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Segredos Médicos da Antiguidade

O objectivo deste breve trabalho, que para ser justo com o tema merecia muitas mais páginas tem como principal intuito abrir janelas sobre o conhecimento médico da Antiguidade. Na medida em que avançamos no tema, ficamos admirados com a quantidade de saberes verdadeiramente profundos e que saem completamente fora da lógica simplista da justificação da casualidade e da recolha de experiência por tentativa erro/acerto muito útil para arrumar com as perguntas mas muito pouco satisfatório para encontrarmos o caminho para a sua compreensão. Pois como foi possível chegar casuisticamente, como no caso da China, ao efeito preciso de milhares de espécies vegetais e de outras tantas fórmulas com combinações de plantas? Segundo essa lógica de pensamento teriam que casualmente utilizar a planta certa, de entre milhares de espécies vegetais, na pessoa com a doença certa. Não parece coincidência a mais?!!
Os breves exemplos que exporemos de seguida, sem qualquer juízo de valor de superioridade ou inferioridade em relação à medicina actual, mostram que o “espírito científico” não é uma conquista do racionalismo e que pode ter coabitado perfeitamente em civilizações com uma visão mais espiritual da vida.

Egipto

A medicina egípcia, para além de um elevado nível de conhecimento, possuía também um grande nível de formação, organização e especialização. Heródoto retrata-nos isso mesmo ao escrever sobre a medicina no Egipto do seu tempo (450 a.C.): “Quanto à medicina egípcia, existe esta organização: cada médico cuida de uma certa doença e não de várias. O país está cheio de médicos, pois há médicos para os olhos, outros para a cabeça, outros para os dentes, outros para o corpo e outros também para doenças obscuras…”
Uma estela encontrada no vale de Gizé, por Hermann Junker em 1926, da 4ª Dinastia (2723-2563 a.C.) refere-se a Iry, médico da corte e médico-chefe como conhecedor de diversas especialidades.

apolonioNo Papiro de Smith encontramos um Manual de Cirurgia, de 2500-2000 a.C., que nos faz a descrição de uma fractura com traumatismo craniano e referência ao impacto sobre o cérebro. Até à descoberta deste papiro pensava-se que a primeira referência escrita ao cérebro(1) humano tinha sido feita por Alcméon de Crotona (500 a.C.).

Os 48 teoremas que se encontram no Papiro de Smith são organizados segundo a descrição da enfermidade (sinais e sintomas), diagnóstico, prognóstico e as respectivas prescrições terapêuticas.



No que diz respeito ao tratamento das fracturas, os médicos egípcios recolocavam-nas (alinhamento dos ossos) e imobilizavam-nas de modo a soldarem.

Havia um conhecimento das infecções causadas pelas feridas abertas, assim como da descrição das mesmas, tal como podemos observar neste texto do mesmo Papiro de Smith.

“Se estás a examinar uma pessoa que demonstra uma anomalia na ferida […] e se esta ferida estiver infectada […] uma concentração de calor que se desprende da abertura daquela ferida contra a tua mão, estando os lábios da ferida avermelhados e a pessoa com calor por causa disso, então deverás dizer: trata-se de uma anomalia da ferida […] uma doença de que eu cuido. Deverás preparar para ela um remédio para arrefecê-la e tirar-lhe o calor […] folhas de salgueiro […]”, folhas estas, que se comprovou terem efeitos anti-inflamatórios.

apolonio“Tumba do médico” em Ankmahor, Saccara, Egipto por volta de 2350 anos a.C., representando um tratamento de reflexologia.

As primeiras instruções deste Papiro, embora muito incompletas, são referentes ao coração e ao conhecimento e avaliação através dos pulsos:
“[…] medir é como contar algo por meio da medida ipt. A contagem de alguma coisa com os dedos (acontece) – para reconhecer o ritmo do coração. Há vasos que saem dele e vão em direcção a qualquer parte do corpo […] se um sacerdote de sekhemet, qualquer médico de Swnw[…] coloca os seus dedos na cabeça [em ambas as mãos, no lugar do coração […] nas duas pernas, então ele mede o coração […] ele diz […] em cada vaso, cada parte do corpo […] medem-se os vasos do coração para conhecer as informações que nele se realizam”.

