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As Sandálias do Mestre - Prólogo do livro

Sandálias do Mestre

O filósofo e ideólogo do Islão, Al-Ghazalî diz, no seu magistral tratado A Alquimia da Felicidade, que o ser humano, quando desperta do sonho da matéria, ouve, no santuário íntimo da sua alma, a voz de Deus.

Assim começa a sua peregrinação nas infinitas sendas do tempo e da vida e, elevando como uma tocha a luz que do coração irradia, penetra no fundo de si mesmo procurando respostas às perguntas que os Nomes de Deus fazem arder na alma. No início, diz Al-Ghazalî, é como se caminhasse em sendas de barro, areia ou pedra, depois é como se o fizesse sobre as águas e, num grau iniciático mais elevado, como se avançasse no ar… Estes são os diferentes graus de Iniciação de quem quer chegar a consumir-se no fogo sem nome nem forma de Deus.

Pois bem, como é que estando profundamente adormecidos ou estando a sonhar podemos entender, ou pior ainda, julgar aqueles que já saíram do amnios da ignorância e respiram por si próprios, caminham, nadam ou voam? A vida e obra heróicas de Ibn Qasî que os Almôadas denegriram e cobriram de infâmia, manipulando interessadamente a História, reaparecem de novo diante de um tribunal, aquele que este livro apresenta. Um tribunal severo mas não adulterado por medo, inveja ou incompreensão. Um tribunal que, com olhar e voz justas, lhes devolve o seu brilho e glória e, não menos importante, o seu valor definitivo na História de Portugal. Perante o olhar perscrutador e a pluma objectiva de Adalberto Alves, a figura de Ibn Qasî ergue-se novamente, gigantesca e poderosa, misteriosa e benévola, como o Rei Iniciado que foi do Algarve e durante um tempo, infelizmente escasso, de todo o extremo sudoeste da Península. Um Rei taumaturgo, sábio e compassivo que elevou a espada em chamas da sua vontade na defesa dos oprimidos e que, em sete anos de vicissitudes heróicas, desde 1144 até 1151, ano este em que foi assassinado, deixou atrás de si um rasto luminoso que ainda abençoa com o seu exemplo e luz o nosso horizonte histórico. Uma nebulosa suja de ignorância eclipsou o brilho da sua estrela, no entanto o afã incansável de Adalberto devolveu-a ao nosso céu, um céu em que se irmanam a tradição cavaleiresca cristã e islâmica, um céu de honra, também de justiça e concórdia. Um céu que não exclui ninguém, mas que espera a todos. Um céu que, por ser de luz, somente pode acolher, com as suas bondosas asas, a luz dos seres, e não as suas sombras, que para sempre ficarão gravadas na terra da recordação.

O olhar do historiador deve ser um olhar de águia e o voo da sua alma poderoso, para evitar que sinta a atracção dos seus preconceitos, totems e tabus. Para além disso, o olhar de Adalberto é um olhar de poeta, percebendo relações e analogias que nos ocultam, a trama mágica e inefável da vida: olhar de místico, sentindo a unidade de Deus para além dos véus com que se apresenta e das crenças em que o crucificamos; olhar de cientista, sopesando cuidadosamente os factos e não se deixando levar pelos ventos das emoções, dos gostos e desgostos; de juíz e advogado, nomeando-se nesta causa como inquiridor e defensor, e evitando – quão difícil! – os julgamentos a priori que nos fazem caminhar pela vida rodeados de sombras.
Este livro, As Sandálias do Mestre, além de ser um tratado exaustivo – o único em língua portuguesa e, dos escritos em outras línguas, talvez o mais enciclopédico e ao mesmo tempo equânime –, sobre a figura histórica de Ibn Qasî, constitui:

