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Prólogo do Livro "A Voz do Silêncio" de H.P. Blavatsky

 

Voz do Silêncio










 

 

 

 

 

 

O livro que tem em mãos não é apenas mais um livro, é um livro que pode mudar a vida, embelezando-a, dignificando-a. O tesouro dos seus ensinamentos está dedicado aos que buscam um caminho, que embora ainda invisível é um caminho pressentido. Uma senda, sonhada? Talvez. Ansiada? Sim. Também temida, pois entrar no desconhecido significa abandonar certos hábitos, opiniões e crenças que, atando-nos ao conhecido, nos outorgam uma segurança que, pensamos, só a morte nos pode arrebatar.

 

«O livro está dedicado “aos poucos” porque é necessária uma certa serenidade de alma e um certo desapego dos “joguetes da ilusão” do mundo para reconhecer no próprio coração a veracidade dos seus ensinamentos.»



O livro está dedicado “aos poucos” porque é necessária uma certa serenidade de alma e um certo desapego dos “joguetes da ilusão” do mundo para reconhecer no próprio coração a veracidade dos seus ensinamentos. Mas, antes de tudo, porque é necessário um grande valor para caminhar por si mesmo e não depender de nada alheio à própria vontade e ao próprio sentido do dever...

E, no entanto, todos podemos beneficiar da beleza das suas imagens, todos podemos sentir, mais perto ou mais longe, no horizonte da alma, o raio vivificador da verdade que expressam. Se para Platão, Filosofia é a música da alma que busca e que ama a sabedoria, este livro, sem dúvida, pode despertar no leitor o coração filosófico e ainda o coração heróico.

Este é, sem dúvida, um livro para aprender de memória, para em circunstâncias perigosas arriscar por ele a vida, como faziam os protestantes com as suas Bíblias no século XVII e os hebreus com os seus Talmudes durante toda a Idade Média e depois.

Um livro que transcorridos mais de cem anos desde a sua primeira edição (em 1889) é reeditado e traduzido em mais e mais línguas é, sem dúvida, um clássico. As obras clássicas não são simplesmente as antigas, mas aquelas que superaram a prova do tempo. O valor de um livro ou de uma obra artística não está apenas no impacto que gera nas consciências do seu século, mas também no que causa nos séculos em que ainda continua a ser estudado. Os paradigmas, prisões e sustento das mentes humanas são duradouros; porém mais duradouro ainda é a verdade, que desliza silenciosa e inadvertidamente, muitas vezes, entre as suas brechas.

Uma alma bondosa e forte, uma Discípula fiel e infatigável, sendo uma das personagens mais polémicas do século XIX, Helena Petrovna Blavatsky (H.P.B. para os seus discípulos) foi quem transcreveu e traduziu para o inglês esta obra do Livro dos Preceitos de Ouro. Livro de conhecimento obrigatório entre os Discípulos das outrora Escolas Esotéricas do Tibete, como a que menciona H.P.B. que estava adjunta à residência do Panchen Lama, em Tsi-Ga-Tsé, e cuja existência era desconhecida ainda para os monges gelugpa que oficiavam e estudavam no Mosteiro de Tashi Lhumpo, situado nas imediações da escola. Nestas Escolas Esotéricas transmitiam-se conhecimentos, diz H.P.B, não só da essência, o coração de Diamante do Budismo Mahayana, mas também ensinamentos de antiguidade inenarrável transmitidos pelos Adeptos desde o nascimento da Raça Indo-Ariana... e anteriores, e que foram o fundamento, explica ela, da maior parte dos textos filosóficos e religiosos da Índia e do Tibete.

O Livro dos Preceitos de Ouro forma parte da mesma série dos textos de onde foram retiradas as Estâncias de Dzyan em que está baseada a sua monumental obra A Doutrina Secreta. Voz do Silêncio, Os Dois Caminhos e Os Sete Portais são três pequenos tratados de entre os noventa que compõem o texto, e dos quais a autora aprendeu trinta e nove de memória.

 

"Os paradigmas, prisões e sustento das mentes humanas são duradouros; porém mais duradouro ainda é a verdade, que desliza silenciosa e inadvertidamente, muitas vezes, entre as suas brechas."



Este livro e o conjunto de que forma parte são da máxima importância e o trabalho de H.P.B. é inestimável, já que sendo uma série de obras secretas dentro do Canon Sagrado Tibetano (os 1707 livros do Kangyur e do Tangyur), “desapareceram” com a invasão chinesa do Tibete, em 1950, embora de facto jamais tenham sido do conhecimento dos profanos. A mesma H.P.B. explica no artigo «Os Livros Secretos do Lam-Rim e Dzyan que: O Livro de Dzyan é o primeiro volume dos Comentários aos sete tomos secretos de Kiu-te e um glossário das obras exotéricas do mesmo nome. Em poder dos Lamas Gelugpas do Tibete, na biblioteca de qualquer mosteiro, há trinta e cinco volumes de Kiu-te escritos para uso dos profanos; e também catorze volumes de comentários e anotações sobre esta obra por instrutores iniciados.

Em rigor, aqueles trinta e cinco volumes deviam intitular-se Versão Popular da DOUTRINA SECRETA, pois abundam em mitos, véus e erros. Por sua vez, os catorze volumes de comentários, com as suas interpretações e notas acompanhadas de um extenso glossário de termos ocultos, coligidos a partir de uma pequena obra arcaica, o Livro da Sabedoria Secreta do Mundo, representam um compêndio de todas as Ciências Ocultas. E, ao que parece, são mantidos em segredo e fora das vistas profanas, sob a custódia do Teshu Lama de Tsi-Ga-Tsé.

Os livros de Kiu-te são relativamente modernos, compilados que foram durante o último milénio; ao passo que os primeiros volumes dos Comentários são antiquíssimos, havendo sido preservados alguns fragmentos dos manuscritos originais.

Embora os Comentários expliquem e rectifiquem alguns relatos por demais fabulosos e, segundo todas as aparências, acrescentados de enormes exageros que se observam nos livros de Kiu-te propriamente ditos, a verdade é que pouco mais têm em comum com estes últimos. A relação entre eles é análoga à que existe entre a Cabala caldaico-judaica e os livros de Moisés.»

Sobre a origem destes ensinamentos tão sublimes, no artigo “Tibetan Teachings”, H.P.B. mostra uma carta escrita a seu pedido pelo Venerável Chohan Lama, o chefe dos Arquivos e de Bibliotecas que contêm manuscritos sobre doutrinas esotéricas e que pertenceram aos “Ta-loï e Tashu-hlumpo Lamas Rim-boche do Tibete”. Este Venerável Chohan Lama, diz H.P.B., é quem tem um conhecimento mais profundo em todo o Tibete sobre a ciência do Budismo esotérico e exotérico e refere na dita carta:
«...o cânon sagrado dos tibetanos, o Kangyur e o Tangyur, compreende 1707 tratados distintos - 1083 volumes públicos e 624 volumes secretos - o primeiro sendo composto por 350 volumes in foliam e o último por 77.

Mesmo que, por acaso, tenham sido vistos, posso assegurar aos teósofos que o conteúdo destes volumes nunca poderá ser entendido por alguém a quem não tenha sido dada a chave para o seu peculiar carácter e para o seu oculto significado.

Toda a descrição das posições é figurativa no nosso sistema; qualquer nome ou palavra é propositadamente velado; e um estudante, antes de lhe ser dada qualquer instrução, tem de estudar o modo de decifração e então compreender e aprender o equivalente ao termo secreto ou sinónimo que seja uma palavra próxima da nossa linguagem religiosa. Os sistemas demótico e hierático egípcios são brincadeiras de criança comparando-os com os nossos puzzles sagrados. Mesmo naqueles volumes a que as massas têm acesso, todas as frases têm um significado dual, um para os ignorantes e outro para aqueles que receberam a chave para a interpretação.

(...)

Na Teosophist de Outubro, 1881, um correspondente informa acertadamente o leitor de que Gautama Buda, o sábio, ‘insistia na iniciação ser aberta para todos os que fossem qualificados’. Isto é verdade; tal era o propósito original posto em prática durante algum tempo pelo grande Sang-gyas, e mesmo antes de ele se tornar o Todo-Sábio. Mas três ou quatro séculos depois da sua separação deste ciclo terrestre, quando Asoka, o grande suporte da nossa religião deixou o mundo, os Arhat iniciados, devido à oposição secreta, mas firme dos Brahmanes ao seu sistema, tiveram que sair do país, um por um, e procurar segurança para além dos Himalaias. Então, embora o Budismo popular não se tivesse espalhado no Tibete antes do século VII, os iniciados Budistas nos mistérios e no sistema esotérico dos arianos Duas Vezes Nascidos, abandonando a sua terra natal, Índia, procuraram refúgio junto dos ascetas pré-budistas; aqueles que tinham a Boa Doutrina mesmo antes dos dias de Shakya-Muni. Estes ascetas desde tempos imemoriais tinham-se fixado para além dos Himalaias. Eles são os sucessores directos daqueles sábios arianos que, em vez de acompanharem os seus irmãos Brahmanes na emigração pré-histórica do Lago Manasarovara através da Cordilheira Nevada até às quentes planícies dos Sete Rios, preferiram permanecer nos seus inacessíveis e desconhecidos bastiões. Não espanta, por isso, que a doutrina esotérica ariana e as nossas doutrinas Arhat sejam consideradas quase idênticas. A Verdade, como o sol por cima das nossas cabeças, é uma; mas parece que esta evidência eterna tem que ser constantemente reiterada para fazer as pessoas lembrarem-se do negro, tal como do branco. Só essa verdade pode ser mantida pura e despoluída dos exageros humanos - os seus muitos defensores cedo procuram adaptá-la, pervertê-la e desfigurar a sua face para os seus próprios objectivos pessoais - e tem de ser escondida longe do olhar do profano. Desde os dias dos primeiros mistérios universais até ao tempo do nosso grande Shakya Tathagata Budha, que reduziu e interpretou o sistema para a salvação de todos, a divina Voz do Eu, conhecida como Kwan-yin, foi ouvida apenas na sagrada solidão dos mistérios preparatórios.

O nosso mundialmente venerado Tsong-kha-pa fechando o seu quinto Damngag lembra-nos que cada verdade sagrada, que os ignorantes são incapazes de compreender debaixo da sua verdadeira luz, tem de ser escondida dentro de um casco triplo escondendo-se como a tartaruga esconde a sua cabeça dentro da sua carapaça; tem de mostrar a sua face àqueles que estão desejosos de obter a condição de Anuttara Samyak Sambodhi - o mais piedoso e iluminado coração.»

A importância deste trabalho de divulgação mostra-se, por exemplo, numa carta que H.P.B. escreve a A. P. Sinnet (1)

«Eu terminei um enorme Capítulo Introdutório, ou Preâmbulo, Prólogo, chame como quiser; apenas para demonstrar ao leitor que o texto (de A Doutrina Secreta) apresentado, cada secção começando com uma página da tradução do Livro de Dzyan e do Livro Secreto de Maytreya Buddha Champai chhos Nga (em prosa, e não os cinco livros em verso conhecidos que são uma dissimulação) não é nenhuma ficção.»
Na edição inglesa de 1939, os teósofos de Adyar celebraram o 50º Aniversário da primeira edição de A Voz do Silêncio e no estudo introdutório do mesmo, descreveram circunstâncias muito interessantes sobre como foi escrita esta jóia mística e literária.

