Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

A Tempestade de Shakespeare como Drama Mistérico

Quanto mais nos embrenhámos no génio de Shakespeare mais nos apercebemos que, por trás de cada véu que se vai levantando, restará sempre por decifrar, “um véu sobre um outro véu”. “Quem foi Shakespeare? Que tipo de homem foi ele? Que poder estava por detrás das suas peças?” Estas perguntas são mais facilmente colocadas do que respondidas. As vicissitudes da reputação de Shakespeare e os caprichos das opiniões críticas também ilustram a frase de H.P. Blavatsky de que Shakespeare, tal como Ésquilo, “será sempre a “Esfinge” intelectual de todos os tempos”.

As pistas dispersas na literatura Teosófica, embora poucas e escassas, são suficientemente sugestivas para indicar a natureza versátil (como Proteus) e profunda de Shakespeare e da sua mensagem. “O meu grande amigo – Shakespeare,” escreveu Mahatma K.H. citando-o numa carta.

No seu prefácio do primeiro volume de Lúcifer, H.P. Blavatsky disse que
 
A vasta e perspicaz sabedoria de Shakespeare sobre a filosofia mental tornou-se mais benéfica para o verdadeiro filósofo no estudo do interior do ser humano – e, por isso, no alcançar da verdade – do que o mais perfeito mas seguramente menos profundo saber de qualquer membro da Academia Real (Instituição Britânica das Ciências).
   
Mas também, sabemos nós através da carta que ela enviou para A.P. Sinnett, que pretendia que um aluno escrevesse sobre o “significado esotérico de algumas das peças de Shakespeare” para inclusão na “Doutrina Secreta”. Mais recentemente, temos a frase de W.Q. Judge segundo a qual: “Os Iniciados afirmam que Shakespeare foi, inconscientemente, inspirado por um deles”.

Shakespeare foi um génio criativo magnífico que, estando sob a influência Nirmanakayica, se tornou um mestre da vida e da linguagem com uma mente vasta e versátil. O seu espantoso e enorme conhecimento do super-físico e do invisível, a sua penetrante e apaixonada intuição sobre a natureza humana, a sua imaginação transcendente e caleidoscópica, a sua percepção intuitiva e os seus trechos inspirados – tudo isto não é mais do que a expressão e a prova da grande introspecção das suas peças e da luminosa influência dos Iniciados.

Qual foi a natureza da influência dos Iniciados na mente de Shakespeare? Não se pense que Shakespeare esteve, desde o início, sob cuidado e observação especiais da Grande Loja, mas antes que “as suas potencialidades superiores foram o que a Inspiração Iniciada utilizou para fazer despontar uma actividade mais forte”. Isto foi possível devido à abertura da sua mente e à receptividade da sua alma. O sopro da sua Alma-Vida pôde provocar o despontar da sua imaginação “para partilhar abundantemente o Fogo da Vida que arde no poder supremo”. Acima de tudo, ele possuía o poder, tal como John Masefield escreveu, para tocar “energia, a fonte de todas as coisas, a realidade por detrás da aparência”, e para partilhar do repositório do pensamento puro.

Contudo, não será uma tarefa fácil o desvendar do mistério guardado na alegoria, no símbolo e nas personagens das grandes peças. Porque, “o simples facto de Shakespeare se ter mantido inconsciente da influência Nirmanakayica que o seu génio atraía, demonstra que não devemos esperar uma expressão absoluta do Saber Divino em tudo o que ele criou”.

Há duas possibilidades para estudar qualquer uma das peças de Shakespeare no plano da Gupta Vidya (Teosofia). A primeira é a mais fácil e consiste em retirar pistas de verdade esotérica de frases importantes ou de trechos da peça. A segunda é a mais difícil e consiste em interpretar a história completa e o tema da peça de acordo com uma ou mais das sete chaves do simbolismo referidas na “Doutrina Secreta”. Usaremos os dois métodos, mas concentrar-nos-emos no segundo o qual, apesar de mais difícil, será bem mais interessante.

O grupo de peças ao qual “A Tempestade” pertence e do qual será presumivelmente a última, foi escrita no final da vida de Shakespeare. Todas estas peças são romances, nem trágicos nem cómicos, mas ambos, cheios de sonhos imprecisos e rebuscados, embrulhados num mundo de mistério e de maravilha, de mudanças de perspectiva e de complicações confusas, “um mundo em que qualquer coisa pode acontecer de um momento para o outro”. Estranhamente longe da vida real está este mundo sobrenatural do final da vida de Shakespeare e o universo desta sua invenção está habitado por muitas criaturas, mais ou menos humanas, seres pertencentes a ordens diferentes da vida. O carácter romântico destas peças está reflectido na riqueza do seu estilo. Aqui temos os factos essenciais da poesia, da sugestão, da cor, da imagem juntamente com períodos complicados e incoerentes, com ritmos suavizados e acentuados, com beldades meigas e fugazes. Estas peças são o clímax da arte poética e revelam uma dicção amadurecida e magnificente e a magia assombrosa do mais puro lirismo, tudo apelando mais à imaginação do que ao intelecto.    

Porém, a característica fundamental destas peças do período final é o arquétipo do padrão da prosperidade, destruição e recriação no qual o seu enredo assenta. A virtude é não só virtuosa mas também vitoriosa e triunfante e a malvadez é não só derrotada mas também perdoada. São dramas de reconciliação entre parentes separados, de males corrigidos pelo arrependimento sem vingança, de perdão e de paz. A tragédia é plenamente transformada em misticismo e o tema é apresentado sob a capa do mito e da música, reflectindo a grandeza da imortalidade verdadeira e da conquista espiritual dentro de uma morte e de uma derrota aparentes.

Os críticos modernos, apoiados nas conclusões aceites sobre a ordem cronológica das peças de Shakespeare e sobre as características peculiares das que são do período final da sua vida, têm sido demasiados sôfregos na elaboração das suas interpretações plausíveis e pitorescas.