  1. Uma defesa argumentada contra a infâmia que durante quase mil anos isolou, no sórdido desvão do que já não presta, a recordação de Ibn Qasî. Obscuros interesses foram a causa desta infâmia e esquecimento, primeiro dos Almôadas, depois dos Cristãos, para quem a sabedoria gnóstica deste rei sufi constituía uma ameaça, e depois de historiadores que, com um modelo estreito e obsoleto ao serviço de ideologias imperantes, e não da verdade, não quiseram aceitar uma aliança fraterna, e muito menos iniciática, entre um – para eles – fanático rei mata-mouros, Afonso Henriques, e o seu homólogo do Algarve.
  2. Uma exposição sistemática, discernida e comentada sobre tudo o que se sabe da sua vida, analisando e valorizando, na sua justa medida, as diferentes fontes históricas.
  3. Um enquadramento, valioso pelo infrequente e pelo profundo enfoque, da filosofia e obra histórica de Ibn Qasî: dentro da tradição sufi, da cavalaria iniciática da Futuwah e do Templarismo, da sabedoria esotérica e textos do ismailismo, das tradições pitagóricas dos Irmãos da Pureza – cujos escritos foram, durante vários séculos, o coração oculto da Gnose e da Arte islâmicas – e do pensamento tão vigoroso e lúcido de Al-Ghazalî, um dos pólos espirituais (quib) do seu tempo, segundo o Mestre Máximo, Ibn ‘Arabî.
  4. Um estudo e comentário dos poemas de Ibn Qasî e da sua grande obra doutrinária, O Descalçar das Sandálias, manual místico e filosófico dos Muridinos (seus discípulos). Bíblia enigmática, na qual se adivinham tesouros, jóias iridescentes de uma sabedoria que ainda tem muito para revelar ao mundo. Pela mão de Adalberto Alves entramos nalgumas das suas páginas herméticas e vislumbramos, como limalhas de luz, resplendores fugazes, intuitivos, de uma visão da Alma da Natureza que nos são misteriosamente semelhantes à da sua contemporânea, discípula de Bernardo de Claraval, a mística cristã Hildegard von Bingen: Não seriam ambos, independentemente das crenças do seu século e terra, servidores do mesmo Rei do Mundo, que é Uno, como a Humanidade inteira? Membros de uma Fraternidade Iniciática real, os verdadeiros servidores do verdadeiro Graal, o Cálice ou Pedra de Esmeralda caída da fronte de Lúcifer, ou seja, de Vénus; e à qual também pertenceriam tanto o Doutor Melifluus de Cister, como o nosso Rei Afonso Henriques e o seu dilecto amigo Gualdim Pais, grão-mestre templário? Os capítulos deste livro de Ibn Qasî, que Adalberto Alves descreve e comenta, abanam poderosamente a nossa imaginação, de tão fortemente ligados que estão a toda a Tradição Iniciática: o caminho na montanha escarpada; a barreira da perplexidade e do silêncio; o vale profundo; o pedestal da Fundação; a Pérola Oculta; a Esmeralda; o ruído do Cálamo; o Sésamo. Estes símbolos, são eminentemente corânicos, mas tomam parte também e com anterioridade, o que, na minha opinião, aumenta o seu poder e influência, do legado das Escolas Mistéricas, em todos os lugares e épocas. Estes símbolos, com pequenas variações, são encontrados em tradições moisaicas, nos Upanishads, na Arte Maya, nas representações pictóricas e hieroglíficas egípcias ou nos textos do Budismo Mahayana, como, por exemplo, na maravilha mística de A Voz do Silêncio.

A reflexão e o estudo sobre a forma como o investigador deve examinar a História, do valor do tempo horizontal (cronológico) e vertical (ontológico), e da relatividade daquilo que acreditamos saber, faz com que o autor deste tratado sobre Ibn Qasî mergulhe ainda nas bases doutrinárias da Física Quântica, nos problemas e diferentes perspectivas da lógica científica (Bertrand Russell, Karl Popper, o próprio Heisenberg e muitos outros são examinados à lupa) e, desde aí, até aos paradoxos do Budismo Zen ou das estações gnósticas do sufismo em que o real se nos torna cada vez mais evidente. Todos estes conhecimentos, tantos e tais que podem «confundir» o leitor são, não só, harmonizados mas inclusivamente irmanados, através dos fios inquebrantáveis de uma Lógica natural, infinitamente mais bela e fecunda que a Lógica enfadonhamente intelectual. E, no entanto, as digressões do livro, que podem irritar quem procurar a história nua, sem algum tipo de hermenêutica, e aceitando mais depressa mentiras do que questões e reflexões, estão todas elas associadas a uma viagem interior, a uma peregrinação em que Adalberto Alves, penetrando no passado e mondando as ervas daninhas da História, penetrou também na sua própria alma e, caminhando nela, nos oferece generosamente alguns dos seus tesouros ocultos, dos frutos de eterna juventude que aí encontrou. A objectividade histórica, com rigor científico e amplitude de perspectiva filosófica, vai de mão dada com o ênfase místico e as maravilhas de uma viagem interior. É o triunfo da Espiral Dupla que nos ensina que podemos avançar penetrando ao mesmo tempo no mundo e em nós próprios, em vez de ficarmos estáticos ou percorrermos um só dos braços desta Espiral, o que é, em geral, nocivo quer para a alma quer para a saúde.

É o meu fervente desejo, e imagino também que o de milhares de leitores deste livro, que o despertar do génio de Ibn Qasî, fortemente evocado nas páginas desta obra, permita uma nova compreensão histórica, uma nova Geografia Sagrada nas abençoados terras de Portugal e um novo imaginário mítico no coração de cada um. E que, assim, possamos procurar a sombra luminosa de Ibn Qasî nas planícies e montanhas do Algarve e do Alentejo, e que sintamos a sua presença imaginada, ou sonhada contudo viva na pregas do tempo, nos castelos de Mértola, Silves ou no ribat do castelo de Arrifana, em Aljezur. E que esta presença nos permita sentir na alma os Ventos da História, que avançam sempre para o futuro, como o dedo de Deus.

 

Jose Carlos Fernández
Director da Nova Acrópole Portugal

Lisboa, 4 de Setembro de 2009


 

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