Introdução

Na mente de um estudante formado segundo os paradigmas contemporâneos, é a prova científica que permite que todo o conhecimento adquira legitimidade, o selo oficial do que é sério ou válido ou daquilo que é fantasia. Em tal contexto, a doutrina da evolução que está no coração do ensinamento de ISAO, pode ser repudiada pura e simplesmente como não científica ou subsistir sob a forma de uma verdade oculta paralela à real: atitudes igualmente prejudiciais para a busca da verdade.

Para sair da dificuldade, é útil compreender o que a ciência opõe à doutrina secreta e qual era a pedagogia que utilizava Helena Petrovna Blavatsky (HPB) na sua época face aos seus detratores.

Religião, ciência e filosofia

Um ponto passa muitas vezes despercebido mas é fundamental.

HPB dá como subtítulo à Doutrina Secreta: Síntese da ciência, da religião e da filosofia. Aqui está a chave que permite compreender o cerne do problema já que se apoia numa visão dinâmica e interactiva entre o mundo científico e o mundo religioso graças à meditação da filosofia. Este contexto é o que torna possível o diálogo: a ciência diz-se tradicional, a religião espiritual e a filosofia é a filosofia natural.

HPB está bem consciente que, frente a isto, no contexto do século XIX, a ciência e a religião encontram a sua definição e os seus limites na sua exacta separação ao atribuir-lhes um território e as suas competências definitivas; uma o material e o visível onde reina a razão, e a outra o espiritual, ou invisível onde reina a fé, e não o verdadeiro e o bom como na tradição. Assim a filosofia converter-se-á em teologia ou em abstração intelectual.

Neste paradigma, é estruturalmente impossível que a ciência oficial possa vir a ajudar a Doutrina Secreta. Esta última obteria apenas um desprezo jocoso da sua parte. A estratégia utilizada por HPB foi relançar o diálogo entra a religião e a ciência ao mostrar que era possível recorrendo à filosofia atemporal e as suas raízes esotéricas. Sabemos bem que esta coincidencia oppositorum, apenas podia passar pelo caminho do simbolismo teológico do qual é pré-universitário.

a) A Ciência

O divórcio entre a fé e a razão

No início do século XIX, o sábio Laplace um dia apresenta a sua teoria sobre o funcionamento do universo a Napoleão I. No fim da sua dissertação Napoleão pergunta-lhe “E Deus como fica em tudo isto?” a resposta foi: “Vossa Majestade, é uma hipótese da qual não tenho necessidade…”.

Para compreender o caminho seguido pela ciência até ao materialismo, a história das ciências dificilmente é útil porque foi escrita justamente para justificar a separação entre a ciência e a filosofia, a “purificação de todo o saber tradicional”. A ciência torna-se científica ao limitar-se à experiência. Assim, a química nasce no século XVIII com Lavoisier porque abandona o ramo alquímico que se transformou em algo vergonhoso.

A Ciência Experimental

Liberada de toda a sugestão boa ou má assim como de todo o freio, a ciência experimental proporcionará as suas próprias regras, as suas próprias leis que serão técnicas e não morais. Isto terá duas consequências. A primeira é a explosão das ciências experimentais a partir do século XVIII no Ocidente e o progresso técnico inerente. A segunda é o lugar cada vez mais preponderante do materialismo científico e das suas regras que criam uma espécie de nova religião que define o verdadeiro, mas sim o observável, tendo como consequência a ilusão de que o progresso científico pode substituir-se ao progresso humano. As teorias científicas que não são mais do que modelos da representação do mundo (na sua parte sensível) convertem-se nestes casos em verdadeiras mitologias materialistas e alguns dos seus adeptos não têm grande coisa a evidenciar aos sacerdotes mais fanáticos do passado.

Lendo de novo a história com tal enfoque, a ciência racional e experimental irá buscar aos seus percursores, iniciadores do método cientifico, do lado dos filósofos eleáticos e sobretudo a Aristóteles passando por Roger Bacon e Descartes, ao ignorar soberbamente que para eles a espiritualidade e a razão não foram inimigos mas sim complementares.

Paradoxalmente o que pode ainda mais esclarecer nesta busca, é sem dúvida a história das religiões no Ocidente ao simplificar também duas das maiores etapas: o nascimento do cristianismo e o concilio de Trento.

