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A Filosofia - Mãe das Artes
A Arte (do latim Artis, saber fazer) é o modo de interpretar a natureza (saber é compreender) e tornar sensível o belo (fazer é produzir o belo) através da Arte, podermos captar e representar as ideias; por isso a arte é uma ponte entre o visível e o invisível. Quanto mais perto estamos da compreensão do mundo, mais alcançamos o poder da representação - isto explica o porquê da beleza de uma pintura, uma poesia, uma escultura, um pensamento, uma música, um monumento, etc....
O belo, como resultado da harmonia, é a verdade na arte e, se entendemos a luz como a síntese de todas as cores, podemos dizer que o belo é a síntese luminosa da arte ou a sua quinta-essência. Para contemplar o belo é necessário estar preparado e sintonizado; não basta possuir uma boa técnica ou aptidões natas; é sobretudo necessário possuir intuição; é ser um veículo limpo e aberto à verdade.
Quando estudamos a história da arte, estamos a recordar a história da imaginação da humanidade pois cada imagem do mundo é sempre uma nova ideia do mundo. A arte fala-nos da vida, da forma como sentimos, compreendemos, sonhamos e amamos.
No mundo de hoje, a beleza tornou-se um valor estereotipado exterior, sem conteúdo e cativo das modas e do prazer puramente físico. Condenada pelo tempo, devoradora de corpos, a beleza perdeu o seu poder de iluminar o mundo e trocou a sua Afrodite de ouro por meros objectos de decoração sem alma
A história da arte é a memória das formas que nos falam do homem ao longo do tempo, do seu desejo de interpretar e de perdurar na criação sempre renovada de si mesmo.
A beleza das coisas constitui sempre um mistério para os sentidos pois o belo ilumina as formas mas não é limitado por elas. A luz é o agente oculto da vida; basta um raio de Sol para transformar uma pedra insignificante numa jóia reluzente. Toda a verdadeira obra de arte liberta um clarão de luz que produz consecutivamente uma onda de efeitos sobre o espectador, prazer dos sentidos, comoção na Alma e júbilo do Espírito.
A arte é amor porque elimina as distâncias entre os corpos e aproxima as partes numa fusão amorosa. O grande poeta português Camões dizia: ”Só não ama a arte quem não a sabe”. Amar a arte é perdurar num sentimento de harmonia e é também viver com o amor dos homens. O amor e a beleza são Um com o ser da verdade pois o amor é união, a beleza é luz e o ser é eterno.
Para os Gregos, as artes são filhas de Apolo, o Deus da luz e da verdade e de Mnemosine, a Deusa da memória.
As Musas ou as artes são as inspiradoras da humanidade; através delas recordamos o essencial e voltamos a reproduzi-lo em conformidade com os modelos perfeitos, e como dizia Emerson, “o imaginativo é aquele que acorda para um sentimento de imensa longevidade”.
Para que o olhar do artista se agudize numa ‘demarche’ de conhecimento e penetração, tem o pintor de conhecer o mundo, de o penetrar, tem de tornar claras as suas ideias para que a sua pintura seja clara, saber do que pinta e pintar do que sabe. A confusão no Espírito conduz invariavelmente a formas confusas.
Lima de Freitas
O BELO NA ARTE
A Estética 
“O segredo da arte está na operação pela qual se transcende o objecto”.
Múltiplas vezes confundimos o Belo com as coisas belas. Vimos anteriormente que a ideia do Belo é indissociável do Ser porque não é propriedade de nenhum corpo ou forma em especial e possui a qualidade de se reproduzir no infinito sem qualquer limitação ou seja é atemporal e indestrutível. Assim, quando afirmamos que isto ou aquilo é Belo deveríamos antes dizer que isto é possuído pelo Espírito da Beleza. As obras-primas não têm época; são de todos os tempos e participam de todas as formas de criatividade.
É a própria dimensão da consciência humana que permite revelar com mais ou menos perfeição a ideia do Belo. Ao longo da nossa história alcançamos momentos de incomparável beleza, mas noutros também nos afundamos em abismais terrenos de destruição.
A plasmação da arte segue os grandes ciclos da vida e, como tal, está sujeita a ver nascer e morrer os seus corpos. Por amor à arte fizeram-se músicas, poesias, pinturas e templos e o Espírito do amor nela depositado reencarnou em outros corpos, em outras formas de arte até um dia inundar por completo as nossas vidas.