A utilização do método de sangria, utilizado pelos médicos até meados do séc. XIX, era um recurso amplamente utilizado e importante para os médicos egípcios. Também utilizavam sanguessugas para aliviar congestões sanguíneas e hematomas, prática esta que volta a ser testada e já utilizada nos E.U.A.
Encontramos a seguinte descrição sobre a Angina de Peito:

“Se examinares um homem que sofra de estômago, que se queixa de dores no braço e no peito, mais precisamente na parte lateral […] diz-se então que se trata da doença wid […] deves dizer: é a morte que se aproxima dele”. Recomendava-se a aplicação de remédios estimulantes para o coração e colocar-se a mão no peito do paciente para acalmá-lo até que passasse o ataque e preveni-lo contra um possível segundo ataque.

Observemos a descrição feita da apendicite:

“Se o médico estiver a examinar um doente que sofre de dores abdominais e se achar que a moléstia se fixou do lado direito inferior da barriga, então é lá que as substâncias patogénicas se acumulam, formando uma aglomeração.”

Os oftalmologistas egípcios para tratar as formas mais resistentes de tracoma e outras inflamações oftálmicas utilizavam uma mistura de fezes ressequidas e reduzidas a pó com mel, especialmente mel em estado de “fermentação” e com a urina realizavam lavagens que também misturada com lodo e terra faziam compressas. Estudos realizados descobriram que as fezes e urinas humanas contêm antibióticos e o Dr. Benjami M. Duggar em 1948, descobriu a aureomicina, antibiótico, presente em terras principalmente próximas de cemitérios que contém fungos destruidores de bactérias patogénicas. Só o papiro de Ebers refere 55 receitas de uso externo e interno com a utilização de fezes e urina como componentes importantes.
O pão com mofo ou bolor era considerado o melhor remédio contra distúrbios intestinais, infecções da bexiga e feridas purulentas. Só com a descoberta dos antibióticos e do efeito anti-infeccioso de culturas de fungos é que se entendeu o alcance desta receita.

Heródoto refere a grande quantidade de rábanos, cebolas e alhos distribuídos entre os operários das pirâmides. Em 1948, os suíços Karrer e Schmidt conseguiram extrair das sementes de rábano a substância rafanina com uma acção antibiótica específica contra certas bactérias como o cócos e cólis, tendo-se encontrado o mesmo efeito no extracto de rábano. Do alho e da cebola foi possível extrair a alicina e a listanina, mais ou menos eficazes contra vários agentes etiológicos, nomeadamente os que provocam disenteria, tifo e cólera.

A queima de incenso, amplamente utilizada no Egipto, com sentido religioso e como potente purificador, sabe-se que liberta fenol ou ácido carbólico, que foi o mais importante anti-séptico que possibilitou na segunda metade do séc. XIX a assepsia nas salas de cirurgia.

Os médicos egípcios possuíam também o seu teste de gravidez e a determinação do sexo do feto:
“Deverás encher duas bolsas, feitas de tecido, uma com grãos de trigo e outra de cevada. A mulher deverá despejar nas bolsas, todos os dias, a sua urina. Se os grãos de uma das duas bolsas começarem a germinar, ela dará à luz. Se germinar o trigo nascerá um menino, se germinar a cevada nascerá uma menina. Se nem o trigo nem a cevada germinarem, não haverá parto…”

apolonio
Em 1926 os relatórios dos ginecologistas Selmar Ascheim e Bernhard Zondek abrem caminho aos testes de gravidez através da urina pela abundante presença de hormonas segregadas pela hipófise na mulher grávida. Em 1933 o alemão Julius Manger do Instituto farmacológico de Würzburg provou que a urina de uma mulher grávida de um menino acelerava o crescimento do trigo e de uma menina a cevada.
Nas paredes do templo ptolemaico de Kom Ombo (304-330 a.C.) encontramos a representação de um considerável número de instrumentos cirúrgicos.  


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As próteses dentárias eram utilizadas no antigo Egipto como atesta a descoberta de Herman Junker em 1914 no vale de Gizé ao encontrar molares unidos com fio de ouro datados de 3000-2500 a.C. Também em 1952 Safik Farid encontrou em El Qatta, perto do Cairo, um dente canino direito superior duplamente preso com fio de ouro e dois incisivos direitos unidos entre si com fio de ouro enfiado através do incisivo central e atado ao incisivo lateral com uma volta, pertencendo esta ponte fixa ao Império Antigo.
           apolonio

Culturas Mexicanas
Vamos encontrar a presença de uma organização em diferentes especialidades médicas.

