Vimos que durante a última glaciação pode ter havido uma importante série de ilhas emergidas no Atlântico e que os Açores podem ser o que resta de uma grande ilha das dimensões da actual Islândia, a famosa Poseidon. Assim como a catástrofe que deu lugar ao afundamento da Atlântida está relacionada com o final da glaciação. Mas, que homens puderam povoar estas ilhas e dar lugar a esta misteriosa civilização?

Embora os arqueólogos resistam em admitir a existência de homens civilizados nos últimos milénios da Idade do Gelo, a verdade é que todos os restos ósseos humanos encontrados dessas datas não se diferenciam em nada do homem actual. Se bem que vivessem num meio mais inóspito, apresentavam a mesma capacidade intelectual que nós.

O problema reside em que não se encontraram restos humanos destas datas associados a construções urbanas nem a tecnologias como as que se descrevem no Crítias e se intuem nos mitos, mas não numa carência de capacidade para isso. Para além disso, a proliferação cada vez maior de restos arquitectónicos submersos no Atlântico e no Pacífico indica claramente que devem ter existido grupos civilizados, com uma cultura no mínimo similar à egípcia, embora algumas tradições nos falem de conhecimentos de navegação aérea e «grandes conhecimentos em magia e feitiçaria».

Actualmente vinculamos a magia a poderes «paranormais» e, de certo modo, meio contrários às leis naturais para operar sobre os objectos ou a habilidades de prestidigitação e ilusionismo, mas o certo é que, na antiguidade, a magia era a «magna ciência» e consistia no conhecimento e domínio das leis naturais.

Para os analistas do século passado, influenciados pelo evolucionismo, a magia era um estado primitivo de conhecimento, superado com o tempo pela verdadeira ciência. James G. Frazer define a magia como uma forma de pensamento pré-religiosa e pré-científica, cujos conceitos fundamentais, no entanto, são os mesmos que os da ciência:

• Visão da Natureza como uma série de acontecimentos que ocorrem numa ordem invariável e sem intervenção de agentes pessoais, ou seja: o curso dos acontecimentos que se produzem no universo não está determinado pelo capricho de seres pessoais.

• Tais acontecimentos são determinados por leis imutáveis, proporcionando a possibilidade da previsão e o cálculo do desenvolvimento de um fenómeno.

Portanto, tudo o que hoje conhecemos como Ciência, na Antiguidade era parte da Magia. Embora se tenha qualificado a Astrologia e a Alquimia como «mães loucas de filhas sensatas», dado serem as progenitoras da Astronomia e da Química, o certo é que estas duas ciências eram só uma parte dos conhecimentos das anteriores que, além disso, incluíam outros conhecimentos sobre o mundo não sensível ou espiritual.

Por acaso não é «magia» pressionar o botão de uma caixa de plástico e vidro – a televisão – e aparecerem imagens que estão a ocorrer a milhares de quilómetros de distância? Ou que, ao carregar numa tecla do computador fiquemos ligados a uma «rede» constituída de algo tão imaterial como a informação, na qual podem estar conectadas milhões de pessoas ao mesmo tempo? Certamente todos estes inventos estão baseados num conhecimento técnico e científico muito desenvolvido da energia electromagnética, mas para os que desconhecem todo esse desenvolvimento teórico, isto é pura magia, embora lhe chamemos «tecnologia».

Não pretendemos dizer que os atlantes tiveram conhecimentos sobre tudo isto, mas sim que é possível que pudessem saber mais do que aquilo que nós queremos imaginar.

Portanto, assumir que durante a Idade do Gelo existiu uma civilização, significa a reformulação dos paradigmas ou modelos mentais que guiam a investigação da origem do homem e da civilização porque, entre outras coisas, implicaria dar uma maior credibilidade histórica aos mitos, os quais nos falam de uma antiguidade do homem muito maior da reconhecida actualmente (como se deduz dos antigos textos indianos e tibetanos) e de outro tema ainda mais inquietante: a existência de gigantes humanos em tempos geológicos anteriores.

Embora hoje em dia, numa época em que o paradigma científico da evolução humana se impôs nas nossas crenças e estas ideias resultem tão estranhas, na Antiguidade formavam parte do modelo dominante. Estariam os antigos de todas as culturas, em todos os continentes tão equivocados? Poderá haver alguma verdade nestas versões primitivas da origem do homem? O que nos dizem a respeito disto as ciências humanas actuais?