A nossa sensibilidade para com a arte nasce da consciência estética. A estética é a ciência que estuda as formas de representação da beleza. Através dela podemos analisar a forma como foi sentida a beleza ao longo dos tempos.
A estética educa a nossa Alma e permite-nos reconhecer a natureza do Belo verdadeiro.
Através da estética entramos em contacto com o plano mental, espiritual e físico ou material.
Entre o terreno e o sublime, entre a obscuridade da matéria e a claridade do Espírito, oscilam os nossos esforços para alcançar a harmonia e ultrapassar a dissolução da morte. Assim, as artes vão representar imagens que perscrutam o outro lado da vida sensível, utilizando a alegoria como degrau de uma escada para alcançar o infinito. O simbolismo é um instrumento poderoso na interpretação da arte, é um elo de ligação entre o mundo objectivo da representação e o mundo subjectivo da intuição. No entanto nem sempre o símbolo é introduzido de forma consciente mas basta um ponto, um traço para revelar algo da intenção do artista.
Quanto mais consciente é a arte, mais poder é emitido ao redor pois consciência é saber o que fazer e como fazer. Deste modo a imagem do homem de cada época é visua-izada na arte, através dele revelam-se os estados da Alma colectiva e individual, são sentimentos que nos falam da realidade vivida naquele momento exacto. Quando a Alma está embriagada por um sopro de transcendência surgem imagens de uma suprema beleza; quando a Alma desviada do seu alvo espiritual se mistura com as trivialidades humanas, então torna-se sofredora e contagia-nos um alento sinistro de decomposição. Deste cenário Dantesco o Homem é o centro da criação e da sua própria destruição.
ARTE DIVINA - ARTE HUMANA
Nas grandes civilizações da antiguidade, a arte é de origem celestial, centra-se na consciência Espiritual, a sua tendência está sempre relacionada com o despojamento de elementos superficiais e reveste-se de características essenciais.
Segundo a tradição Oriental, o Tathâgata (Buda) transmitiu a sua imagem da seguinte forma:
Enquanto um dos seus discípulos procurava reproduzir a sua imagem sem conseguir alcançar uma proporção justa pois as medidas pareciam sempre muito pequenas para captar a imagem, Buda pedia ao artista que se inspirasse no contorno da sua sombra projectada pelo Sol.
Assim nasceu a imagem sagrada do Tathâgata; daí a analogia secreta entre a imagem do Buda e o Stupa (nincho ou capela) que é construída na mesma proporção que o Buda sentado. No Cristianismo o simbolismo do templo é feito à imagem do corpo de Cristo na cruz. No Egipto antigo, encontramos a mesma relação nas palavras de Hermes Trimegisto: “Ignoras tu ò Asclépios que o Egipto é a imagem do Céu e que é a projecção aqui em baixo de toda a ordem das coisas celestes”. Assim, os modelos sagrados utilizados na arte protegem o homem da degenerescência. Ela emana dos princípios Arquetipais da natureza; são símbolos de verdades inalteráveis.
A arte sagrada é vista de cima para baixo, seguindo o processo de emanação que vai da unidade à multiplicidade.
A arte sagrada não inventa nada de novo mas cumpre a sua missão de responder às inquietações profundas do ser humano, revelando-nos as respostas de uma sabedoria primordial. Este saber é transmitido por aqueles que conhecem os segredos da natureza; ele é um pontífice (aquele que faz a ponte entre dois mundos - físico e metafísico). Na arte divina a imaginação serve para revelar a natureza do real e eventualmente ela propicia uma efervescência de imagens (arte Oriental - Egípcia - medieval) que têm equivalência ao poder da Maya Hindu que significa substância ilusória; simbolicamente essas imagens servem para despojar o olhar da Alma da sua sombra e são um puro fenómeno psíquico de exorcização das formas híbridas do feio e do efémero.
Se as portas da percepção fossem limpas, tu aparecerias ao homem como és, infinito, porque o homem encerrou-se em si próprio até ver todas as coisas através das estreitas fendas da sua caverna.
William Blake
A arte divina é de natureza essencialmente mistérica e religiosa (do latim religare, voltar a unir) ausente de inovação quanto aos princípios utilizados; é uma consequência da sua perene estabilidade. A arte divina não se desvia do seu centro imutável e é inimiga da mudança que representa o poder da incerteza e da dúvida. Um exemplo desta arte imutável é sem dúvida a arte Egípcia, enraizada nos seus imortais princípios durante mais de 5000 anos e a antiga China que perdura fiel à sua sabedoria Taoista e da qual irradia todo o engenho humano como a medicina, a alimentação, a pintura, a arquitectura, a poesia, etc. A lei do pêndulo da história revela-nos que qualquer oscilação fora do centro é inexoravelmente o início de um movimento de afastamento da estabilidade.
