Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

O Principezinho- A Sabedoria de Saint-Exupéry


Saint ExupéryAntoine Marie Roger de Saint-Exupéry nasceu no ano de 1900 em Lyon, em França. Cresceu rodeado por primos e irmãos. Aos 12 anos de idade descobre a sua vocação para voar, voando pela primeira vez num balão, e desde então sempre viveu para os aviões.

Foi educado no colégio Jesuítas em Montgré et le Mans, na Suiça, num colégio interno católico.
A sua vida militar teve início em 1921, onde se alistou no segundo regimento de Aviação de Caças conseguindo assim a sua licença de piloto depois de nove meses de aprendizagem.

Mais tarde começou a trabalhar para a empresa geral aeropostal e assim, numa época em que a aviação postal dava os seus primeiros passos como séria concorrente às vias marítima e férrea, Antoine Saint-Exupéry passou a pertencer ao grupo de pioneiros cuja coragem desafiava os limites da razão e da segurança, batendo recordes de velocidade para entregar correspondência.

Em 1926 publicou aquela que viria a ser a sua primeira obra, “O Aviador”.

Em 1929 escreveu “Correio do Sul”, o seu primeiro romance. No mesmo ano mudou-se para a América do Sul onde foi nomeado director da companhia Aeropostal Argentina.

E foi pilotando aviões de correio através dos Andes que foi somando experiências que lhe serviram como argumento para o seu segundo romance que escreveu em 1931, “O Voo Nocturno”, obra que foi um sucesso de vendas internacional e que ganhou um prémio literário e que foi adaptado para cinema em 1933.

Ainda em 1931, casou com Consuelo Suncin Sandoval, pintora e escultora de profissão. Há relatos de que tiveram uma relação intensa mas repleta de altos e baixos.

Com o encerramento do correio aéreo na Argentina, regressou à Europa e passou a exercer a função de piloto de ensaios para a Air France.

Em 1935, teve o seu primeiro incidente a bordo de um avião, despenhou-se quando sobrevoava o norte de África, foi salvo por uma caravana que passava enquanto ele deambulava no deserto, vemos aqui uma semelhança com a obra que vamos falar hoje.

Em 1937, dois anos depois, pilotando o mesmo modelo de avião escapou com ferimentos graves quando o avião caiu na Guatemala.

Dois anos mais tarde, em 1939, foi publicada “Terra dos Homens”, que ganhou o Grande prémio da Literatura da Academia Francesa e o National Book Award dos Estados Unidos.

Quando a 2ª Grande Guerra começou Antoine Saint-Exupéry contava já com 39 anos. Apesar da idade alistou-se no exército, mas foi designado para o ensino técnico, situação com a qual nunca se conformou, pois o que ele queria verdadeiramente era voar. Em 1940, com a ocupação da França pelas tropas alemãs, em virtude da sua insistência conseguiu realizar alguns voos que lhe valeram a condecoração Cruz de Guerra.

Dois anos mais tarde, em 1942, em Nova Iorque, publicou o seu romance “Piloto de Guerra” onde retratava a sua fuga da pátria ocupada, a França.

Principizinho

A sua obra mais conhecida, “O Principezinho”, surgiu em 1943, pouco depois, em 31 de Julho de 1944, Saint-Exupéry desapareceu quando realizava uma missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy.
Esta terá sido a sua última missão em vida, mas não o seu último feito, pois deixou em terra o seu manuscrito do livro “A Cidadela”, que viria a ser publicado em 1948.

Podemos dizer que Saint-Exupéry viveu entre os céus e a escrita, as suas duas maiores paixões. As suas obras relatam-nos no fundo vários episódios da sua vida e a sua grande paixão pelos aviões.

 

Sinopse de “O Principezinho”

Esta fábula começa quando um dos nossos protagonistas, o piloto, é ainda um menino de 6 anos que viu num livro uma imagem de uma jibóia a engolir um elefante. Impressionado com a gravura que tinha visto e com o que tinha lido, desenhou uma jibóia digerindo um elefante e muito contente mostra o seu desenho aos adultos, que só conseguiam ver no seu desenho um chapéu. Triste, mas ao mesmo tempo conhecendo a incapacidade dos adultos para imaginar, fez um novo desenho onde mostrava o elefante dentro da jibóia, podia ser que assim percebessem. Mas pelo contrário, os adultos disseram-lhe que se deixasse de jibóias abertas e fechadas e que se dedicasse ao estudo.

Desde essa altura teve de adequar-se ao ponto de vista dos adultos, sempre preocupado com as coisas práticas, com a quantidade e a futilidade menosprezando os valores essenciais e as coisas simples da natureza. Toda a sua vida se sentiu só, incompreendido, até conhecer o Principezinho.

Conheceu-o quando se estava em pleno deserto do Sahara a tentar arranjar o seu avião depois de um acidente. Este vinha de um pequeno asteróide, o B-612. Desde logo se gera uma empatia entre os dois. Pois, o piloto identificava-se com o Principezinho, este fazia-o lembrar-se de quando era criança. O Principezinho, preocupado com o seu planeta e a sua rosa, porque lá crescem uns arbustos que se deixam de crescer transformam-se em enormes embondeiros que fariam explodir o seu planeta que é pouco maior que uma casa, pediu ao piloto que lhe desenhasse uma ovelha para comer as ervas daninhas.

Conta-lhe também o seu percurso pelos diferentes planetas até chegar ao planeta terra.

Cada planeta estava habitado por uma personagem solitária obcecada por algo. Conheceu um rei sem súbditos, um vaidoso, desesperado para ter admiradores, um bêbado que bebia para esquecer que era bêbado, um homem de negócios que se dizia proprietário das estrelas, um acendedor de candeeiros que não pára um minuto, um geógrafo que não sai da sua secretária para explorar novas terras. Fala também sobre o seu percurso na terra, contando-lhe sobre as diferentes personagens com quem travou conhecimento até o encontrar a ele.

No final da história, o Principezinho tem de retornar ao seu asteróide para que a sua ovelha elimine as ervas daninhas e assim salve a sua rosa e o seu asteróide, para isso ele tem de morrer, mas como poderemos ver na obra, é mais uma lição que ele nos dá, fazendo da morte algo natural, mostrando-nos que a morte afinal de contas não é mais nada senão o principio de uma outra coisa, de uma outra vida…

 

Análise da obra

Não nos esqueçamos que “O Principezinho” é uma obra infantil com conteúdo aparentemente simples, no entanto profunda, que contém todo o pensamento e filosofia de Saint-Exupéry.

 

"Mostra-nos uma profunda mudança de valores, que ensina como nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e como esses julgamentos nos levam à solidão."



É um encantador relato dedicado às crianças e não só… às crianças que existem dentro de cada um de nós, adultos, também. Aos elementos fantásticos da obra juntam-se-lhe certos traços de psicologia, nela tratam-se ideias tão profundas como o sentido da vida, a amizade, o amor e a simplicidade, nesta obra confluem uma série de demonstrações de atitudes que permitem a revalorização dos valores como eixos fundamentais para o indivíduo viver em sociedade. Mostra-nos uma profunda mudança de valores, que ensina como nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e como esses julgamentos nos levam à solidão. Entregamo-nos às nossas preocupações diárias, tornamo-nos adultos de forma definitiva e de certa forma esquecemos a criança que fomos um dia.

Esta obra mostra-nos através das conversas que o piloto tem com o principezinho a visão do autor sobre a superficialidade da humanidade e a sabedoria inocente que os adultos parecem esquecer à medida que crescem. É que como podemos ver na obra, quando somos meninos estamos munidos de um certo grau de curiosidade e admiração pelas coisas que nos impulsionam para a descoberta, mas à medida que vamos crescendo vamo-nos afastando desta capacidade pouco a pouco, vamos perdendo a capacidade de tirar proveito das coisas simples do nosso dia-a-dia.

Toda a obra é um diálogo muito especial que se vai desenrolando entre as diferentes personagens, que se baseia numa linguagem muito poética, simbólica e aparentemente muito simples, mas que pouco a pouco se vai transformando numa linguagem de ensinamentos de vida que nos ajudam à compreensão e valorização, tanto das coisas simples como das mais complexas.

Exupéry através de símbolos demonstrou que é sempre importante lembrarmos os sentimentos anteriormente citados, valores que mesmo que fossem explicados aos adultos com palavras não seriam compreendidos. Então, o papel das diferentes acções ao longo da obra é mostrar nas “entrelinhas” o importante.

Exupéry utilizou esses símbolos para representar os sentimentos guardados dentro de si através desta obra maravilhosa.

Para melhor percebermos a riqueza de ensinamentos que esta obra encerra, vamos analisar o significado de algumas das suas personagens metafóricas da mesma.



Principezinho

  • Inocente e amigo
  • Extraordinário e misterioso
  • Curioso e divertido
  • Persistente, trabalhador e decidido

"O Principezinho é uma demonstração de que a simplicidade trás mais alegrias do que a superficialidade."

Simboliza a esperança, o amor e a força inocente da infância que habita no nosso inconsciente. É portanto símbolo da inocência, do idealismo, dos sentimentos puros e altruístas, atributos que fazem parte da infância.
Ele simboliza o indivíduo que traça o seu próprio destino, que trilha o seu próprio caminho sem esquecer a capacidade de reconhecer que “o essencial é invisível aos olhos”. Dentro de cada um de nós, está intacta, mas muitas vezes menosprezada uma criança, a criança que fomos um dia, aquela que é conhecedora devido à sua inocência da Verdade, aquela que tem a capacidade de nos fazer resgatar o amor e o entendimento com os demais. Ele tem imaginação, pureza, ingenuidade, sensibilidade, poeticidade, tudo atributos que hoje em dia não são valorizados pela maioria dos adultos.


O Principezinho é uma demonstração de que a simplicidade trás mais alegrias do que a superficialidade.
Com as suas palavras e os seus actos, questiona o mundo e os seus aspectos negativos, mas também faz uma chamada à descoberta da beleza da vida e à importância da imaginação, à esperança e a tudo o que nos permite superar-nos. Ele deveria representar para todos nós um arquétipo, um ideal a atingir.
Este é o principal simbolismo do principezinho: a capacidade para ver além de… e como prova brindo-vos com um pequeno parágrafo da obra:

“Nunca tinha desenhado uma ovelha e resolvi fazer-lhe um dos dois únicos desenhos de que era capaz. O da jibóia fechada. E fiquei estupefacto com as palavras de protesto dele:
- Mas para que é que eu quero um elefante dentro de uma jibóia? As jibóias são muito perigosas e os elefantes muito incomodativos. O meu sítio é muito pequenino… Preciso é de uma ovelha. Desenha-me uma ovelha.”

 

O Piloto

  • Eterno solitárioPiloto
  • Imaginativo
  • “Camaleão”

 

"O piloto é a prova de que nunca é tarde para irmos atrás dos nossos sonhos"

 

Representa a nossa própria imagem, o nosso reflexo na história e é ele que nos faz ver como deveríamos ver as coisas e como na realidade as vemos.

O piloto viu a sua sensibilidade artística e a sua capacidade de ver além das aparências diminuídas por aqueles que se tinham entregue à monotonia dos seus pequenos mundos, os adultos. Mas anos depois, longe de todos, desenha a sua própria história com a ajuda daquele que deixou o seu mundinho de lado para entrar nos mundos dos outros e aprender com eles. Tocado pela ingenuidade e simplicidade do principezinho, o piloto redescobre os seus talentos e desperta para a beleza das coisas simples,dos sentimentos, dos valores e também da causa do próprio egocentrismo das pessoas. Foi obrigado a crescer antes do tempo, o que o tornou um solitário por natureza. Foi obrigado a adaptar-se ao meio circundante, a camuflar-se tal como um camaleão quando se sente em perigo, mas de certa forma, sempre que encontrava alguém que lhe parecesse sensato e sensível mostrava o seu desenho de menino na esperança de que o compreendessem.
O piloto é a prova de que nunca é tarde para irmos atrás dos nossos sonhos. Sejamos como ele e resgatemos o principezinho que existe dentro de cada um de nós, pois a sua principal função na obra é mesmo essa, mostrar-nos que todos temos um pouco de si mas também muito do Principezinho.

