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Simón Bolívar

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 “ Ah amigo meu, por todas estas imensas recordações, pela minha pátria e pela minha honra, juro-te que não darei descanso ao meu braço até que tenha devolvido a liberdade às terras de América”.

Simón Bolivar

E assim foi.

Este juramento feito no Monte Sacro, em Roma, por aquele que é conhecido como “O Libertador”, Simón Bolívar, frente ao seu mestre Simón Rodriguez, é o mesmo que todos nós fazemos numa ou em várias alturas da nossa vida, sem no entanto ser levado a cabo ou sequer planeado de forma séria.

Quantas vezes no início do ano, juramos a nós mesmos: “ Vou mudar” “Vou ser melhor”, “Vou fazer aquilo que sempre sonhei”, enfim, “Vou mudar o mundo!”, para que, logo na primeira dificuldade, o que parecia férrea vontade, se transforme num castelo de cartas ruindo por falta de estabilidade.

Com Simón Bolívar isso não aconteceu. Este herói sul-americano ultrapassou barreiras que para muitos pareceriam intransponíveis, levando a cabo uma façanha que só está ao alcance daqueles que unem a inteligência (percepção ou noção de dever) e o amor (a uma causa) à vontade, para, dessa forma, conseguir os seus intentos, que, levados à escala deste guerreiro, são os mesmos de toda uma nação.

Simon_Bolivar_2Liderou as campanhas que libertaram do colonialismo espanhol a Venezuela, a Colômbia, o Peru e o Equador, viu o nascimento de uma nação em sua honra, a Bolívia e, ainda, das terras por ele libertadas, o nascimento de um outro, o Panamá, e também lutou contra a escravatura, contra traições egoístas de homens sem escrúpulos e a favor do seu maior ideal: a união fraternal dos povos, que artificialmente haviam sido separados pelos espanhóis aquando da descoberta e colonização da América, sob a batuta do “dividir para conquistar”, através da criação de um grande estado denominado “Gran Colombia”.

De ascendência espanhola, Simón Bolívar nasceu no seio de uma nobre família de Caracas em Julho de 1783 (curiosamente o ano em que a Inglaterra concede, por meio do tratado de Versalhes, a independência dos Estados Unidos) e várias situações da sua infância e juventude, conformaram a sua personalidade marcante.

No início da sua vida, Simón gozava de uma saúde débil, mas, aos 6 anos já demonstrava alguma turbulência, teimosia e indisciplina que levariam a sua mãe, que entretanto enviuvara, a entregá-lo a cargo de um tutor (ou mestre), que potenciasse as já patentes grandes capacidades de Simón e ao mesmo tempo, colocasse no caminho o seu jovem coração indómito, cujos horizontes se estenderiam pelas llanuras da América do Sul.

Na altura era normal entre os jovens de classe abastada, a frequência de um mestre que os orientasse nas artes, nas letras, na ginástica (sobretudo manobras militares ou exercícios que desenvolvessem as capacidades físicas) e pudesse potenciar os seus talentos naturais. Assim, os mestres foram-se sucedendo, uns atrás dos outros, vendo-se incapazes de moldar o barro em bruto que era a personalidade do jovem Bolívar, mas houve um que, tanto ao nível intelectual, como espiritual (e físico também!) soube ensinar e sobretudo inspirar como ninguém, o Homem que se viria a tornar um dos maiores protagonistas da história da América do Sul, e este mestre foi Simón Rodriguez.

Simón Rodriguez, filosofo, sociólogo, humanista, revolucionário e profundo conhecedor da história da hispano-america, encarnou de forma fiel o ideal de vida e de concepção humanística apregoados por Jean-Jacques Rousseau. Ele reproduziu, na sua vida e nos seus ensinamentos, os ideais rousseaunianos: autodidatismo, relação estreita entre natureza e sociedade, moral alicerçada na liberdade, equilíbrio entre sentimento e razão, aplicação da bondade natural do homem e doutrina socialista (na sua essência mais pura e não na versão completamente degenerada do socialismo actual).

Alguns dos que o estudaram, dizem que se tivesse nascido na Grécia clássica, teria figurado com certeza entre os “Filósofos Ilustres” de Diógenes Laércio, algures entre os filósofos Cínicos e os estóicos.

Ao princípio, e, com a certeza de que era necessário varrer toda a desordem da mente do jovem Bolívar, Rodriguez impôs a este uma rotina diária (e bastante dura!) de exercícios físicos, pois só assim o conseguiria quebrar, ou melhor, preparar, de maneira que pudesse começar a encher o seu copo, que, naquela altura, transbordava com ideias pré-concebidas. Bolívar cavalgava horas a fio, praticava esgrima e natação, actividades que se viriam a revelar fulcrais, pois, na hora da verdade, no turbilhão das batalhas, só uma muito esclarecida mente, servida por um suporte robusto e eficiente, seria capaz de vencer, derrotando os seus inimigos no campo de batalha e conquistando a sua admiração, como, por exemplo um General Espanhol, seu inimigo, que diria a respeito de Bolívar: “Quantas vezes me aproximava de Bolívar cheio de raiva e vontade de vingança pelas derrotas que me infligiu, e só de vê-lo e ouvi-lo me retirava cheio de admiração” in Bolívar – Grandes Biografias, Edimat, 2003.

Era uma época de grande agitação. Passados os alvores do Renascimento, grandes compositores clássicos escrevem grandiosas melodias – Mozart com a Flauta Mágica, Haydn, Beethoven – obras de grande valor são escritas pelo punho de grandes Idealistas: Kant, Hegel, Blake – a revolução Francesa estala, a religião cai em descrédito, convulsões políticas acontecem um pouco por todo o mundo, fortemente influenciadas pelo iluminismo e por ideais socialistas que logo viriam a descambar em positivismos, materialismos, liberalismos e outros “ismos” que tais.

Não só livros contemporâneos faziam parte da leitura habitual de Bolívar, mas também clássicos como a Ilíada ou a Eneida, prova da sua versatilidade e visão abrangente. Prova também desta abertura é a sua provável militância maçónica, que até à data, não foi completamente provada, apesar de que, pessoalmente, acredite ser esta teoria bastante plausível, visto que esta instituição, apesar de degenerada, ainda era herdeira do profundo saber do passado, no qual Bolívar procuraria as razões históricas do desejo e querer de liberdade, aliadas a um forte sentido espiritual (não na sua acepção religiosa, mas sim baseada na sua crença profunda em Deus) que não sendo extremamente vincada, era perfeitamente perceptível no seus valores.

Após passar por várias vicissitudes, a pior das quais, o trágico falecimento da sua esposa, menos de um ano depois de casar, Bolívar percorre a Europa durante este tumultuoso período, passando por Espanha, frequentando inclusivamente a corte; França, para se desiludir com o seu herói militar – Napoleão – pois este acabara de se proclamar Imperador, traindo os ideais republicanos de Bolívar; e Itália, onde se encontraria com o Papa e proferiria a sua famosa frase de dedicação à causa Sul-americana. Insuflado dos ventos de revolta e farto do que ele considerava ser a velha Europa, parte para a sua querida pátria.

A fim de se reintegrar, reúne-se com outros apoiantes da causa independentista em várias reuniões secretas e, após a invasão da Espanha por parte da França, e sob o pretexto da incapacidade por parte da coroa de ocupar-se dos assuntos do novo mundo e da maturidade das colónias, ajuda a causa, acabando por ser considerado um patriota de alta estirpe e um idealista de alto grau.

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Após várias missões diplomáticas, algumas operações militares bem sucedidas sob o mando de Miranda (o grande precursor da revolta), Bolívar assume por fim, a função para a qual estava destinado: libertador. Grande estratega, politico e líder, Bolívar vence várias batalhas decisivas como a de Carabobo, e permite por fim, depois de avanços e recuos, o romper definitivo das correntes que prendiam a Venezuela do jugo espanhol e haveria de libertar desse jugo outros países já citados, com a ajuda de outras grandes figuras como o general Sucre, gastando toda a sua fortuna, que foi colocada à disposição da causa da independência, sem no entanto perder a humildade característica dos grandes caudilhos ao afirmar: “sendo a organização desta República tão sublime e eu tão soldado, não sou capaz de manejar tão delicadas teclas”, referindo-se à constituição do estado, o que não se viria a confirmar, pois Bolívar revelou-se surpreendentemente um bom legislador, redigindo a constituição apresentada no congresso de Angostura, e criando as leis fundamentais de governação que são a base das actuais, baseadas no “regime da virtude” e que consistia, fundamentalmente, no banimento dos interesses particulares para que emergissem o bem público e a unidade. Dos seus projectos destaco o da área da Educação: as faculdades de Medicina de Bogotá, Caracas e Quito, foram incumbidas de zelar, em cooperação com as autoridades do Estado, pela preservação das plantas medicinais úteis e pela cultura em geral. Bolívar chegara à conclusão de que o primeiro dever de um governo consistia em proporcionar ao povo uma boa educação, gratuita. O seu mestre e amigo Simón Rodriguez recebeu autoridade e meios para reformar os estabelecimentos escolares existentes e criar outros “nos melhores edifícios”, para “todas as crianças de ambos os sexos que em cada departamento estejam em estado de instruir-se em ciências e artes” (gramática, literatura, historia, etc.). O Governo decidiu adoptar os muitos milhares de crianças que haviam ficado órfãs em consequência da guerra.

Várias foram as proezas militares, que revelaram a sua alma guerreira, arriscando-me a compará-la (com as devidas salvaguardas) à de Alexandre Magno ou Napoleão, ou, em menor escala, o seu continental conterrâneo: Tupac Amaru. Numa das batalhas, Bolívar e o seu exército percorreram milhares de quilómetros, atravessou os Andes (a grande cordilheira de montanhas da América do Sul) nadou rios, passou frio e fome durante semanas, só para surpreender o inimigo e assim conseguir levá-lo de vencida.

E durante todas estas adversidades, nunca os seus homens se perturbavam ou se lamentavam, cientes que estavam da grandiosidade da tarefa e enormemente animados e inspirados pelo seu líder.

Bolívar morreu há 181 anos. Não foi possível apagar-lhe da história o nome. Mas pouco sabem os contemporâneos da sua vida e obra. Daí a surpresa provocada na Europa pela reivindicação do projecto bolivariano pelo venezuelano Hugo Chávez (actual presidente da Venezuela e muito polémico, devido às suas inclinações claramente anti-capitalistas).

Assim como todos os verdadeiros grandes líderes da história, ora reconhecidos, ora não compreendidos, Simón Bolívar, olha com horror do alto das estátuas em sua honra erigidas (não só em muitas cidades americanas, mas também europeias), o seu amado continente cada vez mais dividido, cada vez mais pobre, cada vez mais debilitado e pronto a ser depredado pelos necrófagos do costume.

É interessante fazer referência a apontamentos da época que dizem que com a morte de Bolívar, morre também o seu ideal de Estado (claramente “Kshatrya”) e nasce um ideal oligárquico, assente em bases puramente mercantilistas, prova dos pequenos ciclos de sucessão política, que estão inseridos dentro dos grandes ciclos históricos.

Depois de ter sido presidente de cinco países, ter travado conhecimento com alguns dos notáveis da sua época e ter percorrido dezenas de milhares de quilómetros na sua estóica epopeia, acaba por morrer de tuberculose, abandonado e na miséria, no que pode ser considerado como a derradeira prova da sua resistência perante as adversidades da vida, prova vencida e último passo antes de ser colocado no panteão dos imortais. Ainda subsiste uma lendária sobrevivente desta época áurea: o “Samán de Güere”, nome indígena de uma acácia milenária, de espécie rara, e que serviu de sombra a muitos batalhões inteiros, pois diz-se que a sua copa, quando repleta de folhas, abrangia uma extensa área, tão grande, que chegava a parecer um conjunto de árvores. Assim foi Simón Bolívar, vasto, transbordando o seu copo, transformado em legado que ainda aguarda continuidade.

 

Daniel Oliveira
Investigador e Formador da Nova Acrópole 

 

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