Os Mistérios
Nenhuma [instituição ateniense] é melhor do que a dos mistérios. Por seu meio fomos retirados do nosso bárbaro e selvagem modo de vida, educados e refinados num estado de civilização. Dos ritos que se denominam de iniciações, em verdade aprendemos através deles os princípios da vida.
Cícero
Como escreveu o filósofo Jorge Angel Livraga, na Grécia antiga a «Religião tinha uma infinidade de matizes quanto à sua intensidade, que podemos agrupar em dois grandes blocos: o exotérico e o esotérico. O primeiro agrupava todas as crenças e festividades religiosas populares, tradições, procissões, ‘jogos’ e competições de carácter sagrado, culto aos antepassados e aos espíritos da natureza. O segundo era como o coração de tudo o resto: estava oculto, mas o seu ritmo e vivência alentava toda a forma de fé e de conhecimento. Existiam vários “mistérios” presididos, tanto quanto sabemos, por um deus. Todos eles estavam coordenados por um grupo de magos iniciados que representavam a coroa das possibilidades humanas e a ponte entre a humanidade e a divindade. Eram os guardiães de certos objectos e conhecimentos secretos (…).» Quer dizer, para além do culto externo, popular, a religião grega tinha uma dimensão esotérica (esoterikós: o que é peculiar aos de dentro, da intimidade, da interioridade) através da qual os candidatos aceites tinham acesso ao significado filosófico dos mitos e a cerimónias especiais que tinham o dom de provocar reminiscências e visões espirituais, ou seja, eram iluminados por uma sabedoria supra-racional. Platão, o filósofo por excelência dos mistérios, escreveu no Fedro: «Uma vez iniciados nestes Mistérios, os mais sagrados de todos, assim podemos dizer (…) ficávamos livres de males que, de outro modo, nos aguardariam em época futura. E em virtude desta divina iniciação ainda nos tornávamos espectadores de simples, completas, inalteráveis e benditas visões, que apareciam banhadas por uma luz argêntea.» Teon de Esmirna descreveu na sua obra Matemática as cinco fases do ritual místico dos Mistérios. «Esta iniciação divide-se em cinco partes: I, purificação prévia; II, a admissão à participação nos ritos arcanos; III, a revelação epóptica; IV, a investidura ou entronização; e V, a quinta, consequência de todas estas, é a amizade e a comunhão com Deus, e o prazer da felicidade que provém da íntima relação com os seres divinos. (...) Platão denomina epopteia ou visão pessoal, a perfeita contemplação das coisas que são percebidas intuitivamente, as verdades e ideias absolutas.»
Os grandes génios da Antiguidade greco-latina, tais como Platão, Cícero, Séneca, Plutarco, teceram os maiores elogios à instituição dos mistérios. Tal é natural dado que os mistérios constituíam a estrutura-base, moral e espiritual, do mundo clássico. Este facto tem sido escamoteado pela maioria dos historiadores por não conseguirem integrar-se no «centro», no «eixo de consciência» que tornou possível o milagre grego. Tal não aconteceu com Karl Kerényi, académico húngaro do século XX e eminente estudioso das religiões e das línguas clássicas. Manteve uma estreita amizade com Jung com quem escreveu em parceria a Introdução à Essência da Mitologia. Na sua obra Elêusis, sustenta que: «A participação nos mistérios oferecia a garantia de uma vida sem temor à morte, a confiança perante a morte. Por isso os poetas consideravam os iniciados muito superiores relativamente aos outros mortais. Todos os gregos – realmente todos os falantes de grego, uma vez que o critério era a linguagem – podiam participar deste dom. Conferia à existência dos gregos uma característica de segurança que correspondia a uma necessidade espiritual que, para eles, não era irracional supor que formava um vínculo que unia todo o género humano: a necessidade de um baluarte seguro contra a morte. (…) os mistérios tinham uma importância fundamental para a comunidade, para a existência em comum. (…) Seria a vida digna de ser vivida sem a esperança inspirada pelos mistérios de Elêusis? Face à morte que tudo devora, os mistérios proporcionavam confiança tanto à comunidade como ao indivíduo.»
Para Fernando Pessoa era clara a existência do esoterismo dos mistérios na Grécia antiga: «O paganismo helénico tem duas feições: a exotérica (...) e a esotérica, que o helenismo aprendia apenas nos mistérios, a parte oculta do paganismo, ligada intimamente – mais mesmo que a parte aparente e normal – aos velhos cultos e sacerdócios do Egipto e do Oriente indefinido. Em Pitágoras emerge, afirma-se em Platão, este esoterismo pagão.»
O TESTEMUNHO DE PLUTARCO
Plutarco, sacerdote do Templo de Apolo em Delfos e um dos autores consagrados do mundo clássico, descreveu uma parte da experiência viva da grande iniciação:
«Neste mundo [a alma] não tem conhecimento, salvo quando chega ao transe da morte. Então, sofre uma experiência como a daqueles que participam nas grandes iniciações. Por isso se parecem, tanto a palavra com a obra (‘morrer’ e ‘iniciar-se’), como uma acção com a outra. Primeiro, o vaguear sem rumo, os circuitos fatigantes e os percursos na obscuridade com a suspeita de que nunca terão fim e logo, antes de chegar ao próprio término, todos os terrores, estremecimentos, tremores, suor e confusão. Mas daí sai-se ao encontro de uma luz admirável e é-se acolhido em lugares puros e pradarias, repletas de sons e danças e da solenidade das palavras sacras e visões santas. Uma vez saciado de tudo isso e já iniciado, regressa-se livre e caminha-se liberto; coroado, celebra os mistérios e, na companhia de homens santos e puros, vê dali a turba não iniciada e impura dos seres vivos, no meio da lama e das trevas, pisando-se e empurrando-se uns aos outros, persistindo no medo da morte em comunhão com os malvados, por falta de fé nos bens dali.» (Fragm. 178, Sandbach)
Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor
No céu aprender é ver, na terra é recordar.
Ditoso quem atravessou os Mistérios, ele conhece a fonte e o fim da vida.
Píndaro