“ As pessoas crescidas disseram que era preferível deixar-me de jibóias abertas e jibóias fechadas e dedicar-me à geografia, à história, à matemática e à gramática. E assim abandonei, aos seis anos de idade, uma magnífica carreira de pintor. Ficara completamente abalado com o insucesso do meu desenho número um e do meu desenho número dois. As pessoas crescidas nunca entendem nada sozinhas e uma criança acaba por se cansar de lhes estar sempre a explicar tudo.”

 

O astrónomo turco

Astronomo turco

  • Pessoa simples
  • Não se preocupava com as aparências

 

 

 

"O facto de julgarmos as pessoas pela aparência é errado, pois esta não se torna mais ou menos credível pela roupa que tem ou pelo carro que conduz. Como costumo dizer, o importante é o “ser e não o “ter”."

 

Esta personagem representa o facto de que a sociedade dá valor ao indivíduo humano pelo que veste, pelo que possui e não pela sua sabedoria. Por isso ele é desprezado pela comunidade científica até aparecer com roupas elegantes. Isto é um erro, pois objectivamente tem tanta fiabilidade, um homem que explica uma teoria vestido com uns jeans, uma sweat e sapatilhas como um homem de fato e gravata. O facto de julgarmos as pessoas pela aparência é errado, pois esta não se torna mais ou menos credível pela roupa que tem ou pelo carro que conduz. Como costumo dizer, o importante é o “ser" e não o “ter”.

“Nessa altura, o cientista fez uma grande demonstração da descoberta a um Congresso Internacional de Astronomia. Mas ninguém o levou a sério por causa da maneira como estava vestido. As pessoas crescidas são assim.

Felizmente, para a boa reputação do asteróide B612, um ditador turco lembrou-se de impor ao seu povo, mas impor-lhe sob pena de morte, que passasse a trajar à ocidental. O astrónomo turco tornou a fazer a demonstração em 1920, agora muito bem posto. E toda a gente a aceitou.”

 

Os embondeiros

Embondeiro

  • Árvore da altura de uma igreja
  • Açambarcadores
  • Perigosos

 

"...pois onde só existem predadores é impossível haver progresso."

 

Como todos sabem, os embondeiros são umas árvores gigantescas que se o Principezinho não arrancasse os seus rebentos, eles cresceriam e tomariam conta do seu planeta, não sobraria espaço para mais nada.
Podemos então dizer que estes representam a avareza, pensemos… se numa comunidade se partilha e se busca o bem comum, o mundo pula e avança, enquanto que se nessa mesma comunidade cada um se preocupar simplesmente pelos seus próprios interesses sem um projecto em comum, não se consegue avançar, antes pelo contrário, essa comunidade tornar-se-ia estéril e acabaria por se destruir, pois onde só existem predadores é impossível haver progresso.

"Há que estar atentos pois se só identificarmos um problema quando este for grande demais ele apoderar-se-á de nós."


Se quisermos analisar a título pessoal, individual, podemos concluir que o autor nos quis chamar à atenção para não sermos preguiçosos e não deixarmos para amanhã os pequenos problemas de hoje, os dragões que nos atormentam, pois estes crescerão paulatinamente até que um dia se tornam gigantescos.
Há que trabalhar individualmente, fazendo a escolha, a separação das “ervas boas” e das “ervas más”, e assim que as conseguirmos identificar não percamos tempo, há que as arrancar pela raiz para não as deixarmos tomar conta do nosso ser interior. Há que estar atentos pois se só identificarmos um problema quando este for grande demais ele apoderar-se-á de nós.

"...também os nossos defeitos ofuscam as nossas virtudes..."


Os embondeiros representam então, por um lado, aquilo que de negativo existe em cada um de nós, os maus hábitos, os maus sentimentos, as más ideias, que de resto já sabemos que este tipo de característica é persistente, fica à espera que baixemos a guarda e quando menos esperamos brotam e tomam conta de nós. Tal como os embondeiros destroem as outras plantas ao seu redor, também os nossos defeitos ofuscam as nossas virtudes, por outro lado, os embondeiros representam também aquelas pessoas que ocupam demasiado espaço na vida de cada um e que não deixam margem para a individualidade ou a privacidade. São como as ervas daninhas. Impedem, inclusive a criatividade de florescer. São aquelas pessoas que se colam a nós como pastilha elástica e que tentam moldar-nos à sua imagem, impedindo-nos assim de sermos um ser individual, de sermos um entre mil. Também podem simbolizar a pressão social, que molda a nossa personalidade, as nossas atitudes e condiciona de certa forma as nossas escolhas.

"...defendam-se dos falsos valores..."


Poderemos ainda fazer uma outra analogia. A limpeza quotidiana do planeta é um exercício de disciplina, podemos dizer que o planeta representa o nosso ser, e ao limpá-lo nós somos um discípulo que busca a perfeição, este trabalho é um exame de consciência de que é necessário obrigar-se regularmente a “arrancar” os pensamentos negativos, o supérfluo de nós. Há que separar o trigo do joio, se não queremos perder a seara inteira. Por isso muita atenção, desde a juventude da árvore, desde que espreitam a terra e saúdam o sol. Estejam atentos, defendam-se dos falsos valores. Tomem cuidado com os embondeiros.

“E um dia pediu para eu me esforçar tanto quanto pudesse para fazer um desenho mesmo bom capaz de meter uma ideia na cabeça dos meninos da Terra. “Pode dar-lhes muito jeito, se eles forem viajar. Às vezes não faz mal nenhum deixar um trabalho para depois. Mas, com embondeiros, é sempre uma catástrofe. Uma vez fui a um planeta habitado por um preguiçoso. Não esteve para se ralar com três arbustos…

Desenhei o tal planeta segundo as indicações do Principezinho. Não gosto nada de parecer moralista. Mas o perigo que os embondeiros representam é tão pouco conhecido e são tão grandes os riscos a que se expõe alguém que se perca num asteróide que, uma vez sem exemplo, vos digo: “Meninos! Cuidado com os embondeiros!”