Cristianismo e Ciência

A primeira etapa nesta instalação do cristianismo no mundo antigo que instaura a separação entre o corpo e o espírito, entre a natureza e a cultura, paralisa as fronteiras do profano e do sagrado e instaura a sua mediação obrigatória entre o visível e o invisível em reacção aos filósofos clássicos e aos camponeses.

Apoiando-se na leitura averroísta de Aristóteles, formaliza a sua doutrina no tomismo que substitui o paradigma da linha platónica, unitária e dinâmica pela dualidade estática e irremediável entre a fé e a razão.

A segunda fase, menos conhecida, é a que consagra a vitória definitiva do tomismo depois das tentativas neoplatónicas do Renascimento durante o concilio de Trento. Como reacção à Reforma protestante, a igreja católica ao renunciar a iluminação do espírito pela contemplação das ideias, concentra os seus esforços nas práticas morais e na exaltação dos sentimentos ao abandonar progressivamente o terreno da razão ao mundo científico.

Há uma criação de um novo equilíbrio para a repartição do mundo: o espiritual e o invisível para a igreja, o temporal e o material para a ciência e a política.

É por defender a inanidade desta fronteira entre a ciência e a religião que Giordano Bruno (1548-1600) foi o primeiro mártir do mundo moderno.

A Igreja e a Ciência no séc. XX

A defesa deste status quo chegou a ser vital para a religião e ciência oficiais já que lhes serve de fundamento e colocá-lo em causa poderia ter-lhes causado importantes prejuízos.

Na teoria sobre a evolução do homem, a igreja do século XX integrou discretamente o modelo darwiniano, com Pio XII e a Encíclica Humani generis (1950).

Mais claramente, João Paulo II em 1996 declarava diante da Academia pontifical de ciências que a teoria de Darwin é mais do que uma hipótese, recordando ao mesmo tempo na sua encíclica “Fides et ratio” o limite da razão que deve inclinar-se face ao mistério da fé.

Por seu lado, a ciência, em reacção ao fundamentalismo religioso protestante anglo-saxónico que promove a leitura mais literária da Biblia, propõe como protecção da ciência oficial a doutrina do NOMA Non Overlappilng Magisteria (Doutrina da não recuperação das matérias) do paleontólogo americano Stephen Jay Gould que estabelece um pacto de não-agressão sob o vocábulo de distinção epistemológico entre os saberes.

Depois do progresso do ateísmo materialista que traz o notável enfraquecimento do religioso na sociedade e o repúdio da ciência pela igreja, instaurou-se um status quo defendido avidamente pela igreja católica e pela ciência oficial.

A Ciência com as suas Hipóteses e factos face ao Modelo

Em princípio, a ciência elabora hipóteses a partir da observação de factos e emite uma teoria explicativa que se converte num modelo que não é uma realidade, mas sim um interface permanente para compreender melhor o mundo. Mas ontologicamente, como temos visto, nega-se a formular uma hipótese que se fundaria no invisível e no não mensurável inclusivamente quando as consequências disso são visíveis e mensuráveis pois uma ciência que tomasse este risco não seria por definição mais científica no sentido mais moderno do termo. É a explicação “de boa fé” e sem apelo por parte dos cientistas.

Ao não poder encontrar a teoria que os acolha, os factos demasiado problemáticos são pura e simplesmente excluídos como artefactos ou fraudes.

Em 1994. Michael Cremo e Richard Thompson, investigadores americanos membros da sociedade internacional para a consciência de Krishna, influenciados pela visão védica do mundo, publicaram um livro “Forbidden Archeology” no qual enumeravam os factos científicos próprios para fazer retroceder a antiguidade do homem em milhões de anos. Tudo isto sem mais resultados que HPB.

Vaiado pelos fundamentalistas religiosos, sejam cristão, muçulmanos e outros que proclamam a submissão da ciência à religião, o modelo darwiniano acabou por procurar protecção na política transformando-se por isso politicamente correcto como símbolo da civilização relativamente à barbárie. O tema da doutrina da evolução instala-se nos tribunais americanos para encontrar a sua legitimidade.

Paradoxalmente, as críticas do esquema darwiniano vêm dos mesmos cientistas e são as mais interessantes pois apesar de muitas revogações desde a sua criação, as descobertas mais recentes fragilizam ainda mais os fundamentos do modelo darwiniano. No site oficial do CNRS, o titular da Cátedra de Paleoantropologia e Pré-história do colégio de França, Yves Coppens surge expondo os seus estados de ânimo sobre a realidade da casualidade no processo da evolução.

b) A Génese do Modelo Darwiniano

 Do Mito da Casualidade e da Necessidade

O modelo darwiniano é o fruto de um processo do qual o mesmo Darwin não é mais do que uma etapa histórica. Já que cristaliza uma certa visão da ciência, da sociedade e do homem, torna-se um dogma tabu cuja crítica, ainda que construtiva, se tornou quase impossível.