As características do corpo humano – tanto na parte anatómica como na parte funcional – e as do seu comportamento básico individual e social, são mensuráveis e contrastáveis e, portanto, susceptíveis de estudo científico. As suas qualidades superiores, como a imaginação e a vontade, são-no bastante menos.

Como podemos investigar todos estes aspectos nos homens antigos e nos próprios antepassados dos homens? Como encontrar o ponto crítico no qual o homem começa a sê-lo?

Para estudar os homens, proto-homens e pré-homens do passado desenvolveram-se três fontes principais de informação científica:

a) Paleontologia humana ou Paleoantropologia. Estuda os fósseis mediante a anatomia comparada.

Considerou-se como características biológicas de hominização o facto de andar erguido, o grande volume craniano, rosto com cara aplanada e nariz proeminente, ausência de pêlos e presença de glândulas sudoríferas, e capacidade estrutural (laringe, epiglote, língua) para a fala.

Destes cinco aspectos só os três primeiros fossilizam, com o qual nunca saberemos se este ou aquele fóssil teve ou não pêlos no corpo.

Por outro lado, a capacidade de falar não implica o seu uso. Os fósseis tão-pouco especificam que a ausência de dita capacidade impedisse a possibilidade de outros tipos de comunicação, como por exemplo a linguagem dos surdo-mudos ou a telepatia.

b) Arqueologia. Estuda os restos deixados pela actividade dos nossos antepassados, dos quais podem deduzir-se algumas questões sobre o seu comportamento social, a sua inteligência formal e mesmo sobre a existência de rituais. As características de hominização com as quais trabalha são:

• Manipulação e fabrico de objectos, o qual requer a existência conjunta de mãos hábeis e cérebro complexo. Mede-se a evolução da técnica.

• Relação com o seu meio e relações sociais, como caça, recolecção, agrupamentos familiares e tribais, etc., que implicam um conhecimento dos costumes dos animais que se caçam, das qualidades dos frutos, raízes, folhas dos diversos vegetais, bem como uma complexidade das relações sociais.

• Relação com o invisível através de pinturas, símbolos, ordenamento ritual de objectos, tumbas, etc. Rastreia-se uma possível presença da religião, da filosofia e da arte.

c) Biologia molecular. Através do estudo comparado das proteínas de distintas espécies de animais, da sua composição genética e características imunológicas, tenta-se estabelecer a filogenia ou parentesco com outras espécies vivas, com a elaboração de árvores genealógicas e relógios moleculares, através dos quais se consiga estabelecer um tempo de separação e divergência das distintas linhagens, baseando-se em ritmos evolutivos teóricos.

Os biólogos moleculares baseiam-se nas variações em fragmentos de ADN homólogos entre espécies aparentadas, calculando o número de nucleótidos diferentes. Idealizaram-se métodos que buscam o número mínimo de acontecimentos entre as duas sequências, estabelecendo-se relações ordenadas de parentesco e frequências de mutação.

O relógio molecular surge quando se substituem as frequências de mutação (corrigidas) pela duração com que se acumularam, com o qual se consegue obter a datação dos momentos em que as espécies divergiram.

No entanto, estes relógios moleculares adiantam-se ou atrasam-se, segundo o tipo de genes e segundo as espécies (as mutações nos primatas produzem-se mais lentamente do que nos roedores), para além do facto de cada investigador calibrar de maneira diferente a transformação das frequências de mutação em tempo, ou ritmo, de evolução.

Estas três ciências complementam-se com estudos de tipo geofísico – datações isotópicas e espectometrias –, paleoecológico e paleogeográfico – o meio ambiente no qual viviam – e paleopatológico – que indicam as doenças mais comuns reflectidas nos ossos, deformações ósseas provocadas por certos comportamentos, como moer o grão, assim como a presença de laços sociais que conduzem ao cuidado dos doentes e certos conhecimentos de medicina.

Todas estas ciências trazem uma grande quantidade de dados que deveriam ser contrastáveis, mas o entendimento entre elas encontra uma diversidade de dificuldades devido aos distintos paradigmas e linguagens de cada uma das ciências implicadas, e da escassez e precariedade do registo fóssil.

