar organizada, com centenas de discípulos que o reconheciam como rei e mestre: estamos a falar da Fraternidade Esotérica dos Muridinos, palavra que significa, precisamente, discípulo, da palavra Murid, “Aspirante” (à Sabedoria).

Ante tamanha injustiça, disposto a proteger os seus filhos espirituais e comunidade de fiéis, que imaginamos de milhares de almas, e quiçá vendo o momento de quebrar o poder dos almorávidas, já em si quebrantado pela suma de injustiças cometidas, torna-se forte no Algarve, e em 1144 é proclamado mahdi (o “bem guiado”, ou seja, o enviado de Deus, termo genérico que designa aquele que ao fim dos tempos devolverá a sua pureza primitiva ao Islão, criando um reino de Justiça na Terra, uma espécie de Kalki avatar hindu ou Maitreya budista) pelos seus adeptos e por todos os povos em que exerce a sua benévola influência. É curioso notar, como faz o professor Adalberto Alves, que nem sequer os seus acérrimos inimigos dizem que ele se tenha autoproclamado o “o profeta do fim dos tempos”, mas que foram os seus seguidores quem o disseram, e que se ele o fez foi no sentido que ele tinha perfeitamente claro, como assumido, de que servia a Vontade de Deus, e que as suas obras e conquistas eram “pela graça de Deus” e nunca por ambição política, pois tinha renunciado ao mundo e às suas tentações, incluindo a do poder, e tudo quanto fazia fazia-o por missão, por dever, por desígnio divino. Num belo poema descreveu isto mesmo:

Na lua de Sâfar um poder chegou a mim
Que não me foi nem doce nem amargo…

 

Figura 2 (Estátua equestre de Ibn Qasî, em Mértola)

Estátua equestre de Ibn Qasî, em Mértola

Este é o mês de Sâfar (que os árabes consideram de mau augúrio) e o ano 1144 depois de Cristo/539 da Hégira. Nele rebela-se formalmente contra o poder dos almorávidas. Depois de uma tentativa frustrada de se apoderar do castelo de Monte Agudo (Montiqût), onde vários dos seus discípulos, monges guerreiros são capturados (e, certamente, torturados) e o seu comandante executado, consegue conquistar por surpresa e com um ardil a fortaleza de Mértola, imponente castelo do Alentejo. A povoação escuta as palavras dos rebeldes e apoia o imanato de Ibn Qasî, que entra triunfalmente nesta cidade a 1 de Setembro de 1144, com toda a pompa e cerimónia que a situação requer, predica a sua doutrina ao povo e este proclama-o seu chefe espiritual e protector, afirmando-o como Mahdi, com a divisa, gritada em uníssono, al-takbîr wa al-tahil (Não há outra Divindade além de Deus). Com o apoio popular e a organização dos Muridinos, as tentativas dos almorávidas de recuperar a fortaleza são infrutuosas.

"O seu mandato converte-se rapidamente num governo à maneira platónica, abstém-se de sobrecarregar o povo de impostos (9), distribui dinheiro entre os necessitados de um modo, diríamos, milagroso, pois ninguém sabe de onde obteve tanto dinheiro para ajudar tantas pessoas."

Ibn Qasî envia mensageiros instando as povoações e os governadores de fortalezas para que se unam à sua causa e o movimento dos Discípulos estende-se como numa carreira de tochas, por todo o Algarve. Só um mês depois, o governador de Beja e Évora, Ibn Wazîr e o de Silves, al Mundhir apresentam-se em Mértola e prestam-lhe obediência numa cerimónia de vassalagem, e aceitando também o seu guia espiritual, convertem-se em seus discípulos. Triste destino, abraçados e dissolvidos pelas sombras teriam, ao atraiçoar o seu rei e Mestre. Antes de se converterem em seus discípulos tinham bebido demasiado do cálice do poder egoísta, pelo que tiveram um triste final de discípulos, pois eles foram os verdadeiros culpados pelo facto deste reino de justiça sob o ceptro de um Rei Iniciado não permanecer no Sul de Portugal e em todo o Sudoeste de Espanha.

O seu mandato converte-se rapidamente num governo à maneira platónica, abstém-se de sobrecarregar o povo de impostos (9), distribui dinheiro entre os necessitados de um modo, diríamos, milagroso, pois ninguém sabe de onde obteve tanto dinheiro para ajudar tantas pessoas. A sua auréola de santidade e generosidade cresce e de todos os lados as pessoas acodem para se juntar a ele, como discípulos, servidores ou simplesmente para viver sob o seu amparo e directrizes como povo. A única informação detalhada que dispomos sobre ele, escrita pelos seus inimigos declarados e assassinos, pouco após a sua morte (10), diz que:

1 – Relacionava-se quando queria com seres misteriosos (que devem ser Espíritos da Natureza de reinos superiores ou, talvez, Mestres de Sabedoria, os seus verdadeiros Mestres, de um modo semelhante ao que acontecia com H. P. Blavatsky e que tantos testemunhos de prova da honestidade certificaram).

2 – Que podia libertar-se, por vontade própria, da sua existência (que podia morrer, ou melhor, desdobrar-se, à sua vontade, quando queria, sem recorrer a algum tipo de artifício. Esta afirmação, que correria de boca em boca e foi repetida pelos seus inimigos, que a utilizaram para o denegrir, como taumaturgo no sentido proibitivo da palavra; é, sem dúvida, a que melhor esclarece a sua condição iniciática. O Iniciado de verdade afasta a sua consciência quando quer do plano objectivo para viajar no espaço, liberto do seu corpo, ou para aceder a estados de consciência superiores, onde prosseguem as suas investigações e trabalhos.

3 – Que numa noite tinha viajado em peregrinação a Meca (uma “viagem nocturna” semelhante, simbólica e factualmente, à de Maomé no seu Buraq, ou aos que descreve Ibn Arabí de modo tão abundante na sua obra, deixando estupefacto o leitor.

4 – Que tinha a faculdade de multiplicar o dinheiro (ou seja, operava com a Alquimia, à vontade e sem artifícios, como se costuma dizer de Cagliostro ou Saint Germain, ou da própria H. P. Blavatsky (11), o que só pode fazer alguém que se tenha convertido ele próprio em Pedra Filosofal, a Pedra dos Magos.

5 – Que tinha domínio da magia e do poder da oratória (não nos esqueçamos, e isto ensina Ibn Qasî bem como todos os Iniciados, que a magia e a oratória mais poderosa é a da Vontade-Amor-Inteligência, os poderes do triplo Logos Platónico que fazem de um coração de chumbo e sombras um coração de ouro e luz).

Geralmente reconhece-se um Mestre (12) pela qualidade dos seus discípulos, se estes deixam ou não pegadas na História, se são Luz do Mundo, Sal da Vida, levedura do seu fermento, como dizem os Evangelhos Cristãos. Pensemos em Sócrates, Platão, Confúcio, Pitágoras, Buda, H. P. Blavatsky (13), etc. e veremos o seu séquito de Discípulos a dignificar a vida e a mover a Roda da Lei e mesmo a Roda da História (14).

Continuemos a narrar estes acontecimentos que se precipitam velozes, quase descontrolados: o governador de Beja, Ibn Wazîr e o de Silves, Ibn al-Mundhir, declaram-se vassalos de Ibn Qasî. Este último converte-se em comandante do exército dos muridinos (discípulos das doutrinas de Ibn Qasî) e do exército de Ossonoba, na região central do Algarve; e vai dirigir a expedição rumo ao Oriente. Atravessa o rio Guadiana, cerca e toma a cidade de Huelva, dirige-se a Niebla, que se rende facilmente graças à rebelião de al-Batrûji ao comando dos muridinos no interior da cidade. Dirigem-se a Sevilha, mas não conseguem vencer a resistência do exército almorávida nos subúrbios da cidade. Al-Mundhir, com o restante das suas derrotadas tropas refugia-se em Niebla. Os almorávidas de Sevilha perseguem-nos e cercam esta cidade, que suporta um assédio de três meses. O caudilho das tropas almorávidas vê-se obrigado a regressar a Sevilha novamente, pois Córdova também se tinha somado à sublevação. Ibn Qasî queria ganhar esta cidade para a sua causa e dirige o exército de al-Mundhir e o de Ibn al-Qâbila esperando que se somem a eles os amotinados, mas não consegue isso. Quando o barco se afunda, os ratos são os primeiros a abandoná-lo. Perante o fracasso da conquista de Córdova, e vendo que o partido de Ibn Qasî era travado pelo poder almorávida, Ibn Wazir rebela-se. Ibn Qasî ordena a Ibn al-Mundhir que o faça prisioneiro, mas o seu exército é derrotado e ele mesmo, al-Mundhir, é feito prisioneiro. Ibn Wazir ordena que se arranquem os olhos a quem se tinha convertido em irmão muridino.

Figura 3

A traição de Ibn Wazir quebra as esperanças de Ibn Qasî. Ao perder tanto as suas praças-fortes como as de Ibn al-Mundhir, o poderio militar e político dos muridinos fica em xeque. Seguimos nesta descrição a obra de Adalberto Alves, que parafraseamos agora nestes episódios finais da vida de Ibn Qasî:“De facto, o senhor de Évora e Beja (Ibn Wazîr, traindo os votos de obediência, e seguro da sua força, parece determinado, novamente sob a tutela almorávida, a eliminar o Mestre e liquidar a fraternidade dos muridinos ou, pelo menos, a tomar o seu controlo. Sem dúvidas, decide marchar contra Mértola e consegue conquistá-la, nos primeiros dias do ano de 1146; no entanto, Ibn Qasî consegue escapar e refugiar-se, primeiro em Silves e posteriormente em Arcos).

Ibn Qasî, decidido a continuar a sua luta contra os almorávidas e aliados, envia, entretanto, uma carta através de Abû Bakr ibn Hubays, pedindo auxílio e oferecendo vassalagem ao emir dos almôadas, ‘Abd al-Mu’min.

A verdade é que este não teria ficado satisfeito com o facto do Mestre algarvio se intitular Mahdî,nessa carta, e decidiu, por isso, não lhe responder. Tal apelo teria sido expedido do castelo de Arkush (Arcos) onde na altura se encontrava instalado, fortaleza essa que ele colocou então à disposição do poder almôada. Em fa­ce do silêncio de Al-Mu’min, Ibn Qasî, escreve uma segunda carta e, pouco de­pois, toma a iniciativa de cruzar o estreito. Refere a este propósito Ibn ‘Idhârî (al-Bayân...):

«Logo se submeteu Ahmad Ibn Qasî (aos Almôadas) no seu refúgio do cast­elo de Mértola após ter sido desfeiteado por Sidrây ibn Wazîr. Essa submissão foi levada a cabo por intermédio de ‘Ali ibn ‘Isâ (Ibn May­mûn) que o transportou, bem como aos seus mais próximos apoiantes, num cárabo, de Mértola até Ceuta.

Esta praça estava, então, sob o domínio almôada e controlada pelo xe­que Abû Ya‘qûb Yusûf ibn Majlûf, que ajudou Ibn Qasî a chegar até ‘Abd al-Mu’min, no Monte al-‘Ard, em Janeiro/Fevereiro de 1146
 
O encontro, portanto, teve lugar, ainda no ano de 1146, com o patrocínio de ‘Alî ibn ‘Îsâ ibn May’mûn, senhor de Cádis.

Al-Mu’min, segundo al-Khatîb, recebeu o Mestre obsequiosamente, preparando-lhe uma cerimónia, com todas as honras. A recepção, porém, segundo uns, teve lugar em Marraquexe, em Salé, segundo outros. Al-Marrâkushî conta-nos que o Emir lhe terá dito: consta-me que te arrogavas a boa direcção (a qualidade de Mahdî)... Ao que Ibn Qasî terá respondido: Não há duas auroras? A verdadeira e a falsa? Eu sou a falsa! al-Mu’min teria sorrido e desculpou-lhe.

Ibn Qasî permanece, durante algum tempo, na corte almôada e aconselha al-Mu’min, persuadindo-o a pôr fim ao poder almorávida.

Em Junho de 1146, o Emir, dando ouvidos a tais conselhos, confia-lhe como missão orientar as tropas comandadas por Abû Ishâq Barrâz, chefe almôada da tribo Massûfa. Desembarcados na Península, conquistam as praças estratégicas de Tarifa e Algeciras, inflectindo Ibn Qasî imediatamente para o Garb, onde lhe prestam obediência Abû alJamr ibn ‘Azzîn, em Jerez, e o seu discípulo al-Batrûjî, em Niebla. Depois, o Emir almôada envia-lhe um primeiro reforço, sob o comando de Mûsâ ibn Said, e um segundo, sob o comando de ‘Umar ibn Salih al-Sajî. De seguida, retoma Mértola e Silves e submete Beja, Badajoz e o rebelde Ibn Wazîr, à autoridade almôada, voltando a Mértola, onde passa o inverno com o exército norte-africano.

Figura 4 (Exército muçulmano, iluminura encontrada no manuscrito “Estações de Hariri”, de 1237, na Biblioteca Nacional de Paris)

Exército muçulmano, iluminura encontrada no manuscrito “Estações de Hariri”, de 1237, na Biblioteca Nacional de Paris

Este regresso de Ibn Qasî, depois da travessia do deserto, é marcado por duas circunstâncias de natureza moral, que definem o seu carácter: o perdão que concede ao traidor Ibn Wazîr, que é inclusivé mantido como governador dos seus anteriores domínios, e a libertação de al-Mundhir que aquele havia mandado cegar e com quem Ibn Qasî, espontaneamente, compartilhará o governo de Silves.
Em 18 de Janeiro de 1148, o exército almôada, onde se integravam Ibn Qasî e Ibn Wazîr consegue conquistar Sevilha, na sequência do cerco montado à sua volta. Todavia, não demorarão muitos dias até os Lamtunidas serem expulsos e os emires das 2ªs. taifas esquecerem, quase todos, as promessas de alian­ça com aqueles.

Porém, a breve trecho, o Mestre apercebe-se de que o movimento almôada pratica, também ele, um tirânico integrismo que o seu espírito rebelde se recusa a aceitar. Na verdade, chegam-lhe ao conhecimento as perseguições e opressão exercidas sobre o povo de Sevilha, por ‘Abd al-Aziz e ‘Îsâ, irmãos de Ibn Tûmart, o fundador da ideologia almôada. Mais tarde, e não contentes com isso, decidem arbitrariamente destituir o nosso já conhecido al-Batrûjî, mediante uma cilada, do governo de Niebla, aproveitando a estadia deste em Sevilha. Al-Batrûjî tendo descoberto tais maquinações, consegue abandonar Sevilha rápida e discretamente, volta a Niebla e expulsa a guarnição almôada, fazendo uma nova política de alianças. É toda uma onda de dissidência que se inicia contra o poder almôada e que assola já não apenas o Garb, mas também a Península e mesmo Marrocos.

Ibn Qasî solidariza-se com a justa revolta do seu discípulo, não tardando a denunciar a aliança com os Almôadas. Porém, tal audácia punha em risco a autonomia do seu feudo de Silves. Este grito de liberdade do Mestre encontrou rapidamente eco em outros emires que lhe seguiram o exemplo. Foi o caso de ‘Ali Ibn ‘Îsâ ibn Maymûn, em Cádis de Muhammad ibn ‘Ali al-Hajjâm, em Badajoz, e de Yahyâ ibn Gâniya, em Algeciras.

Os Almôadas, cujo poder no Alandalus era ainda precário, não tardam a passar ao contra-ataque, até porque a ameaça cristã de D. Afonso II de Castela e D. Afonso Henriques também não podia ser descurada.
Em 1150, ‘Abd Al-Mu’min, o almôada, dirige-se a Salé e convoca todos os emires muçulmanos do Alandalus para que lhe prestem juramento de obediência, sob pena de guerra sem quartel. Para isso, eles enviam as suas delegações, para agirem em conformidade, e alguns deslocam-se pessoalmente. Foi o caso de Ibn Wazîr, senhor de Évora e Beja, al-Batrûjî, de Niebla, Ibn Azzûn, de Jerez e Ronda, Ibn al-Ha­jj­âm, de Badajoz, e Ibn Murib, de Tavira. Todos fazem voto de obediência e vassalagem, menos um: o indomável Ahmad ibn Qasî. E, com razão, pois o Emir dos Almôadas aceitou os votos de vassalagem mas, além do mais, obriga os chefes submissos a acompanharem-no, de regresso, à corte de Marraquexe.

Ibn Qasî não tinha, decerto, quaisquer ilusões quanto às hipóteses de sobrevivência do seu pequeno reino sufi, mas, até ao fim, não quis abdicar do ideal de independência. Esse sonho era um dos pólos do arco voltaico que levaria à formação de um reino chamado Portugal. O outro pólo estava no templarismo de D. Afonso Henriques, também rebelde visionário que não aceitaria nunca a suserania de Leão e Castela.
Ainda assim, não sabemos até onde o Mestre de Silves teria chegado se não fosse a força da traição abater-se sobre ele, uma vez mais. Ibn al-Abbâr, conta-nos que o Shaykh tinha muitas vezes a premonição da morte. E de facto, até Ibn al-Mundhir, apesar de cego e de viver sob a sombra protectora de Ibn Qasî, veio a tornar-se ambicioso, e terá conspirado para o perder. Era o partido dos Almôadas que, na sombra, manobrava para a derrota do poder sufi. Al-Mun­dhir, com efeito, denuncia àqueles o teor da aliança secreta do Mestre com D. Afonso Henriques.

Ibn Qasî, vendo para além do tempo, compõe o certeiro e belo poema que, predizendo a sua morte, acaba com o verso:

Em Jumâda por fim terminará
o tempo que a loucura apagará.

Figura 5 (D. Afonso Henriques – Primeiro Rei de Portugal)

D. Afonso Henriques – Primeiro Rei de Portugal

                                                            
Com D. Afonso Henriques, Ibn Qasî havia firmado a primeira aliança islamo-cristã da nossa História. Esse pacto secreto, entre dois cavaleiros exemplares, é selado por uma troca de dádivas e o rei Conquistador oferece ao Mestre de Silves, como vimos, um cavalo, um escudo e uma lança. Não é de ignorar o quanto o prestígio de Ibn Qasî terá pesado na aceitação da aliança. Já vimos como a fama do Mestre extravasava dos estreitos limites do seu território: até no Levante do Alandalus se chegou a cunhar moedas com a sua sigla.
Os partidários dos integristas almôadas, informados e ajudados pelos traidores da causa muridínica, não olham a meios para abater Ibn Qasî e para afas­tar a força de uma tal aliança.

Para isso, arranjam um pretexto para afastar da cidade o filho de Ibn Qasî, Husayn ibn Ahmad ibn Qasî, que se encontrava em Silves, organizando algures uma festa, em sua honra. Depois, o grupo dos conspiradores de Silves traz, para dentro das muralhas, um homem, falsamente algemado, fingindo que o mes­mo tinha sido surpreendido num assalto. Dizendo que ele deveria ser preso, pedem ao oficial da guarda licença para entrar. Tendo-se este retirado para colher instruções, os conjurados logram penetrar na alcáçova, de assalto, e assassinam, imediatamente, o Mestre que se encontrava no Palácio dos Balcões.

Depois decapitam-no, espetam a sua cabeça na ponta da lança que D. Afonso Henriques lhe havia ofertado e passeiam-na com o grito: eis aqui o Mahdî dos cristãos! Todavia, como acertadamente sublinha Elliot, «deve claramente ser afirmado que Ibn Qasî morreu em defesa dos seus Muridinos e não às suas mãos, como alguns relatos sugerem.»

Ibn Qasî seguia o mesmo destino trágico de Ibn Barrajan e Ibn al-’Arîf. Estava-se no ano 546 da Hégira (Agosto/Setembro de 1151 A.D.), mês de Jumâda, tal como o Mestre sufi havia profetizado!

Não restam dúvidas de que o assassínio à traição foi perpretado de modo a apresentar a morte do Mestre, à população de Silves, como um facto consumado. Tal vai, totalmente, contra a ideia, veiculada pelos cronistas de obediência almôada, de que Ibn Qasî teria sido morto pelo povo da terra numa revolta encabeçada pelos notáveis locais. No entanto, Ibn al-Abbâr e Ibn al-Khatîb con­cordam em que por detrás da traição esteve o renegado Muhammad ibn al-Mundhir.

Falhara, não a solidariedade clânica (‘asabiya) a que se referia Ibn Khaldûn, mas a solidariede iniciática, aquela com que Ibn Qasî contava e de que precisava. Estavam cortadas de raíz todas as possibilidades de Afonso Henriques socorrer a tempo o seu aliado. Se o Alandalus caminhava para o seu fim, restava ainda ao rei templário continuar a empunhar a sós a espada da Cavalaria espiritual.

Figura 6 (Estátua de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, na cidade de Guimarães)
Estátua de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, na cidade de Guimarães

Há nesta narração de acontecimentos vários elementos que nos deveriam fazer reflectir em relação a Ibn Qasî:

  • A diferença dos almorávidas, já corruptos pela sua ambição de poder “a qualquer preço”, e dos almôadas, de um integrismo islâmico rígido e contrário à recta moral, muito próximo do chamado “direito das gentes”, a via de Ibn Qasî mística e inspirada pela Cavalaria Divina, por isso mesmo, é a regida pela justiça, pela ajuda ao próximo, pela benevolência e todos os valores integrados na chamada Futuwah. O código desta Cavalaria Espiritual (Futuwah), assenta, recorda-nos Adalberto Alves, em quatro regras fundamentais: valor (que se confunde facilmente com a violência, quando é, precisamente o contrário), fidelidade à palavra dada, generosidade e defesa dos débeis. Ibn Arabí, na sua obra As iluminações de Meca descreve (15) o caminho espiritual dos cavaleiros andantes, e escolhe para isso a forma de vida de al-Fahlâr, que foi um dos seus Mestres. O cavaleiro (tal como, de um modo impecável, faz Quixote, para o qual é mais do que provável que Cervantes se tenha inspirado (16) na Futuwah Islâmica (17)) deve ter “energia viril, tanto física como moral, generosidade ou liberalidade, prudência e sabedoria, critério para reconhecer, em cada caso, o direito do próximo e impor-lhe a todo o mundo em nome da Justiça Divina, tratar o débil e inferior com piedade, os seus pares com respeito, ao soberano com obediência; a todos com absoluto altruísmo”. Noutro artigo escrevemos (18) que:

“Ibn Arabî explica que uma das características da Futuwah é saber actuar nas distintas situações no sentido de uma grandeza da alma, uma norma espiritual, indefinível, mas sempre presente, e que o Fata (jovem, cavaleiro) deve captar. É comparada com um tapete, porque permite estar no solo do mundo, mas não ser manchado por ele. Um tapete no qual é muito fácil deslizar e cair, porque o caminho da Justiça é estreito. Também se fala desta Senda do cavaleiro como um estandarte no cimo da Kaaba, na qual convergem as quatro correntes da Iniciação, pois é a essência, o culminar e final das quatro vías: Sharila, Tariqa (Caminho), Haqiqa (Verdade) e Marifa (Conhecimento).

Historicamente, nos primeiros séculos do Islão, relacionou-se a Futuwah com as fraternidades iniciáticas de cavaleiros justiceiros, que protegiam débeis e necessitados, fraternidades com estritos e altíssimos códigos de honra. Al Sulami, sábio muçulmano do século X expressa em máximas morais o comportamento cavaleiresco da Futuwah.

Figura 7 (Futuwah, de Al Sulami)

Futuwah, de Al Sulami


Entre centenas de páginas de sublimes ensinamentos morais, diz que a Futuwah, ou seja, este Código de Cavalaria é:

  • Levar a sério os interesses e os estados dos nossos irmãos em Deus
  • Limpeza e generosidade da alma
  • Exigência de sinceridade consigo próprio
  • Revivificação interior pela lembrança do Ideal e revivificação exterior pela conformidade com as suas prescrições
  • Crer no melhor que há nos homens e respeitar o carácter sagrado dos seus direitos
  • Libertar-se do mundo e do que contém para fazer-se servidor do Rei do Mundo
  • Que o servidor tenha uma consciencia vigilante dos seus estados espirituais e de cada um dos seus fôlegos, velando para não os esbanjar
  • Suportar as provas num esforço contínuo para progredir no caminho
  • Pôr em prática do decoro espiritual interior e exterior
  • Conformar-se com pouco para evitar toda a servidão
  • Nobreza de carácter e pureza de coração
  • Cuidar dos que Deus colocou sob a nossa responsabilidade, desdenhando ocupar-se de si mesmo.

