1 – Introdução:

O objectivo deste trabalho é ilustrar algumas questões que, durante séculos de materialismo, permaneceram um tabu para a ciência, relegadas, de forma pejorativa, para o campo das teologias, como conceitos supersticiosos e sem fundamentação, e que começam a ser vistos com outros olhos por alguns sectores da actual pesquisa científica.

Questões como a existência de Deus, a vida depois da morte e a reencarnação, esta última, o foco principal deste trabalho, são hoje discutidas por especialistas das mais diferentes áreas, como a medicina, biologia, física e psicologia. Nomes como Rupert Sheldrake e Deepak Chopra, por exemplo, colocaram-se no centro das atenções do mundo da ciência, com as suas posições nada ortodoxas nas áreas da biologia e da medicina. Embora, em muitos casos, mesmo tentando no escuro, alguns cientistas já ousam desafiar rígidos paradigmas do pensamento científico tradicional dos nossos tempos.

Para nos atermos à simplicidade da proposta deste trabalho, que se restringe a uma aproximação a alguns aspectos dessa inquietude e busca de novos caminhos no meio científico, sobretudo no que se refere à questão da reencarnação, centremo-nos no trabalho de dois investigadores: o físico indiano Amit Goswami e o médico norte-americano Dr. Ian Stevenson, dos quais apresentamos uma biografia sumária no corpo deste trabalho. Ambos contemplam dois aspectos importantes do chamado método científico: a fundamentação teórica e a verificação experimental, ou seja, a teoria e a prática. O físico Goswami elabora uma teoria das invenções modernas da Física Quântica. O Dr. Stevenson dedica nada mais, nada menos do que quase 40 anos da sua vida profissional à catalogação de 2500 casos, material para uma boa fundamentação prática.

Passaremos, então, à exposição sintética do pensamento de ambos, e às conclusões que dele podemos extrair.

2 – Amit Goswami: a física quântica e o encontro de Deus:

Amit Goswami é conferencista, investigador e mestre titular da Universidade de Física de Oregon. Ph.D em física quântica é físico residente no Institute of Noetic Sciences. Nascido na Índia, filho de um guru hinduísta, Goswami está envolvido em 20 anos de pesquisas que buscam conciliar a física quântica e a espiritualidade.

Nas suas entrevistas, o Dr. Goswami, apesar da associação que a sua nacionalidade gera, nega veementemente que tenha partido da Religião para a Ciência, buscando nesta última a fundamentação da primeira. Pelo contrário, conta-nos que sempre se considerou bastante céptico, e que se limitou aos parâmetros da física tradicional, até deparar-se com um enigma, que considera como o mais importante do século XX: a descontinuidade no campo dos fenómenos, que o levou a buscar soluções fora do terreno convencional.

3 – Sobre a descontinuidade, o chamado “movimento descontínuo”:

A princípio, no campo sub-microscópico da física quântica, Goswami observou a ocorrência dos chamados “saltos quânticos”, ou seja, a existência de modificações que não obedecem absolutamente ao curso mecânico, natural e previsível do que vinha ocorrendo até então. É um desenvolvimento inesperado e descontínuo. Percebe, então, que o mesmo ocorre em diversos outros campos da ciência, também no terreno macroscópico.

Bom exemplo disso é o chamado evolucionismo darwinista, que tentou demonstrar a sequência da evolução das espécies desde a acção de factores condicionantes do meio, e da resposta dos organismos perante os mesmos. Hoje, já se sabe que o evolucionismo apenas explica como as espécies de adaptam a mudanças ambientais, sofrendo pequenas mutações e diferenciações, mas não explica, por exemplo, como ocorre a transição de uma espécie para outra. Não há fósseis demonstrando a passagem de um réptil a um pássaro, lentamente, desde adaptações e selecção natural. Há um lapso, uma descontinuidade, onde parecem interferir factores inteligentes e criativos, que desdobram novas possibilidades, e que em nada se relacionam com condicionantes externas.

Neste mesmo sentido, o biólogo Rupert Sheldrake fala sobre a transmissão de informações que ocorre entre indivíduos de uma mesma espécie de uma forma misteriosa, sem qualquer contacto físico; uma vez mais, a presença da descontinuidade, que tenta explicar através da sua teoria da Ressonância Morfogenética, uma das mais discutidas e polémicas do meio científico actual.

