Arte negra, arte tribal, arte primitiva, arte primeira: muitos nomes foram dados à arte do continente africano mas sem nunca a conseguir definir.

Captar a verdadeira essência da Arte Africana requer uma total desconexão com os cânones artísticos, culturais e religiosos do Ocidente. Sem essa tomada de consciência, torna-se impossível entrar na verdadeira raiz desta arte «primeira» e conquistar a beleza que encerra dentro de si. Repleta de um profundo simbolismo, a Arte Africana não se deixa desvelar aos olhos do profano estando destinada à compreensão daqueles que encontram a sua chave de interpretação. Fora dos conceitos artísticos Ocidentais, a Arte Negra sugere a quem a observa uma certa desarmonia interior devido às suas feições disformes e grotescas acentuadas pelos materiais utilizados. A madeira preta, as ráfias, as penas ou as cores garridas em estampados folclóricos unem-se à elaboração de artefactos compostos por temas zoomórficos e antropomórficos que desconfortam o observador mais sensível. A posição agressiva dos dentes semi-cerrados, a constante presença dos elementos fálicos ou a chocante observação de uma estátua humana cravada de pregos, em cujo rosto se sente a agonia de tal acção, não deixam transparecer nesta arte um possível propósito. Mas partir do princípio que a Arte Africana está ausente de qualquer fim é seguir a direcção oposta ao seu entendimento. A Arte Negra não é a criação da arte por si mesma, nem um conjunto de artefactos mal concebidos devido à rudeza e ignorância tribal. A verdade guardada nesta magnífica arte está presente no seu tesouro simbólico que nasce de um princípio base: a utilização da arte como forma de conexão metafísica e Divina. A ligação com o Cosmos, os Deuses, os espíritos ancestrais, os mistérios do Homem e da Natureza, a evocação à Grande Mãe e ao Uno, são a verdadeira essência da Arte Africana. A oposição entre o espírito e a matéria, o conceito de dualidade como algo a superar, a fim de alcançar a unidade primordial, está sempre presente na força que emana dos ritos que materializam o Sagrado. O ressoar dos tambores, as danças que desenham na terra as formas do Cosmos, a luta entre o bem e o mal narrada nos confrontos teatrais, a imposição das flechas e outras armas de combate a fim de enfrentar a divindade inimiga e o som de campainhas, gritos e evocações humanas, causam uma sensação de terror mas ao mesmo tempo de verdadeira conexão com algo superior.

Toda a arte africana está imbuída desta tónica ritual, religiosa e espiritual que marca todos os momentos do seu quotidiano. Benéficos ou maléficos, os espíritos divinos acompanham o Homem na sua jornada terrena influenciando todos os seus actos e comportamentos. Os espíritos interferem, directa ou indirectamente, no plano material devendo o Homem demonstrar por meio de ritos, oferendas, preces e sacrifícios a sua devoção e respeito. Estas divindades intervenientes surgem como espíritos intermédios, que vivem entre o Deus Supremo e o Homem. Estes intermediários entre o Céu e a Terra são conhecidos como os Deuses no mundo Greco-Romanos ou como Devas entre os Hindus.

Nesta conexão com as Divindades intermédias, o Homem prepara os rituais terrenos a fim de receber os Deuses evocados. Tudo deve ser feito com o máximo rigor para que o espírito possa descer e emanar a sua força a todos os presentes. No entanto, existe um elemento de suma importância sem o qual a divindade proclamada não poderá comparecer. Apesar de vários elementos como a música, as danças, cores, armas e acessórios de evocação, é a Máscara o verdadeiro elemento de conexão com o Divino.

A Máscara

Esta Máscara de utilização misteriosa está consagrada a cerimónias secretas. O seu uso está reservado aos altos iniciados.

Dentro do vasto continente Africano a Arte Negra toma várias posições que variam com o seu aspecto geográfico, étnico e religioso. Apesar das diferenças interpretativas existe algo em comum neste magnífico continente, todos os elementos artísticos não identificados com um sentido espiritual são apenas objectos mortos que não permitem a comunicação com as emanações. Dentro deste pensamento, toda a Máscara ausente de uma profunda inspiração mística deixa de carregar consigo a energia que lhe permite entrar em contacto com o Sagrado. A sua importância passa pela capacidade de materializar o espírito ou a criatura sobrenatural evocada. Todos os ornamentos, tecidos, materiais, formas faciais ou cores que figuram neste objecto ajudam a estabelecer a ponte entre o sagrado e o profano. A simbólica presente nas máscaras permite a passagem para um outro mundo sobrenatural. Trata-se de um receptáculo espiritual onde o seu portador é especialmente eleito. Ao som da música evocada pelos tambores, pelas vozes humanas, pelos bateres de instrumentos cujos sons fazem vibrar a alma, entra o portador da Máscara movimentando-se de acordo com os ritmos frenéticos num balancear do corpo aparentemente disforme e sem sentido.

Nesse momento inicia-se o contacto com o espírito evocado a fim de encarnar no corpo do portador da Máscara. Mas para aceder ao entendimento de todos estes rituais, é importante entrar no mundo dos iniciados, membros detentores de todo o conhecimento exotérico formado pelas Sociedades Secretas ou Confrarias Iniciáticas. Todos os procedimentos inerentes aos rituais e à fabricação das máscaras está a cargo destas Sociedades que desempenham um importante papel espiritual, político e jurídico. A concepção da máscara passa por estas Confrarias que entregam o desenho ao artesão devendo este executar a obra tal como lhe foi indicada sem colocar qualquer tipo de alteração. Todo o conhecimento simbólico está entregue às Sociedades Secretas pois estas encerram em si a profunda Sabedoria do Homem, do Cosmos e da Natureza. A activação energética e espiritual das Máscaras realiza-se durante a sua construção e na sua primeira aparição. Este processo está entregue às já referidas Sociedades que, por exemplo no Zaire, utilizam a Máscara Kifwebe como activadora de outras Máscaras.

Estátuas, ornamentos, máscaras e objectos cerimoniais são concebidos pelos membros superiores da Sociedades Secretas, cuja presença marca três principais momentos: Ritos de Fertilidade, Iniciação na Vida Adulta, e Ritos Funerários.

Ao som da música o espírito encarna pela colocação da Máscara.

In Afrique Noire

“Os Ritos de Iniciação são cerimónias bastante complexas pois o seu verdadeiro entendimento está encerrado nas Sociedades Secretas. O Rito de Iniciação mais conhecido estabelece a ponte entre a criança e o adolescente.”

Ritos de Fertilidade

Esta Máscara representa a Deusa da Fertilidade, Nimba. O portador encaixa-a no seu rosto fazendo sobressair o peito.

Nestes Ritos, a Grande Mãe surge como o símbolo da Fertilidade por excelência, aquela que gera a vida e fornece o alimento necessário à criação. Nestas cerimónias, a evocação dos espíritos está sempre associada à mulher e toda a sua simbólica de dação e procriação. O peito surge como o elemento principal retractado nas máscaras de evocação dos espíritos onde a Grande Mãe provê ao homem o alimento necessário ao bom desenvolvimento dos cultivos. É a Deusa da Fertilidade, a Deusa da Natureza, a Mãe que alimenta o seu filho no peito, ou seja, a Humanidade, tratando de aprovisionar o seu anseio material e espiritual. A protecção divina, a acção das forças benéficas da Natureza, a fim de trazer chuva e sol para o bom crescimento dos cultivos, e a realização de oferendas pelas boas colheitas estão sempre presentes nestas cerimónias. O papel da mulher africana está intimamente ligado a este conceito da fertilidade, procriação e dação. A mulher, no seu papel maternal, dá vida à simbólica retractada pela Deusa Mãe, como sendo aquela que perpétua as futuras gerações e alimenta os seus filhos a fim destes darem seguimento à vida. A fertilidade é um dos temas mais importantes para o funcionamento da sociedade africana. Sem essa capacidade a mulher é alvo de rejeições e abandono social. Por isso, muito cedo as jovens são iniciadas nas artes maternas a fim de perpetuarem a simbólica da Grande Mãe. Em algumas regiões, os peitos são orgulhosamente apresentados e adornados consoante o número de filhos, sendo a maior progenitora a mais respeitada e considerada. Nos Ritos de Fertilidade todo o ambiente protector e gerador está representado nas máscaras a fim de concederem Vida às sementes lançadas à terra.
Ritos de Iniciação

Os Ritos de Iniciação são cerimónias bastante complexas pois o seu verdadeiro entendimento está encerrado nas Sociedades Secretas. O Rito de Iniciação mais conhecido estabelece a ponte entre a criança e o adolescente, marcada pela circuncisão. Nesta cerimónia de passagem, as Máscaras vão mudando consoante o momento em questão. Para a circuncisão, a Máscara está repleta de simbologia cósmica surgindo, no caso da Guiné, um acessório de dança em forma de piton representando o elemento fálico e, numa perspectiva mais exotérica, de ascensão em direcção ao Divino. Este objecto marca o interessante duelo entre o Este e o Oeste, o marido e a esposa e as duas partes da aldeia, ou seja a luta e superação dos opostos.

A maior parte das máscaras utilizadas nos Ritos de Iniciação pertencem às confrarias africanas secretas. Elas são utilizadas em cerimónias tanto externas como internas, nestas últimas longe dos olhares profanos e somente para aqueles que pretendem continuar a Iniciação a fim de aceder às escolas superiores. Também existem máscaras reservadas a iniciações especiais e secretas, como o caso da máscara Kifwebe.

Na Costa do Marfim, existe a sociedade de iniciação do Poro que realiza iniciações
com intervalos de sete anos começando pela criança e terminando em etapas de acesso a graus superiores. A principal iniciação marca a transição do adolescente para a fase adulta denominada Kwonro, onde o adolescente tem de passar por uma série de rituais como símbolo da morte e posterior renascimento. Nesta passagem o jovem tem de estar ao serviço da comunidade realizando duras tarefas físicas nomeadamente na agricultura.

No Mali, a Sociedade de Iniciação do Djo constitui diversos graus.

No caso da passagem para a vida adulta, a Máscara representativa não possui boca indicando o silêncio a que o iniciado deve estar sujeito. Esta é primeira iniciação de seis, onde o aspirante aprende questões de carácter social e familiar, afazeres da sua linhagem, a natureza profunda do Homem e a oposição entre o espírito e a matéria. Na última iniciação o aspirante tem de dominar em pleno o conhecimento da união espiritual com Deus.

Existem iniciações masculinas e femininas e ambas têm como principal intuito esotérico o conhecimento dos seus direitos e deveres na sociedade. Dentro desta separação, cada rito de iniciação está representado por um conjunto de máscaras que materializam a força feminina ou masculina. No caso das jovens, as máscaras transmitem harmonia, serenidade e beleza, todo o rito está revestido da calma e equilíbrio próprio da mulher. Para os rapazes as mascaras são mais aguerridas e os sons mais fortes e dinâmicos. No Burkina Faso, muitas cerimónias contam com a presença de uma máscara em forma de crocodilo manchado indicando a separação entre o conhecimento e a ignorância.

Ritos Funerários

Os Ritos Funerários são cerimónias de passagem reflectidas no conceito de morte: a perpetuação da alma e a necessidade de encaminhá-la em direcção à sua nova existência A Máscara serve para proteger o seu portador do defunto errante e ajudá-lo a aceder ao reino dos seus ancestrais. Para isso toda a cerimónia procede de um início marcado pela chegada do morto, anunciada com tambores e um conjunto de oferendas, danças e músicas que incitam a alma a efectuar o tão desejado reencontro. No Mali, o antílope dá corpo a esta cerimónia, pois representa a força e a coragem necessárias à consumação da viagem da alma. No Gabão, a estátua Byeri, simboliza o guardião da passagem e está formado por um corpo cujos traços lembram quatro fases da vida: a infância, o adulto, a velhice e a morte.

Esta estátua carrega nas suas mãos um pote de oferendas e demonstra no seu corpo a intemporalidade e a ciclicidade remetendo para o conceito de reencarnação. No Ritual Funerário, o culto do Byeri passa pela conservação dos crânios dos ancestrais que são regularmente regados com sangue dos sacrifícios e em momentos importantes, nomeadamente nas iniciações masculinas, apresentados ao povo da aldeia.

O Carácter Sagrado e Zoomórfico da Máscara

Todos estes rituais marcam o aspecto místico e sagrado da Máscara e a necessidade de estar entregue às Sociedades Secretas. Dentro desta perspectiva, torna-se impossível revelar ao profano os detalhes da sua fabricação que está a cargo dos altos iniciados. Repletas de uma forte componente simbólica, as máscaras ganham ritmo ao abraçarem as potencialidades dos animais e estabelecerem um contacto Divino. O homem e o animal estabelecem uma protecção mútua, sendo o último um meio pelo qual o Homem manifesta a sua espiritualidade. Na Guiné, a imagem de um pelicano transportando no seu dorso os animais primordiais da criação, aqueles que pela primeira vez ensinaram ao Homem as regras de viver na terra, demonstra esta magnífica relação. Os membros das Sociedades Secretas estabelecem uma aliança com os animais e as forças que estes evocam. A virilidade do búfalo, a autoridade do elefante, a beleza da hiena ou a força do antílope são alguns exemplos utilizados nas máscaras. As cores, unidas às forças zoomórficas, aproximam esta união com o Divino, onde o branco está ligado à morte, o vermelho à vida e o negro às forças maléficas. Também existem máscaras fabricadas no atelier real com o intuito de evocar o espírito de riqueza, autoridade, poder e justiça. Também aparecem máscaras teatrais que colocam em ridículo algumas pessoas da aldeia, como as mulheres negligentes que não cumprem com o seu trabalho. No plano recreativo recitam-se provérbios conhecidos, cantam-se músicas e revivem-se os antigos contos, a fim de divertir o público. A ligação e separação entre o divino e o profano é ditada pela máscara, mas em ambos os casos existe um casamento místico com o seu portador. Nos rituais todas as máscaras são sagradas e carregadas de componentes mágicos que podem tornar-se muito perigosos para os não iniciados pois elas materializam as forças sobrenaturais e da Natureza. Assim, em algumas regiões elas são queimadas ou guardadas num lugar específico a fim de se deteriorarem com o tempo ou mesmo mantidas pelas Sociedades Secretas de forma a subsistirem de geração em geração. A máscara possui uma carga mágica muito forte para quem a utiliza e para quem a vê. Ela estabelece um contacto imediato com o Sagrado, motivo pelo qual a sua essência mística e cerimonial está a cargo das Confrarias Secretas, aquelas que detêm o Verdadeiro Conhecimento.

Isabel Areias
Investigadora