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Murmúrios da História: Recordações Templárias

Castelo de Tomar
Castelo de Tomar

Non nobis, Domine, non nobis sed nomini Tuo da gloriam (1)

Desde que este salmo bíblico foi adoptado pelos Templários como divisa, até hoje, pronunciaram os séculos estas palavras, como um eco que recorda, e de certo modo evoca, a mística viril do monge cavaleiro. A Associação Cultural Nova Acrópole organizou uma visita a Tomar guiada, num gesto de amabilidade, por Paulo Loução, um dos maiores especialistas sobre a Ordem do Templo nestas terras lusitanas.

Visitámos Santa Maria do Olival, o Convento e o Castelo de Tomar. Quando reunidos na igreja de Santa Maria, com explicações sobre o Templo e sua presença nestas terras quase desde o nascimento da Ordem, pensei até que ponto essas palavras, essa evocação, perante o sepulcro de Gualdim Pais, repetia a voz quase inaudível dos murmúrios da história.

"Nesta Fraternidade,neste Juramento de sangue espiritual ... participavam todos aqueles que viviam um Ideal, um mesmo Fogo, uma mesma bênção divina, um mesmo compromisso de obediência, pobreza e castidade, os votos de Templário."


Paulo Loução recolheu para a ocasião uma série de textos de vital importância e que foram pouco considerados pelos historiadores.

O primeiro vincula, de modo determinante e claro, o nascimento de Portugal à Ordem do Templo. Seria, admiravelmente, o único país cujo nascimento estaria relacionado directamente com esta Fraternidade mística de cavaleiros. Explicou-nos que numa altura em que Hugo de Payens, fundador do Templo, estava a pedir a S. Bernardo (2) que lhe escrevesse um sermão de exortação para facilitar o então difícil recrutamento de novos Templários, já D. Afonso Henriques se declara, num documento por ele selado, “frater” (irmão) da Ordem. Assim acontece numa carta de confirmação da doação de Soure, escrita em Guimarães e datada de 13-03-1129, nove meses depois da batalha de S. Mamede:

"(...) esta doacção faço, não por mando, ou persuação de alguém, mas por amor de Deus, e por remédio da minha alma, e de meus Pais, e pelo cordial amor que vos tenho, e porque em a vossa Irmandade e em todas as vossas obras sou Irmão (...) Eu o Infante D. Afonso com a minha própria mão roboro esta carta.”

(Tradução do latim, “Livro dos Mestrados”)

Recordemos que, como na mítica Mesa Redonda de Artur, o rei era “primum inter pares”, sendo os pares aqueles que com os seus serviços e façanhas protegiam esta nave de almas e corpos que é o Reino. Mas, numa Cavalaria Celeste como a do Graal mencionada pela tradição cavaleiresca, o rei era Irmão, mais um servidor daquele que misteriosamente chamaram Deus Nosso Senhor, ou Rei do Mundo que seria, segundo estes mesmos textos, o único e legítimo Rei da Humanidade. A Ele se referiam os egípcios como Ra, rei dos Exércitos do Céu no Livro da Oculta Morada, e com Ele se identificava o Iniciado, convertendo-se em seu servidor.

Nesta Fraternidade, neste Juramento de sangue espiritual - e não fisiológico como pretende o materialismo grosseiro de toda a corrente pseudo-espiritualista do Código Da Vinci e outros - participavam todos aqueles que viviam um Ideal, um mesmo Fogo, uma mesma bênção divina, um mesmo compromisso de obediência, pobreza e castidade, os votos de Templário. Esta Irmandade estendia-se, inclusive, àqueles que não tendo pronunciado tais votos serviam também o Ideal Civilizatório do Templo. Àqueles que ao servir este mesmo Impulso, com toda a alma, eram abençoados pelo Céu.

Noutro texto seleccionado para esta visita a Tomar faz-se especial referência à Fraternidade que é, segundo o filósofo hindu Sri Ram, o mais puro e desinteressado de todas as formas de amor. É um texto medieval de Gil Peres Conde, fidalgo português ao serviço de Afonso X, rei de Leão e Castela, uma poesia enigmática em que fala do Amor, que apenas encontrou entre os irmãos Templários:

Não é Amor em casa de Rei
porque o não pude aí achar
à ceia nem ao jantar.
A estas horas o busquei
Nas pousadas dos privados,
perguntei a seus prelados
por Amor e não o achei.
Têm que o não sabe El-Rei
que Amor aqui não chegou,
que tanto engano dele levou.
E não veio, nem o busquei
nas tendas dos infanções
e nas dos de criações,
E dizem todos: - Não sei.
Perdido é o Amor com El-Rei,
porque nunca em hoste vem,
mas, se dele algo tem,
Dir-vos-ei eu onde o busquei:
entre estes frades Templários,
porque já aos hospitalários
por Amor não perguntarei.

O terceiro dos textos, e que agora incluímos nos “murmúrios da História”, pertence a Parsifal de Wolfram von Eschenbach e é uma obra fundamental para entender a raiz mística dos Templários. De inícios do século XIII, diz o autor ter-se apoiado num manuscrito abandonado que um Mestre provençal, Kyot, encontrou em Toledo num laboratório alquímico, escrito em árabe. Nesta versão da história do Graal, o eremita Trevizent, tio de Parsifal, inicia-o na tradição do Graal e dos seus Guardiães.

Representação_Graal
Representação do místico Graal e a Árvore da Sabedoria

"São Templários [os guardiões do Graal] que vão a cavalgar até longe, à busca de aventuras. Seja qual fôr o resultado do seu combate, glória e humilhação, aceitam-no com um coração sereno, como expiação dos pecados.(...)
Tudo de que se alimentam vem-lhes de uma pedra preciosa, que na sua essência é toda pureza. Se não conheceis, dir-vos-ei o nome: chama-se Lapsit exilis. É pela virtude desta pedra que a fénix realiza a sua muda para reaparecer em seguida em todo o seu brilho, tão bela como nunca. (...) [Esta pedra] também tem o nome de GRAAL. (...)
Há uma coisa que o Graal e as suas virtudes não poderão tolerar nunca em ti: o descomedimento dos desejos.”

É que, na tradição cavaleiresca medieval, o Graal não é somente o cálice que recolheu o sangue de Cristo depois da crucificação mas também, como diz Wolfram von Eschenbach, uma pedra: a esmeralda que se soltou da fronte de Lúcifer, o anjo caído. No entanto não podemos esquecer que a identificação Lúcifer - Satã ocorreu muitos séculos depois do nascimento do Cristianismo. Lúcifer, cujo nome significa “aquele que traz a luz” sempre foi o nome da “Estrela de Alva”(3), Vénus ao amanhecer; tal como Vésper é o nome desta mesma estrela no Ocidente, depois do pôr-do-Sol. Para as tradições antigas Vénus representava simbolicamente a Alma Gémea ou Duplo Luminoso da Terra e do seu fruto mais maduro, a Humanidade. E o influxo espiritual desta luminária sobre a Terra foi o despertar do Fogo Mental, da Consciência, a Árvore da Ciência do Bem e do Mal da tradição bíblica. Sendo a Esmeralda a pedra preciosa que representa Vénus, e portanto a Mente, converteu-se em símbolo da sabedoria e deste poder espiritual que ilumina as consciências e desperta todas as virtudes. O Graal foi então símbolo dos Mistérios e a presença espiritual de Vénus, no coração da Terra, como coração evolutivo e flamejante da Humanidade consciente. Ser a Estrela Vénus, converter-se na Estrela da Aurora, ser arauto da Aurora foi símbolo da Iniciação nos Mistérios; e do próprio Gualdim Pais, templário construtor do Castelo de Tomar, declara-se na breve biografia numa lápide que se encontrava no Castelo de Almourol e que o infante D. Henrique mandou trazer para o Castelo de Tomar:

Canto da estrela da Manhã
Canto da Estrela da Manhã de William Blake

“Era de MCCVIII [1208 da era de César, 1170 da era de Cristo]. O Mestre Gualdim, certamente de nobre geração, natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular, em breve se elevou como Lucifer, porquanto soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra os reis do Egipto e da Síria. Como fosse tomada Ascalona, partindo logo para Antioquia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou então para o Rei que o criara e fizera cavaleiro. Feito Procurador da Casa do Templo em Portugal, fundou, neste, os castelos de Pombal, Thomar, Zêzere e este é chamado Almoriol, e Idanha e Monte Santo.”(4)

Que o Graal, pedra luciferina, símbolo do coração da Hierarquia que vela e protege a chama divina no coração humano, seja, como disse Wolfram von Eschenbach, a pedra que permite a transmutação e a renovação de Fénix renascida das suas cinzas, significa que é o Graal quem impulsiona e renova a História. E é este Graal que faz nascer das cinzas de uma forma histórica outra “com todo o seu brilho, tão bela como nunca”, e com o mesmo espírito-fénix da anterior. Porque, definitivamente, o que é a História senão a soma do acontecer humano, que é a História senão a vida da Humanidade?


José Alecrim
In Revista Nova Acrópole nº 72



1. Não para nós, Senhor, não para nós mas para a glória do Teu nome.

2. São Bernardo, doctor mellifluus, foi o melhor orador da História da Igreja, o impulsionador de Cister e do Templo. A pedido de Hugo de Payens escreveu o famoso Elogio aos Cavaleiros Templários e criou a Regra da Ordem.

3. O estudo medieval da cidade de Carmona, Espanha, cidade tartéssica no coração da Andaluzia é: Sicut Lucifer in Aurora, sit in Vandalia, que quer dizer "Assim como Lucifer, estrela de alva, na aurora, luza entre os povos da Andaluzia a cidade de Carmona".

4. Este texto foi também apresentado por Paulo Loução na sua exposição sobre os Templários.

 

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