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SÍRIO, A ESTRELA DOS MISTÉRIOS

"Ensinaram-me que os planetas eram tão variados como as plantas na terra, e as estrelas eram como exércitos dispostos em posição de combate."
São Cipriano de Antioquia
(Citado em H. P. Blavatsky, Doutrina Secreta, Vol. V, Capítulo XIX)


"A Quinta Ordem é muito misteriosa, posto que está relacionada com o Pentágono microcósmico, a estrela de cinco pontas que representa o homem. Na Índia e no Egipto, estes Dhyanis estavam relacionados com o Crocodilo e a sua Casa está em Capricórnio."
H. P. Blavatsky, Doutrina Secreta, Vol. V

"O facto é que basta examinarmos determinados pergaminhos egípcios mencionados por Rossellini para descobrirmos Mercúrio – uma réplica de Sírio no nosso sistema solar –  e Sothis, precedido das palavras sole e solis custode, sostegnon dei dominanti, il forte grande dei vigilanti, «vigia do sol, fundamento de todos os domínios e o mais forte de todos os vigilantes». Estes títulos e atributos pertencem agora ao arcanjo São Miguel…"  
H.P. Blavatsky, «História de um Planeta»

Na sua colossal obra sobre a Doutrina Secreta, H.P. Blavatsky refere o caso de um jovem, Cipriano de Antioquia, que foi iniciado nos conhecimentos esotéricos e que, depois de exercer, primeiro como mago e mais tarde como feiticeiro, se converteu ao Cristianismo e acabou como mártir na época de Diocleciano. Sucumbiu ao fruto da «dormideira espiritual» do fanatismo religioso… e aos encantos de uma jovenzinha. No século XIX, a sua «Confissão» viria a ser resgatada dos Arquivos do Vaticano, para ser esgrimida como arma de arremesso contra as novas seitas satânicas. Cipriano, enquanto renegado da Antiga Sabedoria, não teve dúvidas em explicar em que Conhecimentos fora iniciado; conhecimentos esses que nos dão a dimensão de um poderoso ensinamento, de uma Doutrina Secreta que iluminava os mais recônditos aspectos da relação entre o homem enquanto micro­cosmos, e o universo enquanto macrocosmos. Estes «fragmentos de um ensinamento desconhecido» revelam também a magnitude da Astrologia Esotérica e até que ponto os mitos do mundo clássico grego e romano têm as suas raízes, sólidas ainda que invisíveis, num conhecimento astronómico… e astrometafísico.

Oiçamos a sua Confissão: «Sou aquele Cipriano que, consagrado a Apolo desde a sua infância, foi prematuramente iniciado em todas as artes do Dragão. Antes de completar sete anos, fui apresentado no templo de Mitra e, três anos depois, os meus pais levaram-me a Atenas, para me ser concedida a cidadania. Ali me foram revelados os mistérios de Ceres a chorosa, e cheguei a ser guardião do Dragão no templo de Palas (…) Aprendi a analogia que existe entre os terramotos e as chuvas, entre o movimento da terra e o do mar (…) Aos trinta anos, fui para a Caldeia, a fim de estudar o verdadeiro poder do ar, que alguns colocam no fogo e os mais doutos na luz (akasha). Ensinaram-me que os planetas eram tão variados como as plantas na terra, e as estrelas como exércitos dispostos em posição de combate. Aprendi a divisão caldaica do éter em 365 partes, e reparei que os daimones que as repartem entre si estão dotados da força material necessária para executarem as ordens do Príncipe e guiarem ali (no éter) os movimentos».

Aprendemos que os mitos são o modo de expressão das civilizações antigas, a objectivação definitiva do pensamento primitivo através dos símbolos e das suas relações. Existe em todos os mitos um logos, um significado oculto que aguarda, como a jóia no lótus, segundo uma conhecida expressão tibetana.

 

"Os mitos, sempre tecidos com o fio luminoso da sabedoria e da recordação, encontram sem dúvida um modo singular e original de expressarem verdades e conhecimentos que, pela sua magnitude e importância, devem ser de origem divina."



Cada símbolo fala-nos de uma qualidade divina da natureza, e a união harmónica dos mesmos permite-nos expressar e aprender os mais abstrusos significados, as ideias mais sublimes: desde factos acontecidos na evolução da natureza, até à própria estrutura do Pensamento Divino.

A linguagem dos símbolos é uma linguagem universal e harmoniosa; é o património e a herança dos Iniciados de todas as épocas e civilizações; e porventura a primeira descoberta do filósofo que busca a verdade. Porque só a linguagem dos símbolos pode expressar aqueles ensinamentos que estão para além dos nossos sentidos e da nossa razão, e que só a alma pode perceber. A analogia converte-se, assim, na ferramenta mais importante para conhecermos aquilo que mais importa descobrir… e recordar.

Olho de HorusO sistema hieroglífico egípcio, um legado do Deus da Sabedoria, Toth, aos antigos povoadores do país de Kem é uma expressão, por exemplo, desta linguagem de símbolos milenária. Um símbolo ou uma narrativa alegórica do mesmo – mito – pode significar ideias muito diferentes, mas todas elas harmoniosamente relacionadas entre si atrvés do símbolo. Por exemplo, o Olho de Hórus ou o Olho de Rá, Oudjat, é a «visão interior», mas, quando surge no Espelho de Ísis, também pode significar, entre outras chaves, o Sol, cujo olhar penetra até aos confins do seu mundo, alimentando a vida e impulsionando as mutações; mas também o Sol do Sol, o Sol do nosso Sol, que para os egípcios é a Estrela Sírio, o Olho de Anúbis.

Hórus, o Deus Falcão, sempre relacionado com a Mente ou com o Homem Celeste, pode significar o voo do Pensamento Divino; e também a Alma Humana que combate as paixões, representadas por Seth. Representa a Alma que governa Humanidade e que rege o Egipto. É a Mente que impele a Acção, e portanto, aparece como a alma dos astros, do Sol da Vida, de Júpiter e de Marte. E, aqui, de novo Hórus, enquanto Homem Celeste, aparece relacionado com a Estrela Sírio no seu aspecto de Hórus Sept.

Isis_NeftisÍsis é a Mãe e a Natureza, Senhora da Vida. Como Natureza e Mãe da actual Humanidade, converte-se na Terra, e portanto, na Grande Feiticeira que trata de arrebatar ao Deus Criador Rá o seu Nome Secreto, para entregá-lo aos seres humanos, seus descendentes. Mas enquanto Mãe da Terra e Alma dos ciclos desta natureza, ela está relacionada com a Lua, Mãe da Mãe Terra; é a Alma Humana, enquanto Mãe de tudo o que nela vive; e é de novo a Estrela Sírio, enquanto Mãe da Alma e Senhora da Vida Celeste, no seu nome de Ísis Sept. A sua irmã, Neftis, cujo nome significa Senhora do Castelo, da Fortaleza, é a Guardiã dos Confins, e portanto, deusa do Número 9; enquanto que Ísis o é do Número 7; Mãe, porque o Número 7 rege toda a Natureza; e Virgem porque é pura, luminosa e sem mácula, e porque não é possível inscrever o heptágono num círculo. Ísis e Neftis aparecem juntas como irmãs, choram e guardam o cadáver de Osíris. A linguagem do simbolismo egípcio é muito evocadora: quando Ísis é a Terra, Neftis é a Lua, irmã daquela. Quando Ísis é a luz lunar e a sua face é luminosa, Neftis aparece de rosto escuro. Se Ísis é a vida que canta por toda a natureza, o fértil leito dos rios, Neftis é o curso subterrâneo e oculto das águas. Se Ísis é a consciência e a luz, a vigília, a mãe do nosso comportamento, Neftis é a actividade no mundo submerso dos sonos e do inconsciente. Se Ísis é a Estrela Sírio, Sírio A, Neftis é a sua irmã invisível, a que a astronomia resolveu chamar Sírio B.

Os mitos, sempre tecidos com o fio luminoso da sabedoria e da recordação, encontram sem dúvida um modo singular e original de expressarem verdades e conhecimentos que, pela sua magnitude e importância, devem ser de origem divina. Os egípcios representavam o Cosmos e o Tempo como um crocodilo que submerge e emerge nas Águas Primordiais. Aparecia e desaparecia, encarnava e reencarnava. Segundo testemunhos egípcios, o referido crocodilo tinha as escamas pentagonais; e segundo Heródoto, ostentava nelas pedras preciosas e jóias alquímicas, para que, de noite, o movimento do crocodilo nos seus lagos sagrados simulasse o nascimento e morte de estrelas e constelações no mar sem ondas da Eternidade. Na Índia, o referido animal aquático ou «crocodilo» é Makara, a montada do Deus do Oceano, Varuna. Makara é, em relação ao Tempo, o décimo signo do Zodíaco, Capricórnio. Makara significa Cinco (Ma) Manos (kara) ou Lados (karam), e portanto, representa geometricamente o Pentágano. O sábio e erudito Subba Row, na sua obra «Os Doze signos do Zodíaco», escrita em finais do século XIX, diz-nos que «o signo em questão tem por objecto representar os aspectos ou faces do universo, e refere que a figura do universo está limitada por Pentágonos» relativamente ao elemento Éter, o Espaço dos pitagóricos que figuravam como um dodecaedro, o poliedro de faces pentagonais. Maior surpresa sentimos ao ler numa revista de divulgação científica que «As últimas investigações realizadas pela NASA e pela Universidade da Cidade do Cabo, que identificam a radiação de fundo deixada pelo Big Bang, indicam que as escalas máximas das flutuações observadas no céu são mais pequenas do que as que um universo infinito produziria. Parece que o espaço não é suficientemente grande para conter as referidas ondas. Melhor, responderia a um esquema de universo finito, composto por pentágonos curvos unidos numa esfera. Se assim fosse, se alguma onda saísse do dodecaedro, voltaria a entrar pela face oposta do mesmo. Novas especulações para as interrogações de sempre».

Para os egípcios, as «escamas» do espaço eram pentagonais, figura geométrica associada à Água, em que inscreviam, como podemos observar nos tectos dos templos, as estrelas de cinco pontas como se fossem estrelas-do-mar. Ainda que, para os egípcios, A Estrela de cinco pontas fosse, por excelência, Sírio.

Horus_Sobek Varuna_Makara
Hórus Sobek - Crocodilo com cabeça de Falcão Makara como veículo do Deus Varuna


«Apelidou-se o crocodilo de Peixe de Hórus, que era o mesmo ou equivalente ao Makara indiano, monstro marinho simbólico que se diz habitar no signo zodiacal do Capricórnio, signo de representação, por excelência, das potências do nascimento. Makara simboliza a escuridão, aquilo a que o Ocultismo oriental designa por Laya, o ponto de partida de onde nascem os Universos. Este Makara indiano serve, ainda assim, como monstro aquático, como fundamento de Kumara, que é um Deus indiano, complexo e muito esotérico, e que aparece também como Hórus, associada à mão direita, ao número cinco, às Cinco Vocais Primordiais e aos cinco degraus simbólicos do Templo de Amon»(1)

O crocodilo era a primeira irrupção do Mistério, o início do Tempo; e também o efeito do Tempo: «o signo de Makara está relacionado com o nascimento do Microcosmo espiritual e com a morte ou dissolução do universo físico e a sua passagem ao reino do Espiritual» (Doc. Cap. V). E relacionava-se de tal modo, que não conseguimos perceber o Tempo sem a Mente, com o número 5.
«Os Crocodilos do Nilo celeste são cinco, e o Deus Tum, o Deus Primordial que cria os corpos celestes e os seres vivos, produz estes Crocodilos na sua quinta ‘criação’» (Doc. Cap. V).

É também o Sete e o Grande Sete que desenha nos céus a Ursa Maior, como se fosse o grande aferidor do Tempo. O Sete é, no esquema teosófico, Atma, que surge das Águas Celestes ou Mente Cósmica, Cinco; e contém dentro de si toda a estrutura septenária. Tal como no céu, o Sol (Atma) depende de Sírio (5, Manas Cósmico). Sírio está ligado ao Tempo, e portanto, ao número 9; e chama-se Senhor do Tempo, pois contém dentro de si o princípio e o fim de toda a evolução do nosso sistema solar, que rege, ideia que os egípcios exprimiam através da imagem da barca solar que, no seu perpétuo movimento, dirige sempre a proa na direcção da Estrela Sírio.

Esta relação de Sírio com o número 5, com a V Humanidade, com o Manas humano e com a Mente Cósmica (onde se acha inserido o Sétimo Princípio, Atma) surge em diferentes tribos primitivas como uma vaga recordação: por exemplo, para os índios Hopi, Sírio é – assim a designam – a Estrela Azul, Kachima, e dizem que «quando a Estrela Azul fizer a sua aparição no céu, o Quinto Mundo emergirá».

Os bambara, uma tribo africana pertencente aos dogones, de que falaremos mais adiante, representam o sistema de Sírio por intermédio de «um lençol aos quadrados, chamado koso wala, imagem de cores e que consiste em dez sequências feitas com cerca de treze rectângulos de cores alternativas anil e branco, símbolos da escuridão e da luz, da terra e do céu, – segundo creio – também fazem referência às cores branca e azul de Sírio no céu; e às alternâncias de brilho e de cor na Estrela, por se tratar de um sistema duplo – e na mitologia de Bambara, Pemba e Faro. Espalhados por toda a parte, existem vinte e três tipos de fio, alternando o anil com o branco e o vermelho. Vinte deles representam estrelas e constelações. Os outros três representam, respectivamente, o arco-íris, o granizo e a chuva. A quinta sequência do centro, em que não há um rectângulo colorido, simboliza a Via Láctea. A nona sequência, no extremo, contém cinco rectângulos negros que representam «a quinta criação em trevas, que terá lugar com a chegada das águas que virão».
O crocodilo pode representar, talvez, a alma sideral que rege Sírio e toda a «unidade de vida», que inclui as estrelas próximas de Sírio: o Nosso Sol, Alfa Centauro, Prócion…

Cadmo
Cadmo a lutar com o Dragão

Sendo a alma invisível, dela só são perceptíveis os seus corpos resplandecentes, representados pelos dentes do crocodilo, que são também, em diversas mitologias, os dentes do dragão. O hieróglifo egípcio de Sírio, SEPT, é precisamente idêntico a um dente de crocodilo, e as fauces do referido réptil exprimem muito bem o poder devorador do tempo. Cadmo e Jasão deverão semear os dentes do dragão, para gerarem uma nova raça de homens, esotericamente a Quinta. Recordemos o mito de Cadmo e a fundação de Tebas, em que Cadmo, guiado pela Vaca Io, a Lua, e aconselhado pela deusa da Sabedoria, Atena, penetra numa gruta de onde fluía a fonte de Ares. Ele devia lutar contra o dragão que a guardava, vencendo-o, e logo de seguida, semear os referidos dentes do dragão, brotando deles e da terra guerreiros armados terríveis, que se bateriam entre si até que apenas restassem cinco, com quem o herói fundaria a cidade de Tebas. No mito, faz-se referência à cidade do Peloponeso; mas poderia aludir-se também, directa ou indirectamente, à Tebas egípcia, tão ligada ao culto da estrela Sírio e ao seu poderoso fluxo, um dos símbolos da qual é precisamente o Vento do seu Deus Amon, o Ovo Solar alado. Do ponto de vista astronómico, Amon significa o vento cósmico e espiritual que alimenta as almas e que provém do Sol; mas também aquele cuja fonte é o Sol do Sol, a Estrela Sírio. E assim sucessivamente, até chegar ao coração da nossa galáxia, que, dizem os Astrónomos, é um gigantesco Buraco Negro que engole e leva a dissolução e a liberdade à infinidade dos sistemas estelares. E porventura mais longe ainda, até chegar ao Coração do próprio Universo, que faz palpitar e ondular até as Águas do Espaço. Quão profunda é a sabedoria hindu quando diz que Makara, o corpo do Universo, é «uma forma de água» (jala rupa)!

Diga-se de passagem que o crocodilo não só é o símbolo do Tempo com maiúsculas, como também dos ciclos temporais, dos anéis do tempo, os anéis do Karma; e rege a unidade de medida por excelência na astronomia antiga, que é o ciclo de sessenta anos, que os egípcios relacionavam com Osíris. Ciclo de cinco revoluções de Júpiter e de duas de Saturno. Plutarco, no seu Ísis e Osíris, diz-nos o motivo: «Certamente que o crocodilo adquiriu destaque, e não lhe faltou um motivo razoável, pois se declarava representante vivo de Deus, posto que é a única criatura que não tem língua; porque a Palavra Divina não precisa de ter voz (…) Dizem que o crocodilo é o único animal do habitat da água que possui uma membrana fina e transparente, que se estende à sua frente para lhe tapar os olhos, a fim de poder ver sem ser visto; e esta prerrogativa também corresponde ao Primeiro Deus (…) Põem sessenta ovos, que eclodem ao fim de idêntico número de dias, e os crocodilos que vivem mais tempo atingem o mesmo número de anos de idade; o número sessenta é a primeira medida para todos os que se ocu­pam dos corpos celestes».

O filósofo platónico Olimpiodoro faz referência a este ciclo de conjunção do período de Júpiter e Saturno como sendo aquele em que «as almas são castigadas». É a base do ciclo mesopotâmico de Saros – anéis – de 3.600 anos, e uma décima parte do ciclo ou período Neros, do Próximo Oriente antigo.

As tradições mitológicas e esotéricas hindus associam os Kumaras com Sírio, sendo o mais importante de entre eles Sanat Kumara, o Senhor do Tempo. Os egípcios relacionam também Anúbis com o Tempo e com a Estrela de Sírio. Sírio é, no Céu, o Olho de Anúbis, divindade cujo perfil as estrelas desenham perfeitamente na constelação do Cão Maior. Encontramos no Ísis e Osíris de Plutarco, um eco filosófico dos conhecimentos iniciáticos de outrora: «Outros opinam também que Anúbis quer dizer Tempo, e que a sua denominação de Kuon – termo grego para designar «cão» – não se refere tanto a algo parecido com um cão, ainda que este seja o emprego genérico da palavra, mas a outro significado do termo assimilado a criar; porque o Tempo engendra todas as coisas a partir de si próprio, produlas dentro de si mesmo, como se estivesse no interior de um útero. Mas esta é uma doutrina secreta que se dá a conhecer em maior profundidade àqueles que se iniciam no culto de Anúbis».

Também Plutarco descreve Anúbis como o horizonte ou círculo que separa a escuridão, Neftis, da Luz, Ísis, que é Sírio; o limiar que separa o futuro do passado. Rege, portanto, o trânsito da morte para a vida e da vida para a morte. Da vida para a morte, ele é o chacal negro e guia nas trevas da morte e da iniciação, da morte para a vida, ele é o chacal branco, Up-Uaut, «aquele que abre os caminhos» e relacionamo-lo com o hieróglifo da placenta.

Existe outro significado, desta vez astronómico, do porquê representar-se Sírio como o Senhor do Tempo, ou do nosso tempo. Sírio é, no Céu, um Olho luminoso perfeitamente imóvel e uma referência «fixa» nos Céus, o que faz com que os egípcios tenham tido o calendário mais perfeito de todos quantos se conhecem. Isto fica a dever-se ao facto de o movimento anual que Sírio percorre ser de 1” 32, que compensa quase por completo o movimento aparente das estrelas no céu, devido ao processo equinocial ou movimento de pião da terra, cada 25.920 anos. Olhar sempre para uma determinada estrela constitui um ponto de referência mais rigoroso do que fazê-lo em relação ao Sol, e a medida do ano mais precisa é o chamado Ano Trópico, em que uma mesma estrela passa pelo mesmo meridiano, no final de cada Ano. Mas se esta estrela for Sírio, fornece uma medição praticamente exacta do tempo, pelo que Sírio fornece-nos a unidade de medição do tempo, facto que os egípcios conheciam. Sírio é, em termos astronómicos, o Senhor do Tempo.

Voltando ao «dente», hieróglifo da estrela Sírio: ele expressa também, enquanto ideia, na língua egípcia, o «estar preparado», «achar-se provido», no sentido de ter armas para combater, ou dentes para mastigar, ou virtudes mágicas para enfrentar demónios e trasgos. Em determinados textos neoplatónicos de origem egípcia, Anúbis – isto é, Sírio – é aquele que arma Horus, a Humanidade, com um Machado de Lâmina dupla, para com ele traçar e percorrer o labirinto da existência e enfrentar Sobek, «terror da passagem», e Apap, «terror do caminho».

O hieróglifo Sept em forma de dente, que corresponde à Estrela Sírio, vem acompanhado de um determinativo que significa «deusa» e «corpo», representado por uma serpente. Ambos os hieróglifos se referem a Sothis-Ísis. Contudo, numa outra leitura ideográfica, que os neoplatónicas fizeram, poderia equivaler a «Dente –Serpente», ou dente de serpente. É interessante recordarmos que se diz que, em Tebas – a egípcia, a das Cem Portas –, se rendia culto ao dente da Serpente, quando na realidade, tanto conhecimentos como cerimónias estavam associados à Estrela Sírio, nas suas diferentes posições no céu.

Já vimos que uma das ideias relacionadas com Anúbis é o trânsito da escuridão para a luz – da ignorância para a sabedoria, da corrupção para a pureza. Em grego, o termo que designa o nascimento do dente, desde a sua concavidade, é «anatole», que significa «fazer surgir» e, também, «parir». Mas este termo é usado, também, para descrever como se erguem no horizonte estrelas e constelações. A semelhança, portanto, entre dentes e estrelas é importante no mundo antigo, e se há alguma coisa no microcosmos do corpo humano parecida com as estrelas do céu, são os dentes. No chamado «Livro dos Mortos Egípcio», a deusa que rege os dentes é Selkit, a deusa Escorpião, enquanto que Anúbis está relacionado com os lábios, porque estes permitem o nascimento da palavra, isto é, da vida. E Anúbis está associado aos dois horizontes, e tal como sucede com os dentes quando se descerram os lábios, também de ambos surgem as estrelas, quando se elevam no seio de Nut, a mãe do céu.