 

A Rosa

Rosas

  • Inteligente
  • Soberba
  • Manipuladora
  • Sedutora

 

No entanto…

  • Generosa

 

A rosa simboliza segundo o dicionário de símbolos de Jean Cheválier a taça da vida, a alma, o coração, o amor, enfim representa no fundo a perfeição. Esta tornou-se um símbolo do amor e o próprio dom do amor em si, e por isso, ainda hoje em dia se oferecem rosas como prova de amor, de carinho, de amizade... Vários autores defendem que a rosa é símbolo da esposa Consuelo, representando portanto o amor, o feminino, a sedução e os demais atributos associados à mulher.

Na obra, pessoalmente creio que por um lado representa a amizade quando já existe uma confiança plena e um respeito mútuo entre as pessoas. Por outro pode também representar o orgulho pessoal.
Aparece como sendo à primeira vista inteligente, soberba, manipuladora, sedutora, querendo todas as atenções recaídas sobre si, no entanto, as suas acções mostravam o contrário, pois na verdade como o principezinho mais tarde reconhece:

“Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas palavras e sim pelos actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia ter sido capaz de adivinhar toda a ternura escondida por detrás daquelas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo de mais para saber gostar dela.”

Há que saber ler nas entrelinhas, por vezes o orgulho é sinónimo de carência de amor, e a contradição sinónimo de insegurança, então, creio que com esta personagem Saint-Exupéry pretendia apelar ao amor apesar das circunstâncias. Na obra, a Rosa dá-lhe uma prova do seu amor, apesar do Principezinho não a ter percebido, porque quem ama liberta, e a rosa mostrou o seu amor incentivando-o a ir embora enquanto na verdade ela queria que ele ficasse. Se realmente fosse manipuladora e egoísta, teria usado todas as suas capacidades para o impedir de partir.

“- E o vento?
- Não estou tão constipada como isso… O fresco da noite só me pode fazer bem. Sou uma flor!
- E os bichos?
- Duas ou três lagartas terei mesmo de suportar para ficar a conhecer as borboletas. Dizem que são tão bonitas! E que outras visitas hão-de aparecer por cá? Tu, tu hás-de estar longe. E dos bichos maiores não tenho nada a temer. Afinal, para que servem as minhas garras?”

Por vezes as pessoas também têm formas estranhas de mostrar o amor. Pois a rosa representa estas pessoas, aquelas que mesmo contra o seu coração se fazem fortes para incentivar o seu amor a buscar o melhor, mesmo que para isso fiquem sozinhas.

A Rosa desempenha uma função muito importante na obra, digamos que pode inclusive ser a verdadeira raiz da obra. Tudo acontece devido à sua existência, a partida do principezinho, a sua tristeza, a sua busca, o regresso ao seu planeta, tudo se centra nela.

Então porque é ela importante para o Principezinho? Podemos dizer que é importante...

 

Pela sua individualidade

Rosa

“Amar uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas basta para uma pessoa se sentir feliz quando olha para o céu. Porque pensa: “Ali está ela, algures lá no alto…”


Pela sua fragilidade

“- Não acredito! As flores são fracas. São ingénuas. Agarram-se ao que podem para se sentirem seguras. Estão convencidas de que toda a gente tem medo delas por causa dos espinhos…”
“E se eu, eu que aqui estou à tua frente, conhecer uma flor única no mundo, uma flor que não existe em mais lado nenhum senão no meu planeta, mas que, numa manhã qualquer, uma ovelhinha pode reduzir a nada num instante, assim, sem dar sequer pelo que está a fazer, isso também não tem importância nenhuma, pois não?”


Pela sua unicidade no seu planeta

“Não ocupavam espaço nenhum e quase não se dava por elas. Despontavam de manhã na relva e apagavam-se à noite. Mas aquela, aquela germinara de uma semente vinda sabia-se lá de onde e o principezinho pusera-se imediatamente a vigiar esse rebento tão diferente de todos os outros.”


Pela sua personalidade

“O principezinho, que assistia ao despontar de um botão enorme, estava mesmo a ver que dali ia sair uma aparição miraculosa; mas a flor nunca mais acabava de se arranjar, de se por bonita, sempre trancada naquele quarto verde. Escolhia as cores com todo o cuidado. Vestia-se vagarosamente, assentando as pétalas uma a uma. Não queria sair toda amarrotada como as papoilas. Só queria aparecer no máximo esplendor da sua beleza. Oh, sim! Ela era mesmo muito vaidosa! Levara dias e dias a arranjar-se. Uma bela manhã, precisamente ao nascer do sol, fizera a sua aparição.”

 

Os vulcões

 

  • Úteis quando cuidados
  • Perigosos se esquecidos

 

"é uma chamada de atenção para a importância de limparmos o nosso ser interior; assim como todos os dias nos dedicamos à estética do corpo, também devemos preocupar-nos com a estética da alma cuidando a nossa personalidade, limpando os nossos defeitos, aqueles que reconhecemos nitidamente como activos e também aqueles que pensamos extintos, pois se não fizermos uma manutenção regular, não estamos livres de nos voltarem a atormentar."

 

Podemos dizer que todo o capítulo relacionado com os vulcões é uma clara analogia com os hábitos de higiene e purificação daVulcões alma. O autor pretende alertar-nos para a disciplina, mostrando-nos a assiduidade e o afinco com que o Principezinho cuidava do seu planeta; é uma chamada de atenção para a importância de limparmos o nosso ser interior; assim como todos os dias nos dedicamos à estética do corpo, também devemos preocupar-nos com a estética da alma cuidando a nossa personalidade, limpando os nossos defeitos, aqueles que reconhecemos nitidamente como activos e também aqueles que pensamos extintos, pois se não fizermos uma manutenção regular, não estamos livres de nos voltarem a atormentar.

Há que identificar então no nosso planeta os vulcões activos e limpá-los diariamente evitando assim erupções. Quantos de nós poderão dizer que nunca perderam a calma perante uma ou outra situação, penso que ninguém, e isto acontece amiúde, porque somos preguiçosos, porque não fazemos esse exercício diário de atenção ao nosso ser interior. Por outro lado também representam as pequenas tarefas do dia-a-dia que muitas vezes não gostamos de fazer, mas se queremos que tudo corra bem há que desempenhá-las quer queiramos quer não. Neste capítulo faz-se muito a alusão ao trabalho, ao esforço, à constância e à disciplina.