A própria sequência dos descobrimentos científicos ao longo da história não obedece a um desenvolvimento lógico, mas ocorrem “saltos” imprevisíveis, desde visões inusitadas de alguns “génios”; não há uma sequência lógica previsível entre o pensamento de um cientista e o seu sucessor. Ocorrem lapsos, onde intervêm factores absolutamente originais e criativos.

Goswami conta a história de quando Erwin Schrödinger pensou ter encontrado a continuidade na Mecânica Quântica, e Niels Bohr lhe provou que não; Schrödinger disse-lhe na ocasião: “Se eu supusesse que essa descontinuidade, saltos quânticos, iriam permanecer, eu nunca haveria descoberto a Mecânica Quântica”, ao que Bohr contestou: “Estamos felizes que o tenha descoberto”.

Então, essa descontinuidade, esse lapso foi chamado por Goswami de movimento descontínuo ou não localizável, e constitui um dos pilares mais importantes da sua teoria.

4- Sobre ondas e probabilidades:

Voltando ao terreno da física quântica, explicou-se que as subpartículas atómicas têm, na maior parte do tempo, um comportamento de onda e não de matéria. São conhecidas como “ondas de probabilidades simultâneas”, ou seja, antes de se precipitarem em partículas físicas, existem como ondas em diversas probabilidades diferentes, concomitantes, até que, num determinado momento, “algo” impacta essas ondas, faz uma eleição entre probabilidades e converte-as em partículas. Esse processo é conhecido como colapso da onda de probabilidade na realidade.

Goswami relata que, ao longo da história da Ciência, sempre se trabalhou fundamentado na chamada Casualidade Ascendente, que funciona da seguinte forma, desde a base:
Partículas 4 geram átomos 4 geram moléculas 4 geram células 4 geram tecidos 4geram o cérebro 4 o cérebro gera consciência.

A consciência seria, então, conforme esta visão, apenas um resultado do funcionamento cerebral, um produto do mesmo.

5 – Sobre a causalidade descendente:

A teoria que Goswami propõe revoluciona essa visão, invertendo-a: a consciência é colocada no início do processo, como observadora, sendo a responsável pelo colapso da onda na partícula, escolhendo as múltiplas possibilidades e criando realidade. Numerosas experiências fundamentam a sua teoria: a presença do observador, em experiências quânticas, afecta sempre e significativamente os resultados, e a criação de expectativas e propósitos pode afectá-los num sentido determinado por antecipação.

Ora, se a consciência se reduz a um fenómeno cerebral, enquadra-se num limite de todo o mundo material: é apenas uma probabilidade. Mas como pode uma probabilidade ter o poder de determinar outras probabilidades, seleccioná-las e concretizá-las? A teoria de Goswami eleva a consciência à condição de observadora, causadora da realidade, e o cérebro reduz-se a um mero transmissor da mesma, a sua base material. A isso, chama-se “Casualidade Descendente”, ou seja, a realidade seria determinada desde cima, “descenderia” ao mundo desde a consciência e das suas eleições.

6 – Consciência cósmica: o nome quântico de Deus:

Goswami narra que, desde estas posições, sempre surge uma mesma, previsível e pertinente objeção. Como pode haver tantas consciências actuando, fazendo eleições distintas, causando o colapso de uma única realidade? A isso, contesta que não se trata de muitas consciências, mas de uma única, aquilo que denomina de “Consciência Cósmica”, que toma vestimenta nas consciências individuais, na manifestação, apenas para conseguir auto-referência, ou seja, para “ver-se a si própria”, que só é possível dentro do jogo sujeito-objecto no qual se desenvolve o mundo manifestado.

Ele prossegue, comparando essas consciências individualizadas a receptores quando conectados à Consciência Cósmica, são criativos e transformadores, capazes de criar “saltos quânticos” de renovação na matéria, responsáveis por uma aparente descontinuidade. Essa seria a raiz da única forma de criatividade possível. Quando desconectados e separados, os receptores individuais não têm outra alternativa senão a repetição do registado na sua memória (inércia) ou tocados por uma impressão do meio (condicionamento). Perde-se, então, a criatividade e entra-se na mecânica dos robots, obedecendo a um “software” previsível, fechado e limitado.

Essas seriam as raízes para o que se denomina como conceitos de “bem” e de “mal” na acção humana: criatividade e condicionamento. Mas a Consciência Cósmica transcende esses conceitos, como na tradição hindu da Bhagavad Gita. Insiste mesmo em afirmar que a ciência do condicionamento nos cegou, dando como exemplos a visão determinista e behaviorista.

Assim chegamos ao Deus visto por Goswami: trata-se dessa Consciência Cósmica, que dá o impulso a todas as reais transformações, sem ela o Universo estaria condenado a auto-repetir-se, sem qualquer espaço para o novo. Reflecte mesmo, de forma interessante, sobre o Deus da Ciência Clássica, que vem, desde Aristóteles, dando o primeiro impulso ao Universo (Primeiro Motor Imóbil), para depois permanecer apenas observando o desenvolvimento dos fenómenos em conformidade com regras mecânicas e demonstráveis, sem qualquer outra interferência da sua parte, senão aquele impulso inicial. Goswami chama-lhe “Guardião do Jardim”, um ser passivo e até dispensável (e muitas vezes foi dispensado, de facto, na história da ciência), muito diferente de esse Deus Interventivo, Criativo, que marca o compasso da construção, manutenção e renovação das formas do mundo, tal como a trindade Brahma – Vishnu – Shiva, deixando vestígios da sua interferência na “descontinuidade” aparente dos fenómenos, diante dos olhos de uma razão restritiva e perplexa.

7 – Sobre Platão, Aristóteles e suas causalidades:

É interessante comparar a casualidade descendente de Goswami ao método dedutivo utilizado por Platão, onde toda a explicação para o particular deduz-se de grandes leis gerais, ao contrário de Aristóteles, que tenta compreender o puzzle encontrando peça a peça e encaixando-as, induzindo, de cada peça, uma visão do todo, o que constitui o chamado “método indutivo”, muito semelhante a uma casualidade ascendente.

Aristóteles é conhecido como o “Pai da Ciência”; aparentemente, esta nova ciência já não traz tantos traços de esta paternidade. Pelo contrário, são constantes as alusões de Goswami à Teoria das Ideias de Platão, assim como aos arquétipos de Jung. Denomina esse mundo das ideias (o dos arquétipos) de “contextos eternos da consciência”, berço de toda a realidade concreta.

8 – Mónada quântica: a Reencarnação segundo Goswami:

Visões intuitivas causando “saltos” na ciência: conhecemos os casos das visões de Newton, de Einstein e de alguns outros. O Dr. Goswami também possui as suas. Segundo ele, uma ocasião, havia tido um sonho; coerente com a perspectiva junguiana, considera os sonhos significativos, como o sinal do aflorar de algum impulso renovador e criativo. No seu sonho, uma voz dizia-lhe que o Bardho Thodol, o libro tibetano dos mortos, era verdadeiro, e que devia procurar prová-lo com as ferramentas que disponha. Seguindo essa mensagem intuitiva, alimentada das suas concepções e já citadas, passou a dedicar-se à questão da reencarnação.

De partida, refere-se a Helena Petrovna Blavatsky e à sua Ontologia Perene, onde lá já considerava a consciência como a base dos fenómenos. Baseando-se nela e na sua descrição dos corpos subtis do homem, considera que a Consciência Cósmica provoca o seu “colapso de probabilidades” não apenas no plano material mais denso, físico, mas também em planos mais subtis, aos quais chama de corpo supra-mental, mental e vital. Esses corpos são como que canais através dos quais a consciência cósmica desce ao plano físico. Como canais, conservam-se depois da desintegração do corpo físico, guardando também as suas propensões e hábitos, que constituem a memória quântica. Esse canal, com a sua memória, constitui o que ele chama de “mónada quântica”. Como via de recolha de experiências para a Consciência Cósmica, essa mónada influencia a eleição da probabilidade que gerará o colapso de um novo corpo físico, as suas propensões acumuladas. Assim, a colecção de experiências tem continuidade.

Fala ainda acerca da probabilidade de recordações entre uma vida e outra: segundo ele, a identidade separada com um corpo físico localizado desvanece as recordações não locais. Quando essa identidade é mais fraca, ou seja, na infância ou na extrema velhice, essas recordações podem surgir com maior facilidade. É como se as ramificações tivessem um acesso esporádico ao tronco, com toda a sua memória. Fala que os jogos de infância têm muito a ver com a recordação confusa dessa memória não local.

A partir dali, completa a sua obra com uma profusão de exemplos de apoio: reminiscências, experiências de quase-morte, etc. Como não poderia deixar de ser, faz referência ao reconhecido trabalho de Dr. Ian Stevenson, com a sua numerosa documentação de recordações espontâneas de outras vidas de crianças de vários locais do mundo.

Segundo Goswami, as crenças da humanidade dividem-se em três cursos, aos quais chama, de forma bem-humorada, de Depois-morte 100, 300 e 500. No Depois-morte 100, aprendem-se os conceitos básicos: Deus, bem e mal, céu e inferno. No Despois-morte 300, aprende-se sobre a reencarnação e a roda do karma; surgem perguntas não apenas sobre o que há depois da morte, mas também o que há antes da vida, porque coisas más ocorrem a pessoas boas, etc. No Depois-morte 500, faz-se perguntas sobre a natureza da realidade e a relação do indivíduo com ela; intui-se que o homem, o mundo e Deus não são separados um do outro; percebe-se o Universo como uma família, e anseia-se servi-la.

Goswami afirma que a humanidade, assim como grande parte do Ocidente, está passando maciçamente do Depois-morte 100 para o Depois-morte 300. E que alguns já estariam pensando seriamente no curso final. Atenta para o facto de que a manipulação dos conceitos do Depois-morte 100, de prémio e castigo, é utilizada como ferramenta de correcção moral e compensação para classes mais pobres, enquanto que, para as classes mais abastadas, segundo ele, funciona melhor, para esse propósito, a crença na reencarnação, pois atemoriza mais o regresso ao mundo em condições desfavoráveis do que a visão de um “inferno” despois da morte. Então, uma visão mais madura dos fenómenos da vida e da morte, segundo o Dr. Goswami, só a encontraríamos no curso final (“Depois-morte 500”).

9 – Da teoria à prática: a impressionante trajectória de Dr. Ian Stevenson:

Nascido em Montreal, em 1928, e formado em Medicina em 1943, no Canadá, o Dr. Ian Stevenson especializou-se em psiquiatria. Em 1957, aos 39 anos, tornou-se Chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Virgínia, e foi dali que começou a investigar os relatos de crianças que se recordavam de vidas passadas. Viajando pela Índia, Sudeste Asiático, América do Sul, Europa, América do Norte e ainda por uma variedade de povos tribais no Canadá, investigou mais de 2 500 casos durante 37 anos, sempre submetendo-os a um exame crítico de investigador metódico e imparcial, reconhecido pela sua seriedade até entre os investigadores mais cépticos. Há quem duvide da hipótese de reencarnação como explicação para os numerosos casos documentados pelo Dr. Stevenson. Mas a seriedade com que recolhe os seus dados dificilmente poderia ser contestada.

A publicação das suas viagens e relatos é pouco acessível, e restrita à literatura de modelo científico. O pouco que alcança o grande público deve-se ao jornalista e editor do Washington Post, Tom Schroder, que publica a obra “Almas Antigas”, na qual relata a viagem em que acompanha o persistente Dr. Stevenson, já com oitenta anos, em aventuras por locais inacessíveis e perigosos, como ao interior do perturbado Líbano.

Céptico a principio, o jornalista acaba por inclinar-se ante a honestidade e rigor com que o investigador realiza as suas entrevistas, com confrontações de declarações e verificações de dados de todos os tipos para garantir a veracidade das informações recolhidas.

Vamos recolher três casos, a título de exemplo, entre os mais tocantes e contundentes relatados por esse pesquisador.

9.1 – Caso 1: Suzanne Ghanen, Beirute:

Conforme seus pais, sua pequena Suzi, aos 16 meses, retirava insistentemente o auscultador do telefone e balbuciava algo semelhante a “- Estou, Leila?”. Eles não faziam ideia de quem era a pessoa com quem ela tentava falar. Mais tarde, aos dois anos, ela já explicava que Leila era a sua filha mais velha; citava o nome e apelido do esposo, Farouk, dos seus outros filhos e dos seus pais e irmãos; ao todo, 13 pessoas. Antes de aprender a ler e escrever, rabiscou num papel o número de telefone da casa Hanan Mansour, mulher libanesa que morrera aos 36 anos, vítima de uma cirurgia cardíaca nos Estados Unidos, menos de um ano antes do nascimento de Suzanne.

O irmão de Hanan, Hercule, que a acompanhara aos EUA, relata que, antes de entrar na sala de cirurgia, tentara insistentemente falar ao telefone com a filha Leila, sem êxito. Pedira, então, ao irmão, que repartisse as suas joias entre as duas filhas, Leila e Galareh; esse acontecimento só era do conhecimento de Hercule, Farouk e das filhas.

No contacto realizado entre a pequena Suzanne e a família de Hanan, a menina, depois de saudar emocionada as filhas e o esposo, parou e perguntou: “O seu tio Hercule deu-lhe as joias? Deu à Leila as joias dela?”. Para além disso, reconheceu parentes e situações de um livro de fotografias trazido pela família. Ao ver-se retratada já doente, a recordação da dor era visível nos seus olhos.

É comum no método de Dr. Stevenson realizar novas visitas aos casos mais peculiares que retrata. Neste caso, volta a visitar a jovem Suzanne aos 22 anos. As recordações já desapareceram, segundo o relato da mesma, mas fica uma certa tristeza e angústia, um sentimento associado ao que foi vivido.

9.2 – Caso 2: Tali, o pequeno labrador libanês de Khattar:

Nesse reduzido e pobre povoado no interior do Líbano, nasce o menino Tali, em 1965. O bebé apresentava círculos de um centímetro e meio de diâmetro, de pigmentação intensa, do lado direito, parte inferior, e no esquerdo, parte superior da face. Para além das marcas de nascimento, o menino Tali, apresentou muita dificuldade em falar, só começando a balbuciar por volta dos 3 anos de idade. Quando começou a fazer-se entender, terá dito aos seus pais: “Não me chamem de Tali. Chamo-me Said Abul-Hisn”.

Investigando esse nome, Stevenson chegou à história de um comerciante libanês, que morrera vítima de um atentado à bala em 1965. O tiro penetrou-o pelo lado esquerdo do rosto, atravessando a boca, ferido a língua e saído pelo lado direito. Levado ao hospital, morreu onze horas depois.

Não tardou para que o pequeno Tali começasse a falar sobre os disparos. Quando Stevenson o entrevistou, aos seis anos, o menino relatou-lhe:
“Puseram-me num carro e levaram-me para o hospital. A minha mulher estava ao meu lado. Um dos meus dentes partiu-se, a minha língua sofreu um corte e as minhas roupas estavam cheias de sangue.”
Stevenson mediu e fotografou os sinais de nascimento do menino e, mais tarde, comparou-os com o relatório da autópsia feita em Said. Esse é um dos muitos casos de estranhos sinais de nascimento ligados a episódios de vidas anteriores, que são relacionados e catalogados pelo Dr. Stevenson.

Um episódio particularmente interessante é que a última recordação de Tali era ter caído da cama, no hospital. As fichas do hospital não fazem menção a esse acontecimento, mas mencionam, como causa de morte, dificuldades respiratórias e paragem cardíaca. Ao entrevistar a mulher de Said, esta afirma ao Dr. Stevenson que, ainda que sem provas, alguém do hospital lhe dissera que o seu esposo sofrera uma queda, e morrera de asfixia antes que lhe pudessem recolocar o tubo de aspiração.

9.3 – Caso 3: Preeti, a menina Indiana:

Num pequeno vilarejo no norte da Índia, a menina Preeti, assim que começou a falar, haveria afirmado aos seus irmãos:
– Esta casa não é minha. Estes são seus pais, não meus.
E para a irmã:
– Tu só tens um irmão. Eu tenho quatro.

Contou que se chamava Sheila, disse o nome dos seus pais e implorou para ser levada para casa, para a cidade de Loa-Majra. Os pais, pessoas simples, ignoraram os seus apelos, achando tratar-se de palermices de menina, e passaram a punir Preeti quando falava sobre isso. Aos quatro anos, Preeti tenta fugir de casa, pedindo ao leiteiro que a leve de volta para a sua família, pois “aquelas pessoas” não queriam levá-la.

É localizada, então, a cidade de Loa-Majra, o citado pai anterior, Karan Singh, que havia perdido uma filha adolescente, Sheila, atropelada por um carro. No encontro entre as duas famílias, há um reconhecimento imediato de Preeti, que corre para o pai. Ao avistar o irmão, alguém lhe pregunta:
– É mais velho ou mais novo do que tu?
– Era mais novo, agora é mais velho.

Interessante destacar a resposta dada por Preeti sempre que lhe perguntavam como morrera, sempre com os devidos cuidados do Dr. Stevenson, que não deixa saber a história de Sheila:

Caí do alto e morri.

Numa revista Indiana investigada por Stevenson, o acidente da jovem Sheila era descrito da seguinte forma: o carro a alcançara, atirando-a mais de três metros para o alto. Marcas de nascimento no músculo de Preeti coincidiam com a cicatriz do choque no corpo de Sheila.

Os casos, em geral, apresentam uma similaridade intrigante: a grande proximidade temporal entra a última encarnação e a actual, e uma certa amargura e tristeza que as recordações trazem aos indivíduos que a possuem, constituindo um “factor de dificuldade” nas suas histórias pessoais. Essas mesmas ponderações são feitas pelo próprio Dr. Stevenson, revelando-se, humildemente, incapaz de compreender o sentido maior das informações presentes no vasto material recolhido por ele.

Poucos sabem da existência histórica de um observador de estrelas chamado Ticho Brahe (1546-1601). Ano após ano, ele observou e registou meticulosamente o movimento dos astros que observava no céu com o seu telescópio, à espera de que alguém pudesse dar algum sentido àquela numerosa informação recolhida com tanto rigor, Johannes Kepler o fez. À espera talvez de um novo Kepler no campo da Ciência, existe um avultado material recolhido ao longo da vida de um homem, Dr. Ian Stevenson, aguardando que alguém retire dali as conclusões adequadas.

10 – Conclusão:

Independentemente da abordagem, se científica, religiosa ou filosófica, o homem naturalmente sempre desejou saber o porquê, para quê e como ocorrem aqueles acontecimentos mais significativos que se relacionam com a sua existência. Evidentemente, o fenómeno da Consciência é um dos acontecimentos que mais têm merecido a atenção do homem de todos os tempos. Como surge a Consciência? De onde vem? O que acontece com a Consciência despois da morte? São perguntas que motivaram vários tratados ao longo da história humana. Mas o pensamento científico moderno ignorou parte dessas inquietudes, restringindo-as a buscar resposta somente para a questão de como surge a consciência, relegando as respostas a outras questões apenas a abordagens de tipo religioso e filosófico.

A Consciência, para a maioria dos tratados científicos sobre esse assunto, é um produto do desenvolvimento físico do cérebro humano. Sem o cérebro, não há consciência, portanto, ela surge, desenvolve-se e morre com o suporte físico. Para a sustentação desta teoria, é necessário considerar como válidas as seguintes premissas: todos os milhares de relatos de pessoas que falam de experiências conscientes antes do nascimento e depois da morte, como os casos relatados pelo Dr. Stevenson, são falsos e produtos da fantasia popular; a matéria, através de um processo misterioso qualquer, começa a mover-se (não se fala de um motor externo) aleatoriamente e gera uma infinidade de combinações necessárias e complexas (tudo isso, fruto do acaso) até chegar a esse fenómeno maravilhoso que é a Consciência humana.

Tantas pessoas, de diferentes lugares, origens sociais, raças, etc. combinaram entre si contar patranhas semelhantes, e infinidades de combinações fortuitas, consequentes do movimento da matéria inerte, construíram um cérebro matematicamente estruturado… essa visão paradoxal leva à perplexidade da razão humana, e faz nascer, na comunidade científica, pessoas que, num acto de coragem, formulam outras hipóteses, buscando resposta sobre os mistérios da consciência à luz do conhecimento científico actual. O Dr. Goswami, usando as teorias da Física Quântica, devolve a credibilidade das declarações de milhares de pessoas, explica o impulso que quebra a inércia da matéria e atenua a problemática das estatísticas, condenadas a ter que explicar como a matéria caótica gera, através de mudanças casuísticas, o fenómeno da consciência.

É gratificante ver como abordagens que partem de lógicas distintas chegam a conclusões semelhantes para o mistério da consciência humana. As ideias a que o Dr. Goswami chega através da física quântica são semelhantes àquelas abordadas pelos tratados de Filosofia Antiga, como se pode ver na obra de vários conhecidos filósofos e na doutrina de algumas religiões, como no caso da teoria da reencarnação.

É mais um ponto de convergência do pensamento científico, religioso e filosófico, que lança uma esperança, no provir, da realização de um sonho de ver a realidade iluminada pelas diferentes vertentes do pensamento, permitindo ao homem uma visão mais completa e profunda da natureza e de si mesmo. Esse sonho que nos ensinaram a sonhar todos os grandes Mestres da Humanidade: a união de todos em torno da busca da Verdade.

Lúcia Helena Galvão Arruda
Luis Carlos Marques Fonseca
Nova Acrópole Brasília


Informações bibliográficas:
GOSWAMI, Amit. A Física da Alma. São Paulo: Aleph, 2005.
SCHRODER, Tom. Almas Antigas. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.