O Universo, como reflexo dos múltiplos movimentos dos seus corpos, forma a imagem da vida que se expande em direcção ao retorno, ao não movimento; tudo flui, tudo se transforma para reintegrar a unidade e o silêncio. Como uma gigantesca teia de acontecimentos que são movimentos para reencontrar a unidade, enlaçam-se os ciclos que oscilam entre o excesso e a falta. (Poros - a saciedade e Penia - a carência, na Filosofia de Plotino). Assim, vislumbra-se na História da arte a intermitência de belas imagens, frutos da conquista de uma consciência superior ou a sua sombra nas imagens turvas das nossas incertezas, sombras essas que também são sinais de quanto território interior nos falta iluminar.
Revelar o Bom e o Belo que dorme em cada um de nós - esse é o destino da arte.
O EROS E AS METAMORFOSES DA ALMA
Como reacção aos abusos e excessos da velha Roma, a Idade Média faz do corpo a sua imagem do pecado. Os corpos amaldiçoados são o símbolo do mal e inimigos das almas.
“soma, sema”, o corpo é um túmulo - palavras órficas
A nudez é vista como obra da tentação da queda e do diabo. A imagem sagrada (Ícone) redime o homem e proporciona-lhe a salvação. Exemplos disso são o Cristo de Mandilion (Acheipoietos - não feito por mão humana) e a imagem da Virgem de S. Lucas, que são portas para o Paraíso. Na iconografia Românica e Gótica da Idade Média todos os caminhos da arte são orientados para a purificação das almas; a chave da salvação é o Cristo Rei feito carne e é a carne redimida pelo Eros Divino. O amor desse tempo é um sentimento místico e religioso que transforma a alma humana na noiva do Redentor. A consagração do amor profano só se faria sentir pela aproximação do Médio Oriente que, durante as cruzadas, influenciara as camadas da Nobreza pelo amor cortês, que pouco a pouco irá consolidar as bases do amor cavaleiresco precursor da nova era renascentista. A busca do infinito em Deus, transforma-se na busca de infinitas formas de conceber a realidade.
O Eros renascentista é o poder de ligação e afinidades entre as múltiplas manifestações da vida.
O Eros volta à Terra para libertar os corpos do inferno e a beleza volta a iluminar a Terra. O homem passa a ser o tema central para interpretar os segredos da Natureza.
O JARDIM DA TOSCÂNIA
O Eros em Ficino
“O ouro alquímico dos pintores bizantinos refugia-se na magia secreta do número de ouro das Academias Florentinas”.
Lima de Freitas
Os laços espirituais que unem a tradição da Antiguidade ao Renascimento são subtis e mistéricos. Enquanto a Grécia nasceu sob a protecção e impulso de grandes adeptos iniciados como Orfeu, Pitágoras, Ésquilo, Platão, uma outra antiga e misteriosa corrente vinda da remota herança da mítica Atlântida tinha inundado com o seu saber do Oriente para Ocidente: Tibete, Índia, Ásia, Médio Oriente e sobretudo o Egipto, focos estes de transmissão de conhecimentos que iriam cruzar-se na antiga cidade de Alexandria, pátria de um novo Hermetismo que, à imagem do corpo desmembrado do Deus Osíris, se apresentava sob uma forma dispersa de tradição esotérica como a cabala hebraica, os livros de Thot (Hermes), a Gnose, etc. A escola dos Neoplatônicos de Alexandria vai através de grandes mestres do saber como Amonio Saccas, Plotino, Porfírio e Jâmblico, tornar-se um elo de li-gação entre o fim do Mundo Clássico, a Idade Média e o Renascimento.
Petrarca, Dante, Cornelius, Agrippa, Paracelso, Marcilio Ficino, Pico da Mirandola, Giordano Bruno e toda uma pleiâde de pensadores, filósofos e artistas foram o motor interno do Renascimento e todos se inspiram nos ensinamentos da sabedoria eterna.
Pico da Mirandola (1463-1494) erudito pensador do século XV retractou-nos a fisionomia da sua época.
“Os domingos são de festa, pela manhã vai à igreja ouvir as interessantes fábulas que o Padre tem para te dar. Nunca saíste da tua aldeia, a cultura é algo desconhecido, o mundo é plano e o céu está em cima, o inferno está nas entranhas da Terra, o Universo é instável e incompreensível, as forças naturais são manifestação do bem e do mal e só a oração pode alterá-las. E sabem que a maior parte das pessoas parti-lha do mesmo destino, em algumas cidades da Europa, há gente que lê e escreve, e nesse pequeno mundo tratam de encontrar um sentido para o Universo e o destino”.
Pico da Mirandola analisa o pensamento da sua época, impregnado da filosofia escolástica de Alberto Magnus e do seu discípulo Tomas de Aquino (1225-1274), e fala da desonestidade desta doutrina que se revestiu do pensamento Aristotélico para fundamentar racionalmente o seu dogma. Pico da Mirandola foi discípulo de Marcilio Ficino e com ele estudou a filosofia Platónica.
Na sua obra: “Da dignidade humana” ele restitui ao homem o seu livre arbítrio e inteligência, emancipando a filosofia e a ciência da Teologia dogmática. Pagou por isso sofrendo a represália Papal e, acusado de heretismo será perseguido e encarcerado. Depois de sair da prisão acabará por renegar em parte as suas ideias, escapando desta forma a maiores castigos. Mais uma vez, o mito de Prometeu se tornou história e o fogo descerá à Terra, transformando-se no fogo interior de tantos grandes mestres e artistas do Renascimento.
Florença, a capital da Toscânia é o centro de irradiação do novo humanismo e, graças ao poder económico das ricas e poderosas famílias florentinas, iriam ser reunidas as condições de mecenato para fomentar o desenvolvimento das artes, ciências e filosofias.
Cosme de Medicis (1433), fundador da dinastia dos Medicis, bancário e possuindo uma grande sensibilidade pela cultura greco--romana, quis realizar o seu sonho; fazer de Florença a capital cultural e política da Toscânia, uma nova Atenas Itálica. Para isso encarregou Marcilio Ficino (1433-1499), que reúne as qualidades de tradutor dos clássicos e estudioso da filosofia Platónica, para dirigir esta nova academia.
Marcilio Ficino é o modelo ideal do homem renascentista, filho de médico, apaixonado pela filosofia clássica, ele é também sacerdote, terapeuta, astrólogo, músico e poeta, um mago precursor do conceito da holística moderna. O seu discípulo, o grande Lourenço, filho de Cosme de Medicis, considerava o seu mestre uma reencarnação de Orfeu; Ficino invoca o poder da música para criar um mundo harmónico “Deus é Natura, e Natura é Deus”.
A matemática sagrada estabelece as relações entre o Macro Cosmos e o Micro Cosmos. Todas as formas tocadas pelo Espírito de Deus reflectem a beleza da Divina proporção: “A beleza e o esplendor da face de Deus”.
A alma de Ficino é arrebatada pelo esplendoroso Eros, como o amor no mito de Orfeu liberta Eurídice (a alma) do mundo inferior.
Como Hermes, o três vezes nascido, Ficino une os três mundos, sendo ao mesmo tempo médico dos corpos, condutor das almas e sacerdote da luz. As alegrias morais e intelectuais do pensamento filosófico são o prelúdio da felicidade mística da meditação. Como um espelho mágico a imagem do filósofo se reflectirá em todos aqueles que virão participar do mesmo espírito. Leonardo da Vinci traduzirá na pintura o segredo da transfiguração da alma. A “Última Ceia” é o modelo astrológico do mundo. A Virgem dos rochedos, o rosto etérico de Stª Ana e o sorriso da Mona Lisa são o resultado das núpcias do Amor com a natureza humana. Da mesma forma, Boticelli invoca na sua “Primavera” o chamamento da alma para a luz, e com “O Nascimento de Vénus” a plasmação do ideal de beleza da criação, onde Vénus translúcida evoca os primórdios da alma imaculada que nasce para o mundo da geração. Todas estas obras são revestimentos alegóricos da sabedoria Hermética, transfi-guração do homem tocado pelo dedo de Deus.
AS ARTES DA VIDA
A Educação da Alma
A Psique ou Alma é a dimensão que liga o corpo ao espírito, é um filtro entre o mundo sensível e o supra sensível, é a experiência que surge da união da ideia com a matéria.