“No dia da partida, quis deixar tudo em ordem e passou a manhã a cuidar do seu planeta. Varreu cuidadosamente por dentro os vulcões em actividade. Tinha dois vulcões em actividade. E davam imenso jeito, de manhãzinha, para aquecer o pequeno-almoço. Tinha mais um vulcão, mas extinto. Também varreu o vulcão extinto porque, pensou ele, “nunca se sabe…” Bem limpos, os vulcões ardem devagar e sem erupções.”

 

Os habitantes dos asteróides

Estes representam os adultos que absorvidos pela ambição, obsessão ou vício, muitas vezes se deixam cegar pela ambição de poder, de posição social, de dinheiro, de vaidade, ou pela dependência de algo, quer de álcool, de tabaco, de drogas, mas muitas vezes também somos dependentes de afectos ou atenção, representam então aqueles adultos que cegos de egoísmo se fecham em si mesmos. É interessante perceber também que mesmo as personagens que aparentemente representam falhas de carácter tem algo a ensinar-nos.

Em cada personagem, com as suas características, está uma alusão aos diversos tipos de pessoas, pois analisando podemos chegar à conclusão que a maioria do ser humano se ocupa com o que lhes convém, não se importando com os sentimentos alheios, mas simplesmente com os seus interesses, ideia esta que Saint-Exupéry sempre defendeu.

Falaremos agora especificamente das características de cada um, e vai ser praticamente impossível não nos retractar com uma ou outra característica das mesmas.

 

O Rei

Rei

  • Sábio
  • Autoritário
  • Cego de poder

O rei simboliza decididamente aquelas pessoas ávidas de poder, que pensam que tudo e todos são seus súbditos e que têm portanto o controlo sobre tudo.

Representa a autoridade, mas não esqueçamos que um rei só exerce o seu poder se houver alguém que se submeta, e cada vez são menos as pessoas que o fazem, pois não confiam nos governantes visto que hoje em dia estes governam pelo simples prazer de ordenar e não porque pensem no bem comum.

Por outro lado podemos por exemplo, associar o rei a um pai de família. Então este representa a autoridade máxima porque governa com razão e coerência, pois pensa no bem dos seus, ou então podemos deduzir que o autor nos queria ensinar que ninguém tem autoridade sobre outro uma vez que a decisão de fazer ou não fazer algo é exclusivamente de cada um e sendo assim, se temos esta liberdade, se temos este poder de decisão então não podemos culpar ninguém pelos nossos actos.

Também representa o verdadeiro sábio, porque ensina-nos que cada um só pode dar aquilo que tem, que a autoridade se baseia no bom senso e que portanto se se quer governar tem de se fazê-lo de acordo com as necessidades do homem.

“Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar. A autoridade baseia-se, antes de mais, no bom senso. Se um rei ordenar ao seu povo que se deite ao mar, ele revolta-se. Eu, eu tenho o direito de exigir obediência porque as minhas ordens são sensatas.”

 

O Vaidoso

vaidoso

  • Vaidade
  • Insegurança


"Lembra-nos que a vaidade é um defeito que todos nós manifestamos uma e outra vez, quando pensamos que somos melhores que o os demais."

 

Ao dar-nos a conhecer esta personagem o autor pretende mostrar-nos que há pessoas que só vêem o que querem ver e só ouvem o que querem ouvir, que buscam elogios em todo o lado, e mais, que necessitam desses elogios para sobreviver. O vaidoso é aquele que necessita da admiração de todos para comprovar o seu valor.
Representa também a vaidade, a necessidade que os demais nos admirem nem que seja pela superficialidade, isto é, pela roupa que vestimos e pelos bens que possuímos.

Como disse esta personagem encarna o desejo de reconhecimento e admiração da sociedade. Representa de certa forma o egoísmo e faz-nos reflectir sobre o número de vezes que agimos sem ter em conta os desejos ou necessidades alheias. Lembra-nos que a vaidade é um defeito que todos nós manifestamos uma e outra vez, quando pensamos que somos melhores que o os demais. É um alerta à reflexão, à reflexão que as nossas acções provocam reacções e que como tal, mais tarde ou mais cedo podem levar-nos a ficar sozinhos.

Saint-Exupéry pretendia alertar-nos a observar e a observarmo-nos, pois não se pode pretender admiração se nós próprios não nos conhecemos, isto é, temos que aprender que a verdadeira beleza não reside no externo, ela habita nas profundezas do nosso ser e é lá que permanece através dos tempos. Também é uma chamada de atenção para que reconheçamos os nossos próprios talentos, as nossas capacidades e para nos auto-afirmarmos, pois se não gostarmos de nós quem gostará?

“- «Admirar» quer dizer o quê?”
- «Admirar» quer dizer que reconheces que eu sou o homem mais bonito, mais bem vestido, mais rico e mais inteligente de todo o planeta.”

 

O Bêbado

Bêbado

  • Complexado
  • Tímido

 

"Um vício é um hábito frequente que normalmente desenvolvemos para esquecer ou fugir daquilo que não nos agrada naquilo que somos"

 

Simboliza a falta de força de vontade e de superação humana. O bêbado é uma personagem complexada, que bebe para esquecer, afoga-se no vício da bebida porque tem vergonha de ser bêbado e então acaba por se fechar num círculo vicioso. O círculo fechado em que se encontra esta personagem é uma porta aberta a como um problema nos pode levar a um beco sem saída se não nos empenhamos em superá-lo.

O seu desabafo é um alerta contra o vício nas mais diferentes formas com que se manifesta. Todos temos os nossos vícios. Um vício é um hábito frequente que normalmente desenvolvemos para esquecer ou fugir daquilo que não nos agrada naquilo que somos. Alguns vícios são menos saudáveis que outros. E há aqueles que são uma doença, e essa doença caracteriza-se pela dependência do hábito que se adquiriu não pelos resultados alcançados, mas pela própria distorção do seu propósito, ou seja, muitas vezes já não sabemos o que nos levou a estabelecer um vício.

Representa também a incapacidade que por vezes temos para enfrentar as pessoas e os problemas, e como muitas vezes buscamos soluções fáceis e provisórias. Mostra-nos que enfrentar os problemas com soluções aparentemente fáceis não erradica o problema, só o adia e como consequência estamos sempre a deparar-nos com ele, o tal ciclo vicioso. Há que buscar saídas diferentes, buscar soluções definitivas e não sermos como o bêbado que se conforma com o problema, que se lamenta e que sofre com o seu problema. O que fazemos muitas vezes é evadirmo-nos da realidade, o que nos leva a uma confusão de objectivos. Por exemplo, no caso da nossa personagem o principal objectivo do seu problema seria deixar de beber, mas o que ele faz é focar a sua atenção na vergonha que isto lhe produz. Então a solução para um caso como este, e não só, para todo e qualquer problema seria identificar a causa do vício para podermos posteriormente trabalhar sobre o efeito e erradicá-lo. É importante que tomemos o desabafo desta personagem como um alerta contra todos os vícios.

- E estás a beber porquê?- perguntou o principezinho.
- Para me esquecer- respondeu o bêbado.
- Para te esqueceres de quê?- perguntou o principezinho, que começava a ter pena dele.
- Para me esquecer que tenho vergonha- confessou o bêbado, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê?- tentou saber o principezinho, cheio de vontade de o ajudar.
- Vergonha de beber!- concluiu o bêbado, fechando-se definitivamente no seu silêncio.”

 

O Homem de Negócios

negócios

  • Avarento


"O ser humano com estas características está tão ocupado a contar o tamanho da sua riqueza que não aproveita a vida"



Podemos dizer que de certa forma esta personagem é semelhante ao rei. A diferença é que o homem de negócios diz possuir as estrelas e o rei diz governá-las. Este passa a vida a contar as suas estrelas que lhe servem para ser rico mas ao mesmo tempo não lhe trazem felicidade.

 

"E que o importante é valorizar o que somos e não o que possuímos."



Representa a vontade de possuir bens materiais, muitos dos quais até inúteis, que servem simplesmente para se ter mais que os outros. O ser humano com estas características está tão ocupado a contar o tamanho da sua riqueza que não aproveita a vida. O Principezinho faz-nos ver que o desejo de possuir também é um vício. E que o importante é valorizar o que somos e não o que possuímos.

É uma chamada de atenção ao facto de que cada vez mais nos deixamos robotizar, de que não damos valor às pequenas coisas, de que não dedicamos tempo a cuidar do nosso ser interior. Ao facto de deixarmos que a cobiça e o egoísmo se apoderem da nossa vontade, traduzindo-se então na perda de valores afectivos, familiares e inclusive morais e éticos, provocando muitas vezes a solidão, a insatisfação, a infelicidade e o vazio interior. Por isso muitas pessoas se sentem assim hoje em dia mesmo vivendo nas melhores das condições, pois a felicidade reside no ser e não no ter.

 

"Uma amizade plena de ternura, compreensão e cumplicidade é superior aos bens materiais que acabam por fazer de nós escravos do trabalho e incapazes de disfrutar deles de verdade."


Segundo o Principezinho as coisas que se possuem verdadeiramente são aquelas com que se pode interagir e portanto ser-lhes úteis também. Uma amizade plena de ternura, compreensão e cumplicidade é superior aos bens materiais que acabam por fazer de nós escravos do trabalho e incapazes de disfrutar deles de verdade.

-E para que te serve teres estrelas?
-Serve-me para ser rico.
-E para que te serve seres rico?
-Para comprar outras estrelas, se alguém as descobrir.”
(…)
“-Eu, cá por mim, tenho uma flor. Rego-a todos os dias. Tenho três vulcões. Limpo-os todas as semanas. Porque também limpo o que está extinto. Nunca se sabe… É útil para os meus vulcões e é útil para a minha flor que eu os tenha. Mas tu não és útil para as estrelas!”

 

O Acendedor de Candeeiros

  • Trabalhador
  • Fiel
  • Obediente

 

"Por vezes temos um amigo ao nosso lado e não o vemos, pois estamos assoberbados de tarefas, muitas vezes sem sentido, para concretizar, não retirando portanto qualquer proveito do nosso dia-a-dia pois o trabalho por si só não nos satisfaz e ao mesmo tempo rouba-nos o tempo para o que realmente importa."

 

Representa a rotina que não muda e que nós próprios também não tentamos mudar, que nos consome e desgasta física, psicológica e mentalmente e muitas vezes fazendo coisas inúteis, sem sentido para nós. Ainda assim, para o principezinho este é o menos ridículo de todas as personagens pois ocupa-se de algo alheio a si mesmo, ou seja, que não serve para seu próprio benefício.

Acendedor candeeirosÉ um homem trabalhador e fiel às ordens e por isso um bom homem, pois um bom homem cumpre com o seu dever. O problema é que por vezes, as ordens precisavam ser renovadas e não são, e então, o bom homem passa a ser insensato pois não é capaz de discernir se o que está a fazer ainda é útil ou se simplesmente passou a não ter razão de ser. É que o Universo está em constante evolução, e como tal, o homem, as crenças e as relações humanas também, e o que acontece é que muitas vezes nós somos este acendedor de candeeiros que não tem o bom senso de questionar a razão de ser das coisas e trabalha sem parar, mesmo sabendo que o que faz não tem qualquer sentido ou utilidade.

Por vezes temos um amigo ao nosso lado e não o vemos, pois estamos assoberbados de tarefas, muitas vezes sem sentido, para concretizar, não retirando portanto qualquer proveito do nosso dia-a-dia pois o trabalho por si só não nos satisfaz e ao mesmo tempo rouba-nos o tempo para o que realmente importa.
Por outro lado, às vezes, prendemo-nos de tal modo às nossas ocupações que achamos que o mundo não funcionará sem a nossa contribuição e então sentimo-nos importantes, imprescindíveis, como uma engrenagem no funcionamento desse mundo, e vamos acumulando mais responsabilidades, de modo que o tempo se vai esvaindo. Quando vemos, estamos num ritmo tão acelerado que já não conseguimos parar. Precisamos aprender a respeitar o nosso próprio ritmo e não abraçar mais responsabilidades do que aquelas que as nossas forças permitem, pois só dessa forma seremos realmente úteis à humanidade.

