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A Magia à luz da Antropologia

 

magia

Etimologicamente, a palavra magia vem do persa. Designava uma casta sacerdotal no reino dos Medos: os Magos (mag). Esses sacerdotes praticavam a astrologia e outras ciências esotéricas. Na actualidade, a palavra magia designa, em geral, todas as crenças e práticas que não entram no quadro dos cultos organizados e que, além disso, representam ou pressupõem uma crença – não uma crença qualquer, porque senão toda a religião seria magia –, mas crença na existência de uma força sobrenatural que não é alheia à própria natureza.

 

"A magia permite a circulação entre o visível e o invisível. É uma ciência das relações: permite entrar em comunicação para se ter uma influência no decurso dos acontecimentos"



Magia e Religião

Na natureza há leis, princípios e forças palpáveis, visíveis e, portanto, compreensíveis do ponto de vista conceptual e, por outro lado, existem forças invisíveis, inacessíveis aos nossos sentidos, mas igualmente reais.
Por exemplo, quando encontramos alguém, vemos o seu corpo, ouvimos a sua voz, etc. Tratam-se de percepções directas. Além disso, essa pessoa transmite-nos um certo número de sinais pela sua expressão não verbal. Mas, por vezes, sem que se note qualquer sinal particular, pensamos que essa pessoa possui algo que atrai ou que afasta, algo que vem do seu próprio interior, que lhe é imanente.
Do mesmo modo, se atribuirmos um papel de segundo plano numa peça a um grande actor, esse papel irá ter uma importância enorme. No entanto, objectivamente, nada mudou, nem o papel, nem as palavras, nem a peça. Esse poder é intrínseco ao próprio actor.
Enquanto que a magia utiliza as forças imanentes à natureza, mesmo quando elas parecem «sobrenaturais», a religião implica a transcendência do sagrado, ou seja, a existência de uma força fora do objecto e que actua sobre ele a partir do exterior. A imanência (a força que está no interior das coisas) ao mesmo nível, é a horizontalidade, ao passo que a transcendência é a ruptura de nível, a verticalidade. Com efeito, as coisas são ao mesmo tempo um jogo de imanência e de transcendência.

Cristianismo e Magia

Ao longo da sua expansão, o cristianismo combateu as crenças dos autóctones, isto é, lutou contra a magia. Na realidade, precisava de erradicar a força própria dos lugares onde penetrava, da geografia dos povos que queria converter, a fim de assegurar o seu desenvolvimento e a implantação da sua teologia. Deixar persistir o imanente desses povos podia acarretar-lhe dificuldades acrescidas na conversão e no domínio total que desejava impor.
Desse modo, o cristianismo lutou contra o paganismo e proibiu a magia nos ritos. Fez da erradicação da magia o seu cavalo de batalha, sem deixar por isso de praticar uma magia de irradiação. Com efeito, ao nível dos mecanismos, trata-se realmente de uma prática mágica, embora um padre nunca possa aceitar a ideia de a ter realizado.

Os diferentes tipos de magia

A magia cerimonial ou indirecta. A operação de influência ou de posse faz-se através de ritos ou de cerimónias, e não por uma acção directa sobre as coisas. Assim, actua-se não sobre os homens, mas sobre outros espíritos para se obter um determinado resultado.

A magia natural ou directa. Actua-se sobre a natureza e, portanto, directamente sobre as coisas mediante uma técnica. O curandeiro, por exemplo, cuida directamente do seu paciente (cf. O xamã), mas isso não o impede de fazer uma cerimónia.
A técnica assenta na maior parte das vezes nas leis de parecença (magia imitativa). Assim, o caçador do paleolítico que pretende atrair uma presa fará uma dança em que imitará o animal, alvo da sua caça, a tal ponto que ele próprio se converte nesse animal. Na medida em que consegue imitar o outro e entra nele, transforma-se em engodo para a sua presa que sucumbirá a essa atracção. A magia imitativa é contagiosa. Em consequência dessas danças, toda a gente entra numa espécie de euforia, de êxtase colectivo.

A magia preventiva. Os encantos e os talismãs pressupõem antecipar os problemas e possuírem um papel preventivo.
Todos nós utilizamos esta forma de magia, quando nos maquilhamos, usamos jóias, etc. Porquê? Para encantar, para criar uma imagem de nós próprios diante dos outros, para enviar sinais. As «maquilhagens» são magia preventiva! Aliás, não há um único povo, mesmo sem vestuário, que estivesse desprovido de ornamentos, de tatuagens, ou seja, de uma bagagem simbólica. O homem não se vestiu só para se proteger do frio mas, acima de tudo, por uma razão mágica. É evidente que as tatuagens não protegiam o corpo das intempéries, mas sim do outro, do anonimato, dos espíritos. Dessa forma, todos nós somos, inconscientemente, praticantes de magia.

A magia activa. Tratam-se de cerimónias estereotipadas, receitas que encontramos em velhos formulários (peguem num sapo, juntem-lhe um copo de água, saliva de…). De uma forma mais banal, por exemplo, ao pegar numa receita de cozinha que a minha avó me deixou, reproduzo o que foi, dou vida a algo que não passava de uma recordação.

Magia Branca e Magia Negra

A magia pode ser branca, negra ou cinzenta conforme a finalidade que se procura. Em geral, o teor das nossas intenções é cinzento…
A magia negra está muito próxima da feitiçaria. Permite a apropriação de coisas com vista à obtenção de certos poderes para fins egoístas, pessoais, em detrimento de outras pessoas.
A magia branca, pelo contrário, tem finalidades curativas. Enquanto o feiticeiro tem como finalidade a destruição, provocando a doença, a loucura, a morte, o xamã procura trazer benefícios, melhoria, crescimento. No entanto, é difícil delimitar a fronteira entre os dois.

A magia: fé e ciência

A magia apresenta-se simultaneamente sob dois aspectos fundamentais: o da fé e o da ciência. A fé através do nome e da palavra. A ciência através do gesto e da imagem. A magia é uma ciência pois precisa de gestos e imagens repetitivos e muito precisos. A receita em si implica uma repetição de acções. Mas, ao contrário da ciência tal como nós a entendemos, esta ciência dos gestos e das imagens não é independente do operador. Com efeito, é necessário por parte do mago fé e crença na acção que vai levar a cabo, no poder daquilo que faz, o que é, aliás, contrário aos princípios da ciência conceptual e cartesiana. Crer sem fazer os gestos adequados conduz ao fracasso, mas fazer os gestos sem crer, ou seja, sem estar implicado, incorporado no seu acto, conduz igualmente ao fracasso.

O quadrado mágico

O quadrado mágico inclui o nome e a palavra (coisas abstractas) e a imagem e o gesto. A base da concepção central da magia é a possibilidade de reunir esses quatro elementos num quadrado actuante.

O nome. Ao estudar todos os rituais de magia apercebemo-nos da necessidade de conhecer o nome real da coisa. Ao chamar as coisas pelo seu nome, identificamo-las, adquirindo assim um poder sobre elas. Quando me cruzo com alguém na rua, e lhe digo «olá» ele fica indiferente ou encolhe os ombros, mas se, por acaso, ele se chama João e eu grito «João!», então ele pára.
Ao saber nomear o alvo, o objecto de cobiça, de desejo, temos poder sobre ele. Nos estágios de recursos humanos aprendemos a importância de chamar o cliente pelo seu nome e não apenas «senhor» ou «minha senhora», pois isso cria uma relação privilegiada e íntima. Poder nomear as coisas ou os sujeitos cria um circuito relacional. Essa rede magica, utilizamo-la a cada instante.

A palavra certa. Para além do nome, se utilizarmos a palavra certa, a frase que sabe interpelar… juntamo-nos aos especialistas do marketing!

A imagem. Depois, há que acrescentar o sistema adequado de representação que nos torna «simpáticos». O corpo é um sistema de representações extraordinárias: é a primeira das imagens. Na comunicação, 90% dos sinais emitidos são não-verbais: isto revela bem a importância da imagem. Se o hábito não faz o monge, ajuda!

