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O Mistério Atlante

 

«As descobertas físicas que Portugal realiza no mundo, tornando visível aquilo que a destruição da Atlântida tinha tornado invisível, são uma primeira rectificação, um novo sinal de aliança entre os homens.»(1)

António Cândido Franco

«Sabe-se que a Tula mexicana deve a sua origem aos Toltecas, povo que teria vindo de Aztlan a terra no meio das águas’ (referência à Atlântida), donde trouxeram o nome de Tula. O centro que deram a esse nome substitui provavelmente e em certa medida o do continente desaparecido.»(2)

René Guénon

 «Dentro deste nosso mar Oceano, que aqui logo perto entra este rio, contam que havia naquele tempo uma ilha tão abundante e tamanha em terras, rica em cavalos, que dali todo o mundo quase senhoreava: falavam dela maravilhas grandes.»(3)

Bernadim Ribeiro

 

A possibilidade científica da existência da civilização atlante referida por Platão foi, desde há décadas, posta de parte pela arqueologia oficial. Considera-se mesmo ridícula a aceitação dessa teoria. A nosso ver, os arqueólogos e historiadores precipitaram-se mais uma vez. Schlieman acreditou na validade histórica da tradição homérica, lutou contra os preconceitos instituídos e descobriu Tróia. Algo de semelhante se poderá passar com a Atlântida. Não existindo ainda uma prova científica concludente, as provas indirectas que apontam para a sua existência são numerosas. Já divulgámos algumas em trabalhos anteriores. Agora, desejamos assinalar que o estudo da possibilidade de existência da civilização atlante que, segundo Platão, terá sido submersa por um dilúvio há cerca de 11 500 anos, poderá trazer uma nova luz ao estudo das raízes mítico-históricas, etnográficas e antropológicas das populações do Ocidente Peninsular.

A Atlântida está presente sob diversas formas no património lendário português e galego. O general João de Almeida, na sua dissertação de licenciatura apresentada na Faculdade de Filosofia Natural da Universidade de Coimbra, em 1901, intitulada O Fundo Atlante da Raça Portuguesa, defendeu que «o sentimento da existência da Atlântida nunca se perdeu; ele esteve sempre presente na memória dos Lusitanos e perdura ainda na alma dos Portugueses», e dá o testemunho de que o pai, na sua infância, terminava a oração do final da ceia rezando por «aqueles que ficaram soterrados no fundo das águas do Atlântico, para que Deus tenha a sua alma em descanso», evocação que era realizada de igual modo «naquele tempo em todos os lares da Beira». E acrescenta, quanto a nós significativamente, que ainda naquele tempo era «uma crença popular, através de muitos milhares de gerações, especialmente nas aldeias da Beira, a existência de cidades encontradas no fundo do mar Atlântico, de uma das quais há-de ressurgir D. Sebastião montado num cavalo branco, em manhã de nevoeiro.»(4)

A existência desta civilização atlante, situada geograficamente en­tre a Europa e a América – os Açores e a Madeira seriam os picos das suas montanhas mais altas –, fornece uma razão plausível para a expansão da cultura megalítica que aconteceu, sobretudo, no litoral atlântico da Europa. Migrações desse continente atlante ter-se-iam dirigido para o Ocidente Peninsular, a Irlanda, a Grã-Bretanha, a Armórica francesa, etc., e o facto é que a similitude entre a arte megalítica destas regiões é inquestionável. Portugal e a Galiza representam a região com maior densidade de monumentos megalíticos e fazem parte desta cultura atlântica (cf. estudos arqueológicos sobre o Bronze Atlântico, com possível origem no Ocidente Peninsular) de origem desconhecida.

 

"Platão, no Crítias, sustenta que a capital atlante era composta por diversos círculos de terra e água intercalados"

 

Segundo muitas tradições, estes atlantes seriam «gigantes», ou seja, seres de uma estatura superior à dos actuais seres humanos, e não há dúvida de que esses gigantes se encontram em inúmeras mitologias. Este facto poderá estar relacionado com a tradição do São Cristóvão Gigante, a cristianização de uma divindade antiquíssima ou a reminiscência de uma figura mítico-histórica. Os Gigantones presentes nas nossas festividades e em muitos outros locais da Europa também poderão ser uma remanescência desses gigantes atlantes.

Mário Roso de Luna dizia que os povos indo-europeus, antes de terem iniciado o seu périplo de Oriente para Ocidente, teriam iniciado a sua peregrinação, em tempos longínquos, desde a Atlântida em direcção ao Oriente, onde teriam modelado os novos arquétipos. Seriam os ário-atlantes, dos quais os pelasgos gregos e os construtores de dólmenes teriam sido uma expressão. Assim, o Ocidente Peninsular teria tido uma espécie de Idade de Ouro com o reino dos sábios-serpentes. Depois, muitos desses ário-atlantes continuaram a sua caminhada em direcção ao Oriente, ficando os autóctones do território ocidental da Península «órfãos» desses sábios. Ter-se-á seguido um período de decadência, até que começaram a chegar os pri­meiros povos indo-europeus (ários vindos do Oriente). Gilbert Durand encontra no «fundador vindo de longe» um mitologema característico da cultura portuguesa, nós diríamos «fundador vindo do Oriente». Assim, o culto à finisterra ocidental pelos povos indo-europeus adquire todo o sentido é o regresso à origem. Nesta raiz mítico-histórica po­demos en­contrar uma motivação oculta para a realização dos Descobrimentos Portugueses. O mito celta da Ilha de S. Brandão era bem conhecido na Península Ibérica, e os próprios irlandeses estavam de tal forma convencidos da existência dessa ilha que, durante a Idade Média, chegaram a enviar expedições à mesma, firmando acordos por escrito que determinariam a sua divisão, assim que fosse encontrada.

Os círculos constituem uma característica que aparece de diversos modos na história e cultura portuguesas. O círculo está presente nas insculturas megalíticas e nos santuários ao ar livre (cf. santuário dedicado ao Sol Eterno e à Lua do período romano, situado na região de Sin­tra e desenhado por Francisco da Holanda). Os povos luso-galaicos reuniam-se e comiam em círculo: «Comem sentados sobre bancos construídos ao redor das paredes, alinhando-se neles segundo a idade e dignidade.» (Estrabão, 3, 7) E ainda hoje os portugueses têm uma predisposição natural para se disporem no espaço em forma circular.

Platão, no Crítias, sustenta que a capital atlante era composta por diversos círculos de terra e água intercalados: «Recolhendo sobre o seu solo todas essas riquezas, os habitantes da Atlântida construíram templos, os palácios dos reis, os portos, as docas secas, e embelezaram assim todo o resto do país na seguinte ordem. Sobre os braços circulares, que rodeavam a velha cidade materna, logo lançaram pontes e abriram uma rota para fora das moradas reais. (...) Depois, nos obstáculos de terra que separavam os círculos de água, na altura das pontes, abriram passagens, tais que só uma trirreme pudesse passar de um círculo para o outro, e cobriram essas pas­sagens com tectos, tão bem que a navegação aí era subterrânea, pois os pa­rapeitos dos círculos de terra se elevam suficientemente acima do mar. (...) No segundo círculo, a barreira de água tinha dois estádios de largura e a barreira de terra tinha ainda uma largura igual. Mas a barreira de água que rodeava imediatamente a ilha central tinha só um estádio.»(5) Um «estádio» grego é uma medida correspondente a 41,25 m.

Assim, os círculos gravados nos megálitos da Europa Atlân­tica poderão ter uma leitura mítico-histórica. Seriam a recordação dessa capital magnífica, dessa Tula atlante.

Por esta e muitas outras razões, não nos parece adequado escamotear o possível substrato atlante da cultura portuguesa. A confirmar-se esta raiz, somos uma cultura ário-atlante ou, se quisermos, celto-atlante com um ‘sopro’ semita. Segundo certas tradições, os fenícios são considerados descendentes dos atlantes, razão que poderá explicar certas similitudes linguísticas entre os cananeus e a toponímia portuguesa, que alguns investigadores têm pesquisado.