Então devemos olhar em redor e procurar realizar o que realmente é importante, valorizar o nosso entorno, e adaptarmo-nos à evolução quer da natureza quer da humanidade no geral e agir livremente conforme essa evolução.

-Olá, bom dia!
-Bom dia!
-Olá, bom dia! Porque apagaste mesmo agora o teu candeeiro?
-São as ordens que tenho -respondeu o acendedor.
-Ordens? Que ordens são essas?
-Para apagar o candeeiro. Boa noite!
E voltou a acendê-lo.
-Mas porque voltaste a acendê-lo?
-São as ordens que tenho -respondeu o acendedor.
-Não percebo -disse o principezinho.
-Não há nada para perceber. Ordens são ordens.”

 

O Geógrafo

geografo

  • Importante de mais para andar a vadiar
  • Sábio
  • Inteligente
  • Estudioso






"O autor pretende mostrar-nos que o conhecimento por si só não serve, os livros não nos dão a experiência de vida, só o dia-a-dia e o contacto com as pessoas e com a natureza."

 

 O geógrafo representa todas aquelas pessoas que cultivam demasiado o intelecto, mas não aplicam os conhecimentos e ao mesmo tempo passam a vida a questionar aqueles que ousam explorar e agir. Representa aquelas pessoas que ficam à espera de ver comprovadas as suas teorias através de outras pessoas, e que ficam comodamente à espera que as coisas aconteçam. O autor pretende mostrar-nos que o conhecimento por si só não serve, os livros não nos dão a experiência de vida, só o dia-a-dia e o contacto com as pessoas e com a natureza. Pode de facto haver pessoas muito inteligentes, possuidoras de muitas técnicas a nível intelectual, mas se não agimos, se não saímos de casa essa sabedoria torna-se incompleta. Não esqueçamos que o excesso de conhecimento associado à falta de vivência pode ser um comportamento danoso, tal como quando um rio estagna porque o seu caudal de certa forma deixou de fluir.

-Sou um geógrafo -respondeu o senhor de idade.
-E o que é um geógrafo?
-É um cientista que sabe onde ficam os mares, os rios, as cidades, as montanhas e os desertos.
-Que interessante! -disse o principezinho.- Isto, sim, é uma profissão!- E pôs-se a olhar à volta: nunca tinha visto um planeta tão majestoso.
-É bem bonito, o seu planeta. Tem algum Mar?
-Não faço ideia -respondeu o geógrafo.
-Ah! -o principezinho ficou muito desiludido. -E montanhas?
-Não faço ideia -respondeu o geógrafo.
-E cidades e rios e desertos?
-Também não faço ideia -respondeu o geógrafo.
-Mas o senhor é geógrafo!
-Pois sou, mas não sou explorador -disse o geógrafo.”

 

A serpente

  • Sábia
  • Muito mais poderosa do que um dedo de um rei


A serpente é um animal que desde sempre aparece associada à morte, mas também à tentação de conhecer a verdade (como a serpente que tenta Adão e Eva com a maçã do conhecimento) e com a sabedoria. SerpenteAparece muitas vezes relacionada com a ciclicidade e com o eterno quando surge como uma serpente que morde a própria cauda. Neste contexto, ou seja, na obra ela realmente surge como representação da morte, o único mistério que o homem não pode conhecer até que chegue o momento. Mas na obra não se fala da morte como algo trágico, fala-se dela como algo que inevitavelmente acontecerá. A morte não surge como um fim, mas sim como um meio do Principezinho regressar a casa, pois segundo esta, só ela é capaz de devolver ao local onde pertence todo e qualquer ser, representando então o início de um novo ciclo.
Embora fale sempre por enigmas, a serpente é a personagem mais franca de toda a história. Pois desde que conheceu o Principezinho lhe disse que tinha o poder de o devolver à sua terra simplesmente com o seu toque, no entanto, ela respeita o que é puro e verdadeiro e dá-lhe portanto o poder de decisão.

-Se um dia tiveres muitas saudades do teu planeta, eu posso ajudar-te. Posso…
-Oh! Escusas de continuar, eu já percebi! – disse o principezinho. – Mas porque só falas por enigmas?”

 

A raposa

  • Sábia
  • Amiga
  • Responsável

 

"os amigos não se compram, cultivam-se diariamente"

 

RaposaA raposa é uma peça essencial e de extrema importância na obra. É com ela que o Principezinho aprende o valor da amizade e dos laços de união que se criam entre as pessoas. Ensina-lhe como funciona todo o processo de conhecer os demais, descobrindo que o outro é importante para nós, assim como nós somos importantes ao nosso semelhante também.Com a raposa podemos aprender que quando criamos laços com alguém, ficamos ansiosos, impacientes, agitados e desejosos de que chegue o momento de estarmos juntos de novo, e isto é importante, pois significa que somos um entre mil para esse  alguém e vice-versa. Se num mundo tão grande somos tantos os seres que permanentemente chocam uns com os outros, se nos empurramos sem sequer nos saudarmos, sem sequer levantar os olhos para ver quem está ao nosso lado, como poderemos distinguir-nos no meio de tantos e tantos seres humanos? O que nos distingue é o que nos ilumina, é a luz que nos embelece e ao mesmo tempo afecta o nosso semelhante. Esta luz é o resultado de algo muito importante que a raposa ensina ao principezinho, é o resultado do processo de cativar, tarefa imprescindível para captar a verdadeira essência da amizade, que por sinal é um processo moroso e difícil, pois os amigos não se compram, cultivam-se diariamente. Com a raposa o Principezinho aprende que apesar de existirem milhares de rosas como a sua, a dele é única, e foi o tempo que ele lhe dedicou que a fez tão diferente e importante. Cativar significa conquistar e é um processo que requer responsabilidade. Responsabilidade por um amor, por um amigo, por um ideal de vida e por tudo aquilo que conquistamos a nível individual. Somos responsáveis por aquilo que cativamos, e muitas vezes, é necessário que personagens como o Principezinho e a raposa nos lembrem.