O gesto. Não basta representar, é preciso ser. Um bom curriculum vitae, uma boa apresentação não bastam: também é preciso competência.
Nenhum destes quatro pontos é hierarquicamente superior aos outros. E se, em certas operações, um ângulo deste quadrado mágico adquire uma maior importância, não deixa de se tratar de um sistema relacional. Como conceitos, magia e comunicação caminham lado a lado.

Mimetismo e simpatia

A magia permite a circulação entre o visível e o invisível. É uma ciência das relações: permite entrar em comunicação para se ter uma influência no decurso dos acontecimentos.
A relação estabelece-se primeiro por mimetismo. Este mimetismo exprime-se sem palavras: representa algo que não é, mas que tem aparência de realidade. É assim que se vê o mimo Marceau a «criar uma realidade». A percepção faz-se pela imaginação e nenhuma câmara pode filmar o que se vê. Pela imitação incorporamo-nos em… ou incorporamos os participantes em…, de um modo tão intenso que é «como se…». Provocamos uma relação analógica de simpatia, uma associação entre os sinais que estamos a utilizar e o objectivo que interessa. O princípio da associação consiste em criar um laço entre coisas que, na aparência, não são idênticas nem estão relacionadas.
Se a operação não permite a comunicação entre todos, o quadrado não se anima: não há magia. Quando um bom actor representa, o público acredita nisso. A missão do actor é fazer com que o público se incorpore e se identifique com a personagem, com a acção, permitindo com isso reforçar esta coisa extraordinária: um laço. Quando toda a gente participa, «a coisa funciona».

 

"No séc. XVIII, Jacob Boehme, filósofo da natureza, escrevia: «A magia em si não é senão uma vontade. E esta vontade é o grande mistério de todas as maravilhas e segredos. Actua pelo lado afectivo do ser"


A magia: Uma atitude voluntarista e operativa

No séc. XVIII, Jacob Boehme, filósofo da natureza, escrevia: «A magia em si não é senão uma vontade. E esta vontade é o grande mistério de todas as maravilhas e segredos. Actua pelo lado afectivo do ser». O ponto comum de todas as magias é uma vontade que nasce do desejo de ser. Sem vontade, não há magia.
A magia é uma atitude voluntarista e não fatalista, já que acredita poder contornar os obstáculos, fazer de outro modo. Ela procura exercer uma influência sobre os acontecimentos considerados irrefutáveis. Pelo contrário, o comportamento da religião, que exalta a aceitação, revela-se muitas vezes fatalista. A magia não aceita, actua. Nesse sentido, ela é, ao mesmo tempo, moderna e arcaica.
A magia não é um sistema cognitivo ou especulativo. Por essa razão, é difícil defini-la. Não é uma visão do mundo, é uma experimentação e uma acção.
O objectivo da magia não é saber, mas sim actuar. Quando muito, não é importante saber como isso funciona, já que o essencial é que «isso funcione». Poder estabelecer leis de funcionamento não tem nada a ver com a possibilidade de obter um resultado. É por essa razão que é possível fazer magia intuitivamente.
A magia é uma atitude pragmática. Estritamente operativa, concreta e experimental, ela faz parte das técnicas que recordam a sua origem. E a origem do comportamento mágico está no início da primeira economia de base humana: primeiro a colheita, depois a caça (a cultura e a criação de animais só apareceram mais tarde).
A magia imita, simula, disfarça: são, precisamente, os comportamentos do caçador. Ao correr atrás de um animal cujo comportamento ignora, o caçador pode ser visto e, assim, afugentá-lo. Por isso deve disfarçar-se, compreender perfeitamente o animal, «meter-se na sua pele». A presa exerce um tal fascínio que o caçador irá «revestir-se» das suas qualidades e da sua força. Paradoxalmente, o animal que se vai matar, torna-se a fonte da nossa admiração, o objecto do nosso fascínio, enquanto vivo e após a sua morte.
O tecido arcaico e original da magia está, pois, ligado a uma actividade concreta, essencial para a subsistência do grupo humano.


Fernand Schwarz
Antropólogo, Cruz de Paris em Artes, Ciências e Letras.
(Extractos de um curso ministrado na École d’Anthropologie de Paris)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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