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As origens ocultas dos Lusitanos – Cultos e Tradições -
Parte II

 

A Lenda da Corça

ArtemisaOs Gregos comunicaram aos Iberos os ritos do seu culto nacional, da Artemisa de Éfeso. Esse culto, praticado pelo menos na parte Norte, propagou-se possivelmente pela Península pois, conforme conta Valério Máximo (1), Sertório quando estava na Hispânia, trazia consigo uma corça branca e levava os povos a acreditarem que ela era um dom de Artemisa, e que lhe revelava coisas ocultas.

O facto de Sertório ser acompanhado por uma corça branca é, quanto a nós, do mais alto significado simbólico-religioso porquanto ela assegurava, segundo G. Dumezil, a continuidade dos nascimentos e a sucessão dos reis.

No Bestiário divino a corça simboliza a sabedoria que foge para o País dos Hiperbóreos que eram os sábios das origens e que Hércules, num dos seus trabalhos, vai capturar viva. Na tradição céltica a caça à corça simboliza a demanda da sabedoria que se encontra sob uma macieira, a árvore do Conhecimento. Na mitologia nórdica Siegfried foi alimentado por uma corça.

Divindade lunar associada aos ciclos da fecundidade e protectora da vida feminina, Artemisa assume o papel de Cibele, a Deusa-Mãe, a Magna Mater, a Grande Mãe asiática cujo culto foi introduzido em Roma no séc. III a.C. Fonte primordial, ctoniana, de toda a fecundidade, Cibele simboliza a energia contida na terra. Ora o seu nome itálico, Diana, cujos caracteres essenciais associam-na a uma divindade céltica continental, tem provavelmente muito a ver com a Dé Ana ou deusa Ana irlandesa, mãe dos deuses e patrona das artes.

Na simbólica medieval, Santa Ana, a mãe da virgem, é precisamente a Grande mãe cósmica que simboliza a caverna, a matéria obscura ou princípio oculto.

No presépio, a Virgem está rodeada por dois animais cósmicos: a Vaca, simbolizando a matéria dadora de vida como elemento conservador que assegura a continuidade da existência, e o Asno, princípio de transformação ligado, no seu aspecto saturnino, à destruição das formas, à transmutação dos elementos.

Na Mesopotâmia, este princípio oculto estava representado pelo deus NA, equivalente à deusa Ana ou Diana.

Ora, sabendo que entre os celtiberos os reis estavam rodeados de um certo prestígio sagrado, devotio, de estranhar seria a ausência em Sertório de um carisma muito particular que fazia dele o chefe incontestável destes povos, para quem o poder não emanava da terra mas provinha directamente de Deus. A corça era a confirmação mítica deste facto. Mais do que um simples líder temporal cuja força provém da astúcia e da bravura, o antigo general romano tocara profundamente nas crenças atávicas dos seus novos companheiros de armas, assumindo-se como herói continuador da obra iniciada pelos antepassados míticos. Somos levados a crer que Sertório, voluntária ou involuntariamente, assume aos olhos dos Celtiberos o papel de herói-civilizador como encarnação epónima de Lusus. Pelo simbolismo de que se reveste a corça que o acompanha, teria também uma função de mediador entre o céu e a terra, entre o visível e o invisível, entre o transcendente e o terrestre, isto é, desempenharia o papel iniciático e regenerador do herói morto ressuscitado periodicamente como entronização do culto de Cibele e Atis na Península.

O Culto da lua

O culto da Lua estaria muito difundido entre os primitivos Lusitanos. Nos tempos proto-históricos, a serra de Sintra, nas proximidades de Lisboa tinha, ao que parece, o nome de Serra da Lua. Da época romana temos, também, da região de Sintra, inscrições consagradas ao Sol e à Lua. Etimologicamente, o nome de Sintra provém de SIN, nome que os babilónios davam à Lua e do qual os Hebreus extraíram SINAI (do caldeu SIN-AI = Monte da Lua). O sufixo TRA (SIN + TRA) “designaria as três qualidades ou atributos da deusa Sintra do seu triplo aspecto de Lua no céu, Diana na terra e Hécate no inferno” (2).

