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As Profecias De São Malaquias - parte I

 

Introdução

“O acaso não é mais do que a medida da nossa ignorância”
Henri Poincaré

O tema, deste breve trabalho, são as Profecias (1) de São Malaquias, também conhecidas como as Profecias dos Papas.

Propomo-nos apresentar as Profecias, as questões fundamentais que permitam ao leitor formar a sua opinião. Apresentar a questão, os argumentos a favor e contra e não tentar convencer ninguém, do que quer que seja. As interpretações apresentadas foram feitas com recurso à investigação, intuição e alguma razão, mas não as queremos impor a ninguém, são uma proposta de análise para potenciar a discussão criativa do tema. Não nos propomos fazer futurologia e tentar adivinhar o que vai acontecer, mas sim efectuar uma reflexão filosófica sobre tema.

Em geral o tema das profecias é bastante complexo, porque, normalmente, e neste caso não foge à regra, estão envoltas em mistério e existem poucos factos. É sempre difícil ao leitor de uma profecia fazer uma interpretação actualista, em pleno séc. XXI, do que supostamente Malaquias captou no século XII. São dois mundos diferentes, com a sua realidade, conceitos e linguagem próprios.

Uma tentação grande quando se analisam profecias, e esperamos não o ter feito, é ser fácil ajustá-las aos factos depois destes já terem acontecido. A grande dificuldade quando se faz uma análise simbólica é encontrar a chave certa para o símbolo.

Socorremo-nos, por se enquadrarem no tema em apreço, das palavras do filósofo Fernand Schwarz “Toda a passagem e mudança de Era é acompanhada, inevitavelmente de sinais, predições, profecias e mesmo de acontecimentos apocalípticos. Trata-se do Eterno Mito de Milenium ancorado no espirito do Homem que acredita sempre, mesmo quando vive em épocas onde as pessoas não confiam nas tradições, que a vida histórica está tão sujeito a regras como o individual, com uma fraca margem de liberdade, mas onde certos momentos, verdadeiras charneiras da história, fazem-nos sentir a proximidade dos acontecimentos fixados antecipadamente. Assim, a civilização e os Homens que não viveram como filósofos tem medo da morte e veem o fim da sua época como «o fim do mundo».”  

Quem foi São Malaquias

Vamos fazer uma breve alusão a alguns factos da vida de Malaquias (2), pois o objectivo deste trabalho não é fazer uma biografia deste Santo. Conhecemos a vida de Malaquias O’Morgair, pela pena do seu ilustre biógrafo, Bernardo de Claraval.

Malaquias O’Morgair nasceu em Armagh, na Irlanda, em 1094. Pertencia a uma família nobre irlandesa. Cresceu na fé católica. O seu pai morreu quando Malaquias ainda era uma criança, ficando a sua educação a cargo de sua mãe. A mãe é descrita por Bernardo de Claraval como sendo uma «cristã obediente». Na adolescência Malaquias encontrou o seu primeiro mestre, o eremita Imar O’Hagan, que iria moldar a sua personalidade. O eremita ensinou ao seu jovem discípulo a importância do trabalho duro, do jejum, da mortificação da carne e da dor piedosa existente na abnegação das coisas mundanas. O’Hagan ensinou-lhe, também, os cânticos gregorianos e inspirou nele a necessidade de reformar a Igreja Irlandesa, que nessa altura estava minada pela imoralidade.

Em 1117, três anos antes do limite de idade, Malaquias na época com 22 anos foi ordenado diácono. Fez então todo o percurso dentro da hierarquia da Igreja. Mais tarde foi vigário-geral encarregue de reformar a diocese de Armagh. Malaquias começou a espalhar com sucesso e com resultados visíveis, pois os leigos voltaram à igreja, a mensagem das virtudes do matrimónio e da penitência, pedra basilar do seu pensamento.

Depois do bom trabalho realizado na diocese de Armagh, viajou para Lismore para estudar com o erudito canónico Malchuns, arcebispo daquela província. Com apenas 30 anos, em 1124 aceitou o bispado de Down e Connor. Teve de trabalhar muito para conseguir que a Irlanda respeitasse os princípios canónicos, pois na altura eram muitas vezes preferidos os ritos irlandeses nativos. Em 1129 tornou-se arcebispo de Cellah, no meio de uma guerra pela luta por este poder eclesiástico. Não foi pacífica a sua nomeação, feita directamente pelo seu antecessor, mas para evitar derrames de sangue, e sendo um pacificador, retirou-se para Bangor e assumiu aí o arcesbispado.