A fossilização é um fenómeno relativamente raro. Para que os restos de um cadáver (que algum dia esteve vivo, mas que na morte perde já muita informação) fossilizem devem ser enterrados antes que se decomponham. Os ossos dos vertebrados e das carapaças dos invertebrados estão mineralizados e tardam mais em se descompor; se são enterrados com rapidez suficiente, os sedimentos que os envolvem poderão formar um molde antes que finalmente se dissolvam. Fluidos procedentes da litificação do sedimento podem, posteriormente, voltar a cristalizar o dito molde, originando o fóssil. E depois há que esperar que os processos geológicos os exponham à erosão para que o paleontólogo possa encontrá-los.

Nos meios marinhos a fossilização destas partes duras é bastante comum, enquanto que nos meios continentais os restos de um cadáver têm muitas mais possibilidades de se dispersarem, romperem e sofrerem erosões do que acabarem enterrados num meandro de um rio ou nas margens de um lago. Por outro lado, as carapaças dos invertebrados, de uma só peça, conservam uma imagem mais próxima do indivíduo, enquanto os esqueletos dos vertebrados raramente se conservam reunidos, pois há grandes diferenças na capacidade de fossilização entres as diferentes peças (um dente, pequeno e endurecido com o esmalte, conservar-se-á muito melhor do que uma caixa craniana, a qual presta-se a ser quebrada em muitos pedaços).

O problema, portanto, do estudo dos fósseis dos vertebrados terrestres é uma das grandes dificuldades que também afectam o estudo dos fósseis humanos.

Falar de milhares de restos fósseis parece que deveria ser suficiente para obter um conjunto coerente. Mas resulta que estes restos procedem de uma enormidade de lugares diferentes, de estratos que na maioria dos casos não se podem datar cronologicamente de forma absoluta e, às vezes, nem sequer relativa; na maioria dos casos são restos parciais de indivíduos separados no tempo e no espaço, muitas vezes restos ósseos de partes não significativas do esqueleto (como os dentes, que são os que melhor fossilizam).

A cada um destes restos teve que se dar um nome quando ainda não havia relações aparentes entre uns e outros. Conforme foram aparecendo restos mais completos estas relações puderam fazer-se em alguns casos, embora os nomes específicos não tenham desaparecido totalmente, provocando uma certa confusão terminológica. O que temos, pois, é um panorama bastante confuso.

Não podemos deixar de lado uma ideia terrível: não temos registos fósseis de todas as espécies que existiram em tempos passados no nosso planeta. Certamente, cada dia vão aparecendo espécies novas nos distintos lugares do mundo, mas embora nos seja incómodo, temos que admitir que talvez não tenhamos encontrado até hoje nenhum resto que seja autenticamente a ascendência «pré-humana» da espécie humana. No nosso empenho em encontrar o elo perdido estamos a interpretar o mais parecido que encontrámos.

O modelo intelectual básico sobre a origem do homem, de todos conhecido, é que a nossa espécie deriva de alguma espécie de primata que seria o antecessor comum dos macacos antropóides e dos humanos. O curioso é comprovar como nas mitologias de vários povos a associação entre macacos e homens se faz ao contrário: são os macacos que procederiam da linha humana, num tempo muito antigo (Helena Blavatsky estabelece uma data próxima aos 18 milhões de anos), regressando a um estado animal que os homens tinham abandonado há muitas eras.

O seu signo era 4-Vento, cimentou-se logo o quarto Sol. Dizia-se Sol de Vento. Durante ele tudo foi levado pelo vento. Todos se tornaram macacos. Pelos montes se espalharam, lá foram viver os homens –macacos (1)…
…E assim foram destruídos todos estes homens ficando só os sinais deles, os micos, que andam agora pelos montes.
Por isso é que Coy, o Mico, se parece ao homem (2)…

O actual debate científico sobre a linhagem humana encontra-se centrado naquilo que poderíamos chamar «os três elos perdidos»:

a. Primeiro elo perdido: o antecessor comum dos macacos antropóides ou Hominoídeos e dos Hominídeos, ou ramo que conduzirá ao homem, entre a qual se encontram os Australopitecos.
b. Segundo elo perdido: dentro da sub-família dos Hominídeos, a origem do género Homo.
c. Terceiro elo perdido: dentro do género Homo, a origem da espécie actual, o Homo sapiens ou homem moderno e as suas relações de parentesco com o Neanderthal.

Estes três elos perdidos mostram as dificuldades que há hão em estabelecer os limites entre espécies, géneros e sub-famílias. E é interessante comprovar como, ao longo dos anos e das descobertas, a idade de cada um destes elos se vai levando cada vez mais atrás no tempo.

“Os rastos mais antigos de hominização até há uns anos atrás eram as pegadas fósseis de três hominídeos que atravessaram a caminhar erguidos, umas cinzas vulcânicas…”

Em relação com o primeiro elo, que nos associa directamente com os macacos actuais, o que os paleoantropólogos encontraram foi o Ramapithecus, fóssil que consiste em alguns dentes e mandíbulas cujo grosso esmalte tem um carácter comum com os humanos, mas não com os gorilas, chimpanzés ou orangotangos, e que é considerado (apesar da grossura do esmalte) como o antecessor comum dos macacos antropóides africanos (gorilas e chimpanzés) e os hominídeos. Curiosamente, os ramapithecus apareceram entre 18 e 16 milhões de anos atrás.

Os biólogos moleculares, por seu lado, estabelecendo um ritmo teórico nos seus «relógios moleculares», dão uma data muito mais próxima à divergência entre os chimpanzés e os humanos: 4 milhões de anos.

Tentando reunir a informação dos escassos restos fósseis com as duvidosas datas dos relógios moleculares, reajustando estes e relativizando aqueles, David Pilbeam, paleoantropólogo que trabalha junto a Ibrahim Shah, da Geological Society do Paquistão na jazida de ramapithecus dos Montes Siwalik (Paquistão), afirma:
«Uma estimativa aceitável fixaria hoje a radiação de todos os grandes antropóides a partir de um lote ancestral no Mioceno Médio, com a separação dos hominídeos a partir de uma linha de antropóides africanos do Mioceno Superior, há 7 ou 8 milhões de anos (3).»

Os rastos mais antigos de hominização até há uns anos atrás eram as pegadas fósseis de três hominídeos que atravessaram a caminhar erguidos, umas cinzas vulcânicas quase recém-emitidas em Laetoli pelos vulcões do Lago Eyasi (Tanzânia, ao sul do Lago Vitória), há uns 3,75 milhões de anos e o esqueleto quase completo de Lucy, uma fêmea de Australopithecus gracilis cuja anca demonstra o seu andar erguido, datada em 3 milhões de anos. Mas estas datas foram atrasadas até 5,8 e 4 milhões de anos pelos restos de Ardipithecus ramidus, achados no Awash Médio, Etiópia, em 1994.

Quanto ao segundo elo perdido, a origem do género Homo, considera-se como percursor o Homo habilis, que se supunha procedente e posterior ao Australopithecus, entre 2 e 1,6 milhões de anos. No entanto, depois do estudo dos 35 indivíduos das jazidas de El Hadar, R. Leakey situa a origem do Homo habilis, separado do Australopithecus e convivendo com ele, há mais de 3,5 milhões de anos. O seu volume craniano tinha aumentado quase até aos 800 cc. Admite-se, em geral, que o Homo habilis é o percursor do Homo erectus.
Os fósseis de Homo erectus, com datações cifradas entre 1,8 milhões de anos e 100 000 anos (embora pudesse ter sobrevivido na Ásia até datas tão recentes como 27 000 ou 53 000 anos), são os primeiros que se admitem sem discussão como antepassados directos do homem actual.

O esqueleto do Homo erectus é essencialmente moderno, embora de constituição mais baixa e robusta. Mas a cabeça e a cara consideram-se primitivas pela sua frente fugidia, proeminentes arcos supraciliares, ausência de queixo e capacidade cerebral reduzida, embora se registe um aumento progressivo ao longo da sua evolução desde 900 a 1100 cc. Considera-se a este como o antecessor comum do Homo Sapiens moderno e do Homo sapiens neandertalensis.

Quanto à origem do Homo sapiens (chamado Homo sapiens arcaico, no qual se incluem diversas sub-espécies de África, Ásia e Europa), os fósseis mais antigos achados até ao momento remontam já até aos 270 000 ou 300 000 anos, segundo a datação por espectometria de raios gama de um crânio e um fémur encontrados no Quénia, perto do Lago Turkana, onde as equipas de R. Leakey desenterraram os restos dos hominídeos mais primitivos, como o Homo habilis.

Quanto ao homem moderno, cujas características são uma capacidade craniana média entre 1350 e 1400 cc, frente vertical e queixo marcado, assim como uma estatura superior, a cifra de 40 000 anos foi amplamente superada pelo Homo sapiens idaltu, definido a partir dos restos de três indivíduos, dois adultos e uma criança, enterrados ritualmente e achados em 1997 no curso médio do rio Awash, junto ao povo de Herto – Etiópia –, datados em 160 000 anos. Por certo, que o melhor conservado destes esqueletos é constituído pelo crânio de um adulto de cerca de 30 anos, cuja capacidade craniana, com 1450 cc, supera a média actual.

Que curioso! Ao que parece a humanidade actual é inferior no que se refere à capacidade craniana não só ao Neanderthal, com o qual conviveu na Europa e ao que se supõe o fez deslocar, cuja capacidade era de uns 1500 cc, mas também aos Cro-magnons mais antigos, de há 160 000 de anos.

O facto destes crânios exibirem bochechas muito proeminentes, cara robusta, mas com um osso frontal mais vertical e que a parte mais larga do rosto se encontre sobre as orelhas e não por baixo, permite-nos chegar à conclusão de que se trata, já nessa altura, de Homo sapiens modernos. Os crânios de Herto, portanto, não são de homens de Neanderthal (que se extinguiram na Europa há 30 000 anos) nem de Homo erectus. A sua anatomia e antiguidade oferecem uma evidência que apóia a teoria da emergência do ser humano moderno em África (4).

Curiosamente estes últimos restos encaixam na perfeição com a teoria da «Eva mitocondrial» dos biólogos moleculares que, analisando as mutações produzidas e acumuladas ao longo do tempo no ADN mitocondrial (5) nos distintos grupos humanos actuais, tinham determinado que o homem moderno tinha surgido em África há uns 200 000 anos. A pergunta é: ter-se-iam datado nesta época os fósseis se a genética não tivesse falado antes desta antiguidade?

Há que considerar um aspecto fundamental na hora das classificações taxonómicas a partir de umas mandíbulas ou um par de abóbadas cranianas. Apesar da grande semelhança genética de toda a espécie humana actual, o certo é que há uma grande variabilidade precisamente nesses caracteres que mais se valorizam na paleontologia humana: volume craniano, dentição, proporções entre as extremidades, estatura, etc. Em relação ao cérebro, que seria o carácter mais definitivo, embora o volume craniano médio actual seja de uns 1350 cc, apresentam-se flutuações entre máximos de até 2000 cc e mínimos que vão até aos 900 cc (o mínimo do Homo erectus), sem que isso pareça afectar minimamente a inteligência dos indivíduos.
Mas o crânio de Herto demonstra que muito antes do que acreditávamos havia homens com a mesma capacidade cognitiva que nós.

É certo que a civilização traz uma vantagem enorme aos homens: a capacidade de acumular e incrementar os conhecimentos mediante a transmissão cultural. É precisamente com a invenção da escrita, datada geralmente cerca de 3 000 (NT) a.C., com o seu grande potencial para a função transmissora da cultura, que se considera como o início da História e a ferramenta fundamental para o desenvolvimento técnico-científico que conseguimos alcançar, a ferramenta fundamental de toda a civilização. Claro que não é a única ferramenta de transmissão das ideias: não esqueçamos a Arte.

Nos nossos dias contamos com potentes meios informáticos que nos permitem guardar a informação equivalente a uma biblioteca num pequeno disco metálico. Todavia convivem a literatura em papel e a virtual, mas a revolução da informática poderia terminar com a tradição de tantos milénios e acabar sem ninguém que tenha a capacidade para ler os nossos CD-Roms. Pode ter sucedido algo similar a uma remota civilização como a Atlântida em relação aos seus próprios meios técnicos?

Todos estes achados vão-se encadeando no modelo prévio de evolução, modificando-se minimamente, para continuarem a dar uma ideia de conjunto harmónica e de consenso. Mas às vezes aparecem coisas incompreensíveis, como a descoberta de umas lanças de abeto associadas a ossos de cavalo numa mina de carvão a céu aberto em Schningen, a 100 km de Hannover, datadas em 400 000 anos pelo arqueólogo Hartmut Thieme, do Institut Für Denkmalpfledge (Alemanha). Segundo o modelo vigente, tal obra deve corresponder ao Homo erectus – é muito cedo ainda para o Homo sapiens –, embora não tenham aparecido fósseis humanos associados. O seu desenho é de uma eficácia surpreendente. Isto significa que mesmo os erectus utilizavam outros materiais diferentes das pedras, embora, logicamente, só estas resultam indestrutíveis ao longo dos milénios.

As jazidas de Atapuerca (Burgos, Espanha), cujos restos mais antigos (ferramentas) foram datados entre 1,25 e 1,5 milhões de anos, constituem o melhor registo paleontológico da evolução dos pré-neanderthais e neanderthais, cujo primeiro elo parece ser o Homo antecessor, datado em 800 000 anos.

As conclusões que os investigadores do Dr. Arsuaga extraem do estudo dos inumeráveis ossos surpreendem com detalhes como a grande estatura dos neanderthais ibéricos frente aos achados na Europa (provavelmente consequência de uma melhor alimentação e a exposição a um clima mais benigno) ou, como evidenciam os hábitos de higiene (tinham utensílios úteis para limparem os dentes) que não estaríamos à espera desta primitiva humanidade, de constituição tão poderosa e aspecto brutal.
Todas estas notícias não são conclusivas nem demonstram que os atlantes existiram. Mas, podemos concluir que:

a. O modelo de evolução humana está construído sobre uma base muito pequena de dados físicos e vai-se modificando rapidamente conforme vão aparecendo novas evidências, mas depois de inflamados debates para evitar que o paradigma básico se modifique.

b. Pelo menos durante a última glaciação (que começou há uns 100 000 anos), conviveram duas espécies ou subespécies distintas (pode ser que até três, se for confirmada a existência, na época, do Homo erectus na Ásia), todas elas com grande capacidade cerebral, às quais até agora só foram associadas (algumas vezes) a diversas tecnologias líticas e hábitos económicos relacionados com a caça e a recolecção.

Mas a notícia mais espectacular em torno à realidade ou não do mito do Dilúvio e a quase destruição da humanidade foi publicada nos jornais em Junho de 2003 (6) e surge também da biologia molecular: segundo estudos realizados pela Universidade de Stanford e pela Academia de Ciências da Rússia sobre amostras genéticas de 53 regiões do mundo, a Humanidade pode ter estado em perigo de extinção em algum momento durante os últimos 100 000 anos, durante o qual a população humana viu-se reduzida, quiçá, a não mais do que uns 2 000 habitantes.

Esta hipótese deriva das poucas diferenças genéticas detectadas (ao contrário do que ocorre entre os primatas) em certos fragmentos de ADN chamados «microsatélites», que apresentam um alto número de mutações ou erros entre os humanos dos cinco continentes. Esta mínima diversidade faz os investigadores pensar que alguma mudança ambiental ou epidemia, que segundo os seus cálculos poderia ter ocorrido há uns 70 000 anos, deve ter dizimado a população humana (que nesse momento situam em África). Os sobreviventes desta catástrofe começariam, então, a sua migração, sempre a partir de África, até ao resto do mundo.

O tema das distintas humanidades que se vão sucedendo no tempo depois de tremendas catástrofes é muito recorrente nos mitos universais da origem do homem, como vimos no capítulo dedicado à mitologia. Isto poderia relacionar-se com os distintos tipos de homens encontrados no registo fóssil. Outra ideia, no entanto, repete-se também insistentemente, de mais difícil interpretação: a existência de gigantes entre os nossos antepassados.

Nos mitos do Dilúvio fala-se frequentemente de gigantes que posteriormente diminuíram de tamanho, «quando se misturaram com as filhas dos homens», como se conta no Génesis e noutros textos. No estudo que Blavatsky leva a cabo em A Doutrina Secreta explica que os homens da 3.ª raça ou humanidade eram gigantescos. Deles evoluíram os da 4.ª raça, a atlante, que ainda tinha uma estatura enorme, embora:
Estritamente falando, só desde o tempos das raças atlantes gigantescas de cor amarela e escura é que podemos nos referir ao homem, visto que somente a quarta raça foi a primeira espécie humana completa, por mais que tivesse um tamanho muito maior do que o nosso atualmente (7)…

Os atlantes, originalmente de grande tamanho, teriam começado a diminuir de estatura progressivamente, até que, no último afundamento, o que Platão narra e nós comentámos, seriam mais parecidos connosco.

O caso é que os fósseis do homem de Cro-magnon têm uma estatura média alta, em torno ao metro e oitenta, estatura superada pelos povos como os misteriosos guanches, habitantes primitivos das ilhas Canárias. Os habitantes de Fuerteventura apresentavam uma estatura média de 1,82 m. Tudo isto resulta contraditório em relação ao que ocorre com o resto dos mamíferos no Quaternário, que mostram uma tendência evolutiva para a diminuição de tamanho. Mais, é uma das características de adaptação mais significativas na evolução que nas ilhas se produza uma tendência para o nanismo. No entanto, na espécie humana, se aceitamos a filogenia que emana dos restos fósseis, produz-se o contrário.

A propósito dos guanches, estes constituem um dos grupos humanos mais misteriosos e enigmáticos. Segundo os arqueólogos, a sua origem encontra-se tanto nos Cro-magnons norte-africanos (estariam aparentados com os povos do Atlas africano, os berberes) como nos mediterrânicos, que teriam chegado às ilhas em diferentes vagas (datadas em 2 500 a.C., na teoria de maior antiguidade até a 100 a.C., segundo hipóteses de um povoamento mais modernos).

Outros investigadores, no entanto, relacionam este povo com os egípcios, baseando-se no estilo de mumificação dos seus mortos (costume partilhado não só com os egípcios mas também com os povos andinos da América do Sul).

E não falta quem os relacione com os povos escandinavos (os vikings) devido à sua alta estatura e cor azul dos seus olhos. Parece inconcebível pensar no povoamento das ilhas mediante o naufrágio de barcos mercantes, piratas ou exploradores (é só parte das novelas o facto de se considerar «mau agouro» levar mulheres a bordo?), mas também o é pensar em barcos carregados de berberes para colonizar as ilhas, embora as conhecessem há bastante tempo, relacionando-se, precisamente, com as viagens de Hércules e do gigante Atlas.

“Existe no nosso ADN o rasto de gigantismo.”

Os habitantes das diversas ilhas tinham a sua origem comum e desconheciam a navegação, o qual resulta chocante num povo rodeado de mar, que não pôde chegar até ali senão mediante algum tipo de barco. A sua língua, que parece ter uma origem comum com a dos berberes, chegou a diferenciar-se tanto entre as diversas ilhas que tinham deixado de se entender. Viviam de costas para o mar, de frente para as montanhas. Realmente, se há um povo que se possa relacionar com os atlantes é o dos guanches, pela sua estatura, pelo lugar que habitam e pelos seus costumes.

Quem foram os «gigantes»? Por acaso, algumas raças de estatura média maior foram consideradas como tais pelos seus contemporâneos mais baixinhos (recordemos que se fala de gigantes tanto na Europa como na Ásia Menor e América pré – colombiana)? Ou realmente existiu uma humanidade mais antiga do que aquela que podemos imaginar, com uma estatura monstruosa em comparação com a actual, que não chegou a deixar rasto fóssil?

Existe no nosso ADN o rasto de gigantismo. Também hoje em dia existem gigantes: encontramos a maioria deles nos campos de basquetebol. Não seria interessante investigar o rasto histórico e temporal destes genes?
Ana Díaz Sierra

Miguel Artola Molleman


Notas:

(1). «Os Sóis ou idades que existiram», poema nahuatl recolhido em Cantos y Crónicas del México Antiguo, edição de Miguel León-Portilla, Historia 16, 1986.

(2). Popol Wuj, antigas histórias dos índios quichés da Guatemala, XXV, C.T., Editorial Porrua (México), 1984.

(3). David Pilbeam, Origen de los Hominoideos e Hominidos, artigo de Maio de 1984 recolhido em «Paleontologia humana», de Libros de Investigación y Ciencia, 1988.

(4). Tim White, paleoantropologista da Universidade da Califórnia em Berkeley que dirigiu as escavações e o estudo dos restos.

(5). As mitocôndrias são uns organelos das células encarregados da respiração celular, que têm o seu próprio ADN, independente do nuclear e que passa só de mães para filhos, visto que os espermatozóides não trazem mitocôndrias na fecundação.
NT. Esta data foi atrasada mais de 4 000 anos, como é exposto no artigo final desta mesma obra: «Na demanda da escrita atlante».

(6). Notícia publicada no ABC, 11/6/2003, por Pedro Rodríguez.

(7). A Doutrina Secreta. Tomo III, Antropogénese. Comentário de pé de página n.º 4 à estância X-39.