Temos, em primeiro, lugar, a interpretação de Drowden, sustentada em graus diversos por outros críticos, que compara Shakespeare a um navio, fustigado pela tempestade que, no entanto, entra no porto de velas enfunadas para ancorar em Stratford-upon-Avon num estado de calma satisfeita e de serenidade auto-controlada. Esta visão confere ao período final de produção de peças o epíteto apelativo de “Nas Alturas” e deixa subentender nestas últimas peças o charme do romance meditativo e da visão mais elevada. A Tempestade é olhada, com reverência, como a essência suprema da bondade da fase final de Shakespeare.

A tese oposta de Lytton Strachey´s, parcialmente secundada por Granville-Barker, refere que estas últimas peças fantásticas e defeituosas mostram que Shakespeare terminou os seus dias em aborrecimento, cinismo e desilusão.

Dr. E.M.W. Tillyard e John Midlleton Murray não só não vislumbram falta de vitalidade ou aborrecimento com as coisas, nem pobreza na versificação destas últimas peças, como até vêem provas do trabalho de quem estava no pico das suas faculdades poéticas.

A melhor interpretação é a de Wilson Knight em “A Coroa da Vida”. Ele olha Shakespeare como o equivalente ao poder espiritual dinâmico manifestado nas suas peças e encontra na sequência shakespeariana um círculo de razão, ordem e necessidade. As suas peças enfeitiçam o ritmo universal do movimento do espírito humano, progredindo de uma dor espiritual e desespero através da aceitação estóica e da resistência até uma alegria mística e serena. Enquanto que, nas tragédias é expressada a angústia da ambição da alma humana, gritando do interior do seu frágil sepulcro de carne, contra a sordidez do mundo, estas últimas peças retratam a alegre conquista da dor da vida.

Contudo, é importante destacar o perigo de estereotipar as divisões da vida de Shakespeare e a necessidade de ter cuidado na forma como aplicamos as nossas etiquetas e demarcações a algo que G.S. Gordon chama “tão versátil como a vida e a obra de um homem”. Na análise final, Shakespeare era um todo; ele evoluiu mas, no seu desenvolvimento, não perdeu nada; a sua atitude relativamente à vida aprofundou-se, mas o essencial do seu ponto de vista manteve-se sempre o mesmo.

Podemos atribuir a grandeza excepcional das peças do período final da sua vida à grande expansão criativa e à habilidade dramática que começaram a mostrar-se em toda a sua plenitude nas produções “trágicas” do período do meio. Esta expansão foi um produto, tal como é a prova, da inspiração dos Iniciados da qual Shakespeare progressivamente beneficiou e na qual ele aos poucos se foi inserindo. Assim, estamos plenamente preparados para visualizar o período final como o culminar de uma odisseia espiritual que encontrou o seu fim em “A Tempestade”, a sua última e a maior das peças. Nesta visão, “A Tempestade” é a mais profunda “personificação das qualidades definidas para os mais altos planos do ser humano nos quais a imaginação manda”, um padrão perfeito de mito e magia assim como de música e maravilha.

A história de A Tempestade é bem conhecida mas iremos brevemente recapitular as suas linhas gerais. É, desde logo, a história de Próspero, o duque legítimo de Milão, e a sua criança encantadora, Miranda, ambos banidos pelo seu irmão, António, um usurpador, e que vivem em local desconhecido numa ilha deserta. Aqui, depois de um longo período de estudo laborioso e de prática, Prospero tornou-se um mestre da magia e Miranda floresceu tornando-se numa donzela casadoira. A peça abre com uma tempestade violenta e um naufrágio daí resultante, causada pelos comandos de Prospero sobre a legião invisível dos elementos, da qual Ariel é o chefe. O grupo real envolvido no naufrágio é salvo de acordo com o plano de Próspero, e dividido na costa por três partes da ilha. Alonso, o Rei de Nápoles; Sebastian, seu irmão; António, o usurpador e Gonzalo um velho honesto conselheiro: dois Lordes, Adriano e Francisco, vão para um dos lados da ilha e a maior parte deles cai num sono induzido, durante o qual, o atento e vilão António, convence o influenciável Sebastian a aderir ao plano delineado para matar o Rei. Mas, graças à intervenção do invisível Ariel, os conspiradores são impedidos de concretizar o seu propósito e todo o grupo é levado a procurar Ferdinand, filho e sucessor de Alonso.

Entretanto, Ferdinand conheceu Miranda e é colocado ao serviço do pai dela, o que ele pacientemente aceita até que Prospero lhe concede a mão da filha. Ao mesmo tempo, numa terceira parte da ilha, Caliban, o escravo selvagem e deformado de Prospero, conhece inicialmente Trinculo, o bobo do Rei, e depois Stephano, um mordomo bêbado, os quais inocentemente se juntam ao descrente Caliban num propósito vão contra o poderoso mestre.

Depois de António, Alonso e Sebastian, através de terríveis e estranhas visões e sons terem sido levados a arrependerem-se de concretizar o seu plano louco, depois de Ferdinand e Miranda terem sido postos na linha por um mascarado visionário, manuseado por espíritos e depois de Caliban e os seus companheiros terem sido chamados à razão – tudo isto conseguido através da acção de Ariel, aqueles três grupos são, no último Acto, todos trazidos para junto da cela de Prospero.

A peça termina com a restauração da harmonia perturbada, a recompensa dos bons e o arrependimento dos enganados, a libertação de Ariel por Prospero e a união de todos perante uma nova ordem introduzida por Prospero, que se apresenta ele próprio como sendo um homem de sabedoria e um mestre do destino.

Vamos brevemente considerar as diferentes interpretações que subjazem ao tema de A Tempestade.
Assim, em primeiro, há a interpretação excelente mas puramente artística do Dr. Tiilyard cuja tese nos diz que a peça fornece o sentido pleno dos mundos diferentes dentro dos mundos que podemos habitar e que isso é também o epílogo necessário nos temas incompletos das grandes tragédias.

Uma tentativa mais ambiciosa e compreensiva é a de Wilson Knight, que interpreta o tema da peça a partir de vários pontos de vista – o poético, o filosófico, o político e o histórico. Poeticamente, ele considera a peça uma autobiografia artística em que os seus significados revelam um grande leque de valores universais. Filosoficamente, ele sustenta que A Tempestade retrata uma luta de corpo e espírito. Politicamente, ele interpreta a peça como a traição de António, o Príncipe de Maquiavel e um símbolo da vilania política, a Prospero, o filósofo rei para Platão representante de um idealismo impraticável. Finalmente, a peça é historicamente vista como um mito da alma nacional, em que Prospero significa os instintos políticos e religiosos Britânicos, severos mas tolerantes, em que Ariel tipifica o seu génio poético e inventivo e Caliban o seu espírito colonizador.      

Uma outra tentativa séria de interpretação é a de Cohn Sill, cujo estudo do “tema intemporal” de A Tempestade não atraiu a atenção que merece. Ele vê esta “Peça Mistério” como uma propositada explicação alegórica daquelas experiências psicológicas que constituem Iniciação, em que as suas principais características se assemelham às de todas as cerimónias rituais baseadas na autêntica tradição mística da humanidade e, em particular, do mundo pagão. Still vê Próspero como um Hierofante, e num certo aspecto, como o próprio Deus, Ariel como o Anjo do Senhor, Caliban como o Demónio ou o Diabo, e Miranda como a noiva celestial. Os comediantes, Stephano e Trinculo, liderados pelo Diabo, constituem um falhanço na tentativa de chegar à Iniciação. As experiências do grupo da Corte, que estão ao nível do Purgatório, constituem a Iniciação inferior, com os seus objectivos a serem auto-descobertos enquanto Ferdinand tenta alcançar o Paraíso, o objectivo da Grande Iniciação e que consiste em receber uma “segunda vida”. O naufrágio é considerado como o símbolo dos terrores imaginários do candidato à Iniciação e a imersão na água como símbolo da sua purificação preliminar. O Mascarado é visto como apocalíptico no carácter e a cela representa o Sanctum Sanctorum, onde só se deve entrar depois de completar toda a Iniciação. E assim Still vai conseguindo transmitir todos os detalhes de uma categoria de um símbolo semi-esotérico principalmente retirado do ritual pagão.

A tese do Still, embora seja basicamente sã, está obscurecida pela terminologia teológica e a sua preocupação pelos detalhes leva com frequência a alguma analogia forçada. Prospero, por exemplo, é um homem, não é Deus, e Caliban é em demasia um produto da natureza para poder ser chamado Diabo ou Satanás. O cerne da referência do Still apoia-se mais num sistema rígido de simbolismo pagão aplicado à peça do que na poesia ou na filosofia.

Em termos teosóficos, podemos analisar A Tempestade sob três perspectivas – a psicológica, a cósmica e a oculta. Destas, adoptaremos a última para uma interpretação pormenorizada dos personagens da peça. Antes, contudo, será proveitoso indicar como as chaves psicológica e cósmica são aplicadas.

A chave psicológica permite-nos construir o tema de A Tempestade relacionado com os princípios do temperamento humano e as experiências do dia-a-dia da maioria dos seres humanos. Nesta linha interpretativa Prospero representará Atman, o Eu Universal que cobre os demais componentes do homem e permite a sua salvação do desequilíbrio interno, assim produzindo a harmonia unificadora que lança equilíbrio e proporção, tal como poder e paz. Miranda, a filha de Prospero, será aquela parte de Atman, que conhecemos como Buddhi, os princípios espirituais e imutáveis do homem, veículo de Atman e simultaneamente a expressão e a essência da pura sabedoria e da verdadeira compaixão. É neste sentido que Miranda representa a Alma Adormecida e perdida do homem não Iniciado e enganado. Ferdinand, o Príncipe que aspira ao companheirismo de Miranda, poderá simbolizar o Manas Superior, o raio incarnado do Divino no Homem, enquanto António, o usurpador que planeia manter poder pessoal à custa da sua consciência que enfraquece, representa o Kama Manas, ou a Mente-Desejo. A completar esta imagem, Caliban poderá ser visto como Kama Rupa ou o lado apaixonado do homem na sua forma material e Ariel como um tipo de colagem de autoridades divinas, Devatas ou elementais, na personalidade humana. Este será o sistema de símbolos que, sob a forma de silhuetas, poderia ser construído com base na chave psicológica – um sistema que, interessante como é, nas suas ramificações, não seria difícil de desenvolver.

A segunda interpretação, a que nós chamámos cósmica, vem no seguimento de uma visão detalhada da corrente evolutiva na natureza, da Grande Escada do Ser. Esta interpretação está implícita na frequentemente citada frase de H.P. Blatavatsky segundo a qual

O Ego começa a sua vida peregrina como um espírito, um “Ariel”  ou um “Puck”, representa o papel de um super, é um soldado, um servo, um do grupo: depois ascende para um ser falador, representa papéis de chefia, salpicados por outros insignificantes, até que finalmente se retira do palco como “Prospero”, o mágico.

Nesta linha de interpretação, a peça representa a imagem, a supremacia gloriosa da alma humana, aperfeiçoada sobre todas as coisas e sobre todos os seres. No pico da curva evolucionista ascendente surge Prospero, o representante de um deus viril, sensato e com compaixão, na sua relação com os vários elementos da existência – os poderes físicos do mundo exterior – e a variedade de personagens com os quais ele entra em contacto. Ele é o poder dominante ao qual todos os outros se submetem, desde o Caliban, o mais denso, até Ariel o extremo mais etéreo. Com Prospero temos a mais fina fruição do desenvolvimento coordenado das linhas de evolução espirituais e materiais.