A sutura de ferimentos e a rectificação das fracturas com imobilização através de talas era praticada entre várias das culturas desta área.

Com facas de obsidiana, tão precisas como bisturis, faziam drenar abcessos nas amígdalas.

O Médico Real para as Índias Ocidentais, Dr. Francisco Hernándes (reinado de Filipe II) compilou na obra “História Natural do Novo Mundo”, em 24 volumes e 10 compêndios de ilustrações, 1200 drogas e outros medicamentos aztecas.

Em certos tratamentos empregavam massagens, utilizavam vapores deitando água sobre pedras quentes, à semelhança dos “banhos turcos”, e flagelavam o corpo do doente com folhas de milho.

Utilizando a observação do doente “nos olhos e no nariz o médico reconhecerá se o paciente vai morrer ou sarar…”

apolonioO Cacahuatl, pó da semente do cacaueiro, cosido em água com baunilha, mel e pimenta,  formava a mais importante bebida fortificante e de cura dos aztecas. Também na medicina europeia tornou-se um remédio contra “todos os males consumidores do organismo”. Mantém-se ainda como aditivo nos fortificantes e principalmente sob a forma de manteiga de cacau, como material básico para o preparo dos supositórios medicinais.



Culturas Peruanas

Tinham identificadas e descritas várias doenças tais como a malária, reumatismo, gota, diarreias, pneumonia (respiração intermitente) e a tuberculose (doença de ressecamento).

Contra a diarreia usavam o pó da casca de ratantici que contém tanino em abundância e que possui acção de retenção.

Usavam o chacco, um tipo de argila, que contém os mesmos elementos básicos que hoje se encontram em vários medicamentos usados contra perturbações do estômago e intestinos: silício, alumínio e magnésio.
As paniculas da espiga de milho ainda verdes actuavam como diuréticos para problemas da bexiga.
Conseguiam realizar amputações e resolver necroses.

apolonio"Realizavam-se trepanações cranianas, operações deveras perigosas, em que só em solo peruano foram descobertas mais de 10.000 e de 400 analisadas, 250 claramente sobreviveram."


Uma mandíbula Maia, encontrada pelo Dr. Wilson Popenoe e a sua esposa nas Honduras em 1931, apresenta três fragmentos de concha no lugar natural dos incisivos inferiores. Data aproximadamente do ano 600 d.C. e é o primeiro exemplo de implante endosteal aloplásico realizado, presumivelmente com êxito, numa pessoa viva.

 

Assíria e Babilónia

Na tabuinha de barro K191 e na famosa Estela de Hamurabi podemos encontrar referências a uma classe médica organizada nestes povos.
Textos médicos mesopotâmicos diagnosticavam os problemas com base nos sintomas, e também relacionavam possíveis consequências.
O francês Labat em 1951 publicou textos cuneiformes médicos com descrições extremamente interessantes de enfermidades:
Tuberculose

apolonio
“O doente tosse sem parar, a sua expectoração é consistente e, por vezes, vem misturado com sangue. A sua respiração soa como o som de uma flauta. As suas mãos estão frias, mas os pés sentem calor. Ele transpira facilmente e o seu coração bate irregular. Quando se trata de casos graves, sofre o enfermo de diarreias contícontinuas(2)

Bronquite
“Quando o doente sofre de tosse; quando a sua traqueia produz um chiar ao respirar; quando tem acessos de tosse…”

Hepatite
“Quando o corpo de um homem e o seu rosto se tornam amarelados e quando ele começa a emagrecer, então a doença chama-se hepatite.
Quando os olhos de alguém ganham uma coloração amarela e a doença avança até ao interior da sua vista, de modo que o interior do olho se torna amarelo como cobre […], quando ele vomita a comida e a bebida […], quando até o seu rosto […] e o corpo todo se torna amarelo, então a enfermidade resseca o corpo todo do doente, de modo que ele chega a falecer.”

Infecções renais e da bexiga
“Quando um homem verte sangue pelo pénis à maneira das mulheres, pode tratar-se de cálculos duros ou moles ou de estrangúria […] ou quando a urina é expelida gota por gota.”

Otite
“Fogo penetra no interior do ouvido, paralisando a audição. Grande quantidade de pus irrompe no local e o seu estado geral é de dores.”

Gastrite
“Quando alguém come e bebe até ficar satisfeito, sentindo depois dores no estômago como se a sua pele interna queimasse como fogo.
Quando o estômago de alguém fica cheio de acidez […]”

Aqui encontramos também a prática cirúrgica complexa de trepanações cranianas.

Os médicos mesopotâmicos já conheciam e executavam a cirurgia às cataratas que era executada pela reclinação do cristalino por meio de uma agulha de bronze:

“Quando um médico tiver aberto a pequena mancha no olho de um homem com o instrumento de bronze e tiver curado o olho do homem…” (Código de Hamurabi)

Estudos de diferentes tabuinhas com textos cuneiformes permitiram decifrar 250 plantas e outras substâncias utilizadas na Mesopotâmia para fins medicinais.

Thompson em 1924 descreve como, segundo os compêndios médicos do seu tempo, os cálculos menores, principalmente os do ácido úrico, eram “reduzidos, dissolvidos e eliminados” por meio de alcalinos e diuréticos. Entre os redutores contava-se principalmente o carbonato de cálcio. É interessante verificarmos que o tratamento mesopotâmico para os “cálculos moles” recomendava o salitre e óleo de terebentina como diuréticos e também “cascas de ovo pulverizadas, principalmente do ovo de avestruz”, os quais, segundo Thompson, rendem até 97% em carbonato de cálcio.

 

Índia

São inúmeros os indícios de uma prática de higiene na manutenção da saúde pública, onde em várias cidades da antiga Índia (ex.: Ruínas de Mohenjo-Daro, Haroppa ou Lotal) havia uma rede de instalações sanitárias que cobriam toda a cidade.

A primeira obra escrita de medicina indiana chamava-se Txaraca-Samita (Colecção Txaraca), nome que deriva do médico Txaraca que a escreveu. A datação (?) que lhe é atribuída ronda entre 1.000 a.C. e 1.000 d.C. Nesta obra encontramos referência a pelo menos 14 variedades de tumores abdominais, 12 variedades de verminoses, 20 tipos de otites, 60 de infecções bucais 31 variações de rinites. No Txaraca-Samita são descritos os sintomas da diabetes: Sensação de doçura na boca, ardência nas mãos e nos pés, urina adocicada para a qual as formigas eram atraídas.

Existia a prática, com instruções precisas, de dissecação de corpos para estudo.

O organismo humano é descrito como um sistema dotado de canais que penetravam em todas as partes do corpo, levando seivas de diversas qualidades. Estas seivas eram denominadas “rasos” e entre elas contava-se também o sangue. Muito importante também era a actividade de certos “ventos” que eram assimilados pela respiração. Existiam 5 ventos: 1) Impelia os alimentos a descer pelo corpo; 2) Produzia a fala; 3) Atiçava o fogo com o qual eram cozidos os alimentos; 4) Expelia as fezes, a urina, o sémen e também as crianças; 5) Movimento dos membros. A cosedura dos alimentos produzia as substâncias básicas que constituíam o corpo humano: seivas, carne, gordura, ossos, medula, sangue e sémen. Quando falhava o mecanismo dos ventos passavam a predominar certas seivas denominadas “dosa”, a bílis, o muco e uma variante destrutiva do vento. Elas faziam o homem adoecer(3).

Podemos encontrar muitas semelhanças entre os meios de diagnóstico da Medicina Indiana e da Medicina Chinesa, entre eles encontramos a avaliação do pulso onde são dadas recomendações para “sentir-se o pulso”, pois “com o ouvido percebe-se os ruídos do vento nos canais” e referindo-se a diferentes pulsos como o “pulso fraco” e o “pulso rastejante”. Também era observada a língua, a pele e os excrementos como meios para a descrição das sintomatologias.

O médico e botânico alemão Dr. Leonhard Rauwof em 1558 redescobriu e chamou a atenção para a “Rauwolfia Serpentina”, assim chamada pela farmacologia a uma planta indiana, cujos vários alcalóides acabaram por, em meados do séc. XX, conquistarem o mercado farmacêutico como anti-hipertensivos e como calmantes. Esta planta era já citada no Txaraca-Samita, denominada de “Lua”, e era empregue contra cólicas dolorosas, cefaleias e contra a angustia. Segundo a tradição popular era chamada “Remédio dos Homens Tristes”, pelo seu efeito calmante e tranquilizante.

apolonioA cirurgia encontrava-se extraordinariamente adiantada na antiga Índia. Na Colecção Susruta é descrita com precisão a cirurgia às cataratas, assim como possui a primeira descrição pormenorizada da extracção de cálculos por cirurgia. Também aqui encontramos a descrição de diverso material cirúrgico: agulhas rectas e curvas e outros materiais de sutura como o cânhamo, fibras de cascas vegetais, cabelos e tendões de animais empregues inclusive para ligar vasos sanguíneos. Era também prática corrente a cirurgia plástica de reconstituição, como a do nariz(4).