H.P.B. viveu os seus últimos dias de vida em Londres, Lansdowne Road 17 (2), com saídas ocasionais no país e no continente, poucas, sem dúvida para quem tantas vezes tinha dado a volta ao mundo... e de que modo! Foi durante uma estadia em Fontainebleau, perto de Paris, que ela escreveu A Voz do Silêncio. Enquanto o escrevia foi visitada por Annie Besant, que se tinha filiado na Sociedade Teosófica no ano anterior, e que estava acompanhada de Herbert Burrows, fiel colaborador seu, em actividades sociais. A parte que H.P.B. leu aos seus dois convidados foi o terceiro fragmento, intitulado Os Sete Portais, talvez o mais comovedor do livro. Annie Besant deixou a descrição desta visita na sua autobiografia, editada dois anos depois da morte de H.P.B:

«Eu fora convocada a Paris para assistir, juntamente com Herbert Burrows, ao grande Congresso Trabalhista aí realizado, de 15 a 20 de Julho, e ambos passámos um ou dois dias em Fontainebleau  em companhia de H. P. Blavatsky que se tinha retirado para o exterior a fim de passar umas semanas em descanso. Ali vi a sua tradução dos maravilhosos fragmentos de O Livro do Preceitos de Ouro, agora tão amplamente conhecido sob o nome de A Voz do Silêncio. Ela escreveu-o rapidamente, sem qualquer cópia material diante de si, e à tarde fez-me lê-lo em voz alta para verificar se o “inglês era decente”. Ali estavam Herbert Burrows e a Sra. Chandler, uma leal teósofa norte-americana, e sentámo-nos em volta de H.P.B., enquanto eu lia. A tradução estava em perfeito e formoso inglês, fluente e musical; apenas uma ou duas palavras nos pareceram que se podiam alterar enquanto ela nos olhava como uma criança assustada, admirada pelos nossos elogios - elogios que qualquer um com senso literário endossaria se lesse esse belo poema em prosa.»

Dois anos depois, em 1895, Annie Besant fez um relato mais completo numa das suas conferências. Tendo primeiro falado da Doutrina Secreta de H.P.B., a conferência prosseguiu: «Agora resta outro ponto acerca de outro livro seu que é, para mim, de um interesse especial - A Voz do Silêncio - um livro que podeis conhecer. Coincidiu ser escrito enquanto eu estava com ela em Fontainebleau. É um pequeno livro e o que vou dizer cingir-se-á apenas ao livro: não falo das anotações que foram feitas depois. O livro é o que podemos chamar um poema em prosa em três capítulos. Escreveu-o em Fontainebleau, e a maior parte foi escrita enquanto estive com ela; eu sentava-me na sala enquanto ela o escrevia. Sei que ela não recorreu a nenhum livro para o escrever; escreveu-o de certeza, hora após hora, exactamente como se estivesse a escrever de memória ou lendo-o aonde não havia livro nenhum. Ela produziu, de tarde, esse manuscrito que eu a vi escrever estando sentada a seu lado, e pediu-me, a mim e a outros, que corrigíssemos o seu inglês, alegando que o tinha escrito tão rápido que estava certa de que a redacção estava má. Não o alterámos senão em poucas palavras e o livro permanece como um espécime maravilhosamente belo de obra literária, sem incluir o resto... O livro é, como disse, uma prosa em verso, cheia de inspiração espiritual, cheia de alimento para o coração, estimulando as mais excelsas virtudes e contendo os mais nobres ideais. Não é uma salada feita de iguarias de várias fontes, mas um todo ético e coerente. Move-nos, não pela exposição de factos reunidos de livros, mas por um apelo aos instintos mais divinos da nossa natureza; em si, ele é a melhor testemunha da fonte da sua origem.»

Esta visita ocorreu na segunda quinzena de Julho de 1889. No mês de Agosto desse mesmo ano, Mead, outro dos seus discípulos directos e fiel auxiliar no trabalho, e o último dos seus secretários particulares, teve a oportunidade de nos dar outro vislumbre do progresso da obra. H.P.B. tinha regressado a Inglaterra e permanecia em Jersey, onde um telegrama lhe comunicou a chegada de Mead...