 

 

2 - É evidente que Ibn Qasî confiava que os almôadas foram governantes suficientemente justos e que ele poderia implantar a sua reforma sufí, a dos muridinos, no Alandalus com a sua ajuda. E quiçá foram-no. Para eles, e especialmente para o seu emir Ibn al ‘Mumin, a prova foi aceitar a presença de um verdadeiro Madhi, (literalmente “o que é guiado”), um “filho de Deus”, um servidor com plena consciência dos Mestres de Sabedoria e do Rei do Mundo, o que hoje poderíamos traduzir como um Iniciado. Está claro que não superou a prova e que em vez de se submeter e servir a bondade, coragem, sabedoria e verdade que representava Ibn Qasî, e aliar-se com quem teria reconhecido como seu Mestre e Amigo, o seu orgulho não o deixou renunciar a tudo o que possuia. Tratou-o com desdém e interessadamente, desconfiou dele, como seu futuro inimigo e esteve à espreita da primeira oportunidade para depô-lo e subjugá-lo. Algo que Ibn Qasî, servidor da Justiça e não dos seus interesses pessoais, não estava disposto a aceitar. Quem serve o Rei do Mundo, como os míticos cavaleiros do Graal, não pode aceitar nenhum tipo se vassalagem que seja contrária à justiça e aos direitos, como dizia Ibn Arabí, da mais mínima criatura de Deus.

Figura 8 - Ibn Qasi

3-A aliança secreta entre o Rei Iniciado do Algarve e o fundador da Pátria Portuguesa, o rei templário Afonso Henriques, selada com o intercâmbio simbólico de uma lança, um anel e um cavalo; é surpreendente pelo que implica, ainda que tenha sido desatendida sempre pelos historiadores. Teve que ser um jurista, o professor Adalberto Alves, a desenterrar tal evento e fazer-nos ver, com todas as ferramentas e raciocínios próprios da retórica legal, o que é evidente sem uma venda nos olhos. É factível pensar que existiu uma Fraternidade Secreta Iniciática, visível ou invisível, mais além do jugo que impunham as crenças islâmicas e cristãs e das quais heróis como Ibn Qasî e Afonso Henriques eram membros. Quando na História vemos uma Mão Negra que desordena e desbarata, fomenta o ódio e a discórdia e subjuga as consciências humanas ao medo e ao irracional; também há uma Mão Branca que combate com todas as suas forças para estabelecer na terra e nos corações humanos (primeiro) um Ideal de Justiça e Concórdia, e fazer que estes, filhos de Deus, não esqueçam a sua verdadeira natureza e continuem subindo a Montanha da Perfeição. Esta dinâmica, eterna na história conhecida e que claro está, ilumina também o panorama presente, está submetida a alternâncias e ciclos em que por vezes é a luz que adquire mais poder (A Idade do Ouro e Prata que mencionam Hesíodo e o Filósofo da Academia), e noutras são as sombras. Segundo o pensamento hindú, e decorridos 3100 anos desde o seu início, nós estaríamos agora no mais negro do Kali Yuga, e a Idade Média, em que viveu Ibn Qasî, tão pouco foi, salvo excepções, uma idade precisamente gloriosa.

4-Que Ibn Qasî, tendo, quando jovem, renunciado ao mundo, renunciou ao poder que o mundo outorga e só serve ao poder de Deus.

Aceita a autoridade e a responsabilidade quando chegam, sem  pedir, e com uma missão específica a cumprir, e aceita com naturalidade a morte que o despoja do poder. Tal como expressa neste belo poema, dos poucos de tantos que se conservam de quantos escreveu:

Da lua de Safar poder me veio
que não me foi doce nem amargo.
Nos meses de Rabi’ eu tive o cargo
donde o prodígio me proveio.
E em Jumâda, por fim, terminará
o flagelo que o tempo apagará.

Ibn al-Abbâr, o próprio historiador que servia o poder almôada, e encarregado do que hoje chamaríamos serviço de contra-propaganda, refere este poema e que certamente tudo o que profetizou foi mencionado antes de suceder. Diz também que Ibn Qasî adivinhou numerosos acontecimentos futuros, que segundo ele, Deus lhe falava nos seus sonhos quando o visitava. Encontramo-nos ante um personagem muito semelhante em natureza e façanhas aos de Cola de Rienzo (o Rienzi do drama wagneriano), dois séculos depois, e Joana D´Arc, ainda um século mais tarde. Eles são os puros, os perfeitos, deixam atrás de si um rastro de luz e realizações impecáveis (ainda que a sua obra não alcance o êxito esperado), sem um átomo de egoísmo, e no final são imolados pelo século que não é capaz de os compreender. E como heróis, filhos dos Deuses, voltam de novo para junto dos seus Pais Celestes, deixando na terra, como uma estátua sagrada, a recordação da sua acção generosa, e a inspiração do mundo do qual descenderam. São os verdadeiros talismãs da História, e se na vida há uma chama de esperança e dignidade, a eles se deve. O seu legado e palavras de alento podem muito bem ser expressados por este poema de Ibn Qasî:

 

Tira as sandálias e ascende altivo
acima das estrelas centilantes!
une-te à verdade!
quem a desprezou
ficou chorando por todas as coisas.
o olhar do mais firme
-tal como o céu-
convoca a beatitude da verdade clara.
descalça as sandalias, sinceramente,
desde os umbrais do esplendor.
une-te ao Ser!
vale-te mais essa união
que todas as provas da Razão.
quem ouviu o que gritei à multidão,
acerca da realidade da união,
tem de deixar o mundo da dualidade
que são duas sombras sob o sol.
O espírito venceu a dor: ficou perto do distante.
ó mãe de meus irmãos!
O Amado é a meu lado!
ó povo! Se a paixão me der a morte
toma o meu amor, como vingança,
e vinga-me com ele!

Tal como dissemos antes, a árvore conhece-se pelo seu fruto, o herói pelas suas façanhas e o mestre pelos seus discípulos. Em Ibn Qasî encontramos herói e mestre, e entre os milhares de seguidores das suas doutrinas, verdadeira fraternidade mistérica repartida em distintos ribats (mosteiros-fortalezas) do Algarve, podemos destacar alguns exemplos, sabendo que haveria muitos mais, e mais importantes ainda que os mencionados, pois dizer-se discípulo ou seguidor de Ibn Qasî naquela época seria motivo de cárcere quando não de morte.

 

Figura 9 (As Iluminações de Meca, de Ibn Arabî)
Iluminações de Meca, de Ibn Arabî

De um modo indirecto, como já mencionámos, destaca Ibn Arabí, que foi discípulo de um discípulo deste Rei Iniciado, e que em jovem viajou para Lisboa seguindo os ensinamentos dos seus muridinos, e mais tarde dedicou uma obra íntegra a comentar o seu Descalçar das Sandálias. Ibn al-‘Arabî foi uma das colunas espirituais do seu tempo, e realizou a grande síntese da doutrina secreta que podia naquele século ser divulgada. Especialmente nas suas duas últimas obras: As Iluminações de Meca e Os Engastes da Sabedoria.

Segundo os eruditos (19), Ibn Arabî é devedor de Ibn Qasî, - e mesmo assim o Mestre Máximo refere-o - numa série de conceitos.

O mais importante seja talvez a unicidade dos Nomes de Deus, e que cada Profeta possua um Nome Divino que prevalece sobre os outros nomes, e é à luz desta jóia alquímica (ver Fûsûs, de Ibn Arabî) que realiza a sua missão.