Os médicos indianos resolveram o problema das cirurgias internas e sutura de ferimentos intestinais, onde as suturas normais não seriam absorvidas e por isso desenvolviam infecções mortais, através da utilização das grandes formigas pretas do seguinte modo:

aproximando os dois bordos do ferimento, levavam uma dessas formigas junto das mesmas de modo a que as suas fortes tenazes agarrassem ambos o tecidos e arrancavam-lhes o corpo, ficando os tecidos “suturados” com a permanência das tenazes e cabeças das formigas que seriam gradualmente absorvidas pelo organismo.

O conhecimento do desenvolvimento embrionário surge em textos que referem:

- No terceiro mês começa a diferenciação do corpo entre cabeça e membros.
- No quarto mês começa o desenvolvimento do peito, do coração e do tórax.
- No sexto mês estão formados o cabelo, unhas, ossos, tendões e vasos.

Em caso de morte da mãe no parto os médicos realizavam o parto de cesariana.

A rede de saúde pública parece ter sido uma preocupação na antiga Índia, pois fontes referem a construção de hospitais no Ceilão em 427 a.C. e o Rei Açoka (273-232 a.C.) refere a construção de hospitais para pessoas e animais.

Impressionante e sem palavras é o código de ética médica do seguinte texto:

“Dedica-te inteiramente ao auxílio do doente, mesmo com a perda da tua própria vida. Jamais prejudiques o doente, nem mesmo em pensamentos. Esforça-te constantemente para aprimorar os teus conhecimentos. Não trates da mulher a não ser na presença do marido. O médico deve observar todas as regras do bem trajar e do bom comportamento. Quando estiver com um doente não deve ocupar-se com palavras ou pensamentos de qualquer outro assunto que não seja o caso daquele que sofre. Fora da casa do paciente ele não poderá falar sobre os acontecimentos dessa casa. Não poderá falar ao paciente sobre a possibilidade do seu falecimento, quando isso prejudicar o próprio paciente ou qualquer outro. Diante dos deuses… deverás assumir esta responsabilidade. Que todos os deuses te auxiliem quando assim procederes. Caso contrário, que estejam contra ti. A isto os estudantes digam: Assim seja”

 

China

A história da Medicina Chinesa é das mais bem documentadas podendo-se observar aí um sistema médico e de saúde preventiva extremamente remoto onde toda a base e conhecimentos estruturais já eram conhecidos na Antiguidade.

A Medicina Chinesa teve quase sempre como princípio a prevenção, de modo que o médico que deixasse adoecer o seu paciente era obrigado a tratá-lo gratuitamente até o curar.

Segundo alguns estudiosos o livro mais antigo de Medicina Chinesa seria o “Shen-nung Pen Tsao”, cuja versão original se encontra ligada ao imperador Shen-nung (2838-2698 a.C.), do qual foi elaborada uma cópia mais recente, de 1579 d.C., e cuja colecção abrange 52 volumes com o registro de 1892 remédios diferentes.

O imperador Huang Ti (2698-2598 a.C.) é considerado o pai da segunda mais antiga obra médica chinesa, o “Huang Ti Nei-Ching”(5).

Desde os períodos mais remotos vamos encontrar o uso da medicação por plantas, substâncias animais e minerais. O “Shen Nong Ben Cao Jingo”(6) da autoria de Shen Nong, conhecido como “O Divino Camponês” ou “O Primeiro Herbicista”, da época dos Três Imperadores Míticos, da qual este terá sido o segundo monarca (2737 a.C. - 2698 a.C.). Esta obra constitui a primeira matéria médica dedicada exclusivamente à Fitoterapia onde são descritas 365 plantas.

Há 4.000 anos aparecem-nos já práticas de higiene e protecção sanitária, referências nomeadamente ao arranjo de paredes e o tapar de orifícios, fumigações com ervas, utilização de vassouras e objectos para limpeza do pó e o uso de esgotos. Em algumas inscrições “Jia Gu Wen”(7) encontram-se referências à higiene diária como o lavar a cara e banhar-se.