Os filósofos árabes descreveram as pirâmides do Egipto como um reflexo das estrelas no céu. O investigador Robert Bauval, no seu Enigma de Orión, realizou um estudo arqueo­astronómico erudito, e associa as três estrelas da constelação de Orión (que a religião egípcia associa a Osíris) com as pirâmides atribuídas a Kéops, Kefren e Miquerinos. Mas também é possível que, sob outro ângulo, a Grande Pirâmide e a sua Irmã (de Keóps e de Kefren?) signifiquem a Estrela de Sírio A e Sírio B, ou porventura, noutra chave, o nosso Sol e a estrela Sírio B, com massas tão similares. A Doutrina Secreta ensina-nos que a estrutura da Grande Pirâmide é a do Sistema Solar, e que as suas sete câmaras (ainda faltaria descobrir várias) seriam os sete planetas que a astrologia tem considerado, tradicionalmente. Como o Anúbis de Plutarco, no seu Ísis e Osíris, a Grande Pirâmide recebe o nome de «a do belo horizonte». Proclo diz que a Grande Pirâmide estava consagrada a Sírio.

Dado que este breve ensaio versa sobre a estrela Sírio e o tratamento que a ela se tem dado em diferentes tradições mitológicas, impõe-se que estudemos, primeiro, aquilo que dela diz a astronomia moderna.

Sírio_Cão_MaiorSírio é a estrela mais brilhante e de maior dimensão (aparente) do firmamento. Situada na constelação de Cão Maior, é chamada A Estrela do Cão em civilizações tão distantes entre si como a China, o Egipto e a Grécia. Situada a 8.6 anos-luz da Terra, ela é visível no hemisfério norte, de Novembro a Abril. Tem duas vezes a massa do nosso Sol e, no entanto, o seu brilho e luminosidade é vinte vezes maior (falamos de Sírio A). Tem cor branca e azul; e no curso dos anos, segundo a posição recíproca que ocupa com a sua companheira, Sírio B, vai mudando de luminosidade e brilho, facto já observado pelos antigos astrónomos, por exemplo gregos, que se referiam a esta característica como sendo uma das mais notáveis de Sírio. A astronomia moderna começou a detectar irregularidades na órbita de Sírio desde 1834, mas só iria conseguir identificar a sua estrela irmã em 1862. No ano de 1920, obteve-se o primeiro espectro de luz procedente de Sírio B, e ela foi então classificada como uma anã branca – era a primeira anã branca alvo de estudo, e serviu de padrão para todas as outras que vieram a ser descobertas depois disso. As anãs brancas são estrelas de brilho muito ténue e de grande densidade – o tamanho de Sírio B é da mesma ordem da nossa Terra, e a sua massa é semelhante à do nosso Sol. A densidade de Sírio B é, portanto, 65.000 vezes maior que a da água. Não é feita – dizem os astrónomos – de matéria corrente, apresentando-se os seus átomos comprimidos e os electrões amassados naquilo que se conhece como matéria degenerada ou super densa. As duas estrelas, Sírio A e Sírio B, giram uma em volta da outra, num período orbital de 49.9 anos (50, se quisermos arredondar), trocando entre si partículas e raios cósmicos, o que se intensifica mais quando se aproximam tanto quanto lho permitem as respectivas órbitas, formando-se então poderosíssimos campos magnéticos; e Sírio B, mais densa, arrebata matéria à sua companheira, acelerando ambas cada vez mais o seu percurso; o que faz com que se produzam uma pulsação cósmica, uma irradiação e um fluxo magnético na direcção do nosso Sol, que o difundirá depois como uma lente, por todo o sistema solar. Recordemos a afirmação esotérica feita por Blavatsky, em Ísis sem Véu, a respeito da origem da luz e das irradiações que provêm do Sol: A luz é o mágico Proteu, cujas diversas ondulações, movidas pela divina vontade do Arquitecto, dão origem às formas viventes. Do seu seio túrgido e eléctrico brotam a matéria e o espírito. Os seus raios entranham a virtude das acções físico-químicas e dos fenómenos cósmicos e espirituais. A luz organiza e desorganiza, dá e tira a vida, e do seu ponto primordial surgem gradualmente para a existência miríades de mundos visíveis e invisíveis. Diz-nos Platão que, num raio desta trina mãe primária, acendeu deus o fogo a que chamamos Sol e que não é causa de luz e calor, mas unicamente o foco, ou melhor dizendo, a lente que concentra e enfoca sobre o nosso sistema solar os raios da luz primordial de cujas diversas vibrações dimana a correlação de forças. A relação entre esta Estrela, Sírio A, e a sua irmã, Sírio B, talvez seja um dos significados do combate, repetido e feroz, entre Hórus (recordemos que um dos significados de Hórus, na sua forma de Hórus Sept, é precisamente Sírio) e Seth Tyfon, existindo inclusivamente uma divindade de duas cabeças, uma de Seth e outra de Hórus, «reconciliadas». O que os obriga a combater num espaço limitado – quer dizer que «orbitam» um à volta do outro, com sucessivas aproximações e afastamentos, estritamente ordenados pelo Deus Toth, a Inteligência, dado que é ele que outorga todas as Medidas e Ritmos. Esta ideia não deverá parecer tão estranha se estudarmos o significado da palavra typhon, com que os gregos designaram o Deus Seth. Comecemos por examinar a ideia astronómica: Sírio B, uma estrela quase obscura, envolta em fortíssimas turbulências magnéticas, faz gravitar pesadamente Sírio A, arrebata-lhe matéria e «cega-a». Recorde-se que os dogones e outros povos concedem a proeminência a Sírio B, que embora mais obscura, rege e seria o «pai obscuro do filho luminoso». Pois bem, Tyfon – nome grego de Seth – significa «cometa», isto é, uma estrela em movimento; Tyfos quer dizer «fumo, vapor», e também orgulho e vaidade; Tyflos é «cego», no sentido de «brumoso e obscurecido» e Tyfloo significa «cegar, confundir», e também, «envolver em fumo». Para cúmulo, o cão Ortros, um dos nomes de Sírio na mitologia grega, é filho do monstro Tyfon, juntamente com Cérbero, o cão de três ou cinquenta cabeças. O 50 é um número que aparece continuamente associado a Sírio, pela sua relação com o 5 e pelos 50 anos da órbita conjunta e da aproximação e afastamento entre Sírio B e Sírio A.

No ano de 1995, os astrónomos franceses Daniel Benest e J.L. Duvent afirmaram que parece existir uma pequena anã vermelha, Sírio C, no sistema estelar de Sírio, dado que detectaram uma perturbação que não se conseguia explicar de outra forma. É certamente curioso que os egípcios fizessem representar nos seus diferentes Zodíacos três deusas na barca de Sothis (Sírio): Sothis, Anukis e Satis; e que Neugebauer, o grande estudioso da astronomia egípcia, afirme que a «referida deusa Satis, tal como a sua companheira Anukis, não pode ser considerada uma constelação separada, mas antes muito bem ligada a Sothis». Uma das formas simbólicas de Sírio na Grécia é Hekate – que também significa a Lua – a Deusa da Magia e dos Juramentos terríveis, de três ou cinquenta cabeças.


"um electrão é como um planeta, um sol como um átomo e um grupo de sóis ligados harmoniosamente entre si é como uma molécula"


Mais extraordinário ainda é o conhecimento que, da estrela Sírio, têm os dogones, uma tribo africana que vive no actual estado do Mali, e que consideram os seus conhecimentos procedentes do Antigo Egipto. Não se trata de conhecimentos a que eles se refiram livremente, mas antes que transmitem gradualmente, nas suas iniciações, a quem pensam poder ser digno deles. Por «sorte», os antropólogos franceses Marcel Griaule e Germaine Dieterlen, depois de viverem vários anos no meio deles, conseguiram aceder a estes conhecimentos iniciáticos. Marcel Griaule foi o primeiro forasteiro depositário dos referidos conhecimentos, depois de uma reunião solene dos sacerdotes mais importantes da tribo. Mas façamos um resumo daquilo que esta tribo conhece, desde há muitos séculos atrás, acerca do sistema Sírio.


Dogones


O ponto de partida da criação – evidentemente, da vida no nosso sistema solar, ou da vida da alma humana, não da origem nem da vida do nosso universo infinito – é a estrela que gira em torno de Sírio, e que se chama, de facto, estrela Digitaria; contém o germe de todas as coisas. O seu movimento à volta do seu eixo e de Sírio sustenta a criação no espaço. Iremos ver como a sua órbita define o calendário.(2)

O nome por que os dogones designam esta estrela é Po, que equivale ao da semente que constitui a sua alimentação básica – à semelhança de muitas outras tribos de África – semente da planta Digitaria exilis ou Fonio. Acontece que a sua semente é uma das mais diminutas que existem, facto que a associa directamente à importância e, por outro lado, ao tamanho reduzido de Sírio B. Para os dogones, esta semente é a «fonte de tudo no mundo», mas na realidade, aquilo a que se estão a referir é que a estrela Po, ou Digitaria, é a fonte de tudo no mundo e que todo o tipo de matéria tem a sua raiz nesta estrela. Penso que uma interpretação que podemos fazer deste fragmento é a de que da Estrela Sírio – e, muito em particular, de Sírio B – emana uma irradiação cósmica que intervém definitivamente nas transmutações alquímicas da matéria; não só do nosso sistema solar, mas de todas as estrelas próximas da «molécula cósmica», que inclui Sírio, o nosso Sol, Alfa Centauro, Prócion, Altair e dezenas de outras estrelas de muito menor visibilidade.

Recorde-se o ensino mistérico: um electrão é como um planeta, um sol como um átomo e um grupo de sóis ligados harmoniosamente entre si é como uma molécula. Isto é associado pelo dogones à Placenta, e eles falam, por exemplo, da «placenta de Po», porque, de certo modo, ela alimentaria as diferentes estrelas que se encontram dentro da sua placenta ou influência sideral.

Descrevem a órbita de Digitaria como um ovo ou uma elipse, e girando à volta de Sírio A, que se encontra – segundo os desenhos dos dogones – num dos focos da elipse, com o que os dogones demonstram um conhecimento da gravitação universal ou das leis de Kepler. Por sua vez, Digitaria, Sírio B, giraria todos os anos à volta de si própria, facto que os dogones celebram através do ritual do bado, pois dizem que uma frente de raios cósmicos e espirituais viria daquela estrela, todos os anos. Para que cada pessoa possa, lite­ral­men­te, interpretar isto como quiser e puder, eles afirmam: «Neste momento, expulsa das suas três espirais os seres e as coisas que contém. A este dia chamam badyu, «pai arisco», porque está marcado por um movimento geral do mundo que transtorna as pessoas e as coloca numa relação insegura consigo próprias e com as demais».

Os dogones afirmam que este sistema é triplo – facto recentemente corroborado pela ciência –, chamando a esta terceira estrela, Sírio C, emme ya (sorgo fêmea), sol pequeno ou sol das mulheres. Dizem que, comparada com Digitaria, é quatro vezes mais ligeira e percorre um trajecto maior na mesma direcção e durante o mesmo tempo, 50 anos, sendo as suas posições relativas tais, que os seus raios formam um ângulo recto.

Eles dispõem de outros conhecimentos esotéricos e astronómicos admiráveis. Por exemplo, dizem que a Lua está morta e seca, como sangue ressequido. Os planetas são estrelas que giram à volta do Sol. As diferentes posições de Vénus aparecem registadas em altares, pedras gravadas, inscrições em grutas. Possuem quatro calendários: três litúrgicos, o solar, o de Vénus e o de Sírio, e um quarto calendário agrário, de base lunar.

Conhecem os quatro satélites mais importantes de Júpiter, a que chamam «as cunhas de Júpiter». Saturno é «a estrela que limita o espaço». A Terra está contida na Via Láctea, que é «por si própria, a imagem das estrelas movendo-se em espiral dentro do mundo das estrelas que se movem em espiral». Os movimentos celestes estão relacionados com a circulação do sangue. Os planetas, satélites e estrelas afins são o sangue em circulação, visão, por exemplo, que partilham com os astecas e com Paracelso. Como já afirmámos, os dogones usam a placenta como símbolo de um sistema de estrelas ou planetas. Referem-se ao nosso sistema solar como a «placenta de Ogo», enquanto que o sistema da estrela Sírio é a placenta de Nommo, sendo – como Osíris no Egipto – este o nome colectivo para designar o grande herói da sua cultura e fundador da civilização, proveniente do sistema de Sírio. «Ambas as placentas cósmicas estão ligadas, entrecruzam-se e encontram-se na origem de diversos calendários, impondo um ritmo à vida e às actividades do homem. Um deles, o mais próximo da Terra, terá o Sol como eixo; o Sol é o testemunho dos restos da placenta de Ogo, e o outro, mais distante, Sírio, o testemunho da placenta de Nommo, supervisor do universo».

Prosseguimos com extractos do trabalho destes antropólogos, intitulado Um sistema siriano no Sudão, nas seguintes citações sobre o sistema de Sírio, entre outros dados de grande interesse:

Dizem que Sírio aparece avermelhado à vista, e Digitaria branca, e que Deus, Amma, criou Digitaria antes de qualquer outra estrela. É o ovo do mundo, a infinitamente pequena, e conforme se foi desenvolvendo, engendrou tudo o que existe, visível e invisível. É composta de três dos quatro elementos básicos: ar, fogo e água. O elemento terra é substituído pelo metal.

Encontramos, também, ensinamentos precisos de Cosmogénese:

Do Ovo do Mundo sai «uma linha vertical, o primeiro rebento a sair do saco; outro segmento, o segundo rebento, assume uma posição em cruz, e assim dá origem aos quatro pontos cardiais: o cenário do mundo. A rectitude destes segmentos simboliza a continuidade das coisas, a sua perseverança num só estado. Por último, um terceiro rebento, tomando o lugar do primeiro, dá-lhe forma de óvulo aberto na sua parte inferior, e rodeia a base do segmento vertical. A forma curva, em contraste com a recta, sugere a transformação e o progresso de todas as coisas. O personagem que se obtém deste modo, chamado a ‘vida do mundo’, é o ser criado, o agente, o microcosmo que resume o universo.»

«A estrela (Digitaria) é a reserva e a fonte de tudo»

«É o celeiro de todas as coisas do mundo». Os conteúdos do receptáculo estrela são expulsos pela força centrífuga, sob a forma de partículas infinitesimais comparáveis às sementes da planta Digitaria que sofrem um desenvolvimento rápido: «A coisa que vai, emerge para o exterior, faz-se tão grande como ela, a cada dia que passa

«É feita de um metal chamado sagala, que é um pouco mais brilhante que o ferro e tão pesado que todos os seres da Terra juntos não conseguem levantá-lo.» Recorde-se que esta estrela, Digitaria ou Sírio B, tem uma densidade dezenas de milhares de vezes superior à da água, e portanto, milhares de vezes maior que um metal comum. O facto de os dogones a considerarem «metálica» ou «do mais pesado que o ferro» tem uma corroboração científica. O metal e as suas propriedades (brilho, peso, condutibilidade eléctrica, maleabilidade, resistência à tracção, etc.) são assim porque os átomos perdem os seus electrões mais externos e os núcleos estruturam-se como se fossem «películas». Mas à gravidade imensa a que é submetida a matéria numa estrela como Sírio B, praticamente todos os electrões «saltam» das suas órbitas e ficam livres, pelo que podemos classificá-lo como «o metal dos metais». O passo alquímico seguinte – ou físico atómico – verifica-se quando a gravidade e a pressão são ainda superiores e os electrões se fundem com os protões, gerando neutrões e dando lugar à chamada estrela de neutrões, milhares de vezes ainda mais densa do que a anã branca, mas sem as suas propriedades «metálicas».

Esta estrela, a que eles chamam também «princípio profundo», polo to, uma derivação de tolo po, Estrela Digitaria, é também para os dogones a Estrela da Circuncisão. Recorde-se que a circuncisão é própria dos sacerdotes egípcios, e daí depressa se converteu, graças a Moisés, sacerdote egípcio, num signo distintivo do povo hebraico; se bem que seja certo que Maimónides iria dedicar-lhe várias páginas, com o objectivo de explicar a origem e o porquê do referido ritual, sem ter chegado a dizer nada de relevante nem convincente.

Uma das figuras geométricas com que representam a Estrela Digitaria (Sírio B) é a espiral, pois a referida estrela consiste em «um núcleo central que expulsava as sementes ou rebentos cada vez maiores, num movimento espiral cónico. As sete primeiras sementes ou rebentos representam-se graficamente através de sete linhas, que aumentam em longitude dentro do saco formado, por sua vez, por um óvulo que simboliza o ovo do mundo».

Recorde-se que, para os dogones, a espiral e a hélice são o movimento vertiginoso do mundo; os raios representam a vibração interior de todas as coisas.

Mascara_KanagaSegundo os sacerdotes dogones, a máscara kanaga, que representa o Grande Deus, Amma – e que recorda, sem dúvida, o Deus Amon egípcio – representa, por um lado, o gesto estático do Deus, e por outro a suástica, mediante a repetição dos mesmos gestos num ângulo de 90º relativamente ao primeiro. A segunda figura representa o Deus girando sobre si próprio, à medida que desce à terra para reorganizar o mundo mergulhado no caos. Não podemos deixar de relacionar isto com o esquema da Árvore Cósmica dos Africanos do Noroeste e com o desenho com que os bambara, tribo aparentada com os dogones, exprimem a actuação do demiurgo durante a criação. Em espiral, dentro de uma estrutura cónica dupla similar a um relógio de areia.

Tão pouco podemos deixar de exprimir a semelhança desta imagem, e de tudo quanto temos afirmado a respeito do valor de Sírio como olho e coração do «nosso» universo, com a descrição que faz Hesíodo no escudo de Heracles, e que Jorge Angel Livraga comenta no seu Manual de Simbologia. Depois de descrever o Dragão que olha para trás, no centro do referido Escudo, e de relacioná-lo com os crocodilos no Egipto, que olham nessa mesma atitude forçada, diz:
«O símbolo do dragão é o da Anima Mundi, a força que move as coisas, que gira sobre si própria, que vigia; é o guardião das portas, emblema do alento da natureza que se cuida a si própria. Este dragão do escudo de Héracles deita fogo pelos olhos.

Ao lado dos espelhos das bordas, vêem-se uns círculos representando os céus, o Urano dos gregos. Numa parte do escudo encontramos a estrela Sírio e, imediatamente abaixo, o sagrado Olimpo, e aos pés deste, o Areópago, como numa cidade.

Se considerarmos que o Olimpo é equivalente ao Monte Meru indiano, teremos Sírio, o Um, Aquele; como tal, o Monte Olimpo como uma tríade ou face de pirâmide, e por baixo o Areópago quadrangular, fazendo as vezes do quaternário inferior, ou os quatro elementos da personalidade, o mundo perecedoiro e multitudinário. No Escudo de Heracles, Sírio aparece descrito como emanando uma série de círculos concêntricos que «nunca acabam» e que abarcam todo o escudo ou, o que é o mesmo, todo o Universo».(3)

Zoodiaco_denderah

Outra representação que aparentemente nada tem que ver com a descrição de Hesíodo, mas que afinal talvez tenha – representam ambas o Cosmos na Eternidade – é o famoso Zodíaco de Denderah, hoje guardado no Museu do Louvre, e em que o centro do referido Zodíaco Circular, em pedra, é constituído por uma estrela que pode ser Thuban, Alfa do Dragão, de enorme importância na magia e na astrologia egípcias (a ela conduz um dos chamados «canais de ventilação» da Grande Pirâmide), mas onde existe outro centro ou coração para onde derivam uma série de Deuses e figuras estelares, e este vem a ser Sírio. Sigamos a descrição, profunda e magistral, de Jorge Angel Livraga:

«Este Zodíaco tem uma particularidade extraordinária: além das coisas próprias de um Zodíaco comum, isto é, das figuras que possam estar no seu perímetro, encontramos nele uma espiral de Deuses que vai desde o centro até à parte exterior, onde abundam as barcas em forma de serpentes. Esta espiral de deuses representa, segundo as tradições, os ciclos passados, ou seja, neste Zodíaco, onde somente figuram onze signos, não está o último, o que nos permitiria atribuir-lhe uma antiguidade mínima de vinte e cinco mil anos, e mostra-nos que estamos num período de precessão de equinócios completo. Este Zodíaco marca, em direcção ao centro, uma série de figuras que se vão encadeando até uma zona central onde está Sírio, ou a estrela Sothis, por meio da qual, além de constituir uma representação astrológica, nos dá uma representação teológica, pois sabemos que, na simbologia egípcia, Sothis, ou Sírio, configura o coração espiritual do nosso Cosmos". (4)

 

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole



Nota: Grande parte dos dados expostos neste artigo procedem do livro citado O enigma de Sírio de Robert Temple, um notável investigador, com o qual penso que todos estamos em dívida pelo trabalho realizado. Dizer, no entanto, que não partilho da con­clu­são de um mundo de água e ex­tra­terrestres a chegar em naves espaciais em sentido tão literal e material.

(1) Magia, Religião e Ciência para o Terceiro Milénio, de Jorge Angel Livraga, pág. 72.
(2) Artigo sobre os dogones, da autoria destes antropólogos, em African Worlds, O enigma de Sírio, de Robert Temple.
(3) Manual de Simbologia Teológica: «Simbologia Teológica na Grécia e em Roma»
(4) Magia, Religião e Ciência para o Terceiro Milénio, de Jorge Angel Livraga, pág. 75.


 

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