As Origens

A filosofia de Platão que procura permanentemente unir o ser e o não ser no homem inspira pouco os Enciclopedistas das Luzes; o enfoque de Aristóteles que desvia o debate da matéria-espírito para a essência-forma é mais conveniente. Com efeito, o seu estudo de formas animais e vegetais para compreender a essência superior, ainda que não seja sistemático, já que se trata de uma simples compilação, poderia servir como um primeiro passo científico aceitável. Este enfoque lança as bases da observação e da descrição das espécies, mas não é uma finalidade em si. Trata-se de compreender através da comparação das anatomias, não a sua eficácia, mas sim a sua essência e a sua causa. É um método analógico com uma finalidade analógica, ou seja que retorna ao superior.

Antiguidade e Idade Média

As ciências da vida vão permanecer durante muito tempo uma tradição essencialmente literária de Teofrasto a Buffon passando por Oppien e Elien, autores latinos dos primeiros séculos da nossa era. A história natural é mais ou menos um catálogo de factos em bruto, muitas vezes repetidos e recopiados de um autor a outro, o que tende a dar-lhe uma dimensão verdadeira.

A partir do Concilio de Trento

O mundo das ciências explora unicamente pelos sentidos e pela razão excluindo a contemplação. A ciência, a partir de então, nega-se a interrogar sobre as “causas” e não vê nas formas mais do que uma resposta às funções e uma adaptação perfeita à natureza que por si mesma é perfeita como criação divina. A complexidade e a versatilidade do ser vivo remetem para a ideia de um grande organizador, de um grande arquitecto inteligente, Deus. Como Deus é o mistério, é a reposta e o fim de não-receber de toda a curiosidade perante a dimensão superior.

É sem dúvida Willian Paley (1743-1805) quem melhor formulou na sua “Teologia natural” este novo ponto de equilíbrio do pensamento.

A racionalidade triunfante do século expressa-se através do conhecimento enciclopédico que postula a possibilidade de circunscrever o saber humano.

Com Carl Von Linné (1707-1778) aparece a necessidade de uma classificação que não seja apenas sistemática mas sim hierarquizada do mundo vivo.

Os seus critérios de classificação no sistema são em grande parte fantasiosos e a hierarquização dos seres vivos permanece com inspiração bíblica; mantem o homem por cima da criação porque é a sua finalidade, não por razões espirituais mas sim pela forma, ou seja pelo material. Devido a um deslizamento subtil, este primeiro ensaio de classificação hierarquizada é a origem da prisão ideológica da evolução já que induz a uma unidade do mundo vivo pelas formas, ou seja, materialista.

O Nascimento da Noção de Evolução

O reconhecimento da paleontologia nascente que demonstra o desaparecimento e a aparição de espécies vivas rompe a ideia de uma criação perfeita e acabada.

Georges Cuvier (1769-1832) ao observar o desaparecimento ou o aparecimento de certas espécies animais em função dos estratos geológicos integra as catástrofes naturais (seca, dilúvios…) como causas principais das mudanças e sublinha uma descontinuidade da criação original por agentes exteriores. Organiza a classificação zoológica e a paleontologia com critérios mais sérios sem colocar ainda em causa a ideia de uma criação divina acabada.

O Transformismo

A verdadeira revolução virá com Lamarck (Jean-Baptiste de Monet, Caballero de ) (1744-1829). Investigador obscuro, um pouco marginal, acaba a classificação sistemática do mundo vivo com menos prestígio, o dos invertebrados.

Rompendo com a visão bíblica de uma criação definitiva e fixa e apoiando-se no princípio da continuidade da vida pelas formas, põe em evidência a evolução das espécies vivas através da adaptação ao meio ambiente e a transformação dos caracteres assim adquiridos por descendência.

Segundo esta teoria, o transformismo, os seres vivos actuais, vegetais e animais – incluído aqui o homem – não apareceram, tal como nós os conhecemos, das mãos de um criador, há uns 6000 anos, mas são o resultado de uma longa história,  que já começou há muitas centenas de milhões de anos. Para Lamarck estas modificações são graduais e não percetíveis à escala humana. É de notar que o problema da origem da vida permanece sem resolver.