Existiam muitas prescrições de cuidados médicos preventivos em Li Ji(8) (período de 770-221a.C.): “Enxagua a boca com água salgada quando o galo canta no alvorecer”; “banha-te quando há suores na cabeça e no corpo”, o que indica que os povos desse tempo souberam não somente a importância do banho em intervalos regulares, mas igualmente compreenderam o significado terapêutico do banho. No “Shan Hai Jing(9) existem mais de 20medicinas profilácticas. No que diz respeito ao saneamento, a China foi uma das culturas mais adiantadas na prática regular de limpezas gerais. Na Dinastia do Sul (420-589 d.C.) foi dedicada muita atenção ao saneamento, nomeadamente na limpeza regular dos esgotos, assim como na limpeza das ruas.

apolonioNa dinastia de Zhou (1100a.C.-256a.C.) os médicos foram classificados em quatro especialidades: Ji Yi (interno), Yang Yi (cirurgião ou dermatologista), Shi Yi (nutricionista) e Shou Yi (veterinário).

Hua Tuo (110-207 d.C.), um grande médico, bastante hábil na medicina interna, cirurgia, ginecologia, pediatria, acupunctura e moxibustão, criou pela primeira vez na China e no mundo métodos de anestesia, com pó de Mafei, para auxiliar na cirurgia. Hua Tuo foi honrado  como o pai da cirurgia.


Durante a Dinastia Qin e Han (221 a.C. - 220 d.C.) houve um grande progresso na terapêutica na área da dermatologia. Por exemplo, a síndrome de Behcet (descoberto pelo dermatologista turco Behcet) tinha sido registado já em “Jin Kui Yao Lue”(10) compilado por Zhang Zhongjing (150-219 d.C).

Podemos encontrar as primeiras fichas individuais médicas para acompanhamento dos doentes com o famoso médico Chun Yuyi (215-167 a.C) que manteve todos os registos detalhados dos seus pacientes tais como o nome, a profissão, o lugar de nascimento, o género, o nome da doença, a causa da doença, o pulso e os sintomas, o diagnóstico, o tratamento e a prevenção.

Na obra Zhou Hou Bei Ji(11), Ge Hong (281-341 a.C.) refere “ofactor patogénico epidémico” como uma causa de doença. Menciona também o uso Dichroae Radix (Chang Shan) e de Artemisiae Annuae Herba (Qing Hao) para tratar a malária. Os métodos terapêuticos e preventivos foram introduzidos igualmente neste livro. Nesta obra descreveu o ambiente e a fonte de desenvolvimento do tifo (tsutsugamushi), descrevendo ossinais e os sintomas, diagnóstico e prognóstico quando contaminado por ele.

O Xian Shou Li Shang Xu Duan Mi(12), escrito pelo sacerdote do Taoísta Lin da dinastia Tang(618-907), é um tratado de ortopedia e traumatologia que descreve a posição, a fixação, o exercício, e amedicamentação como métodos principais no tratamento das fracturas. Em particular, o método da imobilização localexterna com pequenas talas, e a ideia terapêutica de integrar a imobilização e o exercício, transformaram-se no princípioterapêutico para tratar fracturas.

Durante as dinastias de Sui e Tang(581-907), a teoria e a prática da prevenção e do tratamento de dermatites tinham sido extremamente promovidos. Tinham sido registadas mais de 130 tipos de doenças raras de pele em Zhu Bing Yuan Hou Lun.

No segundo milénio a.C. já era utilizada a éfedra como recurso contra a tosse e os males do pulmão e em 1887 descobriu-se nesta planta a efedrina que passou a ser utilizada pela medicina moderna no combate à tosse e bronquite.

Contra a malária empregavam a Dichroa Febrifuga. Em 1948 foi demonstrado que a sua raiz possuía certos alcalóides eficientes nestes casos.

Contra a anemia utilizavam sangue e fígado de porco que sabe-se hoje possuir uma grande quantidade de ferro.

Utilizavam extractos de pele de burro contra os espasmos, tendo vindo estudos a demonstrar que estes aumentam a absorção do cálcio pelo organismo, processo este extremamente importante.
Foram utilizadas secreções cutâneas dos sapos que contêm adrenalina, bufagina e bufotalina que agem sobre a actividade cardíaca.

O povo chinês na luta contra a varíola desenvolveu diversos métodos para impedir e tratar a doença.

"De acordo com registos históricos, a variolação tinha sido descoberta antes do século XVI e foi amplamente utilizada durante o séc. XVII. O método consistia na produção de leves ataques de varíola com a crosta pulverizada das pústulas dos doentes e inoculando nas narinas das pessoas sãs."

Em 1652, o método da variolação foi introduzido no Japão. Em 1688, foi introduzido na Rússia. Da Turquia foi introduzido em Inglaterra e em outros países da Europa. A Variolação é uma das invenções mais importantes na história médica do mundo inteiro. Impediu eficazmente a disseminação da varíola no mundo, poupando a vida de muitas crianças, até à invenção da vacina por Edward Jenner em 1796.

A lista de exemplos do avanço da Medicina Chinesa daria para preencher imensas páginas. Não sendo esse o nosso propósito, fica apenas uma pequena mostra arbitrária.

 

"Que métodos poderiam ter levado os médicos destas culturas a adquirir tais conhecimentos? Esta é uma pergunta para a qual provavelmente nunca teremos uma resposta completamente satisfatória. No entanto há um segredo que parece ter sido comum a todas elas e que é a sua visão conjunta do Homem e do Universo. Dessa cosmovisão do ser humano nasceu a sua compreensão da doença e da cura cujas leis básicas resumiríamos:"

- Princípio de correspondência universal.
- Existência da dualidade dentro da unidade.
- Lei da analogia.
- Princípio da correspondência.
- Todo o universo é hierarquizado.
- Princípio integrativo dos elementos físicos, psicológicos e espirituais.
Talvez no reencontro da compreensão destes princípios esteja a chave dos novos paradigmas da medicina, num futuro talvez não tão longínquo quanto isso… Assim esperamos!

 

José Ramos
Director da Nova Acrópole Coimbra

 

1 -“Se estiver a examinar um homem com […] uma ferida na cabeça que vá até ao osso, o seu crânio está fracturado, está aberto o cérebro de do seu crânio […] estas linhas retorcidas que se formam no metal fundido. Algo há nele […] que treme e se agita sob os seus dedos, semelhante ao ponto vulnerável no alto da cabeça de uma criança que ainda não endureceu. Esta tremura e agitação debaixo dos seus dedos tem origem na fractura do crânio expondo o cérebro. De ambas as narinas sai sangue. Neste caso deve dizer: trata-se de uma ferida aberta na cabeça […] uma enfermidade de que não é possível cuidar.” (Instrução nº6)

 2 - Tuberculose intestinal

3 - Estes “ventos” referem-se provavelmente aos diferentes movimentos do Prana ou “alento” (energia) do organismo ou como na medicina chinesa os diferentes movimentos do Qi e cuja estagnação produz, por exemplo, a acumulação de mucosidades e a debilitação do Qi provocando doenças.

4 - Descrição da cirurgia reconstitutiva do nariz: “Quando o nariz de um homem for cortado (por castigo) ou for destruído (por doença) o médico tomará a folha de uma planta com o tamanho das partes destruídas. Ele coloca-a sobre a face do doente e recorta um pedaço de pele do mesmo tamanho, mas de modo que a pele permaneça ligada por uma parte à face do doente. Em seguida, com a faca, ele aviva as bordas do restante do nariz destruído, aplica cuidadosamente o recorte da pele da face por cima, e o costura em toda a volta. Depois coloca dois tubinhos no local das narinas para facilitar a respiração e impedir que a pele aplicada venha a abater-se. Em seguida deverá polvilhar pó de sapão com raiz de alcaçus e uva-espim e cobrir com alcodão. Logo que a pele pegar, ele seccionará a ligação com a face”.

5- Diálogo entre o imperador Huang Ti e o médico Chi Po

6 - “A Farmacopeia de Shen Nong”

7 - Inscrições em carapaças de tartaruga e ossos

8 - “O livro dos ritos”

9 - “Os clássicos das montanhas e dos mares”

10 - “Sumário da câmara dourada”

11 - “Um manual das prescrições para emergências”

12 - “Segredos para tratar as fracturas”

 

Bibliografia:
- “O Segredo dos Médicos Antigos”, de Jürgen Thorwald – Editora Melhoramentos
- “Manual de História da Medicina Chinesa” – Edição da APA-DA
- Várias páginas web

 

 

 

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