 

 

 

 

Ruínas de uma construção circular de maior dimensão (11 m de diâmetro) do que as habitações normais dos castros. Localiza-se na Citânia de Briteiros (Guimarães), está afastada do aglomerado populacional e tem um banco corrido à volta. Pressupõe-se que seria um lugar de reunião para o conselho dos anciãos, ou para alguma instituição colegial.

 

O símbolo da serpente está omnipresente no Ocidente Peninsular, sob as mais diversas formas e conotações. E é significativo que o Abade de Baçal nos tenha transmitido o seu testemunho de que «no nosso povo é firme convicção de que há cobras com asas que lhe permitem voar, e num fragueiro do termo dos Estevais, concelho de Mogadouro, a confinar com o de Moncorvo, há gravada uma enorme ser­pente, que o povo diz ter asas, pois toma por este apêndice a curva­tura que apresenta.»(6) No Norte da Galiza, vamos encontrar em Gondomil a célebre Pedra da Serpe, onde está nitidamente esculpida uma serpente alada. Situa-se a pouco mais de um quilómetro do Atlântico, por­tanto numa finisterra, e foi-lhe acrescentada uma cruz, o que de­monstra ter sido objecto de veneração desde os tempos précristãos, persistindo posteriormente. O nome da povoação deverá ter origem celta. A sílaba mil no fim da palavra é muito comum no gaélico, verificando-se, por exemplo, na seguinte frase de esconjuro da tradição irlandesa: Go­nomil, organmil, morbumil. Salientese que as toponímias da Galiza e da região de Entre-Douro-e-Minho são muito semelhantes. Gondomil, por exemplo, também de­si­g­na uma freguesia de Valença.

Esta serpente alada lembra, inevitavelmente, o deus pré-colombiano Quetzalcoatl, adorado por algumas das antigas civilizações mexicanas, entre as quais os aztecas. Significa, etimologicamente, a «serpente emplumada» ou o «pássaro-serpente» – quetzal significa ave e coatl serpente – e era assim representado. O mito de Quetzalcoatl encerra uma grande profundidade filosófica. Trata-se de um deus solar que estabelece a ponte entre o Céu (a ave) e a Terra (a serpente), e tem muitos traços semelhantes a outros deuses solares como Mithra, Cristo e Agni. Como avatar terá vivido em Teotihuacan (etimologicamente a cidade onde os homens se transformam em deuses), nasceu de uma mãe virgem que ingeriu uma pedra preciosa e assim o concebeu. Depois das quatro eras passadas, fundou a era do Quinto Sol, desvelando aos homens conhecimentos até então secretos. Estava intimamente relacio­nado com o planeta Vénus e os seus ciclos. Por vezes, transformava-se no deus Xolotl, a divindade psicopômpa do panteão Nahuatl. Um dos sím­bolos deste deus-serpente era o quincôncio, uma cruz com o círculo no centro. Os aztecas esperavam o seu regresso e tudo leva a crer que, para sua desgraça, o confundiram com Hernando Cortez.

Talvez o estudo das culturas pré-colombianas nos possa vir a fornecer elementos importantes para o aprofundamento das nossas raízes culturais e míticas.

 

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor

 

(1) Op. cit., p. 38.

(2) René Guénon, O Rei do Mundo, Ed. 70, Lisboa, 1991, p. 77.

(3) Citado por Manuel J. Gandra, Imagens e Funções Arcaicas do Eterno Feminino no Aro de Ma­fra, in O Eterno Feminino no Aro de Mafra, C. M. de Mafra, 1994, p. 7.

(4) João de Almeida, O Fundo Atlante da Raça Portuguesa e a sua Evolução Histórica, Ed. do Autor, Lisboa, 1950, pp. 16, 17 e 24. Citado por António Quadros, Portugal, Razão e Mis­té­rio, vol. I, pp. 122-123.

(5) Platão, Timeu e Crítias ou a Atlântida, Hemus, São Paulo, s/d, pp. 204-206.

(6) Op. cit., 717.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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