«Que calorosa saudação havia na varanda daquela mansão, que era um favo de mel, e que azáfama para ter tudo confortável para o recém-chegado! Quase sempre me constituiu surpresa que a principal das acusações apontadas a H.P.B. tivesse sido a de fraude e simulação. Pela minha própria experiência, ela mostrava sempre extrema confiança nos outros e era pródiga na sua franqueza. Assim que um dos exemplares chegou, ela passou-me um punhado de todos os seus papéis e pus-me a trabalhar numa pilha de correspondência que, de outro modo, teria permanecido sem resposta até ao dia do Juízo Final; pois o que ela mais detestava era ter de responder às cartas. Um dia, pouco depois da minha chegada, H.P.B. entrou na minha sala com um manuscrito que me estendeu dizendo: “Lê isto, velho, e diz-me o que pensas a respeito”. Era o manuscrito da terceira parte de A Voz do Silêncio e enquanto eu o lia ela permanecia sentada e fumava os seus cigarros, batendo o pé no soalho, como era o seu hábito frequente. Eu fui lendo o manuscrito, esquecendo a sua presença na beleza e sublimidade do tema, até que ela quebrou o meu silêncio com: “Está bem?”. Eu disse-lhe que era a maior jóia de toda a nossa literatura teosófica e tentei, contra os meus hábitos, traduzir em palavras o entusiasmo que eu sentia. Mas mesmo então H.P.B. não estava satisfeita com a sua obra e expressou a maior apreensão pelo facto de poder ter falhado em fazer justiça ao original na sua tradução, e de que dificilmente poderia convencer-se de que se havia saído bem. Esta era uma das suas principais características. Nunca estava confiante nos seus trabalhos literários e, com prazer, ouvia todas as críticas mesmo de pessoas que deviam manter-se silenciosas. De maneira estranha, ela sentia-se sempre mais temerosa pelos seus melhores artigos e trabalhos, e mais confiante nos seus escritos polémicos.»
O último testemunho de que dispomos é o de uma jornalista norte-americana que a visitou em Lansdowne Road, 17, na primeira ou segunda semana do mês de Setembro. O Coronel Olcott, numa viagem à Europa, tinha chegado a Londres no dia 4 e permanecia com H.P.B. em Lansdowne Road, «uma dessas largas e belas ruas - informa-nos a nossa correspondente - que se encontram nas vizinhanças do Hyde Park, onde cada casa é um lar que podia satisfazer nobremente. Bem conservados jardins ou quintais de verdes arbustos dão um toque de graça aos edifícios de estrutura de pedra que ali se usam. “Oui, Madame, entrez, s’il vous plait”, foi a resposta cordial à pergunta “Madame Blavatsky está; posso vê-la?”. Introduzida na primeira sala à esquerda, onde uma mesa grande e móveis indicavam sinais de uso - talvez uma sala de jantar, quiçá uma sala de recepção e, às vezes, de estudos, pois sobre a mesa havia diversos papéis e escritos - eu esperei por mais ordens. Após uns momentos abriu-se uma porta de duas folhas e vi-me face a face com um cavalheiro de grande físico, rosto afável, barba maravilhosa, um cavalheiro de aparências e maneiras tão únicas, que involuntariamente exclamei: “Coronel Olcott”. – “Exactamente, e a senhora é minha compatriota. Sente-se”. Ele tinha chegado a Londres apenas há alguns dias, procedente da Índia; os minutos voavam à medida que ele falava de trabalho e apenas foi interrompido por uma porta que se abria, anunciando a entrada de Madame Blavatsky. Como descrevê-la? Seria impossível. Uma impressão geral de bondade, de poder, de maravilhosos predicados, é tudo quanto me resta na mente, neste momento. Ela movia-se com dificuldade pois sofria muito de reumatismo mas, rindo, afirmava enquanto se sentava numa cadeira preguiçosa: “Já enganei os médicos e a morte tantas vezes que, dizem eles, eu espero enganar também este reumatismo, mas não é coisa fácil.”