Próximo de Prospero aparece o casal encantador, Ferdinand e Miranda, primorosas flores da existência humana que vão desabrochando sob os cuidados bondosos do seu patriarca e guru. Destes descemos, por uma escala moral e harmoniosa, desde a figura habilidosa do bom Gonzalo até aos representantes das fundações das qualidades intelectuais da humanidade. Referimo-nos aos astutos, cruéis, egoístas, mundanos e traiçoeiros, que variam nos seus graus de desilusão desde a vilania confirmada de António à loucura de Alonso.

Depois, temos aqueles representantes das mais básicas qualidades sensuais da maior parte da humanidade – os bêbados, devassos e bobos da corte, Stephano e Trinculo, cuja ignorância, trapacice e estupidez torna-os mais alvo de pena do que de ódio. No ponto mais inferior da escala da humanidade aparece o grosseiro e nojento Caliban, que representa as propensões brutas e animalescas da natureza humana os quais Prospero, que representa o mais nobre desenvolvimento de tal natureza, mantém sob submissão senhoril.
Finalmente, abaixo dos níveis da vida dos humanos e dos animais, nesta maravilhosa escala de seres, vem toda a classe dos elementais, as forças subtis e os nervos invisíveis da natureza, os espíritos dos elementos que são representados por Arid e pelas figuras brilhantes do Mascarado que também é governado pela alma soberana do Prospero. Shakespeare tinha obviamente conhecimento destes espíritos invisíveis e reconhecia o seu lugar no panorama da evolução.

O esotérico ou oculto é a abordagem mais elevada em qualquer sistema alegórico.
Nesta abordagem, A Tempestade pode ser vista como sendo um relato completo das formas e funcionamento da Grande Loja dos Iniciados – Gurus, e das provações e testes no caminho do discipulado probatório, conduzindo através de uma série de despertares progressivos à aquisição do objectivo final, uma consciente essência divina, ainda que no meio das incomodas condições da vida terrena. Esta interpretação esotérica é, na verdade, baseada em dois postulados – o do carácter probatório de toda a existência encarnada e o do desdobrar incessante, de dentro para fora, da totalidade da Vida.

Para começar, vamos perceber o carácter de Prospero.
Perante vários críticos, Prospero é visto como um mágico, um super-homem, o espírito do Destino e o próprio símbolo de Shakespeare. Na nossa interpretação, ele é a perfeição da alma humana, um homem-Deus, um Iniciado, o mestre sábio da natureza, o déspota compreensivo do destino, o criador das suas próprias circunstâncias e o autor do drama do mundo de Shakespeare. Ele é, sobretudo, a perfeita personificação daquele super estado a que os personagens das primeiras obras de Shakespeare aspiram chegar mas nunca conseguem.

H. P. Blavatsky define um Iniciado como

Um homem de conhecimento profundo, exotérico e esotérico, em especial este último, alguém que conseguiu submeter a sua natureza carnal à vontade; alguém que desenvolveu em si não só o poder de controlar as forças da natureza (Siddhi) mas também a capacidade para perscrutar os seus segredos com a ajuda dos poderes, inicialmente latentes, mas agora activos do seu ser.   

Mais simplesmente ela define um Iniciado como “alguém que atingiu o estádio da Iniciação e se tornou um Mestre na ciência da Filosofia Esotérica”.

À luz destes critérios, Prospero torna-se para nós um conceito lógico. Vemo-lo no início da peça em pé

como um pilar branco a ocidente sobre cuja face o Sol Nascente do Pensamento derrama as suas primeiras e mais gloriosas ondas. A sua mente, como um parado e infinito oceano, espraiada num espaço sem margens. Ele que detém a vida e a morte na sua mão forte.

Ele atingiu este nível depois de estudo e esforço prolongados que terá começado quando era o soberano Duque de Milão.

                                    O governo a que eu submeto o meu irmão
E que na minha posição se torna estranho, sendo transportado e arrebatado em estudos secretos…
 Eu, assim negligenciando propósitos mundanos, com isso só dedicado à proximidade e à melhoria da minha mente, a qual por estar tão afastada
Sobrepôs-se a toda a mediania popular

Isto, para muitos críticos, é considerada a sua “maior falha” já que, na verdade, Prospero estava a obedecer “ao impulso interior da sua alma, sem ter em conta as considerações prudentes da ciência mundana ou da sagacidade”. Longe de ter sido um sábio impreparado para a acção directa, ele foi um prisioneiro espiritual à beira do poder mágico, que passou o seu período de reclusão na ilha solitária a aperfeiçoar a sua Iniciação. Esta reclusão simboliza a renúncia mental do discípulo às coisas materiais da vida. Quando ele atinge a Iniciação completa e o domínio completo sobre ele próprio e sobre a natureza, Prospero, como um membro da Grande Loja, passa a desempenhar uma das suas duas tarefas – trazer, por sua vez, futuros membros e discípulos probatórios para a ilha na qual ele atingiu perfeição. É nesta missão sagrada que ele está envolvido ao longo da peça.

A personificação da sabedoria e da compaixão que ele é agora, tornou-se alguém com destino, alguém com o objectivo da grande lei de karma. O seu próprio nome é alegórico do seu carácter beneficente. À luz desta interpretação devemos ver António e Alonso, não como inimigos pessoais de Prospero, mas como tipos de humanidade que, na sua ignorância e ilusão perturbam a harmonia divina, a qual, são depois compelidos a restaurar, através do seu destino, e que na sua loucura, amaldiçoam o aspirante a discípulo que regressa para o meio deles como um Iniciado, apenas para os abençoar. Prospero utiliza a sua tempestade mágica para atrair para a ilha os iludidos, ensinando-os através do desastre a arrependerem-se dos suas actos malévolos e depois fazê-los erguerem-se pelo seu perdão. Ele é o eternamente misericordioso e, através do dinâmico poder espiritual que, mesmo em repouso irradia, redentor da sociedade que o rejeita. A consciência de Prospero está já num ponto situado para além do horizonte do homem comum, na eternidade, estando acima das motivações mesquinhas e pessoais da humanidade mediana sentindo a dor profunda dos Grandes Mestres ao aperceber-se da incapacidade de aprendizagem de alguns dos seus discípulos.