A experiência é a memória consciente do vivido e do sabido. A consciência é o olho interno da alma e, como tal, alimenta-se de imagens do Mundo; algumas imagens são fragmentos da ilusão passageira, outras têm a proporção dos Arquétipos. Em conformidade com o alimento da alma, vamo-nos tornando sensíveis ao ponto de despertar o bom, o justo e o belo. Na natureza do mundo, somos aquilo que pensamos mas também aquilo que fazemos. A escolha do melhor é o resultado da nossa memória como experiência e inteligência, como capacidade de opção.
Para Ficino as artes da vida são as escolhas selectivas, bem viver quer dizer viver em harmonia com a natureza.
A virtude molda a forma de um homem tal como as ideias do carpinteiro se tornaram visíveis na sua casa, o corpo de um homem toma forma de acordo com a natureza da alma
Tudo na vida é uma arte, é isso que contribui para o encantamento dos nossos dias. “Toda a natureza é ligada por afinidades ocultas, o amor acompanha o caos, precede o Mundo, desperta o que dorme, ilumina o que é obscuro, ressuscita o que está morto”. Para Ficino a magia natural é um processo erótico, é o elo de ligação entre todos os reinos como também as afinidades entre o corpo a alma e o espírito. Todo o poder da magia do Renascimento está inspirado no Eros. Ficino no seu livro sobre o amor disse: “o Mago não separe o Eros do Logos, o amor do conhecimento”.
“A magia é um modo de vida que deve impregnar todas as vertentes da realidade, não deixando que a natureza permaneça misteriosa mas, pelo contrário, se a conheça profundamente partilhando os seus tesouros escondidos”.
As artes da vida de Ficino revelam toda a grandeza e nobreza do Espírito Renascentista.
Através desta abertura ao saber da natureza, surgiu um mundo renovado e um novo impulso para a evolução da humanidade.
A perda gradual desta visão universalista precipitou o andamento do pêndulo da história e da contra-reforma ao liberalismo ateu; degradou-se o modelo do homem que passou da produção da beleza ao prazer da produção. A ciência apoderou-se das máquinas de Leonardo da Vinci mas esqueceu-se do sorriso da Mona Lisa.
Numa busca insaciável de poder imediato, o saber entregou-se aos instintos do corpo e, tal como no Fausto de Goethe, o mundo moderno perdeu a sua alma e a sua humanidade.
A virtude molda a forma de um homem tal como as ideias do carpinteiro se tornaram visíveis na sua casa, o corpo de um homem toma forma de acordo com a natureza da alma.
A natureza não age de modo diferente, ela confere ao homem uma aparência exterior que está em conformidade com a sua constituição interior. E a alma de cada homem pode ser reconhecida, tal como o carpinteiro pode ser conhecido pela sua casa.
Paracelso
O Mundo como obra de Arte
O elixir para a alma é um composto alquímico de beleza, amor e conhecimento. No mundo de hoje, a beleza tornou-se um valor estereotipado exterior, sem conteúdo e cativo das modas e do prazer puramente físico. Condenada pelo tempo, devoradora de corpos, a beleza perdeu o seu poder de iluminar o mundo e trocou a sua Afrodite de ouro por meros objectos de decoração sem alma.
O amor indigente perdeu-se nos meandros das relações interpessoais na busca da sua própria imagem, esqueceu-se do seu anseio de plenitude e da sua leveza incondicional.
Quanto ao conhecimento, ficamos decididamente retidos nas fronteiras do útil e funcional da instrução sem educação, do efémero sobre o essencial. Fomos até à Lua mas não conseguimos conhecer-nos a nós próprios, continuamos tão cegos interiormente como antes de ter pisado o solo Lunar. O mundo de hoje necessita mais de beleza que de dinheiro, mais de amor que de sexo, mais de conhecimento que de informações.
A filosofia à maneira clássica é a resposta apropriada a este fim de século que, como no tempo de Ficino, viu ressurgir um novo dia para a humanidade, como na Academia Florentina, necessitamos reencontrar o valor da amizade filosófica e do amor ao saber, do fazer com amor, necessitamos voltar a unir os valores morais do bom aos ideais do justo. Empenhemo-nos em restituir a imagem de beleza ao nosso mundo. Necessitamos recriar esta magia simpática entre o grande e o pequeno, entre aquilo que está em baixo e aquilo que está em cima e, neste novo impulso, vindo do fundo dos tempos, sentir crescer as asas que nos levarão até novas aventuras, mais além deste horizonte vazio de esperança. Somos a continuação do mesmo sonho, da mesma sede de infinito. Somos o Amor que liga o passado, presente e futuro. A esperança que nunca morre porque a primavera volta sempre.
Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole
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