 - Mas ainda escreve, Madame?
- Por certo, escrevo como sempre.
E o Coronel Olcott, interrompendo:
- O que importa um pouco de reumatismo, contanto que ele não lhe atinja o cérebro nem os escritos?
E todos nós rimos. Falámos de Teosofia e da sua rápida expansão, dos seus cooperadores, do Dr. Buck de Cincinatti, cujo retrato estava pendurado bem acima da minha cabeça e cujo rosto bem conhecido parecia sorrir numa saudação de boas-vindas a todos nós.

- Viu anunciada esta obra, Madame?” E colocou-me nas mãos as primeiras provas do seu novo livro, A Chave da Teosofia. Eu não o tinha e ela acrescentou que seria publicado muito em breve, como também um livro muito menor que acabara de terminar, A Voz do Silêncio. Ao manifestar a minha surpresa ante a soma de escritos seus, bem como ante os imensos conhecimentos revelados, o Coronel Olcott observou:

“Trabalho com Madame Blavatsky há já vários anos e sei muito bem disso. Ela é uma locomotiva a vapor para escrever. E quando digo que ao escrever Ísis sem Véu, com o seu vasto número de citações de antigos escritos, ela tinha acesso apenas a uma pequena estante de livros comuns; se acreditar no que lhe digo, ela lê na luz astral tão claramente como em páginas abertas”. Todo este tempo percebi que um par de olhos lia os meus próprios pensamentos e que um rosto oposto a mim, que podia tornar-se a qualquer momento tão imóvel como uma esfinge, estava no momento muito amável e animado. Não posso conceber nenhuma personalidade tão expressiva e de força de vontade tão forte quanto Madame Blavatsky. A sala onde estávamos sentados estava impregnada da sua individualidade. Estava cheia de tudo o que sugeria pensamento, refinamento, trabalho literário, interesse por amigos, mas não sobrava lugar para mera exibição de inúteis ornamentos. A mesa, com o coronel Olcott num lado e ela do outro, estava lotada de papéis e livros e as paredes cobertas de fotografias. E aqui, no coração da agitada cidade, vive e trabalha a fundadora da Sociedade Teosófica.»

Pertencendo este livro, como as Estâncias de Dzyan, ao Corpus secreto do Canon Budista (o Kangyur e o Tangyur), ainda não se encontrou a referida obra na literatura tibetana, o que fez com que muitos críticos da figura de H.P.B. afirmassem taxativamente que ela tinha inventado - divina invenção que lhe outorgaria ainda mais mérito! – o referido opúsculo. Esses, cujos nomes não mencionaremos, também disseram que H.P.B. nem sequer tinha estado no Tibete.

No entanto, em 1927, Alice Leighton Cleather e Basil Crump reeditaram, na China, A Voz do Silêncio sob os auspícios da Chinese Buddhist Research Society em Pequim. Eles afirmaram no prólogo do livro que o IX Panchen Lama (1883-1937) - a máxima autoridade no conhecimento e religião tibetanas, o Mestre do Dalai Lama - considerava esta obra como «a única verdadeira exposição em língua inglesa da Doutrina do Coração do Mahayana e do seu nobre ideal de auto-sacrifício pela humanidade». Este mesmo Panchen Lama escreveu nesta edição uma breve mensagem sobre o caminho de libertação.

O lama Kazi Dawa Samdup, outra autoridade na Igreja Tibetana e tradutor, juntamente com Evans-Wentz de O Livro dos Mortos tibetano, era também da opinião que «apesar das críticas adversas publicadas contra as obras de H.P. Blavatsky, existem nelas provas internas adequadas de conhecimentos privados da sua autora com as mais elevadas instruções lamaístas, em que ela declarava ter sido iniciada». (3)

E o professor Daisetz Teitaro Suzuki (1870-1966), o mais erudito e esclarecido divulgador do Budismo Mahayana e mais especialmente do Budismo Zen, declarou que «aqui está o verdadeiro Mahayana Budista».
E para concluir, como coroa destas argumentações, recordo que o próprio XIV Dalai Lama, Tenzin Gyatso, afirmou: «Eu acredito que este livro influenciou fortemente muitos buscadores e sinceros aspirantes para a sabedoria e compaixão do caminho do Bodhisattwa». O mesmo Dalai Lama recomenda a leitura deste livro na edição comemorativa do primeiro centenário, em 1989.

São inúmeras as passagens onde H.P.B. refere, de um modo directo ou indirecto, as suas estadias no Tibete e o profundo e pormenorizado conhecimento da sua religião e filosofia, mesmo desde a sua adolescência. Por exemplo na resposta a Arthur Lille, em 1884, que queria informações mais precisas sobre “os sete anos de iniciação de Madame Blavatsky” responde:

«O humilde indivíduo deste nome jamais ouviu falar em iniciação durando sete anos. Talvez a palavra “iniciação” - com aquela exactidão da explicação dos termos esotéricos que tão proeminentemente caracteriza o autor de Buda e o Budismo Primitivo - queira dizer “introdução”? Se assim for, então dir-lhe-ei explicitamente que vivi em diferentes períodos tanto no Pequeno Tibete como no Grande Tibete e que estes períodos combinados somam mais de sete anos. Detive-me nos conventos lamaístas! Visitei Tzi-Ga-Tsé, o território de Tdashoo Hlumpo e as suas vizinhanças e... fui mais além, e mesmo a lugares do Tibete jamais visitados por outros europeus.

E estou plenamente familiarizada com o Lamaísmo dos budistas tibetanos. Passei meses e anos da minha infância entre os calmucos lamaístas de Astracã e com o seu sumo-sacerdote. Embora heréticos na sua terminologia religiosa, os calmucos conservam ainda os mesmos termos idênticos aos dos outros lamaístas do Tibete (de onde procederam). Eu tinha visitado Semipalatinsk e os montes Urais na companhia de um tio meu, que tem propriedades na Sibéria bem como na fronteira dos países mongóis, onde reside o “Lama Tarachan”. Fiz numerosas excursões além das fronteiras e sabia tudo acerca de Lamas e Tibetanos antes dos meus quinze anos.»

E numa carta a A.P. Sinnet, em 1886, diz-nos que «quando tinha onze anos, a minha avó levou-me a viver na sua companhia; morava em Saratóvia quando o meu avô foi Governador, e antes disso em Astracã, onde ele tinha muitos milhares (alguns 80 ou 100.000) de budistas calmucos sob a sua jurisdição.»

Esta obra expressa, sem dúvida, a quinta essência do Budismo Mahayana e, o que é mais importante, a quinta essência do desejo intenso de todos os Heróis e Budas para que os seres humanos se libertem da atracção magnética do seu egoísmo e possam assim dar nascimento e vida ao verdadeiro ser, cristalização pura da verdade, beleza e justiça. Assim afirmam as palavras do Buda no Mahaparinirvana Sutra, palavras que comovem a alma e a fazem descobrir a sua verdadeira natureza:

«Oh nobre juventude! Quando o mundo, cansado de tristezas, se afaste e se separe da causa de todas estas tristezas, então, por esta rejeição voluntária, permanecerá o que chamo “o verdadeiro eu” e é deste que explicitamente declaro a doutrina do que é permanente, pleno de alegria, pessoal e puro.

 

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole Portugal

 

 

1. The Letters of H.P.Blavatsky to A.P.Sinnett, 1925

2. H.P.Blavatsky viveu nesta residência de 1887 até Julho de 1890, mudando-se posteriormente para a 19 Avenue Road, onde permaneceria até ao seu óbito em Maio de 1891

3. Recordemos que o lama Kazi Dawa Samdup (m. em 1922), para além de ser tradutor de Alexandra David Neel e de Evans Wentz, foi embaixador plenipotenciário do Tibete na Índia e membro do séquito do XIII Dalai Lama durante o seu exílio na Índia en 1910. E também Lecturer da prestigiosa Universidade de Calcutá en 1919.


 

 


 

 

 


 

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