Devemos também realçar a importância do discurso final, o Epílogo. Tendo consumado o seu objectivo e cumprido a sua primeira tarefa, Prospero, o Iniciado, renuncia às vestes formais de mágico e retoma a aparência cerimoniosa de um duque. Ele atingiu um patamar superior da Iniciação. Vai regressar à vida terrena como um Rajarishi, ou governante divino, encarregar-se agora da difícil tarefa de comandar sob jugo real grandes massas de homens e restabelecer a justiça no mundo. Ao fazer isto Prospero, o Iniciado, tal como Padmapani da lenda budista, identifica-se completamente com o sofrimento da humanidade e assume o fardo de ajudar os homens a encontrar a sua salvação.

Depois de Prospero, voltemo-nos para Ariel.
Os críticos consideram Ariel como um símbolo dos poderes subtis da imaginação, a personificação da própria poesia. Teosoficamente, ele pode considerar-se como pertencente à classe mais elevada de elementais, suficientemente individualizada para se poder separar dos espíritos da natureza, “os nervos da natureza”, na peça. Ariel, marcado pelo seu mestre com a marca do Manas, torna-se um agente deste objectivo e o seu instrumento para controlar as congéneres de elementais no desenvolvimento da acção do tema da peça. Ele ajuda a levantar a tempestade tornando-se parte dela, coloca algumas pessoas a dormir assim tentando os assassinos mas acorda os outros mesmo a tempo, interrompendo estrondosamente o festim e exibindo a moral. Prega partidas aos ébrios, consegue ouvir o seu plano e leva-os ao desastre. Leva o barco a porto seguro e, mais tarde, liberta e lidera os marinheiros.

Tudo isto demonstra a inteligência e a razão que o seu mestre lhe concedeu. Contudo, ele impressiona-se não apenas com a razão mas também com a emoção. Como nos indica a cena de abertura do último Acto, Ariel, embora não-humano, aspira a ser humano e aparenta ter captado um fraco reflexo do sentimento humano através da influência de Prospero. O seu encarceramento inicial por Sycorax e a sua libertação posterior por Prospero são ambos sugestivos de testes levados a cabo por elementais antes de serem usados pelos Iniciados. Mais, o seu impulso instintivo para ser livre e a alegria pura que demonstra quando finalmente é libertado por Prospero, são indícios de pontos altos no progresso evolucionário que ele deseja e merece atingir.

Tudo isto sobre Ariel pode ser clarificado por afirmações na filosofia Teosófica. A Doutrina Secreta ensina que enquanto os elementais mais inferiores não têm forma fixa, os de escalões superiores possuem inteligência própria embora não suficiente para a construção de um homem pensador. W. Q. Judge define um elemental como

Um centro de força, sem inteligência, sem carácter moral nem tendências mas capaz de ser comandado nos seus movimentos pelos pensamentos humanos, que podem, conscientemente ou não, dar-lhe qualquer forma, e, de certo modo, inteligência.

Ariel é um elemental altamente evoluído que progride no sentido do reino humano pelo seu serviço a Prospero, um Iniciado.

Caliban tem sido filosófica e intensamente pensado por críticos eminentes como Browning e Renan. O número massivo de interpretações que o seu carácter provoca só é comparável ao de Hamlet. Em toda a literatura, tem sido argumentado que não há ser tão misterioso quanto bruto, terreno e contido fora dos limites da humanidade. O seu carácter, de acordo com Hazlitt, cresce do próprio solo e possui o amanhecer da compreensão embora sem a razão ou o sentido moral. Tem sido defendido que o abismo entre ele e a humanidade é intransponível mesmo com a influência e os ensinamentos de Prospero. De acordo com Wilson Knight, Caliban é uma combinação de homem, selvagem, macaco, monstro aquático, dragão e semi-demónio, a anómala ascensão do mal dentro da ordem criativa, a qualidade externa do próprio tempo. Contudo, tem sido defendido por alguns críticos que Caliban, embora carnal e terreno, não é nem vulgar nem pouco amável. Especialmente Coleridge tem sido muito simpático para Caliban considerando-o “em alguns aspectos, um ser nobre”.

Nos finais do século XIX, Daniel Wilson lançou a proposição de que Caliban é exactamente o elo de ligação que faltava entre o Homem e os antropóides, o macaco mais evoluído e o selvagem mais bruto.
Todas estas interpretações sobre o carácter de Caliban, embora sejam sugestivas e interessantes, ficam muito aquém da explicação Teosófica. Mesmo às mãos de Cohn Still, Caliban tem uma cotação baixa. Ele faz de Caliban o Tentador, a personificação do Desejo. Porém, na verdade, há provas textuais suficientes que indicam que Caliban representa a linha material da evolução e o lado lunar da natureza. Ele é um homem na forma mas não na mente. É a inteligência mais inferior da Sombra de Barhishad ou da Pitris Lunar, ligado de perto com a terra. Elas são os nossos materiais ancestrais que deram a Chayyas ou “Sombras” o necessário para se tornarem homens auto-conscientes e para serem iluminados por Agnishwatta Pitris, os “Filhos do Fogo”, como são chamados na Doutrina Secreta. Caliban tem, então, inteligência mas não a suficiente para ser um homem pensante. Ele pode ser visto como uma alegoria “à vaidade das tentativas não conseguidas da natureza física não só na construção de um animal perfeito – quanto mais na construção de um homem”. Esta forma física imperfeita não pode ser iluminada pela Grande Loja dos Iniciados enquanto não evoluir para uma adequada forma humana.

No primeiro Acto temos Prospero a dizer ao Caliban:

                                    … Repelente escravo
                                   Que nem pinta de bondade possui
                                   Sendo portador de todas as doenças, tenho pena de ti
                                   Sofri para te fazer falar, ensinei-te a cada hora
Uma coisa ou outra: quando tu (selvagem) não sabias o seu significado mas tagarelavas coisas grosseiras
Eu transmitia-te o seu significado com palavras
Que te faziam entender: mas a tua vil raça (embora
Tu consigas aprender) tem algo que, quem é de boa natureza, não pode suportar

Outra vez ele é chamado

Um demónio, um demónio nascido, em cuja natureza a educação nunca se poderá ligar

Mais tarde, na peça, ele é apelidado de “patife deformado”, um bastardo “meio-demónio”, uma “coisa das trevas”, que é “tão desproporcionada nos seus modos como na sua forma”. E, no entanto, este mesmo Caliban, quando mostra os primeiros sinais de arrependimento e de compreensão no final da peça, apresenta possibilidade de um progresso futuro dizendo

                                    … Serei sensato daqui para diante
                                   E buscarei a graça…

Nesta interpretação esotérica Ferdinand é aceite como um Discípulo que, tendo passado com êxito todos os testes e provações arquitectados por Prospero, é então unido a Miranda, a personificação da prudência, Buddhi, semelhante à Ísis egípcia e à Sofia Gnóstica. É importante notar que Ferdinand em primeiro lugar apaixona-se por Miranda, mas cedo se apercebe da importância de servir um Mestre, antes de atingir a sabedoria e exclama, no último Acto, que recebeu uma “segunda vida” do seu afável Guru. De novo, Ferdinand é avisado por Prospero, na primeira cena do Quarto Acto, dos perigos de ficar preso às suas paixões carnais e assim comprometer o seu direito a desfrutar da felicidade do casamento. O mesmo aviso, para aquele que se devotou ao Ocultismo, contra as terríveis consequências da satisfação da luxúria terrena é-nos dado por H.P. Blavatsky. Igualmente, os pré-requisitos essenciais para o desenvolvimento físico que ela dá – “um lugar puro, uma dieta pura, camaradagem pura e uma mente pura” são satisfeitos por Ferdinand antes dele ser iniciado na sabedoria. Ele submeteu-se, com sucesso à dieta ascética e ao trabalho árduo e, por isso, é recompensado com a mão de Miranda.

                        Se eu também te puni severamente
                        A tua compensação alivia tal castigo
                        Pois eu dei-te um terço da minha própria vida
                        Ou aquilo por que eu vivo que eu, mais uma vez
                        Ternamente ponho nas tuas mãos: todos os teus
                        Vexames não foram mais do que provações do teu amor
                        Aos quais tu estivestes estranhamente à altura;
                        Por isso, aqui, perante o Céu, eu ratifico a minha preciosa oferta

Por último, é importante notar que Miranda, o símbolo da Sabedoria, é conscientemente considerada por Ferdinand vastamente superior ao conjunto de senhoras de conversa doce que representam os muitos prazeres dos sentidos que prendem em união o espírito alado do homem.

                        Veneranda Miranda
                        Sem dúvida o cume da contemplação, que vale
                        Aquilo que há de mais precioso no mundo
                        Muitas Senhoras já olhei com estima
                        E muitas vezes a harmonia das suas línguas
                        Transporta dependência
                        Mas do meu diligente ouvido foi-me trazido
                                   … Mas tu, oh tu,
                        Tão perfeita e tão incomparável
                        Foste criada do melhor de cada criatura!

Ao assumir Miranda como símbolo da Sabedoria, estamos a colocá-la no papel correcto na escala de importância da peça. Se ela tivesse sido delineada de forma mais fraca, teria sido demasiado insignificante para ter interesse e se ela tivesse sido delineada de forma mais marcada, teria sido demasiado dominadora e individualista para ser docemente submissa a Prospero. Tal como estão, no entanto, Ferdinand e Miranda representam, no fim da peça, uma ordem nova das coisas que renasceu da destruição e cuja continuação eles garantem.

Tendo atingido a Sabedoria Divina, o Discípulo iniciado pode ajudar a prosseguir a missão do Mestre.

Depois de ter abordado o significado esotérico dos principais personagens, vou dar algumas notas sobre as restantes pessoas da peça. António, o desafiante e paranóico; Sebastian o cínico e de fraca vontade, executor de más acções; Alonso o crédulo e culpado governante – todos estes representam uma porção considerável da humanidade egoísta e ambiciosa à qual é dada, pelos compassivos Iniciados, grandes hipóteses de arrependimento pelo seu passado e de melhoria no presente. Stephano, o mordomo bêbado e ambicioso e Trinculo, o bobo estúpido e cobarde, tipificam a parte mais grosseira da sensualidade humana que, longe de se aperceberem da sua loucura, se revoltam contra a ordem estabelecida das coisas e, por isso, para seu próprio bem, são levados ao sofrimento.
Depois temos o bom Gonzalo, do tipo sonhador tagarela e de bom coração, que apesar da sua ingenuidade são os que mais rapidamente acabam por descobrir a sua própria divindade interior. É ele que, no fim exclama, que eles afinal se descobrem a si próprios e assim dão o primeiro passo no caminho do discipulado.

Finalmente, podemos considerar os membros da tripulação, imersos no estado de estupor, como representantes da massa ignorante e adormecida do comum da humanidade que não está ciente do carácter probatório da escola da vida, na qual apesar de tudo, continuam a aprender.

Assim, toda a gente, do mais ao menos importante, na poderosa marcha da evolução, é, no fim da peça, elevada a um estádio superior ao anterior através dos esforços nobres de Prospero.

Depois de analisados os personagens, vamos agora ver os símbolos na peça e o seu significado esotérico e psicológico.
Ao nível esotérico, a Tempestade pode ser vista como representando o emocionante esforço da Natureza para conseguir formar um ser humano de perfeição absoluta, o nascimento de um Iniciado Divino. Isto é descrito, de forma magnífica, na Voz do Silêncio:

Compreende, Conquistador dos Pecados, que quando um Sowani  atravessa o sétimo caminho, toda a Natureza se emociona com alegre receio e se sente subjugada. A estrela prateada espalha a sua luz com as novidades às flores nocturnas, o riacho com as suas ondas dá as novas aos seixos, as ondas escuras do oceano rugem com essas novas às rochas em que deslizam, as brisas aromáticas cantam-nas aos vales e os pinheiros imponentes sussurram misteriosamente “Um Mestre nasceu, o Mestre do Dia”

O mesmo raro e solene acontecimento está descrito maravilhosamente com detalhes poéticos por Sir Edwin Arnold no fim do Sexto Livro da Luz da Ásia. A razão de ser desta perturbação e alegria produzida na natureza quando o homem atinge a perfeição pode ser encontrada na seguinte frase de Mahatma K.H.
                       
A natureza ligou com fios subtis de simpatia magnética todas as partes do seu Império e por isso mesmo há uma correlação mútua entre uma estrela e um homem.

Mais, esta Tempestade não é um cataclismo terrível da natureza e tem uma faceta abençoada como pode ser claramente visto na peça. É necessariamente um prelúdio à paz e à calma que encanta a esperança e a alegria de toda a criação tal como também é uma bênção e uma dádiva às almas lutadoras da humanidade. Psicologicamente, a Tempestade pode ser vista como um estado de um desequilíbrio interno terrível, como um fermento intenso da consciência humana que agita a alma turbulenta até às suas profundezas divinas e a acorda para a realidade austera da vida do espírito.

Se nós percebermos o duplo significado da Tempestade será fácil explicar o sentido do símbolo do mar. Representará o mar de Samsara ou o Grande Oceano da Vida, com as suas ondas turbulentas do Ser e da maré intemporal daquele que sempre Será.

Vejam as hostes de Almas, olhai como elas pairam sobre o tempestuoso mar da vida humana e como, exaustas, a sangrar e de asas quebradas, elas caem uma após outra sobre as ondas infladas. Arremessadas por ventos ferozes, perseguidas pelo temporal, elas flutuam nos redemoinhos até desaparecerem no primeiro grande vórtice.

Psicologicamente, este mar tempestuoso poderá significar a natureza emocional do homem, com as suas ondas de paixões várias e a sua maré de desejo de imortalidade.
A Ilha não é uma criação casual do capricho do poeta nem tipifica qualquer lugar terrestre conhecido pela História ou suposto pela Geografia. Pode querer simbolizar Shamballa, a Ilha Sagrada referida na Ísis sem Veu e na Doutrina Secreta. Esta, que era uma verdadeira ilha no Mar Central da Ásia, é agora um oásis imaginário do deserto de Gobi. A ilha da Tempestade representa o local de habitação dos Instrutores Divinos da humanidade, aqueles poderosos Maha-Yogins de que Prospero é ao mesmo tempo um exemplo e um símbolo. Psicologicamente pode ser vista como uma nova dimensão da consciência, um ambiente magnético e isolado da alma interior do Discípulo, inacessível aos pensamentos e às coisas do mundo.
Esotericamente, a cela de Prospero pode significar a Câmara da Iniciação, o Sanctum Sanctorum no qual Ferdinand é convidado a entrar apenas no Quarto Acto, com o fim da Mascarada; o grupo da Corte é convidado a espreitar para o seu interior no fim da peça, no último Acto. Esta cela é semelhante à gruta de Saptaparna perto do Monte Baibhar em Rajagriha, a antiga capital de Magadha, onde um círculo de Arhats escolhidos receberam iniciação ministrada por Gautama, o Buda. A cela é um símbolo muito solene correspondendo ao sagrado azevinho, no cristianismo, e ao Adytum “naquilo que foram criados Hierofantes imortais”. Psicologicamente, esta cela pode ser vista como representativa “da câmara mais interior, a câmara do Coração”, “a Brahma-Pura ou o pequeno e secreto gabinete para onde Jesus nos pediu para nos retirarmos para meditação devota”.

A vara de Prospero é um instrumento protector e criativo, o mesmo que Vajra ou que Dorje, uma arma que tem poderes sobre influências maléficas invisíveis, um talismã que protege o seu dono purificando a atmosfera que o rodeia. Em termos místicos, Vajra é “o ceptro mágico do Padre-Iniciado, do exorcista e do Iniciado – o símbolo da possessão de Siddhis ou de poderes sobre-humanos, manejado durante algumas cerimónias por padres e teurgistas.” Psicologicamente, a vara pode ser vista como o protector da pureza do coração do Discípulo ao progredir no caminho do Ocultismo.

E o que dizer do Mascarado sonhador, fazendo magia com a ajuda dos espíritos da natureza de Ariel, por ordem de Prospero, e para benefício de Ferdinand e de Miranda? Esta visão dos deuses, surgida por evocações mágicas, é uma parte da cerimónia da iniciação e parcialmente dirigida para lembrar ao Discípulo bem sucedido a existência, no universo, de poderes e potências superiores. Temos Prospero a dizer ao Ariel

… ide e trazei aqui, a este lugar, a populaça (sobre quem eu  vos dou estes poderes)
Incita-a a acções rápidas pois eu tenho de conceder, aos olhos deste jovem casal, alguma vaidade da minha Arte
                                   E ela espera isso de mim

O propósito deste mascarado é, porém, mais do que isso; é também

                                   Um contrato para celebrar o verdadeiro amor
                                   E algumas doações livremente atribuídas
                                   Aos abençoados amantes.

A fertilidade, pureza, castidade e virilidade invocadas e representadas pelas deusas e ninfas desafiadoras definem uma relação particular, não apenas entre marido e mulher, mas também entre Discípulo e Guru. Sem entrar em detalhes, é suficiente afirmar que este mascarado, embora mecanicamente movimentado, causa uma grande impressão em Ferdinand e é-lhe apresentado com uma “visão muito majestosa” que “transforma este lugar em Paraíso”. Os espíritos que representam partes de deuses e deusas são meros nervos da natureza ou centros de força com formas astrais, e representando colectivamente uma combinação de “matéria sublimada e mente rudimentar”.
Psicologicamente, a visão do Mascarado pode ser interpretada como um experiência subjectiva do sempre diferente e faustoso universo invisível.

Tendo analisado os personagens e alguns dos símbolos da Tempestade vamos agora ilustrar o outro método de estudar a peça – escolher passagens e frases que indicam a pura essência da verdade Teosófica.
A primeira passagem importante é a do famoso discurso de Gonzalo na primeira cena do Segundo Acto que é uma paródia excelente acerca das lindas utopias sobre as quais os homens, na sua imaturidade e idealismo encantador, sonham e anseiam. A sua rejeição relativamente a todos os instrumentos da guerra e relativamente às máquinas e a sua confiança na abundância da natureza, expressam uma admirável ternura enquanto o seu sonho de uma nova idade do ouro é maravilhoso na sua universalidade. Contudo, as recompensas da natureza e da liberdade não devem ser tidas como fáceis e não seguramente por quem é pecador, nem podem ser descritas em categorias simples. Gonzalo, como todos os revolucionários impacientes e ansiosos, esquece que uma sociedade perfeita é inconcebível sem homens perfeitos, que as utopias têm de ser preenchidas por Prosperos - se é que são destinadas a serem concretizadas na Terra. O contexto desta visão inadequada encontra-se na exclamação de Miranda no último Acto quando ela vê, pela primeira vez, um pedaço substancial de humanidade em Alonso, Sebastian, Gonzalo, Adrian e Francisco:
 
                        Oh, maravilha!
                        Quantas bondosas criaturas estão aqui!
                        Quão bela é a humanidade! Oh bravo mundo novo
                        Que nele tem esta gente!

Porém, quando tudo está dito do lado dos racionalistas, os sonhos de Gonzalo, embora inocentes, são naturais e necessários: eles são visões nas quais milhares de jovens impacientes e homens de espírito elevado se revêem e as visões de Coleridge e Wordsworth, Blake e Shelley, William Morris e Samuel Butler e H.G. Wells, as quais, apesar de ilusórias e incompletas, clamam pelas almas nobres que estão entre nós. Contudo, tal como as coisas existem, estas visões apenas convidam ao cinismo e ao desprezo dos Antonios e dos Sebastians deste nosso mundo desprovido de imaginação.

Uma bela exibição de sabedoria está no famoso discurso de Prospero no fim da Mascarada, no qual ele retrata a natureza mayavica de todas as manifestações e o carácter em mudança de todas as existências.

                        As nossas diversões findaram. Estes nossos actores
                        (como eu vos disse) eram todos espíritos e dissolveram-se
                        No ar:
E, tal como a essência infundada desta visão, as Torres altas que tocam as nuvens, os Palácios deslumbrantes, os Templos solenes, o próprio Globo terrestre,
Sim, tudo aquilo que nos deixaram, será dissolvido
E à medida que este festival superficial se desvanece
Não deixa sequer uma jangada para trás. Nós somos deste material, tal como os sonhos o são e a nossa vida mesquinha
Está fechada por um sono.

Este discurso profundamente filosófico é uma demonstração esplêndida do idealismo da Doutrina Maya, da Aparência e Realidade. A vida terrena é chamada de curto sono e o mundo material um sonho paranóico. Esta concepção é maravilhosamente apresentada e elaborada na Doutrina Secreta. Maya ou a ilusão

é um elemento que impregna todas as coisas finitas, porque tudo  o que existe tem uma relativa e não uma absoluta realidade, uma vez que o númeno escondido que aparece a um qualquer observador depende do seu poder de conhecer…
Nada é permanente excepto a existência absoluta escondida que contém nela própria os númenos de todas as realidades.

A última longa passagem que podemos mencionar é a despedida de Prospero referindo-se aos elementais na primeira cena do Quinto Acto e a sua renúncia ao ritual (mas não ao conhecimento) da Magia, terminando com as palavras:

                        …Mas esta rude magia
Que eu aqui abjuro; e quando eu necessitei de alguma música  celestial
(de que ainda preciso) para construir o meu fim sobre os seus sentidos, para o qual conduz esta irreal beleza, quebrarei os meus seguidores, enterrá-los-ei largas braçadas pela terra dentro,
Mais fundo do que alguma vez o som mergulhou
Afogarei o meu livro.

Este discurso deverá ser visto em conjunto com o último, no Epílogo. Estes dois discursos são, num certo sentido, auto explicativos, à luz da nossa interpretação, dos personagens e dos símbolos da peça. Será suficiente destacar que, enquanto o primeiro é dirigido aos elementais e delineia o tipo e a técnica de magia que Prospero usou no passado, o segundo é dirigido por ele à humanidade em geral, tal como aos Discípulos em particular e indica o novo e difícil futuro que se abre perante a sua contemplação profética.

A Tempestade dá-nos uma visão completa da existência humana através da alma intemporal da poesia. O pensamento central da peça é que toda a existência é probatória e evolutiva, que a verdadeira liberdade consiste no serviço ao companheiro, que o caminho para atingir a sabedoria dos Iniciados é através do esforço incansável e persistente da auto-educação. A música e a magia encontram-se na Tempestade tão interligadas que ninguém as pode separar. O desenlace final é gracioso e grandioso. Tal como Hazlitt diz

A parte sobrenatural tem um ar de realidade e quase assombra a imaginação com uma sensação de verdade, enquanto que os personagens reais e os acontecimentos partilham o lado selvagem de um sonho.

Criaturas de rara beleza são aqui criadas, para nós, por Shakespeare que, através de reconciliação, perdão e boa-vontade, renova a promessa de um mundo mais bonito e melhor.


Escrito por Avatar (1) 
Bombay, 26 de Abril de 1949

 

1. O nome do autor deste artigo não figura mas apenas o seu pseudónimo “Avatar”. O artigo apareceu numa revista teosófica de Bombaim a 26 de Abril de 1949.


 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster