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Livro Tibetano dos Mortos

Uma das poucas coisas que temos garantido na vida é a morte.

De certa forma vivemos momentos em que tudo se mede pela quantidade: o número de amigos que temos, o número de cifrões da conta bancária, a quantidade de títulos académicos ou o número de m2 da nossa habitação. Mas esta é uma visão toldada segundo os paradigmas e os preconceitos actuais. Mas estes cânones não são iguais aos do passado, nem terão que ser necessariamente iguais aos do futuro. Os seres humanos do futuro poderão ser muito diferentes de nós, humanos do presente.

Sempre que a nossa mente abre os seus horizontes ou começa a perceber as suas próprias limitações, começa a perceber também que existem outras realidades para além da própria realidade perceptível, dando assim lugar à intuição sobre coisas que não entende, mas sente. Este é o caso da morte, não da física, que essa é por demais óbvia, mas por aquilo a que dá lugar e que se resume a uma palavra: desconhecido. A morte é ainda um dos grandes tabus da nossa época e, como tal, tudo aquilo que promove revelação sobre o assunto causa sentimentos paradoxais como fascínio e repulsa.

O editorialmente chamado Livro Tibetano dos Mortos, na sua linguagem original Bardo Thödol, ou “a grande libertação pela escuta nos estados intermediários” é uma obra tão diferente do que estamos habituados, que se torna tão difícil de compreender como de aceitar. Quiçá já lida por muitos, mas comentada por poucos, talvez pelo tema sensível que trata, não é daquelas obras de promoção massiva ou alavancadas pelo marketing. Este livro persevera na ideia da inevitabilidade da morte, estimulando a encarar a impermanência de todas as coisas como a mais libertadora das reflexões, ajudando a vê-las como realmente são.

Saído da tradição budista do Tibete, o texto procura ser um guia para a consciência (ou alma, como se lhe queira chamar) desencarnada que, confusa e baralhada, não percebe a condição em que se encontra e não sabe o que deve fazer nem para onde deve ir. Mas este também é um guia para a vida. É um tratado de libertação pelo entendimento do plano que segue à morte e é também um tratado de iniciação. É símbolo e ensinamento sobre as alternativas da vida que termina e da vida que começa, assentando numa convicção profunda, não só da sobrevivência da consciência à morte física do corpo, como também da posterior reencarnação desta consciência numa outra forma física de forma a poder continuar a realizar o trabalho de aperfeiçoamento e aprendizagem que seriam os motores que animam o processo.

“... tudo o que pode ser encontrado nos estados intermediários entre esta vida e a próxima reside em nós próprios e é projectado como uma realidade exterior...”



Os ensinamentos ali contidos são atribuídos a Padmasambhava (séc. VIII), o introdutor do Budismo no Tibete. Está compreendido entre os textos chamados tesouros espirituais e que teriam sido escondidos, segundo a tradição, tanto em lugares físicos como em planos mentais, para serem mais tarde descubertos pelos descobridores de tesouros e comungados pela série de autênticos detentores da linhagem espiritual. Neste caso atribui-se a sua descoberta a Karma Lingpa. O texto, regra geral, é lido por um lama (mestre espiritual) experimentado em frente ao corpo do moribundo ou defunto para o ajudar a atravessar o estado em que se encontra. Alguns dos ensinamentos aqui contidos, coincidem com os relatos daqueles que tiveram experiências de quase-morte ou NDE.

O livro é composto por 14 capítulos que são:

  1. Libertação natural da natureza da mente;
  2. Oração para união com o mestre espiritual;
  3. Estâncias raiz dos seis estados intermediários;
  4. Introdução à consciência desperta: libertação natural pela percepção;
  5. Libertação natural das tendências habituais;
  6. Libertação natural da negatividade e do obscurecimento;
  7. Libertação natural mediante actos de confissão;
  8. Libertação natural mediante o reconhecimento das indicações visuais e dos sinais da morte;
  9. Transferência da consciência: libertação natural mediante recordação;
  10. A grande libertação pela escuta;
  11. Orações de aspiração;
  12. Um drama de máscaras do renascimento;
  13. Libertação pelo uso: a libertação natural dos agregados psicofísicos.

Diz o texto que é necessário aprender a morrer e que em vida deve-se conhecer as labirínticas passagens da psique para poder dominá-la ante o pavor do desconhecido e a solidão da morte. Todas estas situações são geradas na ignorância e nenhuma destas vicissitudes é real, ensinam os sábios. Nem existe a própria morte fora da imaginação. Diz o texto que o processo de desencarnação decorre durante 49 dias e divide-se em três partes, chamadas bardos e nos quais a consciência liberta não reconhece por completo o seu novo estado.

1º Chikhai Bardo – Estado transitório (momento da morte). Normalmente a consciência não percebe que se separou do corpo.
2º Chonyid Bardo – É o pior. A consciência tem visões e sofre pesadelos nascidos da sua própria imaginação. Representa a incerteza da realidade.
3º Sidpa Bardo – A consciência vai despertando dos seus pesadelos e, segundo o seu karma, desemboca em algum dos lokas ou estados obscuros ou luminosos da mente.

Na segunda e terceira semanas, manifestam-se os deuses, primeiro na sua forma luminosa e depois na sua forma mais aterradora, no que é chamado o aparecimento das divindades pacíficas e depois iradas. Se na morte, a pessoa falha no reconhecimento da sua natureza básica, aparecem as divindades iradas. O conselho é para não temer, pois estas são projecções da própria mente.

O Bardo Thödol apresenta semelhanças ao chamado livro dos mortos egípcio, pois este também revela um caminho a seguir pela consciência que se separou do suporte físico, representado pelo corpo e onde tudo é decidido com base nas acções daquela.

Uma última exortação dirigida à consciência que através dos bardos se coloca frente ao seu juízo é para que saiba que fora das suas alucinações não existem nem senhor juiz dos mortos, nem demónios, nem vencedor da morte. Mahuzri é o senhor da sabedoria, entendê-la significa conseguir a libertação.

Guarda com força o teu espírito lúcido, se sofres, não te deixes absorver pela sensação de sofrimento. Se experimentas um relaxador entumecimento de espírito, se te sentes afundado no calmo obscurecimento, no esquecimento passivo, não te deixes arrebatar. Mantém-te alerta. As consciências que foram conhecidas pelos teus distintos nomes tendem a dispersar-se. Mantem-nas unidas pela força da tua vontade. Eis que estás agora frente a yama, senhor dos mortos; em vão tentarás mentir-lhe, dissimular as más acções que cometeste. No espelho resplandecente que tem na mão, aparecem as formas de todas as actividades mentais e físicas. O espelho onde parece ler, é a memória que te recordará a cadeia das tuas acções passadas e os conceitos que forjaste. És tu quem, pelas propensões que estão em ti, que vais pronunciar o teu juízo e que vais assignar-te tal ou tal renascimento e nenhum deus terrível te impulsará a isso. Irás por ti mesmo.


Deste belíssimo trecho se depreende que uma consciência modelada através da vontade é o gérmen de uma nova vida frutífera, o que também pode ser entendido de outra forma, representando uma renovação na encarnação em que essa vontade é aplicada de forma constante e regular. Deixa claro também que tudo o que pode ser encontrado nos estados intermediários entre esta vida e a próxima reside em nós próprios e é projectado como uma realidade exterior, realidade essa que ao ser conhecida e dominada, propicia uma passagem mais suave e com menos sobressaltos na viagem mais aventureira que a consciência pode fazer.

 

 

Daniel Oliveira
Investigador e Formador da Nova Acrópole
23 de Julho de 2012

Este texto não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico



 

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