 

"Não confundamos rito com rotina, pois os rituais trabalham directamente com o nosso ser interior e provocam-nos crescimento interior ao contrário das rotinas que já vimos que nos levam à mecanização."

 


Aprendemos também a importância dos ritos e que estes fazem parte da existência humana. O ser humano, como ser social que é, necessita de manifestações externas para se relacionar com o mundo e com os seus semelhantes.

Através dos ritos, o ser humano guia a sua própria existência e coloca ordem na sua vida, que muitas vezes se encontra completamente desordenada, e ordena também as suas relações, muitas vezes turbulentas, com os demais. Um rito é uma acção, mas há que ter em conta que vivemos cheios de rotinas, e isto é um perigo, pois a rotina leva à mecanização e nós temos de deixar de ser máquinas. Não confundamos rito com rotina, pois os rituais trabalham directamente com o nosso ser interior e provocam-nos crescimento interior ao contrário das rotinas que já vimos que nos levam à mecanização. Podemos vê-los como um antídoto para a rotina, pois estes permitem-nos romper com a uniformidade e a monotonia da existência humana. Sem ritos deixamos de gerar acção, perdemos a consciência de que estamos vivos, porque estes são uma forma de sentir a força e a capacidade transformadora que o individuo tem. Os ritos estão presentes em tudo, não nos esqueçamos que toda a natureza é movida por ritos, por exemplo as estações do ano, os ciclos lunares, o nascer e o pôr-do-sol, tudo fenómenos visíveis e essenciais que permitem e promovem a renovação e revitalização da natureza.

 

"O verdadeiro amigo é aquele que vê com os olhos do coração e transcende às aparências físicas, às posses materiais para buscar desinteressadamente o verdadeiro bem para o outro, isto é a verdadeira amizade, então, encontrar um verdadeiro amigo é como que encontrar um tesouro que queremos muito guardar a sete chaves para não o perder."



Segundo a raposa é o rito que faz com que todos os dias e todas as horas sejam diferentes.
A raposa também ensina uma outra lição ao Principezinho, e por consequência a nós. Ela ensina:

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.” Pois a individualidade consegue-se nas pequenas coisas, nos detalhes que muitas vezes são esquecidos. Detalhes como um simples sorriso por exemplo, os pequenos detalhes são o que torna um ser único, e gestos como este, um simples sorriso, muitas vezes passam despercebidos ao olhar, é preciso sentir o calor desse sorriso nos nossos corações. O verdadeiro amigo é aquele que vê com os olhos do coração e transcende às aparências físicas, às posses materiais para buscar desinteressadamente o verdadeiro bem para o outro, isto é a verdadeira amizade, então, encontrar um verdadeiro amigo é como que encontrar um tesouro que queremos muito guardar a sete chaves para não o perder.

 (…) “Cativar” quer dizer o quê?
-É uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços…
-Criar laços?
-Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…”
(…)
-Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
(…)
-Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
-O que é um ritual? – disse o principezinho.
-Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas.(…) ”

 


Conclusão

Como pudemos ver, o Principezinho é uma obra muito bela e de uma poeticidade deslumbrante que nos mostra uma profunda mudança de valores e que nos ensina como nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e como esses julgamentos nos levam à solidão. Entregamo-nos às nossas preocupações diárias, tornamo-nos adultos de forma definitiva e esquecemos a criança que fomos. "O Principezinho" é uma obra eterna e como tivemos a oportunidade de constatar compreende uma série de metáforas que precisam ser compreendidas para entender plenamente o sentido da obra, hoje, é um privilégio partilhar convosco a minha visão e interpretação pessoal desta obra maravilhosa, mas este facto não exclui que esta mesma obra possa ser interpretada por diferentes pessoas, de diferentes formas. Cada opinião e cada reflexão são uma verdade, não havendo uma forma exclusiva de ver e interpretar os ensinamentos que o autor faz, nem alguém que possa dizer que a sua visão é a mais correcta.
Reler esta obra foi simplesmente delicioso para mim, e devido à sua riqueza, sempre que lhe pego descubro uma nova chave de interpretação, uma nova metáfora, um novo ensinamento, o que me leva a crer que esta obra é eterna, e que como tal, sempre que se pensa chegar ao fim, na verdade a sua interpretação está simplesmente a recomeçar.



Não se esqueçam que dentro de cada um de nós há um principezinho, e a nossa missão como seres na busca da evolução é trazê-lo à luz, é dar-lhe força, e não tenham receio de voltarem a ver as coisas sob o prisma de uma criança, pois estas não têm dúvidas, sabem o que querem e lutam para conseguir concretizar os seus objectivos. Elas vêem no seu semelhante a oportunidade de fazer um amigo, não têm medo de ser felizes e entregam-se de corpo e alma à vida. Saint-Exupéry ensina-nos que o que a Humanidade mais necessita não é conseguir que uma criança pense como um adulto mas sim que um adulto sinta e pense como uma criança, de uma forma desinteressada, plena e verdadeira.

PRINCIPIZINHOGostaria também de vos convidar a retomar alguns ritos a partir deste momento, ritos tão simples como sentar-nos à mesa e partilharmos comida e não só, aproveitarmos o momento para partilhar acima de tudo a experiência adquirida ao longo do nosso dia-a-dia, acarinharmo-nos, conversarmos e rirmos juntos, saudar as pessoas na rua e torná-las únicas com o nosso gesto. Enfim, este é um convite a viver cada dia como um ritual, dando importância às pequenas coisas, imprimindo-lhes força, vontade e amor. E assim, como a raposa do Principezinho, ajudar a potenciar a vida tornando uns dias diferentes dos outros.

O Principezinho é assim, uma viagem iniciática, de procura e descoberta do que é realmente importante e essencial. E “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. É uma obra transversal a todas as gerações onde se valoriza o tema da amizade, do amor e do sentido da vida.

Sónia Oliveira
25 de Setembro de 2012



Voluntariado

 

 

 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster