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O Regresso do Sagrado

 

“Para Eliade, o que torna este século XX verdadeiramente importante não são as descobertas científicas – mesmo que a ciência nos tenha dado a fusão nuclear e a nave espacial – (...) mas sim a redescoberta do sagrado, quer dizer, a redescoberta da importância essencial que o sagrado tem em toda a existência humana. Eis o que é para ele a grande revolução deste século.”(1)

Paul Barba-Negra

 

Sacerdotisas Vestais de Roma.

 

A visão do mundo, de cada homem e da sociedade no seu conjunto, é importante para compreender a sua realidade histórica. As diferentes visões do mundo são ‘pensadas’ por elites, sejam elas de que ismo ou doutrina forem, mas todo o homem tem dentro de si, embora possa não estar consciente disso, uma representação do mundo, normalmente serva da forma mental de cada época, que está na base das suas decisões emotivoracionais. É fácil de ver que o mundo de hoje ainda vive muito subjugado pelos diversos racionalismos redutores, como é o caso do marxismo, que reduziu a origem da actividade humana a uma realidade estritamente económica, da mundivisão freudiana, que reduziu múltiplas raízes do ser à realidade sexual e do positivismo, que pregou a ‘omnisapiência’ da ciência tecnológica como solução de todos os males da humanidade. Esta trindade, economia-sexo-tecnologia, vigora hoje em dia com toda a força, enleando o ser humano num caleidoscópio alucinante idên­tico à caverna de Platão.

 Esta civilização do vazio está a desintegrar-se de ano para ano, dando origem a uma nova Idade Média que, por sua vez, dará lugar, pela ordem natural da vida, a uma nova civilização. É um ciclo omnipresente na história da humanidade. E quando se dá o ocaso de uma civilização, os germes da seguinte são ‘enterrados na terra’ a fim de frutificarem séculos depois. São as leis da Natureza aplicadas à humanidade.

 Num quadro pleno de luz existe um ponto negro que, com o tempo expandirá o seu perímetro até esse mesmo quadro ficar negro. Mas neste quadro negro já existe um ponto de luz que irá crescendo e crescendo até que um dia a luz impere. Tudo é cíclico na Natureza, como o dia e a noite, tendo por meta finalidades transcendentes à vida no mundo sensível.

No século XX, que ficará para a história como um dos períodos menos espiritualizados de sempre, surgiu em certos meios científicos uma nova visão do homem e do mundo que corta com o ciclo do racionalismo analisado no subcapítulo anterior, e regressa aos grandes pilares da cosmovisão tradicional. A emergência do ‘Novo Espírito Antropológico’ é uma das consequências desta nova (velha) visão do universo e do an­tropos. Ernst Cassirer (1874-1945) é considerado o pai da nova antropologia – ou antropologia religiosa – para a qual muito têm contribuído os participantes no círculo Eranos. Gilbert Durand testemunhou: “Os encontros de Eranos foram um cadinho onde se reuniram personalidades que, de outro modo, não trabalhariam conjuntamente... Eranos fez aquilo que as universidades não fazem. Talvez isso se deva à convivialidade que não existe nas universidades, à mesa redonda onde se reuniram pessoas tão diversas como Jung, Eliade, Shrödinger, o físico, Scgholem, Corbin, Kérényi, Portmann, o biólogo, Paul Raining, o etnólogo...   Eranos não é um deus mas uma palavra que significa banquete, aí, onde cada um leva o seu quinhão; é de facto a távola redonda.

Eranos, há vinte e três anos que lá vou, foi para todos nós uma confirmação. Não se deve esquecer que Jung colaborou com Pauli e com Shrödinger. E foi também uma confirmação para Eliade. (...) Não podemos conceber Eliade ou Jung ou ainda Corbin sem Eranos. De resto, é significativo que uma parte das suas obras tenha saído das conferências que deram em Era­nos.”(2) Fritoj Capra, especialista em física atómica, também tem contribuído assiduamente, através dos seus estudos, para es­ta nova visão do homem e do universo.

Na área da antropologia do imaginário e da história das religiões – onde inserimos o presente estudo – destacamos as pesquisas aturadas e a consequente hermenêutica desenvolvidas por Mircea Eliade (1907-1986). Paul Barba-Negra não tem dúvidas ao afirmar: “Não existe um único homem de ciência, entre os que agora aceitam como critério supremo o valor do sagrado, que não reconheça que a sua vida se mo­dificou a partir do momento em que descobriu a obra de Eliade.”(3) Este insigne historiador das religiões, para além da sua intensa actividade como docente universitário, nomeadamente na École Pratique des Hautes Études, em França, e a partir de 1957, na Universidade de Chicago, desenvolveu um profundo estudo no terreno, nos mais diversos pontos do planeta, sobre o fenómeno religioso. Permaneceu vários anos na Índia, onde contactou em profundidade com a sabedoria orien­tal, tanto na comunicação com sábios indianos, como através das suas experiências interio­res; e aprendeu a língua sânscrita a fim de conhecer as tradições orientais directamente através dos seus textos milenares. Este conhecimento da riquíssima tradição oriental levou-o a repetir “algumas vezes que corremos o risco de provincianismo; a filosofia ocidental não pode isolar-se indefinidamente na sua própria tradição(4). Através das suas pesquisas, chegou à conclusão de que existe uma visão mítica comum a toda a hu­ma­nidade e que a experiência do sagrado é inerente à própria con­dição humana: “É necessário insistir ainda neste ponto: o sagrado não é um estádio na história da consciência, é um elemento na estrutura dessa mesma consciência. Nos graus mais arcaicos da cultura, viver enquanto ser humano é em si um acto religioso, visto que a alimentação, a vida sexual e o trabalho possuem um valor sacramental. A experiência do sagrado é inerente ao modo de ser do homem no mundo. Sem a experiência do real – e do que não o é – o ser humano não saberia construir-se (...) Se a experiência do sagrado é essencialmente da ordem da cons­ciência, é evidente que o sagrado não se reconhecerá no ‘exterior’. É através dessa experiência que cada um poderá reconhecê-lo nos actos religiosos de um cristão ou de um ‘primitivo’.”(5)

Mircea Eliade, assim como outros investigadores notáveis na área da antropologia religiosa, chegou à evidência de que o mito já não pode ser visto como uma fantasia das humanidades pré-lógicas (como infelizmente ainda hoje é visto por muitos intelectuais eruditos... mas pouco cultos), sendo antes uma for­ma de conhecimento que foge aos domínios da razão. Como é evidente, o mito não pode ser apreendido numa leitura literal, pois conta uma verdade psicológica e revela o arquétipo, sendo o grande reservatório de sabedoria da humanidade. Continuando na esteira do sábio romeno: “Na linguagem corrente do homem moderno, o mito significa tudo o que se opõe à ‘realidade’. Embora herdeira do iluminismo e do posi­tivismo, essa desvalorização do mito é de origem cristã. Para o cristianismo primitivo, tudo o que não encontrava a sua justificação [histórica] num ou noutro dos dois Testamentos era falso. Mas para o homem das sociedades ‘primitivas’ e tradicionais, o mito, pelo contrário, é a única revelação válida da realidade. Para ele, o mito é suposto exprimir uma verdade absoluta, visto que ele relata uma história sagrada, isto é, um acontecimento primordial que teve lugar no início do Tem­po.”(6) “Eu emprego esse termo [o arquétipo] referindo-me a Platão e a Santo Agostinho: dou-lhe o sentido de ‘modelo exemplar’, revelado no mito e que reactualizamos através do rito.”(7)

Desde há séculos, a educação tem primado por desenvolver a mente conceptual, racional, e tem atrofiado a mente intuitiva e simbólica. Este ciclo está a esgotar-se e o pensamento simbólico e a inteligência emocional voltam a ser valorizados – estes utilizam como veículo o sistema límbico do cérebro, enquanto a mente analítica recorre ao neocórtex. Tem assim sentido a afirmação prospectiva de Fernando Pessoa: “No Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja, a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito – ou seja, o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística.”

 

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor

 

(1) Paul Barba-Negra, Gilbert Durand, Edgar Morin e outros autores, Mircea Eliade – O Reencontro com o Sagrado, p. 88.
(2) Ibidem, pp. 66-67.
(3) Ibidem, p. 90.
(4) Op. cit., p. 124.
(5) L’Épreuve du labyrinthe, entrevista de Claude-Henri Rocquet a Mircea Eliade, Belfond, 1978, p. 176. Recomendamos a leitura desta obra para melhor conhecer o percurso de M. Eliade através da sua própria narração. Edição portuguesa pelas Pub. D. Quixote com o título A Provação do Labirinto.
(6) Mircea Eliade, La Naissance du monde, 1959, p. 471.
(7) L’Épreuve du labyrinthe, p. 187.

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