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A Iniciação de Ulisses

 

A Essência do Mito

ulissesO Mito é a alma das acções humanas; estimulante oculto, ele é o depositário das sementes do devir individual e colectivo, é uma verdade velada por alegorias psicológicas.

O mito não fala ao intelecto, mas antes toca o mundo do sentimento ordenando-o segundo a planificação da inteligência superior. O mito recolhe melhor dos móbiles evolutivos e conduz-nos, por etapas, até ao divino arquétipo (Ideal).

Semelhante à memória do homem que salvaguarda do tempo, unicamente, os impactos da sua consciência, o mito é a memória da humanidade. O inconsciente colectivo é o património de experiências que nos falta actualizar; por esta mesma razão existem os mitos que são os agentes ocultos da repetição de verdades psicológicas inerentes à evolução do homem.

Poesia: Corpo e Essência da Linguagem Mítica

A forma poética da epopeia homérica vai recordar-nos a importância da mensagem nela inserida. Abordando verdades essenciais ao homem universal, a mitologia deverá revestir-se do entusiasmo divino. A sua expressão será, então, o canto poético. A etimologia da palavra poesia tem uma origem fenícia e deriva do vocábulo "Phobe": palavra, e de "Ish": divino, que poderemos traduzir por “linguagem superior”. O seu berço etimológico teria sido a Trácia cuja palavra significa “espaço etéreo” ou “terra de luz”. A poesia seria, assim, uma forma de comunicação com o divino, uma linguagem sagrada, ponte entre o celeste e o terrestre.

A poesia é composta por uma Essência (Intuição, Mensagem de Luz) e um Corpo (organização dos sons e silêncios através do ritmos). Os versos mais utilizados chamavam-se Hexametros, constituídos por 6 pés rítmicos. Um pé equivale a 2 tempos constituídos por 2 longas ou então por 1 longa e duas breves. A duração de um verso equivalia a 12 tempos.

Não devemos confundir o espírito com o corpo da poesia pois apesar de um estar dependente do outro, um corpo sem alma é como um recipiente sem água; a essência justifica a forma; um poema sem conteúdo não passa de vãs palavras resultantes de uma sábia demonstração técnica.

As três expressões clássicas da Poesia estão relacionadas com os ciclos da manifestação: nascimento, vida e morte. Inspiração, exaltação e expiração são os 3 tempos da “respiração” poética.

O nascimento traduz-se pela
EUMOLPEIA – Espírito – Nous

A vida traduz-se pela
EPOPEIA – Alma – Psyché

A morte traduz-se pelo
DRAMA – Corpo – Soma

A EUMOLPEIA representa a inspiração divina; entre os Mestres deste género contam-se Orfeu e Hesíodo.

A EPOPEIA (turbilhão, envolvimento, exaltação do sentimento) terá por mestre Homero.

O DRAMA (humanização), possui, como tal, 2 máscaras:
- TRAGÉDIA – Ex. Ésquilo
- COMÉDIA – Ex. Aristófanes

Com a EUMOLPEIA o homem inspira-se, com a EPOPEIA o homem exalta-se; com o DRAMA o homem mortifica-se: chora com a tragédia, e quando já não tem lágrimas para verter no seu interior, então ri com a comédia. Quando nasce o drama uma civilização apaga-se.

Estudo do Contexto Épico

Homero (séc. VIII a. C.) terá extraído os seus relatos do santuário de Tiro (Líbano, antiga Fenícia). Vidente dos Mistérios, irá velar com alegorias os seus poemas épicos, subtraindo ao olhar físico o seu conteúdo psicológico e simbólico. Aqui poderia residir o facto de associar Homero ao poeta cego, aquele que oculta a visão do mistério.

A Ilíada de Homero vai situar-nos num tempo histórico; a veracidade desses altos feitos pôde ser comprovada por Schliemann na sua descoberta de Tróia.

A Odisseia vai transportar-nos num tempo psicológico vivido no interior do homem.

O herói, ou ser semi-divino, serve de ponte entre o Céu e a Terra (Espírito e Matéria). Como símbolo da Alma humana, o herói unifica a dualidade pelo seu desejo de transcender a condição de mortal.

 

"Ulisses volta dos infernos iluminado acerca do seu Destino. Sem perder tempo nesse mundo transitório, ele continua a sua rota. Evitará o canto das sereias tapando os ouvidos dos seus companheiros com cera e fazendo-se amarrar ao mastro do barco"

 

Se o herói aspira a subir ao céu, os Deuses homéricos descem até aos homens. O herói está sempre irmanado a um deus, seu duplo celeste: Ulisses-Atena, Páris-Apolo, Aquiles-Tétis, Helena-Afrodite. O movimento do herói produz a mudança de posição dos deuses que, por analogia com o zodíaco, podem entrar em relação de amizade ou de discórdia, de exaltação ou de queda.

Assim, Ulisses atrai a cólera de Poseidon, os conselhos de Atena, a ciência de Hermes.

Os deuses estão solidários com o destino humano, inclinam mas não forçam. Os obstáculos são as relações dos efeitos acumulados pela marcha do homem até Deus, e aquele deverá queimar os seus efeitos pela exaltação do seu desejo de imortalidade.

A descida dos Olímpicos representa os agentes do destino (Karma), que equilibram a balança das virtudes e das fraquezas a fim de orientarem a marcha da Humanidade.

A Ilíada – Breve Análise

Esta primeira parte da epopeia homérica representa a guerra entre os gregos e os troianos. Esta guerra, que durará 10 anos, número sagrado da tétraktys pitagórica, toma um aspecto simbólico, falando-nos do rapto de Helena (do fenício: Hellen que significa luz, glória, esplendor, associada a Selene ou Lua em grego). Helena é o símbolo da Alma e da Sabedoria. Páris significa em fenício: geração, extensão; Menelau, marido de Helena, significa: regra, medida.

Assim, a Ilíada apresenta-se como um jogo psicológico em que Menelau é um elemento limitativo –aquele que está limitado pela razão–, Páris –aquele que vai contra a regra do jogo e que permite uma modificação das posições conservadoras–, Helena –o anzol do jogo, é aquela que liberta dos condicionalismos da personalidade-. Assim, a Sabedoria (Helena), irá ser raptada por Páris que concede a si mesmo esta recompensa por ter favorecido Afrodite, preferindo ao amor do poder: Hera, ao amor do conhecimento: Atena, o amor da mais bela mulher: Afrodite.

Vemos, então, a Sabedoria afastar-se de Menelau pois esta não pertence a ninguém; a Sabedoria é uma constante conquista do homem (ver a lenda de Sir Lancelote que deixa passar diante de si o Santo Graal enquanto dormia).

Um pacto de aliança retinha todos os antigos pretendentes de Helena, e cada um deles devia responsabillizar-se pela defesa do feliz eleito e da sua conquista.

Após o rapto de Helena os grandes reis e senhores do Ática unir-se-ão por esta causa digna.

Aquiles, Ajax, Agamémnon, Hestor, Ulisses, Menelau, combatem pelo lado grego; Páris, Heitor, filhos do rei Príamo, são os grandes heróis troianos. TODOS ASPIRAM À SABEDORIA.

A Ilíada é o jogo das virtudes e defeitos, da coragem e fraqueza humana; é o jogo da vida em que, para ganhar a coroa da Sabedoria, duras provas deverão ter de ser sublimadas; a inteligência deve ser superior à força, a humildade ao orgulho, a coragem à raiva.

Se Aquiles não atingiu a imortalidade devido unicamente ao seu calcanhar vulnerável, também a guerra de Tróia não está ganha antecipadamente, pois nenhum dos intervenientes é invulnerável e, por conseguinte, não pode ser favorito: todos podem jogar os dados...

A Ilíada termina com o regresso de Menelau, Helena, Agamémnon e Ulisses. A Odisseia começa quando Ulisses, por ter irritado o grande Poseidon, é desviado da sua trajectória por uma violenta tempestade. Ulisses, símbolo da paz e da inteligência que rege a evolução do homem, vai ser seleccionado por Homero para encerrar o ciclo épico.

Ulisses ama a sua ilha Ítaca. Ele vive em paz com Penélope e Telémaco, seu filho, até ao momento em que Menelau recorda-lhe o seu compromisso de salvaguardar a sabedoria (Helena). Ulisses prefere, inicialmente, enganar a sua consciência, fingindo-se esquecido e louco. Semeia pedras de sal na areia do mar; porém, Menelau não se deixa enganar e coloca diante da charrua de Ulisses o filho deste, Telémaco. Ulisses é obrigado a desmascarar o seu jogo, desviando a sua charrua e seguindo, por fim, com Menelau para Tróia.