A tradicional ferradura portuguesa em forma de crescente lunar é bem um símbolo representativo das reminiscências do culto da Lua em Portugal. “O nosso povo escreve J. Leite de Vasconcelos (3), considera a ferradura do pé esquerdo de um animal como amuleto. Este amuleto vê-se frequentemente pregado nas portas das casas com o fim de evitar que o mal entre em casa” (…). “Em tempos antigos acreditava-se que o espírito da Lua, por meio do luar penetrava no organismo infantil e o molestava; o povo, para evitar os maus efeitos do astro da noite, pendura ao pescoço das crianças uma figura representando um crescente, a fim de atrair o espírito da Lua para a própria imagem onde se alojará, deixando em paz a criança”.

Numa outra obra o mesmo autor (4) transcreve o que um médico do séc. XVIII dizia: “Uma advertência muito necessária e principal é que não ponham ao luar as roupas e panos com que os meninos se vestirem, porque os raios e luz da lua por meio dos ditos panos fazem nocivas impressões nos meninos sobre os quais tem este planeta muito domínio”. Este médico apoia a sua tese em vários médicos e autores da antiguidade como Zacuto Lusitano, Sennerto e Galeno.

O Promontório Sagrado

Sagres

O Cabo de S. Vicente-Sagres no Cyneticum (Algarve) era denominado pelos antigos PROMONTÓRIO SAGRADO (Promunturium Sacrum) e, relata Estrabão que ali teria existido um santuário dedicado a Herácles. Por Herácles deve-se entender, não um deus grego, mas uma denominação grega do deus fenício MELKART, que tinha santuários junto dos portos em todas as colónias fenícias, e foi pelos gregos assimilado a Herácles. Na própria Península, escreve J. Leite de Vasconcelos (5), havia santuários análogos, o mais celebrado dos quais era o de Gades. Neste promontório viam-se pedras sagradas, junto das quais se celebravam ritualmente certas cerimónias religiosas. Movers (6) relaciona estas pedras com o culto dos bétylos. Perrot y Chipiez (7) diz que o culto dos bétylos “encontra-se por todo o lado onde se faz sentir a influência da Fenícia”. Segundo Roscher (8) os bétylos eram aerólitos, e supunha-se que neles existia vida divina, pelo que em certos lugares sagrados os veneravam, ungiam e coroavam. Os bétylos podem ser considerados como omphaloi locais, como centros do mundo.

O centro do mundo é frequentemente figurado por uma elevação: montanha, colina, árvore, omphalos, pedra. Cada povo tem o seu centro do mundo. Esta noção de centro está ligada à de canal de comunicação. O centro é, com efeito, chamado o umbigo da terra. Para os Gregos, o centro do mundo estava assinalado pelo omphalos de Delfos. O nome do Monte Thabor vivia de Tabur (9) que significa umbigo. Os celtas também tinham centros sagrados: César fala de um locus consecratus na floresta Carnute onde se reuniam os druidas para elegerem o seu chefe.

Segundo Píndaro, o omphalos de Delfos simbolizava a via de comunicação entre os três níveis de existência, ou os três mundos, do homem vivendo na terra, da morada subterrânea dos mortos, da divindade. Ele simbolizava a potência vital que domina as forças cegas do Caos.

Pausanias (10) ao falar da estátua de Hermes situada na praça pública de Pharas, na Achaia, diz que havia junto dela umas trinta pedras quadrangulares a que os habitantes da cidade prestavam culto, dando a cada uma o nome de um deus.

Os deuses, conta Artemidoro pela boca de Estrabão, reuniam-se durante a noite no Promontório Sagrado pelo que ninguém podia lá ir nessa ocasião. Ainda a propósito do Promontório, relata-nos Frei Bernardo de Brito (11) que TUBAL, descendente de Noé e rei fabuloso da Ibéria (12) foi sepultado no extremo da terra, isto é, naquele local “e tal foi o amor que lhe tiveram, que nunca se perdeu a memória da sua sepultura, antes a visitavam e veneravam como coisa santa (…) e tanto que era noite ninguém se atrevia mais a passar por junto dela, dizendo que andavam os deusas naquele lugar”.

Avieno (13), ao descrever esta região, fala do Cautes Sacra que significa o extremo ocidental do Promontório, isto é, a ponta que modernamente se chama Sagres. Temos assim que Sagres – onde o Infante D. Henrique instalou a sua célebre Escola Náutica que dera origem aos Descobrimentos do séc. XV –, significa sagrado em alusão ao dito Promontório.

Religião

Algumas das Principais Divindades da Lusitânia Pré-Romana

ENDOVÉLICO – Talvez a principal divindade da Lusitânia. Se bem que ainda não esteja suficientemente clarificada a sua natureza, parece tratar-se de um deus ligado à medicina como Serabhis ou Escalápio. O seu culto celebrava-se no alto de um monte. Endovélico representou o papel de deus curador como consta de vários documentos. Nalgumas lápides vemos associado a Endovélico a ave e o cão, o que parece confirmar a identidade do deus como Esculápio (14).          
 
ATÉGINA – A sede de seu culto foi em Turobriga, na Bética (15). J. Leite de Vasconcelos (16) apoiado no número e variedade de monumentos encontrados, é de opinião que Atégina teve santuários em Mérida, Elvas, Cáceres e outras localidades “numa área que abrangia parte não só da Lusitânia, mas da Bética”.

Atributos: A etimologia da palavra parece provir do celta Ate-gena que significa “renascida”. Atégina seria, assim, na origem deusa da terra e dos frutos da terra, que renascem todos os anos. Atégina foram identificados em várias inscrições com Proserpina (Ataegina Turibrigensis Proserpina), tendo os Ibero-Romanos transferido para ela os atributos infernais desta última. Como ATEGINA-SERVATRIX tem o rol de deusa médica ligada à conservação (servatrix) da saúde. O seu animal consagrado era o bode ou a cabra.

TONGENABIAGO – Divindade da fonte. Segundo D´Arbois de Jubainville, o seu nome significaria “deus da fonte pela qual se jura”. Entre os Gregos e Romanos um dos juramentos mais terríveis era o que se formulava pela Estyge (Stix), rio do Inferno. Compreende-se assim que se fizessem juramentos por Tongenabiango, junto da fonte da sua invocação.

BORMANICO – Deus ou génio tutelar das águas termais. O seu nome significa “faço ferver”, isto é, a água que brota nas caldas.

NAVIA – Divindade feminina aquática. É provável que este nome provenha do sânscrito nãvyã que significa “água corrente”.

TREBARUNA – A etimologia deste nome parece provir do celta TREBO=CASA e RUNA=SEGREDO. Trebaruna significaria então “segredo da casa”. Deste modo seria um penate, um génio doméstico. Posteriormente, e à semelhança do deus Marte em Roma que, primitivamente era um deus relacionado com os campos para se tornar, mais tarde, a encarnação divina da guerra, Trebaruna passaria a ser divindade guerreira.

RUNESOCESIUS – Provável divindade da guerra na região dos Eborenses. O seu nome significaria “deus armado com o dardo”. É de notar que a palavra “runesus” significa em celta “o misterioso”.

Haveria a citar ainda inúmeras outras divindades, mas que, quer pelo espaço que nos ocuparia, quer pela falta de elementos quanto aos seus atributos e significações, deixaremos o seu estudo para melhor oportunidade. O que, sim, poderemos sublinhar, é que há uma enorme riqueza no panteão primitivo dos Lusitanos, tanto pelo seu carácter simbólico-religioso e cultural como pelas implicações que o mesmo terá na clarificação das raízes históricas e da vivência religiosa de um conjunto de povos que embora estivessem marcados por um notável individualismo, conformavam indiscutivelmente um mosaico assaz articulado para caberem todos sob a designação legítima de Lusitanos.


Eduardo Amarante
In Revista Nova Acrópole Nº 30 – 1986




NOTAS

1. Valério Máximo, Fact. Dict. Memorab., I, II, 4

2. M. Labrator, A Mística Lenda de Sintra.

3. J. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, T. 1, 110

4. Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal

5. J. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, T. 2, 201

6. Movers, Die phonizische Alterthum, II, pag. 648

7. Perrot & Chipiez, Histoire de l´art, III, 59

8. Rosher, Lexikon der griech.u.rom. Mythologie

9. Dict. des Symboles, 189-190

10. Pausanias, Descrição da Grécia, VII, Parias 1845

11. Frei Bernardo de Brito, Monarchia Lusitana, vol. I, Alcobaça 1597, liv. I cap. 3

12. É interessante a analogia existente entre o nome mítico TUBAL e a cidade de SETUBAL (SETH-TUBAL) ao sul de Lisboa.

13. Avieno, Ora Maritina, vv. 215-216

14. Salomon Reinach, Les chiens dans le culte d´Esculape, 1884

15. Plínio, Naturalis Historia, III, 14

16. J. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, T. II. 161 


 

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