— Observa. O coração, o segredo da Pirâmide está nesta Câmara de Iniciação, onde se encontra a Pia de Ressurreição, semelhante a um sarcófago. Observa esta Câmara, a sua base é um duplo quadrado, o mais sagrado e antigo dos traçados arquitectónicos e que encontrarás também no Osírion de Abydos.

Duplo quadrado que dá origem, como sabes, à Divina Proporção, pois se dermos o valor 1 ao lado, o quadrado da hipotenusa é 5, o número que designa a mente cósmica, a humana, a Vénus e, de certo modo, a Sírio. Olha que formidável: a sala é um paralelepípedo com dez côvados reais de largura por vinte de com­primento e treze de altura, o que faz com que o triângulo formado pela diagonal da base, a diagonal do paralelepípedo e a altura, seja o triângulo divino 3, 4, e 5, o mais sagrado dos triângulos.

Observa a Pia de Ressurreição, da qual todas as pias de baptismo das igrejas são uma tosca cópia sombria, um eco disforme, sem ciência nem magia alguma: só ficou a ideia de um novo nascimento, uma nova vida…; o verdadeiro novo nascimento é o do despertar da Serpente da Sabedoria na Alma, é a Iniciação. Analisa as medidas desta Pia e faz a conta: trata-se de um dos problemas da matemática grega, insolúvel com a geometria vulgar; o problema do altar de duplo volume.

E digo Altar, pois esta Pia é um Altar dos Deuses. Nele o candidato à Iniciação desperta o Deus que dorme dentro de si, tal como disse Platão nos seus Diálogos: Somos Deuses e esquecemo-nos disso. Esta Pia de Ressurreição é um Altar em que a vítima, sacerdote e Deus ao qual se faz a oferenda somos nós próprios.

O volume do interior desta pia é exactamente a metade do volume exterior, o que evoca outro mistério astronómico, e não só isso: Vénus re­cebe exactamente o dobro da luz do Sol do que a Terra, a nossa morada, e Vénus é, além disso, o duplo luminoso da Terra, o seu irmão mais velho; por isso a relação entre Vénus e a Terra é representada por um duplo quadrado entrelaçado, ou seja, uma Estrela de Oito Pontas.

“Os Deuses são os Números, imóveis e permanentes, corporização das Leis homogéneas cujo tecido é a Natureza, a Vida”

Se expressamos este símbolo em volumes, é um cubo dentro de outro, projecção, ambos juntos, de um cubo em quatro dimensões em vez de três. Pois bem, as unidades de medida do interior e do exterior desta Pia de Ressurreição são números primos. Ah, Hipátia, do mesmo modo que esta Pia é a semente sagrada de toda a Pirâmide, os números primos são a chave e o segredo de toda a Matemática Sagrada!

Estes números, como sabes, não têm divisores, são não-nascidos, eles geram nos seus produtos todos os restantes números, são estrelas de um firmamento mental; ninguém sabe nem saberá jamais como se geram, pois não existe uma regra segura para os gerar, não existe padrão, são eles que geram o padrão e cada um deles é um segredo da Alma da Natureza, um diamante na matriz do inteligível.

— Queria entregar-te também isto — o sacerdote estendeu-lhe a régua de medida, o côvado real — como símbolo do Templo, em que estão representadas as três Enéadas Divinas, mais o Deus Thot, mesmo no centro da régua, pois sempre no coração da vida é Ele quem mede. Os Deuses são os Números, imóveis e permanentes, corporização das Leis homogéneas cujo tecido é a Natureza, a Vida.

São a chamada perpétua e incessante desde o coração da realidade, a Estrela que rege o nosso Destino, e também os degraus da escada pela qual os Homens recuperam a sua condição divina. Na nossa teologia, Maat, a Recta Medida, é filha de Ra, Deus da Vontade que surgiu como um Sol das Águas do Caos. E Ra é quem eleva por cima destas águas a Pirâmide que é este universo. O Faraó encarna o poder criador, a vontade de Ra, e por isso é o portador deste côvado real, desta régua de medida, símbolo da sua justiça.

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole