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O Que é a Filosofia
Qual é o sentido de tudo? Para onde gira a roda da existência? Para quê? Por que nos encontramos aqui e agora? De onde viemos e para onde vamos? O que faz com que permaneçamos em pé, no meio da maré da vida? Qual é o lugar do homem na Natureza? Que destino nos espera mais além da morte? Voltamos a nascer? Como e de onde surge no homem a consciência daquilo que se deve fazer e daquilo que não? Temos alma? Pode a razão demonstrar a existência de Deus? Por que a evolução caminha com passos tão firmes e inequívocos? Quem traça o Plano que se reflecte com precisão matemática no código genético?
É possível conhecermos a nós próprios?Quem é que não realizou já estas perguntas a si próprio? Somente dois tipos de pessoas, aquele que se contenta com respostas superficiais que jamais poderá verificar e aquele que já conhece as respostas e, portanto, encontra-se mais além da condição humana. Entre ambos os extremos encontra-se o filósofo, aquele que procura a verdade. Filósofo é aquele que caminha por si próprio e caminha no mundo procurando respostas.
De certo modo, o filósofo partilha o destino do peregrino. Este último procura Deus e para isso percorre os lugares santos. O filósofo, por outro lado, procura a verdade, uma verdade que torne mais firmes os seus passos. Procura a sabedoria que os possa nutrir, sem se contentar com a primeira coisa que encontra. Mais além, sempre mais além. Como disse Giordano Bruno, o filósofo é insaciável como o fogo e sente em si a certeza daquilo que busca. Que agudeza a de Platão quando descreveu o filósofo como filho da abundância do céu e da pobreza e orfandade da terra. Para Séneca, por outro lado, o filósofo é aquele que sobe a montanha interior e nela adquire certeza e serenidade. Uma montanha que se eleva por cima dos ventos das paixões terrenas, e que ainda é superior à própria fortuna, estranha «deusa» a quem o néscio chama senhora do mundo.
Confúcio comparou o filósofo com uma flecha com olhos. Dotada de um divino impulso, sabe para onde vai. Vai ao coração da realidade.
Para os egípcios, o filósofo é o que saber olhar para o seu próprio coração e encontrar nele, como se fosse um espelho mágico, respostas às perguntas que a vida apresenta. Ele, diziam os egípcios, pode dar as respostas porque a sua alma – a tua, a nossa – é tão velha ou mais do que o Universo. Pode responder a quem o requisitar, porque nele encontra-se o segredo do Ontem, do Hoje e do Amanhã. Os egípcios também outorgaram ao filósofo as medidas dos seres e das acções. Segundo o seu discurso poético o aprendiz da sabedoria transporta a regra de Maat e pode determinar o verdadeiro valor de tudo aquilo que quiser medir. Assim, traça as suas sendas com a mesma precisão com que o deus Thot traça as sendas dos astros e o valor dos números.
É evidente que a imagem que a Antiguidade Clássica teve do filósofo não é a mesma que é desenhada nos tempos modernos. O verdadeiro filósofo sabe o que sabe e o que não sabe e é capaz de traçar entre ambos uma linha matemática. Ao actual erudito especializado fervem-lhe as opiniões de uns e de outros. Ao verdadeiro filósofo a profundidade da vida torna-o silencioso e afável. Aquele que simplesmente transporta diploma e insígnia, arqueia a sua coluna vertebral e moral diante do peso de tudo o que leu. Mas no fundo muitas vezes nem o entende nem o valoriza porque não o vive. Encontramos o verdadeiro filósofo no campo de batalha, como Sócrates, ou tocando a lira, como Confúcio ou simplesmente trabalhando e cumprindo com os seus deveres quotidianos. Foi o próprio Confúcio que disse: «Que grande é a lei do dever do homem sábio. É um oceano sem margens».
José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole
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