Ulisses é aquele que aspira à paz, mas esta paz não pode ser cultivada egoístamente; mais vale uma guerra digna do que uma paz indigna: eis aqui um dos mais belos arquétipos da Odisseia ou seja, a paz assente na justiça, Ulisses é o protagonista; Penélope, duplo feminino de Ulisses, representa a virtude que se constrói com muito tempo e paciência. Fiel ao seu esposo, ela irá fazer face a uma torrente de pretendentes insaciáveis que cobiçam Ítaca, a ilha da paz, para ususfruirem os seus múltiplos tesouros.

Penélope preparará uma armadilha aos seus pretendentes: só se casaria de novo após ter terminado o lençol funerário que estava a tecer para Laertes, pai de Ulisses. Tecia de dia e desfazia de noite mantendo numa interminável espera os seus cobiçosos pretendentes, enquanto aguardava o regresso de Ulisses. Penélope representa a paciência e a esperança e alimenta-se com tempo; é o dia a noite, a ilusão do mundo sensível.

A Viagem de Ulisses

A primeira escala será a ilha dos Lotófagos: os seus habitantes alimentam-se de flores de lótus. Esta ilha representa o olvido – a alma humana esquece rapidamente o seu objectivo; aqueles que preferem uma vida sem preocupação, sem esforço, ficarão nesta ilha. Aqui Ulisses deixará alguns companheiros e continuará a sua rota. Esta primeira prova representa a vitória sobre a inércia (terra: étero-físico).

polifemo1.pngA Ilha dos Cíclopes: representa a prova da inteligência prevalecendo sobre a força brutal, indistintiva (domínio do veículo energético: água). Aqui Ulisses irá vencer Polifemo, o cíclope. Polifemo fechou Ulisses e os seus companheiros numa gruta. Após ter devorado dois companheiros de Ulisses, este embriaga o cíclope a fim de o cegar. Para saírem da caverna, Ulisses e seus companheiros agarraram-se ao ventre das ovelhas de Polifemo e, assim, puderam escapar apesar da vigilância do cíclope. Constatando a perda dos reféns, Polifemo chamou os seus irmãos para bloquearem a passagem de Ninguém (nome pelo qual Ulisses se tinha prudentemente apresentado). Julgando-o louco, os outros cíclopes votaram ao infeliz ao seu fado. A ilha dos cíclopes representa a vitória da energia mental sobre a força física.

A ilha de Éolo: o rei Éolo é aquele que governa os ventos. Receberá cordialmente Ulisses, oferencendo-lhe um saco contendo os maus ventos. Ulisses aceita com prudência esta oferta mas os seus companheiros, ávidos de riqueza, abrem o saco julgando encontrar aí um tesouro. Levanta-se, então, uma terrível tempestade e o barco naufraga junto à ilha de Lestrígones, habitada por um povo canibal, onde Ulisses perderá mais um dos seus companheiros.

Esta terceira etapa da viagem de Ulisses corresponde à superação do elemento Ar: a tormenta psíquica. Mesmo dominando o seu corpo astral (ar/emoção), Ulisses deverá, contudo, aprender a suportar os ventos que vêm do exterior; saber caminhar com ou contra os ventos, é uma arte própria dos Mestres de Sabedoria.

Quarta etapa: a ilha de AEA (Fogo).Aqui Ulisses terá de enfrentar os encantamentos de Circe, feiticeira que metamorfoseava os homens em animais. Com o apoio de Hermes que lhe concederá uma protecção contra a magia de Circe, Ulisses obterá os segredos da feiticeira, vivendo com ela durante vários anos.

Esta quarta etapa representa a vitória sobre o elemento Fogo. É a inteligência de desejos, a qual retém o homem à sua natureza inferior (animal). Graças a Hermes, símbolo da transmutação, Ulisses iniciar-se-á na arte da Magia sem se deixar escravizar por ela. Dos dois caminhos da Magia, negra – egoísta, branca – a que liberta o homem da condição animalesca – Ulisses escolhe o segundo permitindo que os seus companheiros reencontrem a sua condição de homens, e continua a sua rota, agora esclarecido sobre qual o caminho a seguir.

Quinta etapa: seguindo o conselho de Circe, Ulisses desce aos infernos para consultar o adivinho Tirésias. Esta etapa representa Antakarana, o fio que une a alma ao corpo. Após ter, prudentemente, oferecido sangue fresco de cordeiro às almas errantes do Hades (única maneira de as manter afastadas) poderá, então, aproximar-se do adivinho e obter dele o segredo que lhe permite conhecer o caminho de regresso a Ítaca.

Ulisses volta dos infernos iluminado acerca do seu Destino. Sem perder tempo nesse mundo transitório, ele continua a sua rota. Evitará o canto das sereias tapando os ouvidos dos seus companheiros com cera e fazendo-se amarrar ao mastro do barco.

Esta armadilha representa as vozes do desejo que despertam no homem a ambição do poder. As sereias, monstros alados com cabeça de mulher, encantavam os marinheiros com as suas vozes lânguidas, conduzindo-os assim à morte. Aquele que pudesse ouvi-las sem ser por elas captivido, marcaria o fim de suas existências. Ulisses, amarrado pela vontade, irá resistir às forças da paixão. O herói da Odisseia representa a inteligência (Manas) unida à vontade (Eu Superior / Atma) que faz calar as vozes melosas da ilusão. Após a vitória de Ulisses, as sereias serão transformadas em rochedos.

Em seguida, o seu navio aportou na ilha de Trinácia. Aqui, os esfomeados marinheiros cometeram a imprudência de comer os bois de Hélios. Zeus fulminou os ímpios e aniquilou o navio por meio de uma tempestade. Ulisses, que respeitara a ilha sagrada, foi o único sobrevivente. O homem deve respeitar a Lei; quem não sabe obedecer não pode, por sua vez, ser respeitado.

OdisseuUlisses finalizará a sua viagem iniciática na ilha da ninfa Calipso que o retém prisioneiro durante 7 anos. Apaixonada pelo herói, Calipso irá propor-lhe a imortalidade, mas Ulisses, que não aspira ao repouso da sua Alma sem primeiro ter cumprido o seu destino, recusará. Sob as ordens dos Deuses poderá reencontrar a sua liberdade aportando, por fim, na Ilha de Ítaca. (Esta prova da ilha de Calipso simboliza a renúncia do Paraíso pelo amor aos homens).

Envelhecido e esfarrapado, Ulisses vai imaginar, graças aos conselhos de Atena, uma artimanha para libertar Ítaca e Penélope dos seus ataques de promiscuidade. Com a ajuda de Telémaco, seu filho, ele preparará um estratagema: aquele que entre todos os pretendentes lançasse com o arco de Ulisses uma flecha através de 12 círculos de fogo, tornar-se-ia marido de Penélope. Ulisses, munido do seu arco, lança uma flecha directa ao alvo e destrói, assim, todos os pretendentes à ilha de Ítaca. Reconhecido pelos seus familiares, reencontra Penélope e a paz de Ítaca.

O Regresso de Ulisses

O regresso de Ulisses simboliza o regresso da Sabedoria à Pátria dos homens. Os sábios não conhecem o repouso da alma sem terem, primeiro, salvaguardado o destino dos mortais. Tal como no Mito da Caverna de Platão em que o Filósofo, após ter contemplado o Fogo da Verdade, volta a descer na caverna para inspirar e conduzir os prisioneiros, assim Ulisses renuncia à imortalidade que lhe foi oferecida pela ninfa Calipso. Ele guarda a memória de Ítaca, a ilha da paz, e deseja defender a virtude (Penélope) das suas indignas cobiças.

A paz indigna não existe no coração dos heróis. Estes não apreciam a guerra em si, mas não recusam nenhuma batalha para defenderem os valores superiores do Homem. A Odisseia de Homero é a exaltação das virtudes transcendentes. Os mitos são a memória dos altos feitos da humanidade, permitindo-nos redescobrir que os ideais de bondade, justiça e paz são inerentes ao Homem Eterno. O caminho que nos leva até Eles não é um caminho fácil: duras provas aguardam o aspirante. Lutamos porque existe no fundo de cada um de nós esse sonho de perfeição. Cada um de nós possui um pouco da força de Aquiles, um pouco da tenacidade de Ajax, um pouco da inteligência de Ulisses e um pouco da virtude de Penélope. Todos estes heróis habitam em nós e exortam as nossas consciências a despertarem de suas prisões de carne.

 

Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole

 

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