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A Realeza no Egipto: as dinastias divinas e humanas
                  
Segundo a tradição, os antecessores dos faraós foram os “espíritos semidivinos”. Os faraós dinásticos e pré-dinásticos eram concebidos como ligações de uma grande cadeia de governantes divinos. Antes das dinastias humanas, houve dinastias divinas.

Na religião ou mitologia egípcia, vemos que muitos deuses foram governantes do Egipto. O deus Re, pelo que nos reserva dizer, reinou sobre os deuses e homens. Sucedeu-o Shu, que, cansado de reinar, deixou o poder a seu filho Geb e buscou refúgio no céu. Seu reinado foi pouco tranquilo. O filho de Geb foi Osíris que, quando seu pai se retirou para o céu, o substituiu, e, na qualidade de rainha, sua irmã Isis. Conta-nos que, na história sagrada do Egipto, Osíris teve como principal preocupação abolir a antropofagia e comunicar aos seus súditos as técnicas necessárias para fabricar ferramentas agrícolas e a plantação do trigo e da videira, com vista à obtenção de produtos como o pão, o vinho e a cerveja. Fundou o culto às divindades, construiu os primeiros templos, esculpiu as primeiras estátuas, regulamentou as cerimónias e inventou inclusivamente, conta-nos F. Guirand (3), as duas classes de flautas que deviam servir para acompanhar o canto nas festas e solenidades. Depois edificou cidades e ditou leis justas ao seu povo. Por tudo isso mereceu ser chamado de Unofris “o Bom”, epíteto do qual é conhecido na série dos faraós divinos.

Seth também é apresentado como “Senhor do Alto Egipto”, a quem depuseram do seu poder os adoradores do deus Falcão.

O sucessor de Osíris foi Hórus.

Heródoto conta-nos que:

Declara-se, portanto, a verdade, e seja Hércules considerado, como o é, um deus muito antigo, porque se ouvirmos os egípcios desde a época em que os oito deuses engendraram aos outros doze, entre os quais conta-se Hércules, até o reinado de Amasisi, passaram não menos de 7000 anos.

A propósito do referido, diziam-me os egípcios e os seus sacerdotes, e comprovavam-no com os seus monumentos, que, contando desde o primeiro rei até ao sacerdote de Vulcano, haviam passado naquele período 341 gerações de homens, em cujo percurso sucederam no Egito outros sumos sacerdotes e igual número de reis. Contando, então, 100 anos por cada três gerações, as 300 referidas dão uma soma de 10.000, e, com as 41 que restam, totalizam 11.340 anos. Durante todos estes anos, diziam que não houve nenhum deus na forma humana, acrescentando que nem antes nem depois, no que diz respeito aos reis que existiram no Egipto, se viu coisa semelhante.

Verdade é, acrescentam, que antes destes homens, os deuses reinavam no Egipto, morando e conservando-se entre os mortais, tendo sempre um deles imperado de forma soberana. O último deus que reinou ali foi Hórus, filho de Osíris, chamado pelos gregos de Apolo, o qual terminou seu reino depois de ter acabado com o de Tífon (Seth). Em grego, Osíris é chamado de Dionísio, isto é, o Livre (4).

Manethon disse-nos:

“O primeiro homem-deus dos egípcios é Vulcano (o equivalente grego do egípcio Ptah), que também é famoso entre os egípcios por ter sido o descobridor do fogo. Sucedeu-lhe o Sol, depois Sosis, Saturno, Osíris, Tifon, irmão de Osíris e finalmente Hórus, filho de Isis e Osíris. Estes foram os primeiros que regeram o Egipto. Depois a realeza passou de um a outro em uma sucessão ininterrupta até Bidis (Bistes), ao longo de 13.900 anos.

Depois dos deuses, os heróis reinaram 1.255 anos, e logo após teve outra linha de reis que governaram 1.817 anos. Em seguida, vieram 30 reis de Menfis que reinaram 1790 anos, depois reinaram 10 reis de Tis durante 350 anos.

A este reinado, seguiu o dos Manes e dos heróis durante 5.813 anos.

O total chega a 11.000 anos, sendo estes períodos lunares, ou seja, meses, porque certamente o governo completo de que falam os egípcios, o governo dos deuses, reis e Manes, deve ter compreendido o total de 24.900 anos lunares, o que dá 2.206 anos solares (6).

Porém, esta confusão dos anos lunares e solares é só uma opinião de Eusébio, que pretendia fazer concordar a cronologia egípcia com a hebréia.

Na realidade, estas ideias não são somente egípcias, mas são como a ponta do iceberg de uma concepção da realeza na Antiguidade que encontramos desde a China até ao Peru ou à Grécia, e que podemos ver no mito das Eras de Hesíodo em sua Teogonia ou na mitologia judaico-cristã exposta no Gênesis. Todos coincidem em admitir que no mais remoto passado governaram os deuses. Assim, ocorria no Egipto, o faraó era um elo a mais na longa cadeira originada de uma mítica Idade de Ouro, e era possuidor de todo o império que sua ascendência divina lhe dava.

A Teologia Menfita

Também chegou até nós um texto denominado A Teologia Menfita, que mostra que as ideias platónicas e pitagóricas provinham do Egipto e demonstra que os últimos possuíam um avançado nível de especulação filosófica. Ainda nos serve para compreender o entorno teológico que envolvia a realeza egípcia. O texto é uma cosmologia. Descreve a ordem da criação e faz da terra do Egito uma parte integrante dessa ordem. Apresenta-nos Ptah como o criador de tudo e conjuga as vantagens intelectuais do monoteísmo com a variedade dos deuses egípcios reconhecidos. Supõe-se que estava composto de seis partes.
Na primeira secção proclama-se que a terra do Egipto provem do deus criador Ptah-Ta-Tjenen, Ptah, “A Terra Emergida”. Faz-se menção à aparição de um país unido sob o domínio de um rei.

Na segunda secção, Geb, o deus-terra, atua como juiz entre Hórus e Seth. Primeiro divide o país entre os dois, porém arrepende-se desta decisão e rescinde-a, dando toda terra a Hórus, Então diz-se que as duas coroas do alto e baixo Egipto “crescem” na cabeça de Hórus, o qual aparece no papel de Menes (um papel que assume todo o rei em sua coroação, “unificando as duas terras” sob seu único governo). Hórus identifica-se com o deus-lobo Upwaut, cujo significado é “aquele que abre os caminhos”, e cuja insígnia está associada claramente com o faraó em todas as grandes cerimónias. Há que salientar que Hórus se converte em rei das duas terras, não como conquistador, mas como um justo herdeiro.

“Hórus ergueu-se como rei do território. E assim, uniu este grande país chamado com o Grande Nome, a Terra-Emergida-que-está-ao-sul-da-sua-Muralha”.

As duas “grandes magias” surgiram na sua cabeça. Assim Hórus apareceu como o rei do Alto Egipto e como o rei do Baixo Egipto que uniu as Duas Terras na província da Branca Muralha, no lugar de onde se unem as duas Terras.

Das secções três e quatro do texto citado, não vamos destacar nada. Da quinta, vale destacar que é a famosa secção onde aparece Ptah como criador de todas as coisas, e que estas coisas foram objetivadas ao serem pronunciadas pela sua “língua”. Ptah mostra-se como o criador de todas as coisas e de uma ordem cósmica da qual são parte as cidades e os santuários do Egipto.

Na sexta secção explica-se a estreita conexão entre o deus e a terra do Egipto, localizando, em Menfis o seu templo. Menfis passou a ser o centro do Egipto, onde estava enterrado o corpo de Osíris. Dessa cidade irradiavam-se as forças vivificadoras por toda a terra de Kem. Osíris era considerado o antepassado morto dos reis da linhagem Menes. Quando ocorreu a sua morte, depois do enterro contava-se que seu destino foi duplo, por um lado, uniu-se ao Rei Sol, porém também se incorporou no “séquito de Ptah-Ta-Tjenem”, ou seja, tornou-se terra, unindo os mundos explicados mais acima. Depois do enterro, Hórus subiu ao trono.

“Seu filho Hórus apareceu como rei do Alto Egipto e como rei do Baixo Egipto nos braços de seu pai Osíris, na presença dos deuses que estavam antes e atrás dele”.

Isto refletir-se-á depois nas cerimónias de sucessão ao trono. “Cada rei, ao morrer, converte-se em Osíris, exactamente igual a cada rei que, em vida, aparece “sobre o trono de Hórus”, cada rei é Hórus” (2). O rei escorpião que provavelmente precedeu a Menes era considerado como a encarnação do deus Hórus.
A teologia menfita confirma nosso ponto de vista. O faraó é o filho dos deuses, é Hórus, filho de Osíris, e é o seu pai do Egipto celeste, que o confirma no trono. Além disso, é um deus com a tarefa de realizar um plano divino, e a ordem na sociedade apresenta-se como parte da ordem cósmica.

Nessas circunstâncias, o faraó assume o poder, e a sua actuação não só está em legitimidade com a sua ascendência, mas também está imbuído da divindade e é um canal por onde fluem as forças da natureza ao corpo político, que o esforço humano gere resultados. Se utilizarmos o símbolo imortal do Egipto, a pirâmide, vemos como o Estado assume a dita forma e em seu topo está o faraó, no m
ais alto, ligado com o mundo celeste dos deuses. Deste ponto, é-lhe dado a contemplar a realidade mais além das limitações temporais, é conhecedor do passado e do futuro e pode prever os acontecimentos e dominar, ajudado pela magia dos sacerdotes, as forças caóticas da natureza para benefício do povo.

Além disso, o seu poder de homem-deus e de homem-mago não acaba com a morte. Nesse momento, assumindo a forma de Osíris, ele alcança plenamente a sua realidade de deus “regenerador”. Os reis morriam, comenta Henri Frankfort, e um governante sucedia ao outro, porém isto simplesmente confirmava aos egípcios que a qualidade essencial da realeza não poderia ser o praesens, “este rei governa”, mas teria que ser o perfectum, “este rei ascendeu ao trono”, ou em termos mitológicos, “Hórus sucedeu a Osíris”.

O conceito da divindade real e a identificação com Hórus

Em muitos textos, o rei chama-se simplesmente o Deus (netjer) ou “o bom deus” (netjer nefer). Porém, essa atribuição abstrata concretizava-se mais identificando-o com alguma deidade do panteão. O faraó identifica-se, como vimos, sobretudo com Hórus. Isso acontece porque de certa forma Hórus é, das dinastias divinas, o último deus, depois do qual iniciaram as dinastias humanas. Contudo, teologicamente, e esse é o caso que agora nos ocupa, “a divindade do rei era concebida especificamente como uma participação de essências com o deus Hórus, apesar do ser da deidade não se esgotar ao encarnar no governante vivo no Egipto” (2).
O símbolo de Hórus é o falcão, e precisamente é esta ave que se representa mais vezes junto ao faraó, inclusive apoiado na parte posterior de sua cabeça, como se o deus estivesse inspirando as decisões do governante. Chama-se, geralmente, “o grande deus”, o “senhor do céu”, e referem-se a ele como “o pássaro venerável em cuja sombra está a extensa terra”, “senhor das duas terras sob cujas asas está o trajeto do céu”.

Representa o céu, o sol e supõe-se encarnado no rei. O epíteto de Hórus, o Grande Deus, também aparece em nomes de reis das quintas e quartas dinastias, Snefru y Qufu (Qeops), e Sahu-Re. Também se denomina a Pepi I, em seu ataúde, “O grande deus, senhor do horizonte”. Hórus é o deus da Realeza por excelência.
Não vamos nos deter muito nesse ponto, mas para os egípcios existiam dois Hórus: O Maior, anterior a Osíris, e Hórus, o Menor, filho do mesmo deus. Neste sentido, o rei é, por um lado, o “deus-céu”, e por outro, também é o filho de seu predecessor, que se converteu em Osíris no momento da sua morte. Contudo, na plenitude de seu poder é Hórus “o grande deus”.

Como deus que é, o rei relaciona-se com numerosas deidades das quais é igualmente servidor ou filho, conforme o caso. Por exemplo, Atum e Mont dirigem-se ao rei Seth I como “nosso amado filho”; Tutmosis III aparece como filho Atum em Medinet Habu, como de Re em Amada e como filho de Dedum em Semnah. A fórmula mais habitual é “filho de Re”.

Como tal, é um descendente distante do Criador e defensor da ordem criada. No conjunto de títulos, o epíteto “filho de Re” precede ao numem, o nome que se dá a ele ao nascer. Esta combinação indicava que o príncipe, ao que se havia conhecido por este nome até a coroação, era reconhecido como filho do Criador e, portanto, possuía a natureza essencial do governante. Para os egípcios, ainda que o rei pudesse ser um homem antes de ser coroado como sucessor no trono, esta cerimônia atuava como uma fórmula mágica levando a identificação do homem com a Divindade, Hórus, e deixando de ser um mortal comum. Não se pode esquecer que, nas civilizações teocráticas, os que se encarregavam da direção do Estado eram preparados ferreamente através de iniciações nas Escolas de Mistérios.

Isto é importante na relação com o conceito de realeza, visto que o faraó era visto como a encarnação ou personificação do deus, o qual os mortais conhecem como “Rei N”. Existia, inclusive, uma forma para se referir ao rei que indicava que o deus encarnava na figura física do faraó, a palavra hm, que se utilizava como um pronome possessivo, exatamente como usamos em “Sua Majestade”. Como destaca Henri Frankfort, “não são meras frases respeitosas, mas frases que acentuam que um Deus imortal estava incorporado ao governante terreno.”

O poder do faraó

O poder do faraó emana de sua condição de deus. Os egípcios compartilhavam a crença de que o seu governante possuía poderes sobrenaturais. Para esses povos, a realeza devia ser hereditária, uma vez que a sua linhagem provinha dos deuses. O poder que emana da sua divindade provocava também um temor reverencial, “a sensação de majestade que se experimenta diante da presença real”. Essa sensação de poder era ampliada com o cerimonial da corte, com as posses de poder e também com os trajes, as pedras preciosas e os símbolos que envolviam de uma forma deslumbrante o faraó.

No entanto, mais além da possível “representação” do faraó, o seu “poder” era sobrenatural e assim o povo o admitia. Em essência, o poder originava-se de seu Ka, não somente maior do que o de seus súbditos, mas essencialmente distinto. Com ele ou através dele poderia conseguir a prosperidade do Egipto e, consequentemente, de todos eles, inclusive poderia dotá-los de Ka. “O rei dá a seus servos Kas e alimenta os que são fiéis”. É como se houvesse um vínculo que unisse aos egípcios no invisível e que ligasse todas as almas entre si e com o espírito do faraó, o que seria como um sol espiritual à semelhança de Amon, o espírito do sol, que dá vida e vivifica todas as coisas. Teríamos que conceber fluxos de energia que vindo do alto alcançariam até o último lar do Egipto. Uma representação deste conceito pode ser apreciada nas imagens, naquelas onde se vêem, do disco solar, raios que terminam nas mãos. O faraó, como Deus Sol, realizava o mesmo acto de poder e transmitia a energia dos deuses, como intermediário que era entre a terra e o céu. Por isso Ele é o “senhor das duas terras”, não somente do Alto e do Baixo Egito, mas também do mundo terrestre e do mundo espiritual.

 

Epílogo

Como vimos, o conceito egípcio do sagrado engloba o conceito de realeza. Esta, por sua vez, é um dom dos deuses que encarnam como homem, os inspiram e mandam os seus filhos comandarem os povos desde Amon.

O faraó é o pastor, semelhante ao que logo é utilizado pelo cristianismo, que dirige o rebanho. Implica que há tipos de homens de consciência mais ou menos desperta, com responsabilidades diferentes na comunidade, porém, no fundo, todos são filhos de deuses. Sua essência é espiritual e mais além da “terra queimada” está a verdadeira pátria celeste.

Ao contrário dos que crêem que no Egipto somente se pensava na morte, este belo conceito optimista da visão da vida deu asas ao egípcio e permitiu-lhe viver mais feliz. Na verdade, no Egipto apenas se pensava na vida, na vida-una, sem fronteiras e sem medo. Os egípcios não depreciavam o regozijo dos prazeres terrenos, mas isso sempre que estes prazeres fossem guiados por Maat e tendo em conta os preceitos da confissão negativa.

Seja real ou falsa esta cosmovisão, o certo é que funcionou, e se o mundo é uma ilusão e um sonho onde cada um vê as coisas como pode, não podemos negar aos egípcios a conquista de uma forma de ver a existência que lhes permitiu viver com serenidade e alegria durante mil anos, e isso é muito tempo.
Hereditário ou não, a função do rei era uma responsabilidade que não se cumpria por desejo de riquezas e atrevemo-nos a dizer que seguramente, ao menos em relação à maioria dos faraós, tão pouco se fazia por ambição pessoal. O faraó era, na verdade, um sacerdote e o maior escravo a serviço do Estado. Além de sua função cerimonial, devia tratar de assuntos sobre relações internacionais, pactos políticos, comandar o exército, tomar decisões legais, organizar o reino, dirigir os visires, velar pelo desenvolvimento das artes e da cultura e conseguir que a fazenda pública funcionasse. Embora tivesse muitos servidores que o apoiavam nestas tarefas, isso não o privava da iniludível necessidade de as conhecer e de tomar decisões.

José Rúbio Sanchez

 

 

Bibliografia

(1) Bernal, M. Atenea Negra, Ed. Crítica. 1993

(2) Frankfort, H. Reyes y Dioses, Ed Biblioteca da la Revista de Occidente, 1969.

(3) Guirand, P. Mitologia General, Ed. Labor, 1965

(4) Heródoto de Halicarnaso. Los nueve libros de la Historia. Ed. Plaza y Janes, 1981

(5) Manethon, Historia de Egipto. Alianza Editorial, 1983

(6) Eliade, M. Lo sagrado y lo profano. Alianza Editorial

(7) Platão, Obras completas. Ed. Aguilar, 1979

(8) Serrano, J. M. Textos para la história de Egipto. Ed. Cátedra, 1993


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