Então, surge a possibilidade de fazer uma peregrinação a Roma, para obter do papa o reconhecimento oficial. Falaremos mais à frente e com mais detalhe desta jornada, pois é muito importante relativamente ao tema das profecias. Outro facto de relevo, nesta jornada e na vida de Malaquias, é que vai a Claraval e conhece aquele que será o grande amigo da sua vida, Bernardo de Claraval. Este último vai posteriormente escrever a biografia de Malaquias. S. Bernardo é uma das mais extraordinárias figuras da época medieval. Quando Malaquias chega a Roma o papa concedeu e aprovou a criação das Sés Irlandesas. E como reconhecimento do papel desempenhado por Malaquias, promoveu-o a legado papal, embaixador do papa, na Irlanda. Mas não lhe concedeu o seu desejo mais profundo, o ter a permissão para deixar os seus deveres junto da Igreja Irlandesa e passar o resto da sua vida em Claraval. Voltou para casa, fazendo uma nova visita a Bernardo em Claraval. E retomou os seus deveres os antigos e os novos.

Em 1148, com 54 anos foi ao encontro do Papa Eugénio III, que se encontrava em França, com o objectivo de lhe entregar documentos referentes à Igreja Irlandesa. E aproveitou para fazer uma visita ao seu amigo de sempre Bernardo de Claraval, e junto a este, acabou por morrer a 2 de Novembro, concretizando assim o que o próprio havia profetizado. S. Bernardo espalhou o culto da santidade de Malaquias, «Os discípulos reconheceram que Malaquias possuía, nesta ocasião, o espírito da profecia. Esta ocasião não foi a única, como prova o facto que se segue. São episódios escolhidos entre numerosos que se verificaram. São consideráveis para esse tempo, porque já não vivemos mais um século de prodígios, conforme o que está escrito: “não temas mais sinais e não existem mais profetas.” São factos escolhidos dentro um grande número de acontecimentos citados “profecias, revelações, punições de impios, graças de cura, conversões dos corações, ressurreições dos mortos, nada lhe faltou, Deus que o amava enriqueceu-o com todas estas glórias.» (3). Foi canonizado em 1199, pelo papa Clemente III.

A Peregrinação a Roma e as Profecias

Em 1140 Malaquias de Armagh realizou uma peregrinação a Roma. S. Bernardo de Claraval seu biógrafo assim o diz. O capítulo dedicado a este tema é curto e sem grandes descrições sobre o que se terá passado. Foi durante esta peregrinação que Malaquias conheceu Bernardo, em Claraval, e entre os dois criou-se uma ligação para toda a vida. Ora, o capítulo dedicado a esta importante fase da vida de Malaquias, e fundamental quanto ao assunto que nos propomos analisar neste breve trabalho, é especialmente evasivo. Não sabemos se o é porque não são assuntos que devam ser partilhados ou se realmente nada de relevante aconteceu. Inclusive o encontro entre os dois santos é descrito muito brevemente. No entanto, Bernardo de Claraval descreve com detalhe o encontro de Malaquias com o Papa Inocêncio II.

Bernardo de Claraval dedica o capítulo V da sua biografia à peregrinação a Roma e aos milagres que aí tiveram lugar. Como mencionámos supra, Malaquias efectuou uma peregrinação a Roma, cujo objectivo era a busca do reconhecimento papal para o trabalho que estava a desenvolver na Irlanda, em nome da fé Católica, Apostólica e Romana. Em Março de 1140 chega pela primeira vez a Claraval. E Bernardo, parece-nos, é propositadamente evasivo, e em cerca de uma página, descreve que foi um momento importante para Malaquias, para ele próprio e para todos os irmãos, mas continua a sua narração já em Itália, onde, descreve que Malaquias curou um menino. Em Maio de 1140 chega a Roma, onde é recebido por Inocêncio II. A primeira coisa que Malaquias pede ao Papa é que lhe seja dada permissão para viver e morrer em Claraval. Bernardo diz que este pedido deveu-se ao impacto que Claraval teve sobre ele. Por isso nos parece que o biógrafo, propositadamente, não descreveu o encontro, mas por este pedido de Malaquias conseguimos ver que foi profundo, ao ponto de não querer voltar à sua terra natal. Mas o papa não alui este seu desejo. Inocêncio viu nele outras potencialidades. Inquiriu sobre o que se passava na Irlanda, nas suas igrejas. Em sinal de apreço por Malaquias apontou-o e promoveu-o a legado papal, embaixador do papa, na Irlanda. Deu a bênção apostólica e autoridade. Bernardo diz que Malaquias esteve um mês em Roma e que visitou lugares santos e se dedicou à oração. E faz a viagem de regresso à terra natal. Nesta viagem volta a passar por Claraval entre Julho e Agosto de 1140. Nesta altura da biografia, Bernardo de Claraval utiliza a expressão profecia de Malaquias, para se referir a um pedido que este fizera a Bernardo. Já que não lhe tinha sido dada a permissão para permanecer junto dos irmãos, Malaquias pediu ao seu amigo que acolhesse quatro irmãos irlandeses, que os ensinasse para que depois ele pudesse aprender com eles. Mais, disse que seriam sementes que abençoariam nações. S. Bernardo entendeu-o como profecia.

O facto é que Bernardo nada diz sobre as profecias de S. Malaquias, ou sobre as profecias relacionadas com os papas. É o argumento utilizado pelos contestatários das mesmas, para questionarem a sua autenticidade. Mas parece-nos que isso também não nos pode levar a concluir que estas profecias não são da autoria de Malaquias. O facto de algo ser mentira não faz com que o oposto seja verdade. Mas é um facto importante a ter em conta.

Mas o que é dito, comumente, é que nesta peregrinação a Roma, Malaquias terá tido uma visão de todos os papas que deviam reinar depois de Inocêncio II até ao fim dos tempos, até ao dia do julgamento final. Estas profecias foram então escritas e entregues ao papa e teriam ficado perdidas no arquivo do Vaticano, por mais de quatro séculos. O facto de o primeiro papa da lista ser Celestino II, o sucessor de Inocêncio II, parece indicar que a lista teria sido redigida durante a estadia de Malaquias em Roma.

Porém, realmente não sabemos se as profecias foram escritas por Malaquias O’Morgair, se foram redigidas em 1140, numa visão em Roma, e caberá a cada um de nós intuir o que é verdade para si. E em abono da verdade, saber quem foi o seu autor não é o mais importante, conforme iremos analisar. E daí, uma conclusão puramente pessoal sem qualquer prova documental, parece-nos ser uma possibilidade o facto de S. Bernardo não ter falado das profecias dos papas, por isso ir contra a Igreja estabelecida. Mas deixa as chaves para quem conseguir ler nas entrelinhas. Porque, convenhamos, Bernardo pintou nesta biografia um Santo na verdadeira acepção da palavra e se mencionasse as profecias podia criar um mal estar na Igreja, que mais tarde iria santificar Malaquias. Mas, caro leitor, isto é pura especulação da nossa parte. É neste sentido que lemos as palavras enigmáticas de Bernardo de Claraval: “não temas mais sinais e não existem mais profetas.”. O facto de São Malaquias ser o autor das profecias não é o facto mais importante da questão, mas sim o conteúdo das profecias, que falaremos seguidamente.

As profecias vêm a luz do dia

Nos finais do século XVI, 1590, nos arquivos do Vaticano, Dom Arnold Wiou, um historiador beneditino, descobriu os 112 motes e inseriu-os na sua obra Lignum Vitae (4), que constitui uma história da Igreja. Foi publicada em 1596, sob o título Prophetia de S. Malachiae Archiepiscopi, de Summis Pontifibus. Constitui uma lista de dísticos ou divisas que identificam o cognome dos papas, sem identificar o nome eclesiástico. A cada um deles é atribuído uma divisa que expressa um traço essencial ou uma característica como pessoa ou como papa. A ideia de atribuir nomes de papas foi da autoria de Alfonso Chácon. Diga-se que, na altura do seu ressurgimento, ninguém questionou a sua autenticidade. Outro facto que abona a favor da credibilidade das profecias é o facto, de que se realmente tivessem sido forjadas pela igreja, não estariam incluídos na lista os anti-papas.

A primeira crítica surge com a publicação, em 1689, pelo jesuíta Cláudio Menestrier, da «Réfutation des Prophéties faussement attribuées à S. Malachie sur les élections des popes». Diz este padre que as profecias tinham sido forjadas para levar à eleição do papa Gregório XIV, como uma forma de orientar os eleitores. De facto, esse conclave foi demorado. Mas é uma mera possibilidade pois não há provas neste sentido. Diz o autor que foram forjadas para favorecer a eleição do cardeal Simoncelli, mas o cardeal eleito foi Sfondrato. Na altura do conclave nada foi escrito sobre esta hipótese, que surge quase cem anos depois. E mesmo a ser verdade, porquê fazer um trabalho tão minucioso? Haveria, decerto, outras maneiras mais simples de influenciar o conclave. Estas conspirações sempre existiram no interior da Igreja, especialmente na eleição de um homem para o trono divino de Pedro.

E desde aí a controvérsia sobre estas profecias não teve fim. Como é óbvio a Igreja Católica tentou desacreditá-las, pois profetizavam o seu fim. E iniciou-se uma campanha de anti-informação, tendo os jesuítas, os seus maiores críticos, agido para defender a fé. Mas pensemos, se as profecias fossem tão infundadas a Igreja não teria necessidade de fazer contra-informação. Ironicamente, é o próprio Vaticano que as alimenta e cria sobre elas a sombra da conspiração.

Margarida Mourão
Lisboa
2012


(ler segunda parte aqui)

(1) Etimologicamente é o acto de interpretar a vontade de Deus.

(2) Não confundir com o profeta Malaquias, a quem é atribuído o 48.º Livro do Antigo testamento.

(3) Clairvaux, Bernard Of, Life Of St Malachy Of Armagh, Dodo Press, 27 Mar 2009;

(4) Árvore ou tábua da vida.


 

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