As condições climáticas e geológicas mudam duradouramente os seres vivos transformando os seus corpos (mas não de uma maneira controlada). Um órgão pode, assim modificar-se para responder a uma necessidade: “a necessidade cria o órgão”, ou a teoria do emprego e do não emprego.

Para além disso esta transformação é transmissível à descendência (herança de caracteres adquiridos). O transformismo repousa portanto numa criação em evolução, logo, imperfeita.

Destrona assim o homem da sua localização no centro-superior da criação ao colocá-lo no mesmo plano que os mais simples invertebrados. Introduz a adaptação funcional no meio ambiente como motor da evolução.

A partir desta etapa nasce uma corrente evolucionista que vai florescer sobretudo no meio anglo-saxónico oposta à mentalidade católica que vê na natureza uma justificação da visão individualista e mercantil da sociedade baseada sobre a liberdade, a concorrência e o livre-circulação. Já Erasmus Darwin, o avô de Charles era evolucionista.

A Selecção Natural

A etapa atravessada por Charles Darwin (1809-1882) será a de reunir formas vivas num só conjunto orientado das mais simples às mais complexas reunindo-as por um grau de parentesco; esta unidade do mundo vivo pelas formas e pela matéria leva-o a classificar os grupos animais em função do seu suposto parentesco formal.

A sua obra “On the origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Strugge for Life” (London, Murray 1859) apresenta a noção de evolução como o conjunto de processos que transformaram a vida sobre a Terra, desde as formas primitivas até à diversidade actual. Conserva a ideia de herança dos caracteres adquiridos pela adaptação ao meio e posteriormente transmitida às gerações seguintes mas, introduz a noção de selecção natural como motor da evolução.

Define-a como um processo natural que assegura a classificação selectiva permanente das variações que se produzem por casualidade: a natureza é assim concebida como um mecanismo cego e eficaz.

A partir deste momento, o macaco, sendo a forma de vida mais próxima ao homem, converte-se assim automaticamente no seu antepassado.

De Darwin ao Darwinismo

Esta visão naturalista da “struggle for life” (luta pela vida) está em harmonia com as teorias de Malthus das doutrinas económicas liberais da época. Da simples teoria científica o darwinismo empreende um desenvolvimento ideológico que deve mais a Ernst Heinrich Philipp August Haeckel (1834-1919) do que a Darwin. Ainda que não fosse um cientista de formação, foi ele, quem difundiu e desenvolveu a teoria de Darwin e cria o darwinismo militante.

Irá buscar as provas da filogénese (génese das espécies) na ontogénese, sem vacilar falsificará os resultados das suas experiências justificando-se para isso, com o pretexto de que tem razão…É ele, que trata de encontrar uma solução para a origem da vida ao inventar uma substância viva primitiva, entre o vegetal e o animal, a monera da qual HPB faz eco na Doutrina Secreta.

Sobre esta base ”científica”, propõe uma classificação das raças humanas hierarquizando-as num quadro evolucionista, desde os negros, considerando-os como próximos do macaco, até ao que era, segundo ele, a forma humana mais evoluída, os Indo Germânicos (ou seja os Alemães, os Anglo-saxonicos e os Escadinavos…) ideia que encontrará fervorosos adeptos no século seguinte.

O Darwinismo à conquista do poder

Relativamente à questão central do parentesco do homem com o macaco, a paleontologia tinha futuro. Por todo o lado no mundo descobrem-se formas antropoides mas nunca como aquelas que um doutor, antropólogo aficionado, Charles Dawson afirma ter encontrado numa fossa em Piltdown, em Inglaterra em 1912.

Um osso da mandíbula bastante simiesco e um fragmento craniano bastante desenvolvido proporcionam o elo que faltava entre o homem e o macaco. Este fóssil chamado o homem de Piltdown foi exposto durante mais de 40 como um tesouro no British Museum, até ao dia em que se descobriu que não se tratava mais do que uma mandíbula de um macaco disposta sobre um crânio humano.

c) O Método HPB

HPB expõe a doutrina da evolução da humanidade num momento em que o darwinismo militante está em pleno desenvolvimento e a igreja está ainda bastante assente nas suas posições bíblicas.

Como escreveu um dos nossos colegas: “suponho que vocês deram conta que uns três quartos dos Teósofos, e muitas outras pessoas, imaginam que no que concerne à evolução do homem, o Darwinismos e a Teosofia estão de acordo.” (1)

O método de HPB será o de provocar a confrontação entre a ciência e a religião da sua época para assim enfatizar os absurdos e as carências e propor o ponto de vista da filosofia atemporal e as suas raízes esotéricas. É de assinalar a extraordinária erudição de HPB tanto nas tradições religiosas como nos conhecimentos científicos da sua época.

Do ponto de vista esotérico, HPB não condena totalmente o darwinismo cujos fundamentos não são novos. Demonstra que nem sequer é uma nova ideia.

“Isto demonstra que os Bramanes e os Tannaims…especulavam sobre a criação e o desenvolvimento do mundo de uma maneira muito Darwiniana, ultrapassando este sábio e a sua escola na descoberta da selecção natural, do desenvolvimento gradual e da transformação das espécies. (2)

Ela confirma a sua exactidão parcial e valida a teoria da transformação de Lamarck.

“Já temos falado, de uma maneira geral, da fauna e da flora pré-humanas, nos comentários sobre as Estancias e admitimos a exactidão de grande parte das especulações biológicas modernas, por exemplo a derivação dos pássaros, dos répteis, a exactidão parcial da “selecção natural” e de uma maneira geral, da teoria da transformação.(3)

“Além disso os próprios ocultistas, estão dispostos a outorgar uma exactidão parcial à hipótese de Darwin, no que concerne aos detalhes ulteriores de certas partes secundárias da Evolução depois do ponto mediano da quarta humanidade.”(4)

Pele mesmo motivo realça a impossibilidade para a ciência de resolver definitivamente o problema.

“Mas o que os ocultistas não admitiram jamais, nem nunca o admitirão, é que o homem tenha sido um macaco nesta ronda ou em qualquer outra, ou que alguma vez o possa ter sido, ainda que possa ter tido algo de simiesco. Isto está certificado pela mesma autoridade, da qual o autor do Budismo Esotérico extraiu a sua informação”.(5)

“Em consequência, o Ensinamento Esotérico está absolutamente oposto à evolução darwiniana, no que concerne ao homem e parcialmente oposta a esta mesma evolução, no que concerne a outras espécies”. (6)

“Relativamente ao que aconteceu, a Ciência Física não pode verdadeiramente saber nada, já que tais temas estão completamente no fora da esfera da investigação.”(7)

HPB volta a certificar os fundamentos da tradição sobre a evolução da humanidade, “A Doutrina Secreta postula tês novas proposições, que estão em completa oposição com a Ciência Moderna, como também com os dogmas religiosos que estão em curso. Ensina:

  1. A evolução simultânea de sete grupos humanos, em sete partes do nosso globo;
  2. O nascimento do corpo astral antes do corpo físico, o primeiro servirá de modelo ao segundo;
  3. Por último ensina que durante esta Ronda, o homem precedeu todos os mamíferos – compreendidos também os antropóides – no reino animal.”

Assinala as lacunas evidentes da teoria darwiniana particularmente sobre a origem da vida ou a explosão de vida no câmbrico;

“Certamente, como dizíamos na nossa primeira obra, se aceitamos a teoria de Darwin do desenvolvimento das espécies comprovamos que o ponto de partida se encontra em frente a uma porta aberta” (8)

Da confrontação entre a ciência e a religião, rapidamente aparece a inanidade dos 6000 anos da antiguidade para o homem segundo a Igreja católica. Recalca a redundância de certos factos evocados em diferentes tradições religiosas e a possibilidade de servir-se disso com hipótese científica…

Ao expor as omissões de Darwin, faz um chamado à tradição esotérica para lançar as hipóteses de trabalho, acessíveis pela ciência sobre a separação dos sexos e a estatura dos nossos antepassados.

“Porque não admitir simplesmente o argumento em favor do hermafroditismo que caracteriza a fauna antiga? O ocultismo propõe uma solução que abarca todos os factos de uma maneira mais simples e mais compreensiva. Estas relíquias de uma humanidade anterior andrógena devem ser consideradas na mesma categoria que a glândula pineal e outros órgãos igualmente misteriosos.” (9)

Explica porque certos factos experimentais da ciência oficial não são significativos.

“Será que as descobertas dos restos que se encontram na caverna de Devon provam que na mesma época, não existiam humanidades contemporâneas, mas altamente civilizadas? Quando a população actual da Terra desaparecer e um arqueólogo, pertencendo à “próxima humanidade” de um futuro longínquo, nas suas escavações descubra os utensílios domésticos de uma tribo na Índia ou das Ilhas Andama, terá razão ao concluir por isso que a humanidade do século dezanove “acabava de sair da idade da pedra?” (10)

Ou ainda:

“Porque até agora não se descobriu nenhum esqueleto gigante nas “tumbas”, não é razão para concluir que estes nunca contiveram restos de gigantes. A cremação era um costume universal até uma época relativamente recente, há uns 80 ou 100.000 anos. Para além disso, os verdadeiros gigantes foram quase todos afogados com a Atlântida. No entanto, os autores clássicos, assim como já o expusemos noutro lugar (IV 391), falam frequentemente de esqueletos gigantes que foram exumados na época. Aliás, os fósseis humanos são ainda tão raros, que poderíamos contá-los pelos dedos da mão. O esqueleto mais antigo, descoberto até agora, não remonta a mais de 50 ou 60.000 anos e a estatura humana encontra-se reduzida de 15 para 10 ou 12 pés desde a época do terceiro ramo do grupo Ário que – nascido e desenvolvido na Europa e na Ásia Menor, sob outros climas e em outras condições- chegou a ser Europeu.” (11)

“Aperfeiçoa” inclusive a teoria darwiniana ao aportar a hipótese sobre temas nos quais os factos tropeçam.

Muito antes da descoberta da genética que modifica a teoria da transmissão dos caracteres adquiridos, HPB anunciava-a.

“No entanto a teoria darwiniana da transmissão das faculdades adquiridas não é nem ensinada nem aceite no ocultismo”.

Recalca um problema maior como a rápida especialização (formação) rápida das espécies.

“Todos os grupos mais notáveis – os morcegos, os pterodáctilos, os quelonios, os ictiossaurios, os anuros etc. – fazem de seguida a sua aparição em cena. O cavalo igualmente, que é um animal cuja genologia tem sido provavelmente mais conservada, não proporciona nenhuma prova conclusiva de origem específica por variações fortuitas e significativas, enquanto para outras formas, tais como os labirintodontes e os  trilobitas, (IV 319) que parecem exibir mudanças graduais, há novas descobertas que provam que não era tal …

Todas estas dificuldades são descartadas se admitirmos que novas formas – de vida animal -, tendo todos os graus de complexidade, aparecem de vez em quando com uma rapidez relativa e evoluíram segundo as leis que dependem, em parte, das condições ambientais e, em parte, de condições internas independenetes.” (12)

Coloca em evidência o que agora é conhecido como a lei de Bollo, ou seja, a irreversibilidade da evolução que impede o homem de ser descendente do macaco cujas formas evoluíram num sentido enquanto as do homem evoluíram noutro.

É plenamente consciente do problema de fundo: a redução do âmbito da biologia à matéria que limita intrinsecamente o seu alcance.

d) Depois de HPB = Em direcção a um Neo Darwinismo

Como já vimos, o darwinismo é um barco impossível de afundar por razões mais ideológicas do que científicas. Depois de HPB, não deixa de mudar de conteúdo progressivamente, lançando os seus fundamentos pela borda fora um a um.

Desde a sua criação, a teoria darwiniana e os seus fundamentos não foram aceites por toda a comunidade científica. HPB cita frequentemente o francês De Quatrefages para contrapor a versão darwiniana.

“Quatrefages tem razão quando sugere, na sua última obra, que é mais provável que de descubra que o macaco é descendente do homem, em vez de esses dois seres terem um fantástico antepassado comum” (13)

O aporte de Haeckel ao darwinismo com o princípio de que a ontogéneses resume a filogéneses, foi abandonado desde há muito tempo. Este princípio induzia a confirmar que as formas vestigiais (cauda, brânquias,…) que aparecem no desenvolvimento do embrião humano demonstravam que o homem descendia de formas animais. Este ponto não era colocado em dúvida pelo esoterismo, mas era interpretado de uma forma muito diferente, na medida em que o Homem primordial é a fonte e não o herdeiro de todas as formas animais e que não é surpreendente que às vezes estas formas se expressem já que as têm em potência.

Igualmente, numa época recente, o grande biologista Jean ROSTAND (1894-1977) não se sentía submetido ao seu ditame e declarava: “a selecção natural é, quem sabe, toda-poderosa, mas é incapaz de convencer-me.”

A teoria darwiniana sofre ataques repetidos e deve evoluir sem cessar para manter-se como dogma científico.

As leis genéticas

O primeiro choque vem da descoberta da leis da genética por Gregor Mendel (1822-1884) contemporâneo de Darwin, cujos trabalhos foram publicados mais tarde.

A compreensão das leis da transmissão através dos genes dos caracteres fenotípicos excluía um aspecto da teoria darwiniana que tinha assumido a transmissão dos caracteres adquiridos. Ao não poderem inscrever-se nos genes, não podem ser transmitidos herditariamente. O que já explicava HPB.

Uma nova teoria chamada sintética foi elaborada por Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e Georges Gaylord Simpson segundo os seguintes princípios:

A selecção natural é o principal motor da evolução, ao privilegiar as espécies mais adaptadas ao seu meio ambiente.

Os indivíduos não evoluem, é a população que evolui.

A selecção intervém unicamente nas variações hereditárias.

A evolução é gradual e produz-se através de variações contínuas…

Os Equilíbrios Ritmados

Será necessário esperar até 1972 para que Stephen Jay GOULD (1941-2002) professor de geologia da universidade de Harvard e Niles ELDREDGE transformem o cenário da evolução darwiniana lenta e progressivamente, para incluir os factos já observados. No entanto esta teoria revolucionária dos “equilíbrios ritmados”, a última validada pela ciência encontrava-se com todas as suas letras na Doutrina Secreta, através da observação já colocada em evidência por HPB (cf. Parágrafo precedente) sobre a súbita aparição de certas espécies.

Isto fez que a ciência oficial abandonasse o princípio darwiniano “natura no facit saltum” (a natureza não efectua mutações) ou seja é gradual, para voltar a elaborar uma teoria: a dos equilíbrios ritmados.

Gould e Eldredge, pensam que a história da evolução se concentra nos episódios de especiação relativamente rápidos em lugar de ocorrer sob a forma de transformações lentas e contínuas de descendências estabelecidas. Segundo isto, a evolução  acontece através de períodos ritmados de intensa actividade evolutiva alternando com longos períodos de descanso. Então há transições rápidas entre espécies, como no modo das “revoluções genéticas”.

Isto repousa sobre as seguintes constantes:

– Os primeiros representantes de todas as grandes classes de organismos conhecidos da biologia apresentam desde o começo as formas características da sua classe; são altamente diferenciadas desde a sua aparição e não podem ser consideradas como intermediárias.

– Os elos da cadeia que faltam são demasiado numerosos. As mutações genéticas existiram, na verdade, para a maioria das espécies. Os organismos vivos não podem conhecer mais do que um número limitado de mudanças.

– Cada grande família vivente participa de um certo número de certas características específicas distintas. Mas em caso algum, as diferentes espécies que a compõem  se situam umas relativamente às outras como intermediárias em relação a algumas destas características.

– Nenhuma das características específicas  distintas de uma classe, ainda em estado rudimentar, se encontram nos organismos pertencentes a outras classes. O que significa que não houve transição entre os invariantes de cada classe.

– Então a vida é um fenómeno de descontinuidade.

Paradoxalmente HPB que tinha assinalado este factos na Doutrina Secreta cem anos antes para contrapor a teoria de Darwin não é hostil no princípio “Natura non facit saltum” defendido pelo esoterismo, a partir do momento em que a criação é considerada na sua totalidade visível e invisível.

Esta desorganização do esquema darwiniano acompanha-se no espírito de Gould com uma relativização do lugar do homem na criação e da inserção da complexidade da matéria como valor positivo. Ainda que esta última visão do darwinismo permanece como a visão oficial da ciência, outras fissuras continuaram a aparecer.

Novas Teorias

A primeira surge do facto de se estabelecer parentescos entre espécies segundo os critérios morfológicos externos. Agora, como bem se sabe, dois órgãos semelhantes podem ser o fruto de uma evolução diferente. A simples análise formal das espécies vivas (fósseis, esqueletos) não é suficiente e pode induzir-nos em erros graves para estabelecer a sua filogenia.

A irreversibilidade da evolução

Outra fissura no casco do navio darwiniano vem do princípio Bollo posto em evidência mas não tomado em conta na época de HPB. A natureza não pode retroceder, um órgão especializado como o pé ou a mão dos macacos arborícolas, não pode retroceder para originar a mão ou o pé menos diferenciados. Yvette Deloison, investigadora do CNRS especializada em análise de mecânica dos membros inferiores dos hominídeos retira as seguintes conclusões apoiando-se nos estudos da anatomia dos nossos antepassados mas também na dos grandes macacos:

– A mão humana não pode jamais ter sido uma pata (é muito mais primitiva que a dos macacos)

– Pelo contrário, o pé humano está bem especializado para uma deslocação bípede. Então nunca passou por uma fase  arborícola.

Estes elementos, tendo em conta a lei de Bollo (irreversibilidade da evolução), levam a Yvette Deloison a propor um antepassado dotado de uma atitude bípede erguida: o proto-hominídio. De estatura pequena e vivendo num meio semiaquático, teria vivido, há 15 milhões de anos (sem que ainda tenhamos encontrado restos fósseis).

O homem não descende do macaco mas sim de um antepassado comum que é desconhecido pela ciência mas que é conhecido pelo esoterismo: o homem, ele mesmo.

Outra etapa mais subtil, mas mais decisiva para a credibilidade do modelo darwiniano foi vencida ao atacar a direcção cega da evolução: a selecção natural. Barbara McClintock, prémio Nobel pelas suas investigações, demonstrou que o stress das plantas pode constituir, por si só, um factor de mutação e adaptação.

Pelo seu lado, Anne Dambricourt Malasse, investigadora em paleontologia humana do CNRS estudou a posição do orifício occipital e a contração dos ossos da cara que se associa ao homem e aos fósseis. Segundo os seus trabalhos, este trabalho não é devido à casualidade das  explicações darwinianas clássicas.

Este estudo demonstra a acção de uma Lógica interna e não somente externa escapando à contingência que se pretende dominante no campo da evolução biológica.

A noção de casualidade segundo uma selecção natural absolutamente cega desaba seriamente, mas é impossível, no entanto, substitui-la por um esquema estabelecido sob pena de pecar contra o espírito científico.

CONCLUSÃO

“Se Darwin pudesse transportar as suas investigações do universo visível ao universo invisível, poderia encontrar-se no bom caminho, mas estão caminharia no rasto do Hermetismo.”(14)

A teoria darwiniana da evolução é fruto de uma época e de uma mentalidade e é por esta razão que não pode ser colocada seriamente em dúvida sem debilitar os fundamentos da sociedade ocidental dos tempos modernos (HPB esperava estas mudanças de mentalidade para o nosso século…).

No entanto, esta teoria é fragilizada no interior pelas descobertas cada vez mais embaraçosas dos investigadores e no exterior pelos fundamentalistas religiosos com os argumentos do século XVIII ou da Idade Média. Deste enfrentamento pode surgir o renascimento das teorias estritamente religiosas ou da possibilidade de emergência da visão atemporal sobre o tema da evolução. Para as teorias se aproximarem, é necessário voltar a pensar a ciência, a religião, a cultura à luz da filosofia atemporal e das suas raízes esotéricas. Para isto, é necessário adoptar o caminho do recto conhecimento.

Jean Marc Baché

OINAF

Trabalho do Instituto Hermes 2007


Notas :

(1)DS Tomo 1 – factos adicionais e explicações em relação aos globos e às monadas, pág. 291

(2)DS Tomo 1 – Estância VI – comentário, pag. 310

(3)DS Tomo IV – A – Origem e evolução dos mamiferos. A ciência e a filogénese esotérica, pág.418

(4) DS Tomo 1 – Estância V, comentários, pág 291

(5) DS Tomo 1 – Estância V comentários, pág. 291

(6) DS Tomo IV – Estância V, secção 1 – Antropologia arcaica ou moderna, pág. 261

(7) DS Tomo 1 – Factos adicionais e explicações a respeito das rondas e monadas, pág.172

(8) DS Tomo III – Estância VIII – Quais podem ser os objectivos ao que precede?, pág. 238

(9) DS Tomo III – Comentários sloka 19, pág. 148

(10) DS Tomo IV C- Notas suplementares sobre a cronología geológica esotérica, pág.350

(11) DS Tomo IV – Secção VI – Os gigantes, as civilizações e os continentes submergidos na história, pág. 390

(12) DS Tomo IV – Sección A—Especulaciones científicas modernas a propósito de la edad del globo, de la evolución animal y del alma, p. 318

(13) DS Tomo III – ¿son una ficción los gigantes?, pág. 360

(14) DS Tomo II – Secção XIV, pág. 406 ou a Isis Revelada Vol. II, pág. 193

DS : Doutrina Secreta – (número de páginas da versão francesa)