 

 

Outros conceitos que aparecem tanto em Ibn Arabî como em Ibn Qasî são, por exemplo:

  • A Sagrada Presença / Justiça como espelho dos segredos dos Universos
  • Que tudo quanto existe seja, na realidade, Palavras Divinas
  • Que a existenciação reside em levar as coisas existentes desde o estado conhecido ou da existência afirmativa intrínseca no Saber Divino, na eternidade, até ao estado da existência efectiva, concreta e aparente.
  • A união, casamento ou ajuntamento como principio de criação e origem do divino, espiritual, intelectual, linguístico e físico.
Figura 10 (Ibn Arabî)

Ibn Arabî


Discípulos conhecidos de Ibn Qasî são, entre outros:

 ‘Umar Ibn Abî Tût, governador de Tavira; Labîd Ibn ‘Abd Allâh, governador de Santarém; Abû Al-Hassan Ibn Mu‘min, um dos generais de Ibn Qasî; Alî Ibn Al-Wahibî, caudilho da resistência dos muridinos contra o poder almôada, até ao ano 1167; Ibn ‘Inân, um cavaleiro famoso de Évora; Al-Qâbila, considerado (20) o homem mais valente, intrépido, inteligente do seu tempo. Efectivamente, as suas Epístolas são mencionadas com frequência e a sua arte da palavra era bem conhecida. Ibn Qasî mostrou interesse por ele e chamou-lhe “espada da sua rebelião e coluna do seu estado e da sua vitória”, e inclusivamente, O Eleito al-Mustafá;  Al-Husayn Ibn Ahmad Ibn Qasî, filho de Ibn Qasî, quiçá o mesmo que encontra Ibn al-’Arabí em Tunez e com quem estuda o Khal ‘al Na’layn, livro que teria levado consigo para o exílio, quando a persecução contra o seu pai e os muridinos se tornou implacável, devia ser muito sábio para que o Mestre Máximo o elegesse como guia espiritual nos ensinamentos de Ibn Qasî; Abû Ja‘far Al-Uryanî, natural de Loulé: Foi considerado por Ibn al-’Arabí um dos seus maiores mestres durante a sua estância em Sevilha, dado o seu grau de realização (21) na via espiritual, em estados alcançados, de acordo com o que o próprio Ibn al-’Arabí narra, através do Amor e da Invocação: ainda que iletrado era um famoso taumaturgo; Abû ‘Imrân Ibn Mûsâ Ibn Husayn Ibn ‘Imrân Al-Qaisî, de Mértola que deve ter conhecido Ibn Qasî muito jovem. Quando o conheceu Ibn Arabí era Imam da Mesquita de Ridâ, em Sevilha, e disse dele que este Mestre era um homem de grande influência, profundamente versado na gnosis e dedicado às causas nobres... Tivemos muitas experiências espirituais com ele e o seu poder interior de concentração era fortalecido por Allâh; Abû ‘Abd Allâh Ibn Al-‘As Al-Bajî, de Beja, e também mestre de Ibn al-’Arabi. Segundo este narra, viveu em Sevilha e era, simultaneamente, jurista e asceta, o que é uma combinação pouco habitual.

A grandeza moral de Ibn Qasî revela-se na multitude de acontecimentos, que embora narrados pela pluma dos seus detratores, tornam evidente a sua natureza.

Nobremente educado numa óptima situação social, abandona tudo para seguir a voz de Deus na sua alma, dando os seus bens aos pobres e à fraternidade esotérica em que se forjou (que não sabemos qual é). Depois de anos de vida como peregrino e predicador, deixa também a sua conquistada paz interior para formar ribats de monges cavaleiros, educando centenas destes nas suas doutrinas. De novo deixa a serenidade no meio dos seus discípulos (muridinos) para intervir activamente nas correntes turbulentas do seu mundo político, para proteger os débeis dos injustos, pois assim o proclama o seu Código Moral (a Futuwah), ou quiçá porque determinadas vozes ou encontros místicos, como sucedeu com Joana d’Arc, e Rienzi, assim o ditam. Um dos seus discípulos traiu-o, o que naquela época, tanto por lei como por costume estava punido com a morte sem salvação possível; e ele perdoa-o e além disso repõe-no no seu cargo de governador (e de novo o atraiçoaria!). Outro discípulo, seu secretário Ibn Harbûn escreve uma sátira escondida na aparência de um panegírico, e abandona Ibn Qasî, quiçá incitado pelo ouro almôada ou para poder reconciliar-se com eles... como depois fez elogiando ‘Abd al-Mu’min. Ibn Qasî responde com uma nobreza de carácter própria dos “filhos de Deus”. Merece a pena que tragamos de novo ao presente a acusação, mordaz, e a defesa de Ibn Qasî, magnânime, também em verso. Não podemos senão pensar no ensinamento bíblico de “muitos são os chamados e poucos os eleitos”:

Voo para Allâh,
e fico livre de Ahmad ibn Qasî
ou sigo-o como imâm
e  abandono a crença
em qualquer Profeta (...)

Eis que vem o Imâm,
o da boa direcção,
no meu caminho.
em verdade não prevarico
pois vêdes como me encontro
firme na minha consideração.
Bendiga-lhes aquela ventura
nascida zombeteiramente.

E a resposta de Ibn Qasî:
A minha  ironia tornou-me respeitável
mas tu arrastaste-te na provocação habitual,
que povoaste com adornos
e aparências de pensamento:
cultura imaginária de flechas
forjadas durante a noite
e quebradas noalarido da manhã.
se o seu eco permanecer no vento
outras aragens adiante o fustigarão.
acaso a sua propagação e os sinais do tempo
poderão alguma vez vencer a bondade?
às flores o perfume, e à beleza o brilho!
bebam em mim, noite e dia, claridade!
será, no alvo, certeira a minha lança
até que te mostres mordendo o pó.
a noite se ocultou dos meus lamentos
dos olhares queridos, do brilho da folha;
por fim, quebrei a prece e tomei a arma.
quem se serve da minha alma compassiva?
hoje aqui estou na minha alfombra,
saciado de louvores quanto me baste.
Entregaste-me, e inda bem, este texto:
caligrafado desenho que ficou
folha, e em meu espírito secou.
resta o teu escárnio, é certo,
mesmo assim a seriedade permanece,
pois tem mais valor do que a ironia...

A estrutura do Descalçar das Sandálias, de Ibn Qasî é quaternária, e Ibn al- Arabí no seu Comentário da dita obra insiste na inportância disto. Diz que o 4 incorpora os números simples, e os dez primeiros números compostos, pois como diz Platão no Timeo, quando contamos 1, 2, 3 e 4, na realidade cada um deles inclui os anteriores, pelo que estamos a contar até 10, que é igual a 1+2+3+4. Recordemos (22) também a relevância que era dada ao número quatro pela fraternidade pitagórica muçulmana dos Irmãos da Pureza, para quem este número é o que rege a plasmação e portanto o mundo manifestado.

Ibn Qasî, na introdução da sua obra, dedicada como Guia interior para os seus discípulos, escreve:

Abre, meu Deus, o peito para a Sabedoria segura e ilumina-me o coração, para que se faça receptivo e capaz de enobrecer-se. Fá-lo no imam, uma Misericórdia para os crentes, uma protecção para os teus piedosos servos, um ideal de todos os que seguem a conduta correcta. Os seguintes são os títulos das secções do Khal´:

1 - DAS COISAS MAOMÉTICAS

  • O Repicar do Sino: Talvez, assim o menciona o profesor Adalberto Alves, associado ao hadith (tradição oral) o qual, quando lhe chegava a revelação, era referido por Maomé, de um modo comparável a este som: Por vezes chega-me como se fosse o repicar de um sino, e isto é o que acaba por ser mais difícil. Depois afasta-se de mim, mas retenho-o na minha memória.
  • A Expansão da Intimidade:Pois a intimidade é algo que desde si próprio deve abarcar o universo inteiro, até que a própria vida seja uma corrente de intimidade.
  • A Quietude da Alma

2- DAS COISAS DO REINO DIVINO

  • O Caminho das Escarpas: sorteando desfiladeiros, subindo ao cume da montanha, que é Allâh e o homem ao mesmo tempo
  • A Barreira da Perplexidade e o Silêncio: pois é mais além dessa barreira de admiração, que diria Aristóteles, e silêncio, onde se encontra o reino das verdades contempladas directamente com a alma, sem pensamentos.
  • A Compaixão
  • O Brotar da METÁFORA: Segundo o ensinamento sufi “A metáfora é uma ponte que conduz à verdade”
  • O Vale Profundo: Seguindo a metáfora de al-Gazzâlî para quem (23) o vale é o coração por onde corre a água da sabedoria
  • O Pedestal da Fundação: Alegoria, diz o profesor Adalberto Alves, do proceso de Cosmogénese
  • A Pérola Oculta: A concha da personalidade humana protege, e ao mesmo tempo oculta a pérola da alma, a verdadeira entidade luminosa que participa da semente dos Profetas (24).
  • (Acerca da) Pérola
  • Lição (que surge da clareza das coisas…)
  • A Esmeralda: Recordemos que a cor verde é a eleita pelo Islão para expressar a sua espiritualidade. A esmeralda é a jóia-cálice do Graal, e segundo as Doutrinas Esotéricas, a natureza venusiana, o “lugar” em que vive a chama mental divina no ser humano. Por isso é, segundo o professor Adalberto Alves, a essência paradisíaca e protectora, e a pedra (a Tábua bem guardada) onde se encontram gravadas as leis da Criação. Ibn al-Arabí diz que esta Tábua é verde, pela delicadeza e maravilhosa textura da esmeralda.
  • A Tribuna
  • Aproximação e clarificação acerca do que sentiu Abraão
  • O Descalçar do Descalçar
  • O Segredo bem guardado (do Nûn e do Cálamo): O Nûn é a letra que simbólicamente figura o peixe, associada a Jonas que é chamado “O senhor do peixe”, e a arca de vida; mas também a tinta e o tinteiro. Não deixa de ser curiosa a posição central desta letra árabe, número 14 entre as 28 do seu alfabeto. Exactamente a mesma que a do Deus Escriba egípcio, Thot, no dígito 15 (25) da regra de 28, o Côvado Real, e cujo símbolo é também a tinta, o tinteiro e o cálamo, e que era também o “Guardião dos Segredos”. Além disso o valor numérico desta letra, que é 50, alude àquilo que está “escrito” na mente divina no homem e na natureza.
  • O Segredo mais elevado (do cálamo e da tábua)
  • O Ruído (do raspar) do Cálamo: Expressa, segundo nos explica o professor Adalberto Alves, a dinâmica da Criação, ao marcar o Cálamo na Tábua de Esmeralda antes descrita, os nomes dos seres e coisas desde os arquétipos, na medida que vão sendo trazidos à Existência e ao Destino. A Tábua-Bem-Guardada é a Ama Universal e o Cálamo é – segundo Adalberto Alves – o Supremo Intelecto. Desde outra perspectiva o Cálamo na Filosofia Islâmica é um conceito muito semelhante ao de Fohat da Doutrina Secreta, já que este último é o veículo do Pensamento Divino e quem permite que o Mundo Ideal penetre na concavidade do Espaço-Tempo, no das causas e efeitos.

3 – DAS COISAS DA MISERICÓRDIA DIVINA

  • O Sésamo: isto é, a potência, que deve abrir-se para se converter em acto.
  • A Noite do destino (Poder Divino)

4 – DAS COISAS PARADISÍACAS (Cada um dos seus capítulos recebe o nome de secção, fasl, simplesmente)

Se nos atemos ao conhecido, podemos dizer, como faz o professor Adalberto Alves, que o pensamento de Ibn Qasî está muito vinculado (ou porque deles procede, ou porque vem de uma fonte iniciática comum) ao de Al Gazzali e à enigmática filosofía da ainda mais enigmática Fraternidade dos Irmãos da Pureza (Ikhwan al Saffa) que, procedente de Bassora, se estendeu durante o século XI por todo o al-Andaluz, começando, pelo que se sabe, no reino taifa de Zaragoza.

De todos os modos o discurso de Ibn Qasî não é, segundo os especialistas, nem fácil nem simples (não, pelo menos para a mente racional do dia-a-dia). O mesmo Ibn Arabí, diz, no seu comentário à obra deste Rei Iniciado que: Faz enunciados… como se pronunciasse sentenças arbitrariamente e… de modo desconexo sobre a pormenorização do que informou e a ordenação do que escreveu. Bem, Ibn Arabí tão-pouco é que nos seja muito claro…

O mesmo Ibn Qasî diz que está apenas a retirar a ponta do Véu da Sabedoria, o que no hermetismo egípcio chamaram Véu de Ísis, e que a dita obra não deve ser adulterada nem com acréscimos espúrios, nem mudando a ordem das passagens. Tal como diziam os sábios egípcios sobre os seus ensinamentos, que poderiam ou não ser compreendidos, mas que não deviam ser alterados nem numa vírgula.

A doutrina de Ibn Qasî é puro platonismo e teoria dos Arquétipos, com o novo nome de “os Nomes de Deus”, adaptação da filosofía islâmica à doutrina dos nomes de Osíris, interpretados e vivificados pelos diferentes faraós do Egipto, que eram como “avatares” dos mesmos. Isto diz o místico Rei do Algarve na introdução da sua obra, que, menciona, está tocada pelo influxo divino de tais Nomes:

 … ao aludirmos, denominarmos (26) e indicarmos, damos sinais e Allâh deixa descer a Luz sobre um dos Seus Nomes, sobre aquele que Ele quer, assim deixa cair o Espírito sobre um dos Seus Nomes, sobre o que ele quer, tal como envia o espírito do Seu Logos a um dos Seus servidores, aquele que Ele escolhe…
O mundo dos Nomes Divinos (o dos Arquétipos de Platão, em definitivo) é o da Inteligência que descreve Plotino, e encontram-se iluimados pelo Sol de Bondade e de Poder. E vê (27) Deus, o Altíssimo, através dos Profetas, o que possuia dos Nomes mais belos e dos Atributos mais elevados que não se contam em número e não terminam. E não há união aqui, nem unidade, nem singularidade de situação, nem isolamento; tudo isto encontra-se num estado único e num tempo único…

E se, como diziam os matemáticos-filósofos egípcios, eles são irradiações divinas, também são os degraus de ouro (luz espiritual) que conduzem da terra ao céu, projecções de uma Unidade que não cessa de ser, e de onde tudo emana:

Não há nenhum (28) dos Nomes Mais Belos de Allâh que não represente poder no (escalão) mais elevado, escada do céu e irradiações do alto. De facto, o Nome Imenso, o Nobre Trono e a Cátedra do Poder é fundação e arbitragem suprema; para O-que-nunca-acaba não há termo nem limite, para Ele não há fim. É esta uma repartição adequada na equivalência e uma distinção do olhar atento. Não há senão o Trono Envolvente e a Cátedra do Poder e os Nomes Mais Belos de Allâh e os Atributos Mais Elevados.

E ainda que sejam degraus, e ainda que sejam divinas formas, engana-se aquele que pensa que pode chegar a definir o mistério da vida com palavras, com nomes, e nem sequer os Nomes e Arquétipos do Reino da inteligência (o Mundo puro Adâmico da Filosofia de Ibn Qasî) pois ainda o aspecto racional do todo, por inspirado que seja não chega a penetrar o mistério do que vai mais além e onde a própria Luz se converte em obscuridade impenetrável, o que os egípcios chamavam o Reino de Amón, do Silêncio e a Justiça, do Mistério. Como na obra magna da filosofia hindú o Comentário al Sahassrara Nama Vishnu (os Mil Nomes de Vishnu), de Shankaracharya, se são mil nomes os que damos à Vida universal é um modo cortês e subtil de dizer que não há nome (29) que possa desvelar o seu verdadeiro enigma, pois os ditos nomes não o limitam, antes o apontam simplesmente em direcção aos seus mistérios desde os limites da nossa razão. Verdade fácil de compreender desde a mais pura filosofia kantiana, uma lição de humildade para os séculos vindouros.

No Capítulo da Esmeralda, Ibn Qasî afirma (30):

Fica sabendo que a luminosa Vida, oculta e eterna, que irradiou sobre Adão e que se encontrava da forma mais esplêndida na mais elevada estação, na melhor situação e na mais brilhante claridade, e que reluz na mais nobre glorificação, em testemunhos sagrados e presença, até se tornar uma coisa (manifestação) do Senhor, não se estravia nem se esquece. Eterna, não se apaga nem se cansa. Foi a Luz do Seu Nome oculto e secredo do seu Nome grandioso… E quando Allâh o Altíssimo, quis manifestar a Sua Perfeição às Suas criaturas… tomou essa Vida de Si e ocultou a Luz na luz mais resplandecente que a partir d´Ele acendeu…

Mas é Ibn Arabí, discípulo indirecto de Ibn Qasî quem precisa que os Nomes, por elevados que sejam, não o limitem e nem sequer contenham:

Aquele (31) que julga que tem conhecimentos dos Atributos positivos do Si-Mesmo (Deus) engana-se, porque um atributo defini-lO-ia, mas a Sua Essência não tem definição. Tal é a porta fechada para a existência engendrada, uma porta que não pode ser aberta. Ela pertence apenas ao Real.

A filosofia e mística de Ibn Qasî nascem da vivência chamejante do conhecimento como a espada flamejante do deus tibetano Manjushri. Não é, nunca, de contemplação passiva. É de trabalho interior e luta exterior. Mística, percorrendo o labirinto que espera na alma de cada um e heróica, combatendo contra as injustiças, fazendo brilhar a luz da bondade, a generosidade em cada um dos actos. Mística e filosofia de tempos escuros, filosofia e mística de damas e cavaleiros, cuja missão é enobrecer a vida e como diz Cervantes no seu Quixote, converter um mundo de ferro num mundo de ouro.

Conservamos um poema (32) deste Rei Iniciado, que expressa muito bem, a coragem e militância do seu Ideal em tempos escuros. Tempos escuros, mas reais, quando somente a luta armada podia exorcizar a violência que todos respiravam e chamar de novo à paz, à ordem e à justiça. Pois ainda que o que é verdadeiramente santo não é a guerra, mas a paz; a paz cúmplice de injustiças, a “paz” que mascara a podridão moral é devoradora de almas e semente da pior violência, a violência vilã e viciosa, que medra nas pregas mais sombrias da animalidade humana.

heróis esforçados não se podem refrear
com exaltantes discursos à coragem
nem as guerras podem ser exorcisar
com recurso a sortes e amuletos;
mas com espadas, duras, afiadas
que bebem água das gargantas gráceis.
a paz vem de trespassar cavalos c´o a lança
e de investir com alfanges finos e rebeldes.
nós incendiámos nossas espadas
contra a tirania e iniquidade dos seus crimes.

E no entanto, essa militância e vivência nascem de um centro fixo, de um coração imóvel, da compreensão e vivência da Lei, de um conhecimento que é a mais pura Doutrina Secreta e que transcende, e em muito, o mundo de crenças somente religiosas, ou subjugadas a estas.

É admirável a beleza e génio com que expõe a doutrina dos ciclos e o sentido do espaço, o tempo e o poder que nele reina:

…É possível (33) um dia de mil anos e um dia menor, até um dia de um ano, de um mês, de uma semana, de um dos nossos dias, um dia de uma hora das nossas horas, até ao que está abaixo disso…

… Perto do tempo está o espaço, e o espaço pertence aos seres, e os seres pertencem ao Poder e à Suserania, pois são conformes à época e com o comportamento (sunna), semelhantes à informação da sabedoria na continuidade das razões de ocorrência e das leis dos tempos antigos.

Agora (34) é (o tempo da) criatura do Além e o início do espírito. Então segue-se, faseadamente, o mover-se e o flutuar para a frente, no dia e no ano. Pois o Dia Universal e o ano correspondem às idades do homem. Cada criação é dia e ano. Assim é na Eternidade: o dia e o ano vêm, da fraqueza para a força e depois da força para a debilidade da idade. Quando depois, a fraqueza se aperfeiçoou  no homem e a purificação na idade alcança o seu grau supremo, fortalece-se então a sua vida interior e revela-se nele o seu crescimento no Além. Significa isto uma entrada no crepúsculo da vida, uma tarde na duração da vida, o desabrochar da respectiva flor. Também assim acontece com o ano: quando o ano se apura, nele amadurece a idade, atinge a perfeição e entra no crepúsculo da vida, passando a ser o repositório da sua vida e o desabrochar da sua flor. Assim é também com o Dia Universal: quando se apura e alcança o seu cume, ele entra no crepúsculo da sua vida, é a súmula da sua duração e o alcançar da sua floração…

Profunda é a sua visão de Deus:

Allâh é O que quebra (35) a semente e o caroço, faz sair a vida da morte e é quem tira a morte da vida… Ele é quem abre a aurora, quem estabelece noite para o repouso e o Sol e a Lua como medida.

Profundos o seu sentido alfa e omega da Criação:

Todas (36) as Coisas provêm da Tua Luz e à Tua Luz regressam.

Pois a Criação é uma resolução do enigma (37) e numa decifração dos sinais secretos. É uma iluminação do esplendor, uma propagação do Espírito, uma resolução da Vida.

Lemos a quinta-essência da Alquimia quando diz que:

Quanto à realidade em si mesma, ela pressupõe a Luz e o sol-astro, claridade luminosa que é o lustre resplandecente, radioso e eminente. Do seu disco emanam as claridades e sob a sua irradiação medram as diversas facetas da vida…

Segundo explica o professor Adalberto Alves comentando Ibn Qasî, a Luz Divina tem duas funções: outorgar a mercê da existência e trespassar todas as criaturas segundo a sua própria receptividade. A Luz, como o Budh sânscrito, é um véu que mostra e oculta a essência de Deus e ao mesmo tempo mostra e oculta a cada ser o seu verdadeiro Si-Mesmo (o Atma das tradições teosóficas).

A Luz, acrescentamos nós, e seguindo o pensamento de Ibn Qasî é como o igual de uma equação, que sempre é o mesmo, ainda que os termos de ambos os lados defiram em cada ser, enigma, poder ou circunstância da vida. A luz é o tecido que como um véu veste cada ser e põe-no em relação com os seus próprios actos e a sua própria natureza. Como um espelho mágico, portanto, como o tecido Dharma-Karma na manifestação que os indianos chamam Swavabhat antes da mesma. Esta Luz, sensível ou intelegível, é quem transporta a acção de um lugar ao outro do Cosmos ou da mente divina, e é quem permite a Lei de Analogia: assim é em Cima como é em Baixo. Ibn Qasî expressa isto com o seguinte ensinamento: “Há verdades escondidas por detrás de todos os actos manifestados”.

A divisão em três partes ou níveis que faz da Natureza é a mesma que encontramos no pensamento grego, romano ou inclusivamente hindú. A esfera da Natureza física ou Soma, a astral ou emocional, Psiqué, e o Nous ou esfera espiritual. Ibn Qasî chama-as: coisas particulares, coisas subtis e coisas reais. E descreve cada um destes três mundos, respectivamente como relâmpago resplandecente, abertura e alvorada.
Diz, por exemplo (38) que:

As Coisas Subtis são sopros das coisas particulares. E assim como um grão de trigo único, nascendo da planta, explana o que nele existe das coisas particulares divididas ou do seu género e potencia, um único grão de trigo, mil ou nais grãos… também há, em cada um dos dois graus das coisas de trigo das coisas particulares, das qualidades ou a virtude que existe no primeiro grão de trigo (…)

Quanto às Coisas reais são Essências elevadas e sopros dos Espíritos da Vida, caminhos dos que seguem a via espiritual, a escada dos gnósticos em direcção às alturas. Quem pisa tal tapete é justo e quem cavalga o seu Burâq chega à Árvore do lótus do Sétimo Céu. Disto basta-te saber em que consiste a quebra do jejum daqueles que o fazem e o abrir dos olhos dos adormecidos…

O espírito é o núcleo do núcleo, é o sentido profundo e real de tudo, governa sobre todas as existências:
O Espírito é o sentido real da alma e o interior o sentido real do exterior.

Aí estão de novo os três níveis: Espírito-Alma (Interior)-Exterior.

Cremos, sinceramente, que Ibn Qasî, como Joana d’Arc, Rienzi, Cagliostro ou a própria H.P.Blavatsky (1831-1891) são “enviados do Céu”, ou seja, membros dessa Hierarquia de Iniciados e Discípulos que formam o Coração Espiritual que impulsiona a história e a civilização humanas, e que Ibn Barrajan chama “O Círculo do Imam”, e aos que se refere de um modo alegórico no seu Comentário (tafsîr) ao Corão. Estas almas radiantes como estrelas na noite revezam-se para estar e lutar espiritual e factualmente neste campo de batalha que é o mundo:

Diz-se que a Terra nunca está sem trezentos eleitos. Aquele que assim o diz quiçá exagere, mas eu não tenho conhecimento que isto seja assim. Os melhores entre eles são quarenta, os melhores entre os quarenta, sete, dos sete, três, e dos três, um…

Quando este morre, o seu lugar é assumido por um dos três, quando morre um dos três, um dos sete assume o seu lugar, quando morre um dos sete, um dos quarenta toma o seu lugar, quando morre um dos quarenta, o seu lugar é assumido por alguém que pertence ao grupo com maior número, quando este morre o seu é assumido por alguém da massa dos fiéis. Diz-se que entre eles existe alguém cujo coração corresponde aos corações dos Profetas, e existem aqueles cujos corações se parecem aos corações dos profetas, e aqueles cujos corações se parecem aos corações dos Anjos…

Não sabemos qual era o posto de Ibn Qasî nesta Hierarquia que alegoricamente descreve Ibn Barrajan, mas sim que o magistério, exemplo e façanhas deste rei Iniciado do Algarve deixou um rastro de milhares de discípulos (muridinos), esforçados caminhantes na Via Mística, idealistas e serenos buscadores da Verdade, cujo superior anseio foi conquistar as suas próprias almas para oferecer assim os seus tesouros ao mundo. Ibn Qasî e os seus muridinos, sendo fiéis a si mesmos mudaram o mundo, o seu mundo, o seu tempo, e graças a eles o impulso divino, o fogo espiritual sem nome nem forma que acende de amor, bondade e justiça a quem toca, alentou inúmeros corações e fez girar de novo a roda da história.

 

José Carlos Fernández
Director da Nova Acrópole Portugal

 

Notas:

(1) In Alves, Adalberto; As Sandálias do Mestre – o Islão Iniciático na Formação de Portugal, Ésquilo, 2009, p. 83.

(2) As Sandálias…, pag. 346 e ss

(3) Futuhat II, 177.4 de As Sandálias…

(4) Aparece referido sim, e seguimos as notas de Adalberto Alves na obra mencionada (pag.148), no livro dos sufis de Idries Shah, que afirma que Ibn Arabí, quando ainda era jovem foi a Lisboa estudar “direito e teologia islâmica”; também na tradução de Roberto Pla do Tratado da Unidade de Ibn Arabí, e na obra de A. E. Áfifi, The Mystical  Philosophy of Muhyid Din Ibnu al-‘Arabi.

(5) O grande arabista espanhol Miguel Asín Palacios recompilou todas as menções no Futuhat dos seus Mestres de Al- Andalus no livro Vidas de santones andaluces, la "Epistola de la santidad" de Ibn 'Arabi de Murcia (Madrid 1933).

(6) No seu Sharkh Kitâb Khal ´al Na´layan. O Comentário ao Descalçar das Sandálias, citado nas Sandálias …, pag. 138. Refere o professor Adalberto Alves que no momento em que escreveu este livro, esta obra de Ibn Arabí nem sequer estava editada, mas apenas em manuscrito

(7) Adalberto Alves em As Sandálias… demonstra que esta, a Rebelião dos Muridinos, (Kitâb Thawrat al-Muridîn) é a única fonte real, pois todas as outras derivam desta, já perdida; e demonstra também como Ibn Sâhib era o “cronista de serviço” dos almóadas, pelo que a sua versão não é totalmente digna de crédito. Em relação aos testemunhos, e em questões polémicas como esta, já sabemos que testis unus, testis nullus (um só testemunho, testemunho nulo).

(8) O professor Adalberto Alves apresenta-a como um dos prováveis ribats do seu discípulo Al-mundhir, e quiçá aquele onde Ibn Qasî terá começado. Porém não sabemos em que é que se fundamenta exactamente.

(9) Seguimos, quase literalmente, o discurso de Adalberto Alves em As Sandálias….

(10) A obra já mencionada de A Rebelião dos Muridinos, de Ibn Sahîb.

(11) H. S. Olcott nas suas Páginas de um Velho Diária, e descrevendo os “milagres” atribuídos a H. P. Blavatsky, conta como operam os magos e alquimistas de natureza tão superior, que podem chegar a materializar objectos por impulso da sua vontade e imaginação (o Poder de Kriyashakti), e que esta vontade tão desenvolvida, como uma poderosíssima corrente eléctrica subtil, pode convocar ou atrair as partículas de qualquer metal que haja em suspensão coloidal no espaço. Pois tal como no sangue ou no mar, também no ar existe em suspensão coloidal infinitésima ouro, prata, cobre, etc….

(12) Não incluímos aqui os Mestre de Sabedoria ou Adeptos solitários que o Budismo Mahayana chama Pratyeka Budhas, que não são, como se pensa, Budas egoístas, se não que desterraram todo o acto que não seja cumprir a vontade divina: já não ensinam, fazem, seguindo a Lei, pois são encarnações da mesma. São, como diz H. P. Blavatsky, aqueles que possuem a compreensão mental de tudo quanto existe e, portanto, não podem errar. Estes, geralmente, não deixam discípulos atrás de si mas as suas acções certeiras chegam ao coração do Mundo como flechas de fogo, destinadas a comovê-lo profundamente e fazê-lo florescer.

(13) Para quem não sabe ou se esqueceu, é interessante recordar quem foram os seus discípulos directos, indirectos ou ocasionais (mas com os quais a Mestra se encontrou e mudou radicalmente as suas vidas):

  • Directos: o inventor Thomas Edison; William Crookes, prémio Nobel, descobridor dos raios catódicos; Annie Besant, a grande oradora e ideóloga, defensora dos direitos sociais e depois Directora Internacional da Sociedade Teosófica; H. S. Olcott, presidente e fundador da mesma; o poeta e também prémio Nobel de Literatura, Yeats; Alfred Wallace, embora esquecido, foi o co-descobridor da Lei da Evolução, juntamente com Darwin…
  • Ocasionais: Gandhi, herói da independência indiana do jugo inglês.
  • Indirectos, ou seja, aqueles que foram fortemente influenciados pelas suas obras, embora não a conhecessem pessoalmente: o pintor Kandinsky; o humanista e erudito Mario Roso de Luna e o escritor Valle Inclán; o poeta português Fernando Pessoa e o músico russo Scriabin; o cantor Elvis Presley; os poetas Amado Nervo e Rubén Dario; o escritor de romances Blasco Ibáñez; o filósofo indiano Sri Ram (V Director da Sociedade Teosófica, entre 1953 e 1973); o primeiro presidente da Nova Índia, Nehru; o escritor, humanista e Fundador da Organização Internacional Nova Acrópole, o professor Jorge Angel Livraga (1930-1991); os cientistas Einstein, Heisenberg e Schrodinger, e dezenas de outros, entre aqueles, os amaldiçoados e outros que não quiseram revelar as suas identidades devido à campanha de difamação e calúnias que ainda cem anos após a sua morte, ainda reverbera desde, como dizia ela, o Grande Esgoto do Universo.

(14) Atrevemo-nos a afirmar que, de certo modo, a Roda da História é a acção combinada, uma na outra, da Roda da Lei ou do Dharma (de oito raios, as Oito Nobres Virtudes), na Roda da Mundo (com seis sectores, gatis ou estados de consciência).

(15) Seguimos o discurso de Adalberto Alves em As Sandálias…, pag. 64

(16) Ver artigo no qual se esboça esta mesma associação, O Quixote e a Senda do Cavaleiro Islâmico, no livro Córdoba Eterna, do mesmo autor que escreve estas páginas

(17) Embora o nome da Futuwah seja árabe e o conceito da época, islâmico, este Ideal sublime, e portanto também Caminho Espiritual é o dos que servem o Rei do Mundo, a Vontade do Plano Divino que se desenha, nas sendas do tempo como História, com maiúsculas.

(18) Ver nota 17

(19) Seguimos o quadro comparativo que faz M.Al-Lemranî que aparece na obra de As Sandálias…, pag.144

(20) Esta relação está tirada na obra As Sandálias…, pag.86. O que está em itálico, literalmente.

(21) Continuo a parafrasear la obra de As Sandalias..., pag. 153, 154.

(22) Seguimos quase literalmente a argumentação do professor Adalberto em As Sandálias…,pag.242

(23) Seguimos neste índice e notas de cada capítulo o texto de As Sandálias…, pag.242 e ss.

(24) Idem, a itálico são as palavras do professor Adalberto Alves.

(25) Não é que 14 seja igual a 15, mas porque ambos, entre 28 dígitos, estão exactamente na metade.

(26) As Sandálias… pag. 255

(27) As Sandálias… pag. 259

(28) As Sandálias… pag.256

(29) Platão expõe de forma muito bela este ensinamento no final do seu Cratylo, discurso filosófico e iniciático sobre a natureza da linguagem e dos nomes.

(30) As Sandálias…, pag.266

(31) Citação extraída do Futuhat, que aparece em As Sandálias…, pag.266

(32) Poema recolhido por Ibn al-Abbâr, que aparece em As Sandálias…, pag.228

(33) Khal´de Ibn Qasî, em As Sandálias…, pag.278

(34) Ver As Sandálias…, pag.317

(35) Ver As Sandálias…, pag.279

(36) Idem

(37) Parafraseamos o professor Adalberto Alves no seu As Sandálias…, pag.280

(38) As Sandálias…, pag.280

 

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