Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

S. João da Arga

 

A serra de Arga, localizada no interior do Alto Minho, constitui mais um exemplo duma reserva de silêncio e de mistério do território português. Possui uma série de penedos popularmente baptizados, uma forte atmosfera lendária habitada por um sem número de mouras encantadas, e é considerado o reduto mais genuíno do arcaísmo minhoto. Vale a pena peregrinar pela luz pacífica dos seus vales.

 


Panorâmica da Serra d’Arga.

 

O conde de Almada estabelece um relação curiosa entre a povoação de Daem da Arga e Danaens da Grécia primitiva: «É interessante o paralelismo entre Danaens, povos de Argo, com a freguesia de Daem na Serra d’Arga. Muitos dos povos, chamados invasores, estabeleciam-se em zonas amplas da rota de Santiago, e antes dela no caminho para Finisterra, uma rota ancestral em que eles procuravam, no seu termo, as razões mais profundas da sua essência. Segundo a lenda irlandesa, os druidas descendem da deusa Dé Danan, tribo da Deusa Mãe. Danaens é o nome, segundo Apolodoro, que se dava aos argianos, os povos de Argo. Seriam os Pelasgos [ário-atlantes], povos vindos do mar Atlântico, os mesmos que na Líbia fundaram a cidade de Argo, homens do mar considerados sábios e de raça branca. Outra tradição irlandesa conta que os primeiros druidas, antes de aí chegarem, vieram de Espanha. Teria uma certa lógica que, a ser verdade, tivessem partido da costa portuguesa, pois esta fazia parte da Espanea e é virada para o Atlântico.»(1)

A cerca de quinze quilómetros de Caminha, num belo vale da serra de Arga, vamos encontrar um antigo mosteiro beneditino que chegou a ser templário. Vale a pena visitar o local. É um daqueles lugares que, antes do homem lá ter chegado, já a Natureza o tinha sacralizado.

É precisamente nesse sítio, bastante isolado das povoações, que se realiza aquela que é hoje considerada a romaria mais típica do Alto Minho, por ocasião da data em que se comemora a degolação de São João Baptista, ou seja, a 28 e 29 de Agosto. Logo na manhã de 28 de Agosto começam a chegar os romeiros, a maioria de automóvel, mas alguns a pé, como era costume geral ainda não há muitas décadas, fazendo então os romeiros o percurso das «sete serras».

 

De manhã, o Sol dá as boas vindas e a água cristalina da fonte de S. João reconforta os festeiros naquele recôndito vale com a porta aberta para os imensos horizontes da Natureza

 

À chegada, segundo a tradição, dá-se uma ou mais voltas à igreja – quem cumpre promessas leva uma estatueta do santo –, entra-se e, na abside, junto à imagem de S. João, está uma cruz de madeira que os romeiros utilizam primeiro para tocar no santo e depois na sua cabeça – muitos beijam-na. De seguida, dão a esmola ao Precursor e, os que seguem a tradição mais à risca, não deixam de dar uma moeda para o «Senhor Diabo» da estátua de S. Miguel, tradição que tivemos oportunidade de testemunhar.

A meio da tarde realiza-se uma missa, seguida de procissão, na qual, para além do andor de S. João, também vai o estandarte de Santo Aginha, o santo ladrão de canonização popular, muito venerado na Serra d’Arga. Segundo a lenda, Aginha, ladrão e malfeitor, era o terror da Arga. Ninguém andava descansado na serra. Um dia, um padre consegue convertê-lo e ele passa a desejar fazer boas acções, mas na sua primeira oportunidade de redenção, ao tentar consertar o carro de um lavrador passante, é morto por este, que se rejubila por ter aniquilado o terror de Arga. Entretanto, chega uma ordem do rei que premiava quem acabasse com o salteador. De imediato, o lavrador denuncia o seu «feito heróico» e leva as autoridades a ver o cadáver. Qual não foi a surpresa de todos quando verificaram que o corpo estava incorrupto, exalando um suave cheiro de flores silvestres. Sabendo, então, da sua conversão, logo o povo o aclamou como santo, construindo-lhe uma capela no local.

Depois da procissão, o ambiente começa a animar em crescendo e de uma forma completamente desordenada e espontânea: na zona interior do mosteiro, ao ar livre, surgem grupos com concertinas que cantam e dançam, no espírito da tradição das «rusgas». Mais tarde, começam as duas bandas a tocar, uma de cada vez, mas os grupos de concertinas, os cantares ao desafio, as danças, todo um hino à alegria espontânea, continuam sem parar até ao amanhecer. Este ambiente faz lembrar os celtiberos e outros povos do Norte Hispânico que, referidos por Estrabão, tinham «uma certa divindade sem nome, à qual em noites de Lua cheia as famílias rendem culto, dançando até ao amanhecer, junto às portas das suas casas.» (3, 4, 16) O carvalho e os sobreiros várias vezes centenários testemunham silenciosamente esta manifestação de alegria espontânea, muito difícil de descrever por palavras.

Esta festa, genuinamente minhota, constitui um autêntico prodígio. De noite, nos confins da serra d’Arga, continua a chegar uma multidão de jovens para dançar, cantar, divertir-se numa romaria sem qualquer programa, «apenas» com grupos de concertinas, bandas filarmónicas e cantares ao desafio. Imagine-se um mesmo espaço restrito, algumas pessoas a dirigirem-se à igreja, outras a escutarem grupos de concertinas espalhadas pelo recinto e outras ainda a dançar (ou a saltar) e a aplaudir as bandas filarmónicas que tocam ao desafio, ou seja, gerase um autêntico caos que misteriosamente não é sentido por quem lá está. Naquele espaço exíguo, vários mundos paralelos são abençoados pela divindade do entusiasmo. Dioniso está vivo...

Quando regressámos, já depois da meia-noite, passámos por quilómetros de automóveis estacionados, e continuavam a chegar pessoas, sobretudo jovens, para a «Festa»...

De manhã, o Sol dá as boas vindas e a água cristalina da fonte de S. João reconforta os festeiros naquele recôndito vale com a porta aberta para os imensos horizontes da Natureza. Ali, onde, mais um ano, o deus da alegria cumpriu a sua promessa e compareceu junto dos homens durante dois dias.

Iniciámos este «Museu Vivo» afirmando que as tradições populares não resultam de uma criação espontânea do povo, mas antes são remanescências ou reminiscências fragmentadas de uma antiga sabedoria tradicional veiculada por elites. Sabemos que hoje o conceito de elite não é visto com a desejável imparcialidade filosófica, o que resulta numa certa hipocrisia, pois pela estrutura natural da sociedade humana são sempre elites que tomam conta das rédeas dos diversos poderes. Como poderão todos governar? Um corpo só com cabeça é o desejável? A questão não está em saber se existem ou não elites. Já sabemos que existem. O ponto fulcral, a nosso ver, consiste em discernir as elites verdadeiras, naturais – as quais não necessitam de nenhum cargo para o serem, nem a isso estão apegadas –, das elites postiças, antinaturais, que não têm uma competência moral e operativa de acordo com a sua posição na sociedade.

Se o povo está ligado à Terra num sentido muito alargado do termo, e as elites estão simbolicamente relacionadas com o Céu, ou seja, com o mundo dos arquétipos, convém não esquecer que toda a Terra tem características especiais, assimila certas sementes, mas não outras, sendo este um factor de extrema importância. Neste sentido, tem lógica o questionamento de Tomás Ribeiro Colaço: «Virá um dia em que as nossas pobres elites despertem da sua tão longa e inglória falência? Compreenderão que o valor da elite é corporizar e comandar, desposando-os, os veios instintos da massa a que pertence – em vez de construir mecânicas supostamente inteligentes que naquele instinto não têm raiz?»

 

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor

   

(1) Conde de Almada, A Caminho de Santiago, Lello Editores, Porto, 2000, p. 138.

 

 

 

Voltar à página de Artigos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster